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1.6.17

A cidade inclusiva



«Clement Atlee, que foi primeiro-ministro britânico do pós-guerra, foi um dia interrogado por um repórter da BBC, dentro da maneira reverencial que era típica na época: "Primeiro-ministro, tem algo a dizer à nação?" Atlee virou-se para ele e respondeu: "Não." E continuou a andar. Há dias o país viu Fernando Medina ignorar as questões sobre se era candidato a presidente da Câmara de Lisboa. Criou um tabu tão opaco como a água de uma piscina: todos sabem que será. Medina fez uma carreira política em Lisboa como sombra: de António Costa primeiro, da estratégia urbana de Manuel Salgado, depois. Herdou o cargo de presidente como se fosse um dote. Nada contra. Medina é o Mr. Chance da capital do império: aplica aos grandes problemas as receitas que este usava para cuidar das suas plantas. E é esse o problema de Lisboa: não é um jardim, é uma cidade com muito míldio. No meio do seu discurso destes anos à frente do município, Medina colocou-se debaixo dos holofotes e entre foguetes disse: "Lisboa está melhor, está mais inclusiva." É possível discordar.

Uma cidade não é um postal ilustrado ou um parque de diversões. É um local onde os cidadãos têm de viver e de trabalhar. Para isso precisam de condições materiais e de qualidade de vida. Coisa que dificilmente se encontra na capital. Enquanto a classe política discute se o metro deve ter uma linha circular ou mais 20 estações, o comum cidadão amontoa-se como sardinha em lata numa linha verde a rebentar com apenas três carruagens e defronta-se com "problemas técnicos" a paralisar a circulação todos os dias. Sobre mobilidade urbana estamos conversados. As ciclovias são muito engraçadas, mas quando irrompem por cima de locais de atravessamento de peões (sem sinalização) ou paragens de autocarros são um atentado à segurança. E depois há o turismo: é excelente. Mas isso não deve implicar, como está a acontecer, que se esteja a atirar com os lisboetas para fora da sua cidade. Isto é: Lisboa nem está mais moderna nem mais inclusiva. Está o caos.»

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