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18.1.17

A ameaça de Almaraz



«Há alguns anos um dos mais populares grupos de rock da Galiza, os Resentidos, intitulou um disco seu como: "Vigo, capital Lisboa." Era uma ponte de afectos para lá das fronteiras, entre duas regiões que não se confundiam com dois países que viveram muito tempo de costas voltadas. Portugal fez-se por oposição a Castela, nunca o poderemos esquecer. Salvou-se da integração porque num momento crítico a coroa espanhola preferiu ficar com a Catalunha, nessa altura aliada dos franceses, em vez de Portugal, aliada dos ingleses. Vivemos sempre o dilema dessa divisão que nunca cicatrizou entre os povos de Espanha. Até porque o ADN imperial de Madrid nunca desapareceu: liofilizou-se. A independência nacional teve de se fazer sempre perante Castela. (…)

Almaraz não é um acaso. É apenas mais um sintoma do habitual ego arrogante de Madrid face a tudo o que a cerca. Quantos exemplos precisamos de recordar nos últimos anos sobre essa forma de ignorar a transparência e criar situações de facto? O caso da posse das ilhas Selvagens foi exemplar. A vergonha do "Prestige", em 2002, foi outro: no meio do silêncio o Governo espanhol da altura tentou empurrar o navio para águas portuguesas e foi preciso a atitude séria e musculada de Paulo Portas para que não ficássemos com o problema nas mãos. Madrid nunca aprende. Não é uma teoria da conspiração: é um facto. No caso de Almaraz, o Governo de Mariano Rajoy fez o que é habitual: tomou uma decisão e depois abriu a porta a conversas sem sentido. O Governo português esteve distraído demasiado tempo. E agora só resta que a UE decida algo, se decidir. Mas até lá Almaraz continuará a ser um Darth Vader.»

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