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27.8.16

O dilema da social-democracia



«Depois do Brexit, os três mosqueteiros da Europa reuniram-se a bordo do porta-aviões italiano Garibaldi e garantiram que a Europa está para durar.

Ou melhor, que a União Europeia vai dar um salto qualitativo. De boas intenções está a Europa cheia como se sabe. E por isso o Brexit não foi uma obra do acaso. Nem é a crise continuada que a mistura do euro e da austeridade cega vai alimentando, nascendo da sua mágica poção novos nacionalismos, velhas xenofobias e muito desdém por Bruxelas.

O dinheiro europeu vai servindo para afagar as lágrimas de raiva, mas um dia ele não chegará. A intromissão da UE na soberania dos países é assombrosa e humilhante. Tudo, claro, em nome dos sacrossantos interesses da Alemanha, que vão gerindo a seu prazer a inação do sul e de uma França que vive uma espiral de parolice política nunca vista. Mas o que é mais evidente é que o modelo social-democrata e democrata-cristão de Estado social que vigorou desde a II Guerra Mundial está a terminar. (…)

Há poucos dias, no Financial Times, Tony Barber escrevia um estimulante texto sobre a agonia do centro-esquerda na Europa. Recorda que no virar do século a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha e a Itália tinham governos de centro-esquerda e que essa maioria eclipsou-se. A desintegração do sistema de dois partidos que se sucediam no poder está em colapso, mas isso está a afectar sobretudo a esquerda e não a direita. Como escreve, a "terceira via" trouxe "políticas para os dias de sol e não para as tempestades de hoje". Aponta o dedo: desemprego viral, níveis de vida a estagnar ou a decrescer, cortes nos gastos públicos e, nalguns casos, a ajuda pública para salvar bancos com dinheiro dos contribuintes, aumentaram o descontentamento dos cidadãos.

Na maioria dos casos foram governos à esquerda que implementaram estas acções. As normas asfixiantes da UE ajudaram a essa desconfiança dos votantes à esquerda que se estilhaçaram em grupos mais pequenos, mas mais persuasivos em termos de ideias. (…)

O PS vive um dilema, como os seus colegas europeus: a social-democracia ou renasce ou fica insolvente.»

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