7.7.20

Vidas antes desta Covida (4)



São-tomenses à porta da casa onde nasceu Almada Negreiros, na Roça Saudade, hoje transformada em restaurante-museu, S. Tomé, 2019.
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Turismo: Sol na eira e chuva no nabal?




Mas estava-se à espera de quê? Que os turistas estrangeiros, sobretudo jovens, fossem deitar-se cedo, depois de rezar o terço e as orações da noite? Turismo de massa e regras de desconfinamento como temos, nomeadamente no Algarve? Sol na eira e chuva no nabal …

E já se imaginou o eco que estas multas e proibições vai ter na imprensa dos países de onde vêm?
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Mesmo sem atirar setas



… é mais ou menos isto que nos espera.
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Uma questão de responsabilidade



«A resposta inicial do Governo à crise sanitária gerou um consenso político raramente visto, mas perfeitamente justificado tendo em conta a natureza e gravidade da situação.

Não espanta, no entanto, que à medida que as crises económica e social se agravam surjam importantes divergências sobre a dimensão e direção das medidas de recuperação. Como se impede uma explosão de pobreza e fome? Como se fortalecem os serviços públicos essenciais? Que lições se tiram da vulnerabilidade causada pela precariedade laboral e o que se faz com essas lições? Como se cria emprego e em que setores? Para onde se dirige o investimento público?

A resposta de cada força política a estas questões vai marcar o debate do Orçamento para 2021, que será apresentado dentro de três meses. Nesse debate, toda a responsabilidade democrática será pouca. O país pagaria caro no futuro se, em outubro, soluções fortes cedessem lugar a consensos falsos.

O Orçamento Suplementar de 2020, por outro lado, serviu para financiar as medidas excecionais e de emergência já tomadas. Sem reabrir ou refazer todo o Orçamento de 2020, aprovado em fevereiro, o Suplementar cumpriu três propósitos relevantes: i) autorizou a Segurança Social a gastar mais 2600 milhões de euros em apoios extraordinários e de emergência; ii) tão ou mais importante: fez uma transferência extraordinária para a Segurança Social de forma a que os apoios de hoje não prejudiquem as pensões futuras; e iii) reforçou o SNS em 500 milhões.

Foi por estas razões que o Bloco cedo anunciou a sua viabilização, mesmo considerando as suas grandes insuficiências. No final do processo de especialidade, essas razões e essas insuficiências mantinham-se, apesar de alguns avanços conseguidos pelos partidos da Esquerda.

É certo que bastariam outros para viabilizar este diploma. Mas o Bloco vota com o seu voto - e não com o dos outros. Votar contra este Orçamento Suplementar seria recusar ao país, num contexto excecional, o urgente financiamento de medidas de emergência, mesmo sendo elas insuficientes. Mas que não se engane o PS. Esta não foi a primeira volta para o Orçamento do Estado para 2021. Esse, para ser viabilizado à Esquerda, tem de responder à crise pela Esquerda. É esse o nosso mandato, e também a nossa responsabilidade.»

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6.7.20

Vidas antes desta Covida (3)



A fazer pela vida, perto da Barragem das Três Gargantas, Rio Yangtze, China, 2004.

[Quando a barragem ainda nem estava pronta e não sonhávamos que viria a ser gerida por quem manda na EDP.]
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Venham as burkas




Com mais esta novidade do dia, agora é que as burkas têm a sua grande oportunidade.
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Ennio Morricone (1928-2020)



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A pandemia e a questão social



«Trabalho há mais de vinte anos no contexto territorial onde se verificam os maiores níveis de pobreza e exclusão social da cidade do Porto. Conheço bem o assistencialismo e a caridade religiosa. São estratégias e instrumentos importantes, sobretudo em contextos de crise e emergência social. Valorizo a solidariedade e o voluntariado, mas como refere o professor José Reis, da Universidade de Coimbra, é na ação coletiva e na esfera pública que se travam as lutas decisivas.

No Porto há centenas de crianças que não têm computador nem acesso à internet, famílias que ficaram com o frigorífico vazio porque os filhos deixaram de almoçar na escola, utentes que esperam mais de dois meses para realizarem atendimento presencial nos serviços da Segurança Social. A Rede Local de Intervenção Social que apoia os carenciados residentes na zona oriental da cidade acolheu mais alguns milhares de processos de apoio por estes meses, mas não viu transferidos para a IPSS os meios correspondentes por parte da Segurança Social para reforçar a sua equipa técnica.

Convém explicar que muito antes da tragédia do vírus da covid-19 invadir as nossas vidas já os pobres sofriam na pele a incerteza, a humilhação, a vergonha, o risco, a privação, a dependência, a necessidade de se fazerem à vida através da economia informal ou com estratégias de sobrevivência desviantes para garantirem um prato de comida na mesa. As políticas socias da direita (e o PS nunca foi de esquerda) sempre foram de mínimos: salário mínimo, rendimento mínimo, prestações sociais de mínimos. Dizem os construtores de opinião de serviço que o país não cria riqueza suficiente para distribuir mais. Os recursos são escassos. Queria só recordar que para o Novo Banco a última tranche de dinheiro público foi de 580 milhões de euros. Para suportar as rendas com as Parcerias Público-Privadas rodoviárias o Estado vai gastar este ano 1500 milhões de euros.

Estes recursos financeiros permitiriam financiar um conjunto de medidas de apoio extraordinário para quem perdeu rendimentos e não tem acesso a proteção social, como os trabalhadores independentes e informais, um subsídio de desemprego temporário de subsistência, facilitar as regras de acesso ao subsídio social de desemprego, aumentar e alargar o abono de família, pagar integralmente do salário a quem está em layoff, entre outras medidas tão urgentes e necessárias como a criação de emprego, a valorização dos salários e o investimento nos serviços públicos.

As políticas sociais do capitalismo destruíram a integração económica dos cidadãos através da falta de emprego, flexibilizaram as leis laborais, privatizaram bens e serviços essenciais (água, eletricidade, transportes, telecomunicações, habitação) desindustrializaram o país, venderam as principais empresas a grupos económicos estrangeiros, amarraram Portugal aos tratados orçamentais e às metas cegas do défice de Bruxelas, faliram o estado social. E agora, com a maior das hipocrisias, alguém acorda do pesadelo e, por causa da crise pandémica, grita bem alto.

Precisamos de outro modelo de crescimento económico, que respeite a natureza, os direitos e a dignidade do ser humano. Precisamos de adotar outros modos de vida, mais ecológicos e menos consumistas. Precisamos de voltar à normalidade, mas como diz Frei Bento Domingues, a vida normal já demonstrou as velhas e novas desigualdades vergonhosas. Não acredito, sinceramente, que esta crise seja uma verdadeira oportunidade para operacionalizar políticas que favoreçam mais coesão, justiça e igualdade social.

Nas crises cíclicas do capitalismo já sabemos que quem paga a conta e sofre com as consequências são sempre os mais vulneráveis, os mais desfavorecidos, aqueles que dispõem de menos recursos económicos, culturais, escolares e simbólicos. Mas também é verdade, como afirma D. José Ornelas, líder da Conferência Episcopal Portuguesa, que uma sociedade que não é justa e não garante dignidade aos seus cidadãos, ou gera escravos ou bandidos. A globalização económica vai ter capacidade de se adaptar, vai aproveitar todas as vulnerabilidades causadas pela pandemia para explorar mais, oprimir mais, lucrar mais. Não sei se vai ser com vigilância eletrónica, com teletrabalho ou sugando os recursos do Estado, mas sei que o esclarecimento, a informação, a consciencialização e a politização dos pobres é o único caminho de resistência indestrutível.»

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5.7.20

Vidas antes desta Covida (2)



Mulheres uzbeques muçulmanas com os seus belos vestidos coloridos, em Samarcanda, Uzbequistão, 2011.
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Agora não...



Mas, já agora, só tirem o sofá depois do desconfinamento. Pode ser?
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Uma rua azul em Lisboa?



«A nossa vida mudou nestes meses e assim têm de mudar as cidades» - dizem eles.

E eu acrescento: estamos muito longe de conhecer os efeitos colaterais da Covid-19. Esta gente ensandeceu.
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Às cegas


«Tenho poucas certezas sobre o que nos está a acontecer. Só uma se vai instalando: que isto vai durar. Que teremos más notícias durante muito tempo. Podemos começar a disparar uns contra os outros, para ver se as culpas caem no vizinho. Ou podemos começar a discutir a fase seguinte: como vamos lidar com o vírus de forma a não sacrificar o futuro dos nossos filhos, a não destruir a economia e a democracia e a não viver numa sociedade patologicamente deprimida em nome da ilusão da imortalidade? Gostava de ser merecedor da herança dos que estiveram dispostos a morrer em nome da minha liberdade. Isso implica correr riscos para que a vida em comunidade não se torne numa paranoia infernal. Não estou disposto a fechar a juventude da minha filha em casa por dois anos para viver até aos 90. Nem a sacrificar os mais pobres. Nem a retirar a infância às crianças. Nem a destruir o SNS, onde se reduziu o tratamento de AVC em 32%. Nem a transformar a vida em televida, o trabalho em teletrabalho, a universidade em teleuniversidade. O que queria em troca? Que o Estado preparasse o país para reduzir riscos onde eles podem ser reduzidos. Isso não se faz às cegas, com o palpite no lugar da informação.»

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Pólvora seca e vespeiros



«O tempo para se adotarem políticas eficazes com vista à saída da crise escasseia e Portugal surge cada vez mais enredado em dois complicados bloqueios: primeiro, as anunciadas bazucas da União Europeia (UE) vão perdendo atualidade e correm o risco de se tornarem tiros de pólvora seca; segundo, a eficácia das bazucas nacionais depende das europeias e de se conseguir deslindar imbróglios que enredam algumas grandes empresas e setores da economia.

As ditas bazucas foram concebidas a partir de um cenário que nos apresentava uma recessão que batia no fundo, mas de que recuperávamos rapidamente com o regresso pleno ao trabalho. A partir dessa conceção, bastava "manter as luzes da economia acesas" durante o confinamento, através da continuidade da produção dos setores essenciais, da garantia de liquidez às empresas e de algum rendimento de substituição aos trabalhadores desempregados ou em regime de lay-off.

O que se está agora a desenhar é algo bem diferente. O regresso ao trabalho reacendeu o rastilho da pandemia, por razões que a semana passada aqui identifiquei. Configura-se, portanto, uma situação prolongada de confinamento parcial alimentado por picos de contágio mais ou menos ocasionais e localizados, e pelas múltiplas cautelas das pessoas. Daí resultam impactos socioeconómicos diversos, supressão prolongada de parte da capacidade produtiva e contínua perda de emprego.

As chamadas injeções de liquidez nas empresas e as garantias de rendimento de substituição não são sustentáveis durante muito tempo e, mesmo que fossem, a prazo confrontar-se-iam com limites à capacidade de oferta. Se somarmos a isto a pressão crescente para se reverter o financiamento público em nome da sustentabilidade das dívidas, temos o cenário montado para a tempestade perfeita: supressão de capacidade produtiva combinada com retração da procura.

Face a isto, os pacotes financeiros prometidos pela UE, que ainda nem sequer estão definidos nem aprovados, deixam de parecer tão avultados. Precisamos de modos de financiamento que não envolvam endividamento, e medidas que garantam o aprovisionamento, sobretudo em bens e serviços essenciais. As bazucas europeias não são uma coisa nem outra.

A armadura europeia vem tolhendo Portugal no seu processo geral de desenvolvimento. Essa armadura ajudou a enfraquecer serviços públicos fundamentais, mas é também fonte de condicionalismos impostos a algumas grandes empresas e setores da economia.

Hoje, quando se observa o que se passa na TAP, vemos que está ali um vespeiro onde é urgente, mas muito difícil, meter as mãos. As opções políticas e de gestão erradas, quando não criminosas, adotadas ao longo do tempo respaldaram-se, tantas vezes, em determinações da UE. Aconteceu o mesmo no vespeiro-mor que é o setor financeiro.

Há urgência na resolução de complicados imbróglios. O setor da saúde vem dando respostas no limite. Em breve bastantes empresas grandes e médias necessitarão de resgastes e imensas pequenas estão dolorosamente entregues à sua sorte. E não nos esqueçamos da Banca, setor onde, provavelmente, as desgraças irão culminar.

É inquietante ver o Governo demasiado sensível ao comentário mediático, técnica e politicamente muito pobre, a desvalorizar a inteligência coletiva e a continuar à espera, quando são já tão visíveis nuvens negras.»

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4.7.20

Vidas antes desta Covida (1)



Que será feito deste pequeno herdeiro da Civilização Maia, que vi em Iximché, Guatemala, 2014?
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Those were the days...



David Buchanan, no grupo IBM Retirees do Facebook.
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Esse drama da falta de ingleses...



Aqui a tentar imaginar que tipo de ajuda poderemos dar, segundo o nosso presidente. Mais reuniões nas Lajes? Vinho do Porto?

Entretanto, Santos Silva continua frenético e «quer ingleses a visitarem Portugal sem passarem por Lisboa».
O que se segue? Prometer que os lisboetas serão impedidos de ir ao Algarve? Mas ninguém trava esta avalanche de disparates?
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Movimento em falso



«Ela entra devagar no azul excessivo da água da piscina, quer libertar-se daquela sensação de absurdo nascida desde o início da pandemia, um pouco como as personagens no filme de Wim Wenders “Movimento em Falso”, em que o desejo de libertação do desânimo persegue as deambulações de Wilhelm e do seu grupo. Wilhelm, um escritor falhado que não gosta de pessoas, com um velho atleta dos jogos olímpicos de 1936 atormentado pelo seu passado nazi, uma acrobata de circo muda, um poeta desajeitado, uma atriz, um grupo perdido em deambulações sem rumo, onde o sonho e a realidade se misturam, a paixão, o suicídio, a perda do passado, viajando através de lugares enigmáticos de uma Alemanha traumatizada no pós-guerra.

O azul da água, a ortodoxia da purificação, o incómodo do corpo, fecha os olhos para ver melhor a realidade como dizia Wilhelm no filme, há peste nas periferias de Lisboa. A parábola da cidade esgotada pela especulação imobiliária, pelo turismo massificado, pela corrupção urbanística, que expulsou para a periferia os pobres, os trabalhadores precários e a recibo verde, os migrantes, a classe média falida na crise de 2008. Os bairros problemáticos, uma realidade bem conhecida dela do tempo em que estava no DIAP de Lisboa e na Distrital de Lisboa, bem conhecida da polícia.

A contraditória criminalização do combate à epidemia, as multas, a ameaça de punição com os crimes de desobediência e de propagação de doença contagiosa, são apenas o sintoma de um velho aparelho de Estado paralisado pelo nepotismo e burocracia, incapaz de funcionar e de se ligar à comunidade. Afinal o mesmo fenómeno revelado durante os incêndios de 2017, refugiando-se nos bodes expiatórios dos incendiários, que são agora os superinfetadores, os mal-comportados.

O cenário dos transportes públicos em hora de ponta é a imagem gritante da impotência. Mandam as pessoas para casa em bairros problemáticos de casas degradadas e inabitáveis, com multidões que têm que sair para sobreviver em trabalhos clandestinos. Multar e perseguir os desempregados, vagabundos da crise, deixar os alunos na rua porque as escolas não têm condições, espalhar o pânico doentio. Ignora-se o resultado de três meses de paragem dos tribunais, a desigualdade social é uma chaga, e um SNS desprezado pelos sucessivos governos é agora a medida de todas as liberdades. Agora como dantes, as ARS (administrações regionais de saúde), a DGS, o Ministério da Saúde compõem estruturas burocráticas sobrepostas e insensíveis, juntamente com a proteção civil e a segurança social, incapazes de ligação ao terreno, aos diretores dos hospitais como ponto de partida para uma ação eficaz. Criminalizar o combate à epidemia é querer parar o vento com as mãos.

O absurdo não se dissolve no azul da água, há uma culpa difusa neste clima de delação, até na inexplicável dificuldade em ter um corpo. Os efeitos do buraco negro criado com a economia parada, com a incompetência institucional, vão obrigar-nos ao maior combate das nossas vidas. Em cada facto novo há um movimento em falso.»

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3.7.20

Ingleses no Algarve?


Não haverá alguma agência de viagens imaginativa que organize vindas de ingleses reformados para férias no Algarve, associadas a quarentenas simpáticas no regresso a Inglaterra?
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A rir é que a gente se safa



(Insónias de Carvão no Instagram)
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Lisboa, mas em território americano




«Centenas de pessoas estão, esta quinta-feira, reunidas na Embaixada dos Estados Unidos, em Lisboa, para comemorar o Dia da Independência dos Estados Unidos, um dos feriados nacionais mais importantes.
Ao que a TVI conseguiu apurar, ainda que não oficialmente, terão sido alegadamente enviados cerca de 1.000 convites e neles estaria a indicação de que o uso de máscara não era obrigatório. (…)
Assim que se aperceberam da presença da comunicação social, a Polícia de Segurança Pública tentou encaminhar todos os convidados o mais rápido possível para o interior da embaixada.»
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