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23.5.17

A redenção nacional



«De vez em quando, depois de anos em que se perdeu na floresta dos equívocos, Portugal descobre o caminho para a redenção. Vivemos um desses tempos. Tudo parece correr bem.

Vencemos o Euro 2016, ganhámos o Festival da Eurovisão, o défice nunca foi tão baixo, a economia cresce, a CE propôs o fecho do Procedimento dos Défices Excessivos onde medrávamos aterrados desde 2009. A grande redenção nacional já aterrou demasiadas vezes em Portugal para sabermos que ela tem a validade de um iogurte. Porque, depois da festa, ninguém recolhe as canas caídas no chão e elas ficam ali, como combustível para o próximo incêndio. À falta de ideias estratégicas, usamos as conhecidas fintas da táctica rasca. Foi por isso que Portugal nunca acumulou capital, preferiu importar a criar, viveu sempre do empréstimo e a chorar pelo pagamento do juro em vez de criar meios de se financiar.

Houve até um tempo em que os mais novos eram ensinados a ter um porquinho em casa, onde iam depositando, devagarinho, todas as moedas disponíveis. Só quando estava cheio é que se partia o pequeno suíno. Comprava-se, depois, um novo porquinho, substituíam-se as moedas por notas e volta-se a enchê-lo de moedas. Aprendia-se, assim, a poupar. Hoje esse pequeno e eficaz prazer foi substituído pelo consumo. O valor do dinheiro deixou de existir. Essa falta de capacidade de poupar em momentos de alguma riqueza aliou-se sempre à ausência de um modelo económico e social de país. Abre-se e fecha-se a torneira consoante parece que estamos com excesso de água ou em seca. Olhamos, anos depois, para o célebre relatório Porter e está lá quase tudo. Foram, na sua maioria, as circunstâncias do cosmos que nos levaram para o turismo, para o vinho, para o azeite, para o calçado e os têxteis. Só falta aproveitar os recursos do mar. A redenção nacional faz-se quase sempre através de convergências astrais. E raras vezes porque há uma estratégia. Pode ser que, desta vez, se aprenda algo e seja diferente.»

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