22.1.22

Alguma dúvida?

 

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Chile e as voltas que a história dá


 

Maya Fernández Allende, neta de Salvador Allende nascida em 1971, foi ontem nomeada ministra da Defesa, no governo de Gabriel Boric, presidente do Chile, que há cerca de um mês derrotou o candidato de extrema-direita. Maya terá poderes sobre as forças armadas no país em que estas puseram fim à democracia a que o avô presidia e que provocaram a sua morte.
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Voto antecipado

 

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Escolhas à Esquerda


 

«Em 2015, ao quebrar-se o tabu do velho "arco da governação", ficou claro que se o Partido Socialista (PS) quiser governar à Esquerda pode perfeitamente fazê-lo.

Essa pecha da democracia foi ultrapassada pela convergência de posições de várias forças e atores políticos, tendo sido determinante a disponibilidade de António Costa, enquanto secretário-geral do PS. Foi um ato de alcance estratégico na nossa vida política e gerou excecional esperança por duas razões fundamentais: as propostas de política social e económica rompiam com os desastres da Direita; e largos segmentos da sociedade sentiram que não iam continuar abandonados.

Entretanto, o programa assumido foi-se mostrando demasiado minimalista nos planos sociolaboral e socioeconómico. Ainda na primeira legislatura, o BE e o PCP começaram a manifestar desconforto com a gestão de Orçamentos de Estado (OE) em que parte do que era negociado não era cumprido. Em 2019, os resultados eleitorais mostraram que a solução de 2015 merecia aprovação, mas foi o PS que mais beneficiou, passando a dispor de uma maioria relativa que trouxe sinais de autossuficiência e de menorização da negociação. Apesar de tudo, em vésperas do chumbo do OE para 2022, a solução de governação mais desejada pelos portugueses continuava a ser o entendimento das forças da Esquerda.

O positivo património da governação à Esquerda não pode ser descartado. Trata-se de uma responsabilidade de todas as forças que participaram no processo - nenhuma está isenta e o passa culpas é mau caminho. A catalogação dada por António Costa ao BE e ao PCP como forças "não confiáveis" é incorreta, pois responsabiliza-as em absoluto pela rutura e induz fechamentos para o futuro. Acrescentem-se três observações: i) a experiência da vida confirma que jamais o PS sozinho, assente numa maioria absoluta gerida ou não por António Costa, está em condições de "prosseguir o caminho" antes partilhado; ii) constituirá pesado retrocesso voltar-se ao anacrónico "arco da governação" e ao centrão de interesses, em velha ou nova versão; iii) será erro de palmatória uma aliança do PS com forças cujos focos programáticos - merecedores de respeito - se situam longe do que é prioritário, secundarizando segmentos da sociedade com força transformadora.

O grande desafio que temos pela frente é a recuperação socioeconómica. Trabalho, emprego, proteção social, saúde, educação e o perfil de especialização económica têm de ser temas centrais de um programa de governação. É a partir daí que podem ser trabalhadas as respostas a outros importantes problemas como os ambientais e demográficos, o combate à fragmentação da sociedade, a necessidade de uma postura ofensiva na União Europeia e a gestão dos impactos do perigoso contexto internacional.

O desfecho de 2021, com a não aprovação do OE, não foi assim tão surpreendente. Além disso, na política como em muitas áreas da vida em sociedade, como é o caso das relações de trabalho, a rutura não é um mal absoluto, desde logo, porque ela pode ser necessária para reformular e projetar novos compromissos entre os atores envolvidos. A convergência com tensão interna, gerida com sabedoria e determinação, trará sempre virtualidades bem dinâmicas à sociedade.

A 30 de janeiro, derrotemos a Direita, reforcemos com objetividade a Esquerda, e assumamos que nesta grande área vai ter de se aprofundar e articular a mobilização e a ação social e política.»

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21.1.22

Moi aussi

 

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Jorge de Sena

 

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Sessões de trabalho online ou sessões de espiritismo?

 

- Zé, estás aí?
- João, se consegues ouvir-me diz alguma coisa.
- Sandra, estamos a perdê-la.
- Mário, consegues ouvir-me?


Alice Coutinho no Facebook
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Quem não tem voto caça com gato

 


«Vai boa a campanha nas redes. Pelo menos no que diz respeito ao humor de alguns candidatos. Mas, no final do mês, quantos gostos, partilhas e comentários dão votos?

"Aquilo que eu pretendo é brincar. Não têm sentido de humor? Têm de ter sentido de humor". Esta foi a defesa de Rui Rio aos ataques de que não sabia como funcionava o voto em mobilidade, após ter publicado um tweet onde escreveu que o voto antecipado de António Costa no Porto se tratava de uma "forma airosa de evitar ter de fazer o que sabe que não é bom para Portugal; ter de votar nele próprio".

Daqui até aos gatinhos só foram precisos três dias. Eis que entram em cena o Zé Albino, o Camões e a Bala. O Zé Albino porque "anda desolado com esta aproximação do PAN ao PS", segundo o líder do PSD, e o Camões porque "anda eriçado com as hesitações do PSD com a extrema-direita", segundo o candidato do Livre Rui Tavares. Já a cadela Bala, "anda muito entusiasmada com o crescimento da IL e com a hipótese de reformarmos o país a sério nos próximos quatro anos!", segundo o liberal João Cotrim de Figueiredo.

Goste-se mais ou menos das piadas, considere-se mais ou menos apropriado que um candidato a chefe do Governo faça piadas com gatinhos ou cãezinhos nas redes sociais, quando o que está em cima da mesa no dia 30 é demasiado sério, na verdade o recurso a esta simpatia clicável nem é inocente nem confere em si qualquer novidade.

Primeiro, porque os gatos sempre foram virais. O próprio criador da World Wide Web considerou os "gatinhos" como o conteúdo que mais o surpreendeu na rede. Segundo, porque o recurso a animais em publicações nas redes sociais de políticos tem sido usado e abusado para conquistar empatia.

Recorrer a estas técnicas de marketing político não tem mal nenhum. Faz parte. É fácil e simples. Mais difícil é usar as redes sociais em benefício da comunidade. Falar, responder, partilhar, agradecer. Interagir. E de interação com os eleitores estamos conversados. Publiquem mais gatinhos.»

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20.1.22

Amílcar Cabral

 


Em. 20.01.1973, Amílcar Cabral foi assassinado em Conacri. Tivesse a morte esperado um pouco mais e ele teria assistido ao 25 de Abril.

Mais informação AQUI.
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Nuno Teotónio Pereira – 6 anos sem ele

 


Um texto que escrevi quando chegou aos 90, com um brevíssimo resumo da sua biografia e com este vídeo com uma intervenção que fez um ano antes, numa homenagem que lhe prestámos.


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Debate da Rádio 2022

 


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As ideias ou a falta delas

 


«Os debates políticos numa campanha para uma eleição legislativa são, devem ser, mais do que um momento de ataque e contra-ataque entre candidatos. Representam uma oportunidade de confronto democrático entre propostas e visões de desenvolvimento para a sociedade portuguesa.

Nos partidos da governação, PS e PSD, as diferenças são de dose ou de tonalidade. António Costa e Rui Rio defenderam a manutenção do Estado social tal como está, com ligeiras diferenças. Segurança Social pública, acesso e estrutura do Serviço Nacional de Saúde nos mesmos termos (com alterações de complementaridade mas mínimas), redução de impostos (um entende que a descida deve ser primeiro no IRS, o outro no IRC), mas ambos acreditam no atual modelo de progressividade com imensos escalões (IRS) e defendem a escola pública. Ou seja, PS e PSD acreditam no mesmo status quo, dizem é que aplicariam outra racionalidade. As suas propostas não representam portanto uma diferença, muito menos uma mudança, mas sim uma oferta de gestão diferenciada.

Não estão neste texto em causa visões ideológicas, mas tão-somente olhar para o que nos foi servido nos debates.

Na verdade, as novas propostas políticas que podem representar uma mudança de paradigma surgiram dos pequenos partidos.

Vejam-se, só para citar dois exemplos, as ideias da Iniciativa Liberal para a redução significativa de impostos sobre pessoas (flat tax); seguro de saúde universal que garanta liberdade de escolha na Saúde e um sistema misto de financiamento de pensões. Ou, à Esquerda, o Livre, que avançou com o rendimento incondicional, atribuição de subsídio de desemprego a quem se despede (mediante condições específicas).

Merece também reflexão a quase ausência de debate sobre temas com impacto na vida das pessoas, como as questões da habitação e o problema da escalada de preços de aquisição e arrendamento.

Ou a inflação, que implica o aumento dos custos da energia e de bens essenciais, já para não falar da natalidade e da demografia, da coesão territorial ou da regionalização. Espaço para apresentar ideias não faltou. Mas parece que faltam as ditas, que nos poderiam fazer olhar de outra forma para o futuro.»

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19.1.22

Grande RAP!

 


800.000 eleitores confinados?

 

Expresso, 19.01.2022

Nem comento as decisões de última hora, hoje anunciadas: votação de isolados e infectados «aconselhada» das 18 às 19h.
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Nara Leão – Seriam 80

 


Nara Leão chegaria hoje aos 80 e morreu em 1989 com apenas 47. Estreou-se em 1963, mas a sua verdadeira consagração deu-se depois do golpe militar de 1964, em «Opinião», um espectáculo de crítica à repressão policial. Foi passando de musa da Bossa Nova a cantora de protesto.

Canções? Muitas, com destaque para «O Barquinho», «Com Açúcar e com Afecto» e a inesquecível interpretação de «A Banda» com Chico Buarque da Holanda. Podem ser vistos neste post de 2019.
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Aumentar a produtividade pelo crescimento dos salários

 


«A produtividade do trabalho aferida como a produção média de uma hora de trabalho em cada país é uma medida do grau de sofisticação e especialização das diversas economias. Ela não mede o esforço colocado pelo trabalhador, mede antes em que setores a economia se concentra e o grau de mecanização e digitalização da economia. Um cavador energético e esforçado não consegue competir com um trabalhador preguiçoso e sonolento da agricultura moderna com rega automática e doseada e com tratores e maquinaria de ponta.

A falácia de que a produtividade depende do mero esforço humano mantém-se ridícula mesmo quando repetida mil vezes pelas entidades patronais e pelos governantes.

O cerne da produtividade do trabalho está, como sempre esteve, do lado das empresas. Da forma como investem em organização e em maquinaria, robotização e digitalização e, muito pouco, no que exigem de longas jornadas de trabalho, horas extraordinárias não pagas, precariedade laboral e baixos salários. Esta super exploração laboral é fruto da ineficácia das empresas em investir.

Enquanto as empresas não forem responsabilizadas e penalizadas pela baixa produtividade nacional o país vai continuar a empobrecer e a resolutamente entrincheirar-se na cauda da Europa.

Em 2014 a produtividade nacional era de 79% da produtividade média europeia, em 2020 era de 74,6%, isto é piorou. Em contrapartida só para citar um ou dois países a produtividade da Polónia era de 73,5% da média europeia em 2014 e de 81,6% em 2020. Não só não desceu como a nossa mas cresceu e ultrapassou-nos. A Roménia que tinha uma das mais baixas produtividades europeias passou de 56,9% da média europeia para 75,2%, isto é também nos ultrapassou (dados do Eurostat).

Ainda estão 6 países atrás de nós, mas em muitos deles a produtividade está a crescer, a nossa vantagem é pequena e em breve seremos ultrapassados por mais alguns.

Enquanto a nossa produtividade se afunda nós continuamos no caminho do declínio convencidos como estamos que a governação foi um êxito e que somos cada vez mais europeus.

É preciso, pois, outra política. Em vez de sustentar a produtividade na super exploração laboral, que tem incentivado uma emigração em larga escala (um milhão de pessoas na última década, já superior à emigração dos passados anos sessenta) e que, no mundo tecnológico atual, pura e simplesmente não funciona, o que é preciso é o investimento massivo em tecnologias, organização e na atualização das condições laborais dos trabalhadores.

As atuais politicas laborais são um incentivo à decadência e obsolescência tecnológica assente na miragem de um competitividade pelo baixo custo da mão-de-obra. Uma competitividade que já nem o capital estrangeiro atraí porque poucos querem investir num mercado minguado nem em países em retrocesso.»

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Rui Rio 2018

 


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