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16.7.16

Flores para Algernon



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

Dr. Strauss says I shud rite down what I think and evrey thing that happins to me ...
He said now sit down Charlie we are not thru yet. Then I dont remember so good but he
wantid me to say what was in the ink. .... 
(Daniel Keyes, Flowers for Algernon)

«Hoje espera-se que eu escreva sobre o atentado de Nice. Ontem sobre as sanções. Anteontem sobre Durão Barroso ou o “Brexit”. Antes foi o dia do espasmo patriótico, o retorno à unidade orgânica da pátria, a realização do mito do unanimismo, o fim das divisões perversas no altar da selecção. Todos de cachecol, Marcelo, Costa, Jerónimo, os bloquistas, o CDS, os artistas menores do PSD, porque o maior mantém a compostura de Primeiro-ministro no exílio. Traz a bandeirinha à lapela e a zanga com o destino que lhe deu a geringonça no bolso.

Nos vinte dias anteriores era futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol. Num dia, no meio do futebol, alguma coisa sobre os atentados na Turquia. (…)

Antes? Também já não me lembro. A Caixa Geral de Depósitos associada às peripécias da Comissão de Inquérito? Talvez. Talvez os colégios de amarelo. Onde estão? Lá muito atrás um sussurro sobre os refugiados, ou melhor sobre os cadáveres dos refugiados. (…)

Mas havia uma voz. Uma voz acompanha tudo, 200 dias, 500 Declarações do Presidente da República, à média de mais de duas por dia. Dessas lembramo-nos de dez. As mais importantes? Quando se fazem 500 declarações nenhuma é importante. Talvez nos lembremos das mais engraçadas. (…) Marcelo a dançar em Moçambique, talvez a mais relevante, mas também já não me lembro bem… (…)


Leio jornais, vejo televisão, tenho cada vez menos memória e cada vez mais memória mediática, uma contradição entre os termos. Curta. Muito curta. Atafulhada de bola, casos da vida, acidentes, incidentes, nada. Dura um dia, quinze dias? Mais? Já não me lembro porque não é para lembrar, é para entreter, para distrair, para passar o tempo. Não sei. Sei cada vez menos. Devo estar doente. O meu cérebro está cada vez mais pequeno. Pequenino.

Já não me lembro. Coloquem flores na campa de Algernon.» 
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