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19.7.17

Racismo: debate inédito ou oportunidade de ruptura?



Por Mamadou Ba no Facebook:

«Três brevíssimas notas a propósito do debate na RTP sobre o racismo na sociedade portuguesa. :

Tivemos: :

1. Pela primeira vez, sujeitos racializados, em prime-time na televisão pública, no uso da palavra sem constrangimento a assumir o seu lugar da fala com frontalidade, para discutir o racismo sem procuração política e, claramente inscritos numa dinâmica de desconstrução do mito do excecionalismo lusitano no que toca ao carácter estrutural do racismo; :

2. No confronto, um Estado, pela pessoa do Alto-Comissariado para as Migrações, desfasado da realidade e impreparado para a enfrentar, sem rumo estratégico para lá das generalidades alicerçadas na narrativa do anti-racismo moral que reduz o racismo a uma questão de relação interpessoal, olvidando as relações de poder herdadas da historia colonial e do mito da superioridade civilizacional; :

3. O silêncio ensurdecedor do establishment, sempre lesto a discorrer sobre temas fraturantes que não belisquem o seu privilégio, uma reação acirrada da extrema-direita orgânica e inorgânica e, incompreensivelmente, o incómodo de uma certa elite face ao debate, até dentro do campo tido por “progressista” personificada, por exemplo, na reação de Carlos Castro, Vereador da CML, inscrita na narrativa luso tropicalista do excecionalíssimo lusitano em relação ao racismo. :

Para que o inédito não seja uma oportunidade perdida, que o Estado assuma as suas responsabilidades e olhe de frente para a existência do racismo e, que não se deixe sequestrar pela extrema direita nem pela herança colonial, que se rompa definitivamente com o luso-tropicalismo ideológico e cultural, o debate sobre o racismo na socieddade portuguesa terá de sair da guetização a que foi remetida e assumir uma centralidade no debate politico, no espaço académico e na interação cultural. :

Para mim, é um privilégio estar em luta com uma geração de activistas negras e negros, ciganas e ciganos que veio resgatar o debate das margens da disputa política. Ontem, no palco, foi com Cristina Roldão, Gitelles Ferreira e Abílio Bragança Neto e na vida real é com tantas e tantos outros, pessoas e colectivos. E, tenho a certeza que amanhã será com muitas e muitos mais, se não for com todas e todos. Estamos juntos, estamos mais fortes e estamos na luta.» 
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