18.9.18

Angola: assim é que tinha sido perfeito


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E se Trump diz alto o que muitos pensam calados?



«O mundo é um lugar mais estranho, mais perigoso e mais complexo visto de um congresso de jornalistas em Austin, no Texas - onde estou por estes dias. Sobretudo na semana em que Bob Woodward editou o livro sobre a administração Trump, um relato da loucura que se vive na Casa Branca a que o autor chamou, sem pejo, Fear, Medo. E na ressaca da publicação pelo The New York Times do artigo anónimo de dentro da própria administração, em que o funcionário que o escreveu relatava um "estado de sítio".

Estes dois episódios são os mais recentes na guerra em que os media e Donald Trump entraram. Cada um dos lados tem usado as armas à disposição. Trump aproveitando algum descrédito do jornalismo e a fragilidade financeira das empresas de media desde que a concorrência de outras fontes de informação, como as plataformas e redes sociais, se tornou feroz. Os jornais amplificando todas as falhas, ridículos e exageros de uma figura caricatural e pouco ortodoxa. Os jornalistas estão acossados, os políticos e poderosos esfregam as mãos, o povo assiste na bancada.

Nunca se falou tanto em verdade num congresso de jornalistas. Dantes, não era preciso. Era a ordem natural das coisas. Os jornalistas perseguiam-na, os leitores acreditavam. Agora, com tantas versões da realidade a circular no inferno informativo, voltou a ser. "Sim, há uma verdade e uma mentira, sim, há factos e não, não há verdades alternativas, e uma notícia falsa, simplesmente não é notícia, é uma mentira", quase gritava Evan Smith, o fundador do Texas Tribune, um jornal online que só cobre política e políticas públicas e que apareceu para combater o que aqui se designa por deserto informativo - quando os grandes grupos abandonaram os pequenos mercados.

Fechados num hotel de Austin, no congresso da Online News Association, os jornalistas podem ter tendência a fazer aquilo que nas redações é um dos pecados capitais - olhar o mundo do seu ponto de vista. E o do público? Os cidadãos? Trump grita alto o que muitos pensam em surdina? E se tudo o que aqui, nos EUA, se vive tão à flor da pele seja o que se passa em todo o mundo de forma mais ou menos subterrânea?

A crise dos media é apenas um sintoma. Não é apenas a crise do jornalismo, é a crise da própria noção de democracia e do que os cidadãos querem fazer com ela, e nela. O jornalismo está a definhar, é certo - os dados da Pew mostram que há, hoje menos 23% dos jornalistas que havia há dez anos. Mas isso só acontece porque as pessoas, os consumidores e cidadãos, não valorizam o jornalismo - e não estão dispostas, por exemplo, a pagar por esse "serviço". Se quisessem escrutínio, como querem cervejas ao final da tarde num dia de calor, pagavam o escrutínio como pagam as cervejas. Se quisessem a verdade, e não mais uma versão do achismo, quanto mais escandaloso melhor, talvez estivessem dispostas a recusar o isco de cliques das notícias "mais ou menos" verdadeiras, mais ou menos ficcionais. O mesmo estudo do Instituto Pew mostra que 57% dos que veem notícias através das redes sociais esperam que sejam "altamente pouco rigorosas".

O jornalismo não está isento de culpas - por se ter distanciado do que as pessoas precisam, por se ter fechado em castelos de cristal, por ter estado mais perto do poder do que das pessoas, por não ter sido sempre rigoroso nem ter usado a integridade como o seu modelo de negócio. O que até é estranho, sendo que a vontade de ser jornalista envolve sempre uma missão altruísta, como dizia Dan Rather numa sessão: "Querer ser parte de algo maior do que só nós próprios, parte de alguma coisa que conta, que importa e se importa." Mas que ninguém tenha dúvidas. Como diz o The Washington Post, a democracia morre na escuridão. E é missão de todos iluminá-la.»

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17.9.18

Dica (811)



Construir puentes!, no muros! (Federico Mayor Zaragoza) 

«En las últimas tres décadas, gracias en buena medida a la tecnología digital, podemos expresarnos libremente y saber lo que acontece en todas partes. Ahora “nosotros, los pueblos” por primera vez en la historia somos mujer y hombre, y tenemos voz. No podemos ser cómplices. No debemos seguir indiferentes e insolidarios. Vamos a construir puentes y derribar muros. Si no lo hacemos, si no aprendemos las lecciones de la historia, seremos culpables… “Fingí que no sabía… y ahora voy con mi conciencia a cuestas, insomne noche y día”.
Sabemos. Actuemos. La indiferencia, nos advierte Rosa Montero, es una indignidad.»
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Marcelo: o ridículo não mata, essa é que é essa



Marcelo confunde professores com marinheiros do tempo das descobertas ou algo assim.


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E quanto à China: surpresa?




«Os 10 primeiros lugares são agora ocupados por Nova Iorque, Londres, Hong Kong, Singapura, Shanghai, Tóquio, Sydney, Beijing, Zurique e Frankfurt. (…)
O relatório indica também que nos 10 principais centros financeiros globais, a região da Ásia-Pacífico conta com seis, a região da Europa Ocidental com três, e a região norte-americana com apenas um.»
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Pedrógão Pequeno



«De um dia para o outro Pedrógão Grande transformou-se em Pedrógão Pequeno. Não foi um truque de magia: tratou-se, simplesmente, de destruir, sem piedade, um símbolo de solidariedade em nome da esperteza gananciosa.

Algo que parece típico neste país. Quando face a tantas questões inquietantes sobre a validação dos processos das casas por reconstruir o presidente da câmara municipal local, Valdemar Alves, apenas diz: "Se punham lá primeira habitação, como podemos dizer à pessoa que não era?", que responder? Investigando, talvez.

Num país em que, para tudo, o Estado pede certificados, comprovativos e demais papéis para satisfazer a sua burocracia, dar dinheiro de portugueses solidários para reconstruir casas sem verificação é algo que se faz levianamente? Pelos vistos, é. Só se comprova o que dá jeito. Portugal sempre foi um refém feliz da corrupção. O exemplo vem de cima porque Portugal é um país de desconfiados. Desconfiamos sempre dos suspeitos do costume. E dos outros.

Os portugueses conseguem, ao mesmo tempo, desconfiar dos políticos, dos polícias, dos árbitros, dos professores e dos médicos. Em contrapartida há uma desconfiança muito mais sinistra. O Estado desconfia dos portugueses. Desconfia que estes não pagam impostos e que se esquecem de pagar o estacionamento. Investiga-os.

Mas parece que isso só se aplica aos pacóvios. No que é importante verificar, o Estado esquece-se de o fazer. Ou cria condições para que isso não seja feito. Agora ninguém responsável sabe o que quer que seja. Não se compreende é como, num país que faz tanta filtragem, com medo de alguém estar a aldrabar o Estado, casas de segunda ou terceira habitação, ou simplesmente abandonadas, tenham sido abençoadas com dinheiro dos cidadãos crentes.

A burocracia e a inércia fazem parte do Estado e também dos partidos políticos que convivem com este mundo paralelo. Mas se rapidamente não se assumir uma terapia de choque, o Estado e os partidos que não se demarcam deste triste estado das coisas acabarão condenados a uma irrelevância que acabará por consumi-los.»

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16.9.18

Dica (810)




«Twenty-first century European politics has been characterised by patterns of electoral volatility, alongside the recent economic and ongoing refugee crisis. This has allowed ‘populist’ parties on both the right and left to capitalise on the electoral failure of mainstream centre left and right parties.»
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Caçar refugiados




«"Hoje é um bom dia para ir à caça", e Dinko Valev, 31 anos, avalia o céu - está mais limpo do que uma rua escandinava. É ele o dono deste ferro-velho e é com o dinheiro que aqui fatura que financia o exército paramilitar de que é líder - e que denominou de Movimento Nacionalista Búlgaro.

"Comecei sozinho há três anos a vigiar a fronteira de moto todo-o-terreno. Agora somos 50 homens, temos sete tanques e um helicóptero." O que é que fazem exatamente? "Caçamos refugiados, na Bulgária é um desporto", diz ao DN. "Chamem-lhe migrantes, chamem-lhe refugiados, chamem-lhe o que quiserem, que para mim eles são potenciais terroristas que põem a Europa em perigo. Não os podemos, nem vamos, deixar entrar."»
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Os robôs vão mesmo roubar-nos o emprego?



«As contas podem ser feitas de várias formas. Nenhuma favorece os humanos na guerra contra os robôs pela manutenção dos postos de trabalho. O Fórum Económico Mundial antecipa que os avanços da robótica e da inteligência artificial colocarão cinco milhões de profissionais no desemprego até 2020. A Universidade de Oxford defende, que nos próximos 25 anos, 47% dos empregos que hoje conhecemos podem desaparecer. A consultora EY avança que, em sete anos, um em cada três postos de trabalho serão substituídos por tecnologia inteligente e os vários estudos que a Deloitte já realizou sobre o tema referem que, até 2030, 40% dos empregos atuais não existirão.

Mas é o próprio partner da Deloitte em Portugal, Sérgio Monte Lee, a aconselhar prudência na análise. Como em todas as revoluções, também nesta a análise não pode ser feita apenas a partir de uma das perspetivas, a eliminação de postos de trabalho. É preciso refletir sobre a natureza dos empregos extintos e sobre a tipologia dos novos empregos que a automação ajudará a criar. Um dos estudos mais citados sobre o futuro do emprego, de Carl Frey e Michael Osborne (2014), demonstra que as profissões que enfrentam maior risco de substituição estão sobretudo associadas ao desempenho de tarefas rotineiras e braçais, mas não necessariamente pouco qualificadas.

A prática demonstra que a tecnologia está também a substituir profissionais qualificados, como contabilistas, analistas de crédito, bancários e outros que exercem funções complexas mas repetitivas. Mas nem por isso a qualificação deixará de ser relevante no futuro. O estudo da Deloitte reforça que os novos empregos a criar serão forçosamente mais qualificados, requererão uma reciclagem técnica constante e um leque de competências comportamentais-chave como a capacidade de resolução de problemas complexos, a criatividade e o raciocínio matemático, sem esquecer a inteligência emocional (a tal que nos distingue das máquinas).

As máquinas continuam a necessitar de humanos que as operem. Pelo que a cooperação entre homens e máquinas no mercado de trabalho afigura-se como o caminho mais certo e até os empresários já o reconhecem. “82% dos líderes empresariais esperam que as suas forças de trabalho humanas e tecnológicas funcionem, em equipas totalmente integradas, nos próximos cinco anos”, conclui um estudo da Dell realizado a 3800 líderes de empresas globais.

Revolução transversal

Na verdade, os impactos da inteligência artificial no emprego vão já muito além da substituição do homem pela máquina. Não é só o emprego que está a mudar, mas também o modo como procuramos emprego e os processos de recrutamento em si. A inteligência artificial já ganhou terreno na identificação de candidatos, na triagem de currículos e até numa das mais essenciais e críticas etapas do processo de seleção, a entrevista.

Se durante décadas a maior preocupação de um candidato era criar um currículo capaz de passar no crivo do diretor de Recursos Humanos, a tecnologia alterou isso. Há cada vez mais empresas a substituir a triagem manual de currículos (e até a validação das informações dos candidatos) pelo uso de algoritmos que aceleram o processo. Na fase da entrevista, momento determinante do processo de seleção, os robôs também já estão em destaque. O robô Vera, criado por uma startup russa em 2017, é já utilizado por gigantes como a Ikea, L’Oréal e PepsiCo, Microsoft, Burger King e Auchan para entrevistar candidatos — humanos! — em processos de recrutamento. Isto dispensa a intervenção humana dos especialistas em recrutamento e seleção? Ainda não, mas já lhes coloca tantos desafios como aos candidatos. A questão de fundo não é se os robôs vão ou não eliminar postos de trabalho. É se os humanos estão preparados para ‘coabitar’ com os robôs nas várias dimensões da sua vida.»

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15.9.18

Dica (809)




«It was a horrible evening for Karl Marx. Resting on his pedestal in the eastern German city of Chemnitz, he had to witness one of the biggest crowds shouting fascist chants in post-war Germany. The square where the sculpted giant head of the philosopher rests in what was Karl-Marx-Stadt from 1953 until 1990 had suddenly become the setting for an angry riot full of Nazi-symbolism whose images spread around the world. What has been going on in this old city with its rich industrial heritage?»
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E já lá vão 6 anos




Agora, é mais sofá…
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Não chega habilidade



Daniel Oliveira no Expresso de 14.09.2018:

«Não é a primeira vez que o CDS impõe o seu léxico político aos jornalistas. No caso da ‘taxa Robles’ é especialmente absurdo. Porque a criação de uma relação com o caso de Ricardo Robles, sendo compreensível no combate partidário, é falha de rigor. Nem se pode dizer que a medida é uma reação a essa polémica, porque lhe é anterior, nem se pode dizer que se aplicaria ao caso do edifício comprado pelo ex-vereador. Do que sei da medida, o Bloco de Esquerda propõe uma majoração fiscal sobre os lucros em venda de imóveis que não tenham sofrido qualquer intervenção. Não sei se a medida é eficaz e parece-me que o BE não a tinha suficientemente consolidada para a tornar pública. Sei que um partido não pode deixar que casos particulares de eleitos e respetivos e embaraços mediáticos determinem o abandono de propostas. Tinha de a manter.

Compreendo que o Governo faça saber que não concorda com uma proposta quando há notícias que indicam que a irá adotar. Mas o que aconteceu esta semana foi uma manobra manhosa baseada em insinuações falsas. E o seu autor mais prolixo foi António Costa. Não somos parvos e percebemos que a repetição, em todas as declarações, da expressão “pressa” servia para cavalgar a insinuação de que o BE tinha elaborado esta medida para se limpar do caso Robles. Ora, a intenção de avançar com esta medida foi comunicada ao Governo no fim de maio, numa reunião entre a direção parlamentar do BE e a secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares. Voltou-o a ser em junho, em reunião semelhante. E de novo em 19 de julho, numa reunião do BE com Pedro Nuno Santos, Mário Centeno e os seus secretários de Estado. Desde então houve conversações com o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, com troca de informação para chegar a uma boa solução. Isto acontece com esta e com muitas outras medidas já anunciadas pelo Governo e pelos partidos que lhe dão maioria. Nada explica a violência de Costa. A proposta foi referida em conferência de imprensa de Pedro Filipe Soares, a 25 de julho. Tudo antes do caso Robles. Ou Centeno e Nuno Santos não falam com Costa ou ele sabe, desde antes do verão, que isto está a ser conversado. O que quer dizer que teve meses para tentar perceber a proposta, contribuir para ela ou deixar claro que era contra. E que sabe que ela não foi uma reação a Robles. E se o sabe, é feio insinuar o oposto.

Fui defensor empenhado desta solução política muitos anos antes dela acontecer. Elogiei António Costa pela coragem de quebrar um tabu de meio século. Mas o último ano tem sido uma desilusão. Há meses que Costa tenta dar um golpe fatal ao aliado a quem pensa ir buscar os votos para uma mirífica maioria absoluta. E vê no tema ‘Robles’ uma oportunidade única que agora tenta aproveitar. Os repetidos sinais de deslealdade levam-me a concluir que, para Costa, este arranjo nunca teve outro objetivo que não fosse a sua própria sobrevivência política. Se não quer enfrentar a tragédia que se está a espalhar pela Europa, Portugal precisa de uma alternativa ao neoliberalismo. Isso depende da existência de um entendimento estratégico à esquerda. Se não o conseguir, o PS seguirá o caminho dos seus congéneres europeus. Costa percebeu-o num momento de desespero. Mas a habilidade que teve a construir esta solução não corresponde a uma visão política para a consolidar. Para ele, isto é só tática. Para ser mais do que isso, terá de vir uma geração consciente do momento tremendo que vivemos.»
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14.9.18

Ai a Pátria!...


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Nova Sondagem



«Nem o PSD desce nem o PS sobe. Nem Rui Rio aparece desgastado na sondagem com as polémicas de verão nem António Costa descola em direção à maioria absoluta. Os resultados do estudo da Eurosondagem Expresso/SIC registam que não há variações assinaláveis nas intenções de voto em relação ao inquérito realizado há dois meses (PS com uma subida de um ponto percentual e PSD a cair 0,7%). Agora, o PSD sobe ligeiramente — 0,2%, ou seja, na prática mantém-se — e o PS perde 0,6% pontos percentuais entre os inquiridos.

A conclusão de um verão que não foi propriamente uma silly season é que PS e PSD praticamente não mexeram e que, mesmo em relação aos outros partidos, as oscilações não são assinaláveis, o que pressupõe que, se as eleições fossem hoje, o PS precisaria de pelo menos de um parceiro para governar.

O BE, que com o caso Robles marcou a agenda política durante vários dias, provocando reações em todos os partidos, não sai neste inquérito beliscado pela polémica.

Do outro lado do espetro, o CDS voltou de férias a todo o gás, com propostas para várias áreas e uma rentrée entusiástica, mas até ver sem retorno: a ambição de Assunção Cristas não se traduz, para já, numa subida significativa nas sondagens.»

Expresso diário 14.09.2018
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Europeias: caixa de pandora ou ovo da serpente?




«O partido A República em Marcha, do Presidente francês Emmanuel Macron, e o Reagrupamento Nacional (RN) da líder da extrema-direita Marine Le Pen estão praticamente empatados nas intenções de voto para as eleições europeias de Maio de 2019.» (O PS não vai além dos 4.5%.)

Quando penso nas eleições europeias, hesito entre duas «imagens»: caixa de pandora ou ovo da serpente.
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Da caixa de Pandora ao contentor de Serena



«Já muito se disse acerca do que terá acontecido no mais recente incidente desportivo envolvendo a tenista Serena Williams durante a final do torneio US Open. Mas ainda estamos longe de desmontar as reações geradas fora do jogo. São essas reações, muito mais do que o comportamento de Serena Williams ou o profissionalismo do árbitro Carlos Ramos, que revelam da extensão do problema que tantos ânimos exaltou.

Muitos dos comentários ao sucedido insistem na tentação de descredibilizar poderosos regimes de poder que atravessam o quotidiano, fazendo-se valer de argumentos pouco sérios: não é sexismo porque a adversária era uma mulher; não é racismo porque a adversária não era caucasiana; não é discriminação porque houve manifestamente comportamento faltoso; não é injusto porque o árbitro é irrepreensível no cumprimento das regras. Há até quem acuse Serena Williams de ridicularizar o feminismo, colocando em causa reivindicações sérias. Não será preciso todo um semestre letivo para que se perceba que argumentos deste calibre mais não são do que uma forma de desconversação. Serena indignou-se contra um sistema que a impede de agir – e de agir mal, não é isso que está em causa – de forma idêntica aos seus pares masculinos. Trata-se de perceber se, em campo e fora dele, a reação desencadeada é idêntica em conteúdo e em dimensão quando tenistas homens e tenistas mulheres agem de forma incorreta. E é apenas isto, o que já não é pouco, que está em causa. Ora, já vários tenistas homens e mulheres, bem como associações desportivas, vieram a público reconhecer aquilo que se designa por duplo padrão, ou seja, que de facto a punição a Serena foi superior à que sucedeu noutros casos tão ou mais sérios com tenistas homens. Entre exemplos que se multiplicam, o muito recente apoio por parte de Steve Simon, diretor geral do circuito feminino, veio fortalecer a posição de Serena.

Quando um dia a poeira baixar e conseguirmos falar deste episódio sem soltar todos os males da caixa ou do contentor, talvez possamos reconhecer que sempre estivemos afinal de acordo nisto: queremos menos pessoas rudes em campo (mesmo que tenham razão, mesmo que a tenham perdido) e menos trolls machistas na vida, tout court.

Mas este episódio extravasa em tanto a final deste torneio que restringir a análise à minúcia dos factos e ao escrutínio da arbitragem é perder de vista a floresta tomada por árvore.

Para que não surjam dúvidas: o sexismo que Serena denuncia não é protagonizado pela sua adversária que ganhou justamente; tão-pouco terá sido o juiz da partida a criá-lo, cujo profissionalismo sob pressão parece inquestionável. Contudo, há a montante desta final do US Open um sistema de duplo padrão sexista que é implementado de forma assumida ou tácita, e negar a sua existência é desonesto.

Há comprovadamente sexismo e racismo no mundo do desporto, e a Serena sabe disso melhor que a esmagadora maioria das pessoas que, à boleia deste episódio, se sentiram autorizadas a debitar todo um manancial de insultos até então encaixotados. Não se percebe de onde vem tanta raiva sem se perceber o que jaz a montante do jogo.

Aquilo a que temos assistido na última semana demonstra que não admitimos a Serena o direito a estar errada sem que a punição mais torpe, pejada de tiques sexistas e outros, se solte pelas redes sociais, conversas de café e debates televisivos. A incidência de adjetivos como descontrolada, exagerada, birrenta, histérica e mimada não tem precedentes e remete-nos para outros cenários, que tão bem conhecemos, em que o duplo padrão moral que usa dois pesos e duas medidas para avaliar o mesmo comportamento em mulheres e homens se faz sentir. Haverá certamente exceções que permitirão confirmar esta regra: não me recordo de termos semelhantes para classificar maus comportamentos desportivos protagonizados por homens descritos como descontrolados, exagerados, birrentos, histéricos e mimados. Esta elucidativa incidência de padrões argumentativos reforça em tudo a denúncia de sexismo no desporto que Serena protagoniza. Infantilizar as mulheres configura uma fórmula gasta de descredibilização machista.

E se uma mulher zangada abre uma caixa de Pandora, uma mulher negra zangada abre todo um contentor.

Uma nota final acerca de vitimização. O estatuto de Serena enquanto grande atleta tem sido utilizado como forma de destituição negando-lhe o direito a sentir-se como se sentiu, vitimada, como se, por se tratar de uma atleta extraordinária, estivesse porventura acima de qualquer possibilidade de ataque sexista ou de outra índole. As vítimas não podem ser mulheres fortes e vencedoras. Já conhecemos esta mesma forma de pensamento aplicada a mulheres assertivas que denunciam os seus agressores em casos de violência doméstica, assédio ou violação. As vítimas têm que parecer vítimas para serem credíveis. A ingenuidade de se pensar que o patriarcado ou o racismo se rendem perante uma campeã sobre-humana é alarmante e ensina-nos acerca do tanto que está ainda por fazer.» 

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13.9.18

Perspectivas da tragédia grega




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Salvar o mundo


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No jogar é que está a esperança




«Os primeiros seis meses deste ano mostram que nunca se apostou tanto em Portugal. Totobola, Euromilhões e M1lhão estão a perder terreno nas escolhas. Raspadinha mantém-se a mais escolhida.»

Gostaria também de saber quantos portugueses jogam. Leio que, em 2014, correspondiam a 2/3 da população. Arrisco, sem grande hesitação, que actualmente deve tratar-se de 3/4 ou 4/5! É que as filas para se pagar um jornal em qualquer tabacaria que venda jogo são cada vez maiores: há que esperar que umas tantas pessoas, de todos os tamanhos e feitios, raspem e tornem a raspar, recebam uns euros ou nem por isso, etc., etc.
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Fora de horas



«A discussão sobre o fim da mudança da hora que tão talentosamente a Comissão Europeia abraçou nas últimas semanas está deslocada na sua relevância. A única mudança de hora que deveríamos estar a debater era a do discurso do estado da União, um modelo começado em 2010 e indignamente enterrado pelos seus protagonistas. Ao contrário dos EUA, onde o presidente se dirige a um Congresso lotado em horário nobre, na UE o presidente da Comissão dirige-se a um Parlamento Europeu quase vazio às nove da manhã. Não há comunicação possível sobre as virtudes da União a uma hora em que nem as televisões, nem o comum dos cidadãos perdem um segundo para lhe prestar atenção. Mas se este é o ponto prévio ao modelo iniciado por Durão Barroso, importa olhar para o que traz Jean Claude Juncker.

Os menos críticos têm apresentado o argumento da veterania como um trunfo numa Europa aparentemente sem memória histórica: a experiência como um dos pais da moeda única, os muitos anos de corredores em Bruxelas e o facto de ter liderado um pequeno país habituado aos equilíbrios continentais. Tudo isto estaria correcto se Juncker acrescentasse autoridade política, energia decisória, assertividade argumentativa, carisma político e chama discursiva. Como ficou demonstrado neste seu último discurso do estado da União, Juncker não tem nenhum desses atributos. Tem o mérito de estar rodeado de alguns bons comissários com visão e coragem políticas, tem a pouca sorte de estar à frente de uma comissão garante dos tratados quando estes estão em cheque e permanentemente sob ameaça, e tem a virtude de estar, grosso modo, correcto na hierarquia das prioridades da agenda da comissão: comércio livre, reformas da zona euro, digitalização da economia, relacionamento com as outras instituições europeias, segurança europeia e estabilidade nos Balcãs.

Os mais críticos, onde me incluo, não se contentam com isso. Ter alguém que nos sintoniza com a memória histórica da União não pode, por si só, justificar o seu protagonismo num momento como o que a Europa atravessa. Se não trouxer capacidade política entre os Estados-membros, influência e prestígio em Moscovo, Washington e Pequim, ou um rasgo analítico sobre o sensível momento da Europa, pouco ou nada nos serve. O conteúdo e sobretudo a forma como Juncker expressou, neste último discurso, o seu pessimismo, a sua falta de chama, a sua incapacidade de ver a grande fotografia da globalização e, ao mesmo tempo, não conseguir transmitir a confiança que se lhe exige sobre as instituições e as decisões comunitárias, mostram-nos como é tão importante aliar uma mensagem realista a um mensageiro inspirador. Esperámos anos a mais para colocar a Polónia e a Hungria no devido canto do ringue, continuamos a "vender" mal a dimensão geopolítica da ambiciosa agenda comercial da Comissão, permanecemos enredados numa argumentação excessivamente funcionalista e deficitariamente política, e trazemos poucas vezes ao debate os anátemas da integração europeia, deixando-nos antecipar pelas apocalípticas mensagens nacionalistas. Por fim, continuamos pouco criativos e activos nas reformas que os partidos políticos precisam para, de baixo para cima, participarem de outra forma nos decisivos debates que a Europa enfrenta. Que a União saiba, em 2019, dar a resposta certa aos dilemas que Juncker nunca foi capaz de deslindar.»

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