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24.12.16

A doutrina Trump-Putin



Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Está-se a definir, embora ainda de forma muito embrionária e imprecisa, uma doutrina Trump-Putin, sem precedente na geopolítica depois da Segunda Guerra Mundial. (…)

Trump, mesmo que seja difícil encontrar uma linha coerente na sua actuação, tem nesta matéria mantido uma constância de posições que podem variar no alcance e na urgência, mas que marcam uma ruptura com toda a política externa americana desde a Guerra Fria e mesmo no pós-Guerra Fria. Estas posições são alicerçadas nas opiniões pessoais de Trump, e na migração para o campo de Estado e da política, nacional e internacional, da única experiência que ele tem, a dos negócios e das empresas. (…)

De que é que Trump está convencido? De que a política externa americana face à Rússia tem sido desnecessariamente hostil, e que deve haver uma inversão significativa dessa hostilidade. De que os EUA arcam sob os seus ombros os custos de proteger múltiplas nações e áreas do mundo que bem podiam cuidar da sua defesa, mesmo que isso implique adquirir uma capacidade nuclear. De que a NATO é uma organização caduca e, no limite, desnecessária. De que as sucessivas intervenções americanas e europeias no Iraque, na Líbia, na Síria foram monumentais desastres, pouco preparados e pensados, sem medir as consequências, eliminando personagens como Khadafi, ou Saddam, e tentando eliminar Assad, que, mesmo que sejam bad boys, garantiam e garantem uma estabilidade regional cuja perturbação deu origem ao ISIS e ao caos no Iraque, na Líbia e na Síria. De que o único verdadeiro inimigo dos EUA nos dias de hoje é o ISIS, e, em menor grau, o Irão e a China, enquanto a Coreia do Norte devia ser posta na ordem pela China, com os EUA a fazer enormes pressões para que isso aconteça. Há alguns subprodutos destas “opiniões” e algumas contradições, como, por exemplo, a posição face a Cuba, mas é o que Trump pensa, e o que ele pensa é o que vai tentar fazer. (…)

Na prática, o que Trump fez, com aquela mistura de genuinidade, inexperiência e ignorância, a que se soma alguma intuição, foi interiorizar como suas todas as reservas e críticas russas à política americana da Administração Obama e do Departamento de Estado Clinton, e, ao fazê-lo, num contexto de clara vontade de aproximação a Putin, muda de facto a visão do mundo.

Para os russos, e para Putin, é uma oportunidade de ouro na sua política externa mais agressiva, que já tinha tido resultados na Ucrânia e na Crimeia, e no passado na Geórgia e na Tchetchénia, embora neste último caso dentro do território da Federação Russa. Os objectivos geopolíticos russos não são novos, em bom rigor datam do império czarista, foram adaptados pelos bolcheviques, em particular por Staline, e sofreram consideráveis recuos com o fim da URSS, e a aparição de um mundo unipolar. (…)

Putin tem uma política externa, Trump não tem, nem quer ter, e quando a tiver será pactuada com Putin.

As vítimas desta doutrina Trump-Putin, se se materializar como tudo indica, são os aliados dos EUA, a começar pelos europeus que fazem parte da NATO, mas também os asiáticos e árabes. (…)

Trump tem todos os defeitos que já apontámos e aparece agora a brincar com as armas nucleares no Twitter, a doença infantil dos homens maduros, mas sabe o que quer e, acima de tudo, o que não quer. Mesmo que não faça um décimo do que ameaça fazer, basta isso para consolidar um ponto sem retorno da política mundial, e se há homem que é capaz de explorar isso, é Putin. Num certo sentido são parecidos: Putin retratado como macho russo a andar a cavalo, em cima do gelo, a mergulhar, a caçar ursos; Trump apanhando-as pela “pussy”, vivendo entre ornatos de falso ouro, e aquelas cadeiras e móveis que a gente jurava que ninguém comprava, mas compra. Só que há uma enorme diferença, Trump é habilidoso e esperto, Putin é inteligente e frio. E Putin tem um mapa por detrás, com muita história dentro.»
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1 comments:

Fernanda disse...

Um verdadeiro SUSTO!!!!!!!!