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1.9.16

Apple, a maçã da discórdia



«Vénus, a deusa romana do amor e da beleza, surge muitas vezes a segurar uma maçã. Os Beatles usaram-na para baptizar a sua editora discográfica. Mas ela também se tornou num fruto proibido.

Na tragédia grega, Eris, a deusa da discórdia, atirou-a para o meio de uma festa de casamento. As deusas Hera, Atena e Afrodite reclamaram a sua posse, porque cada uma delas se considerava a mais bela das mulheres. Paris, de Tróia, tentado por todas elas para escolher quem era a mais bela, acabou por escolher Afrodite, depois desta lhe mostrar uma visão da mulher mais bonita do mundo, Helena de Esparta. Este amor acabaria por levar à destruição de Tróia. A paixão da Apple pela Irlanda não pode ser vista à luz desta tragédia, mas sim de um conflito de interesses que agora teve de explodir para libertar a pressão. A comissária Vestager, depois de anos de complacência de Bruxelas, percebeu o "timing" político: a sensibilidade popular, nestes tempos de crise, é contra o comércio global e contra a evasão fiscal. Porque sem taxação séria sobre as grandes multinacionais não há a necessária distribuição de riqueza para suportar serviços públicos básicos e a sustentação do sistema democrático.

O mundo da Apple e da Irlanda é diferente. Steve Jobs percebeu que a mobilidade era o futuro. E aplicou-a à lógica fiscal, como uma raposa saltitante. Surgiram sedes em países com benefícios fiscais como a Irlanda e foram-se fabricar telemóveis para a China, onde eram ao preço da chuva. A Irlanda tornou-se um paraíso fiscal para certas multinacionais. A sua ligação umbilical aos Estados Unidos fez o resto. Quando em Portugal se fica abismado com a forma como a Irlanda saiu, aparentemente, do seu resgate, a paixão entre a Apple (e outras empresas globais) e o "tigre celta" explica tudo. Os EUA não deixarão cair a Irlanda, porque esta faz parte do eixo anglo-saxónico que define as regras globais. Não foi por acaso que, no passado, era a Inglaterra o nosso aliado. E não a França. Ou a Alemanha.»

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