21.2.18

Marisa: a presidência do Eurogrupo “tem constrangimentos na abordagem dos problemas”



«O desempenho destas funções, na opinião da eurodeputada do Bloco, “limita a atuação de Mário Centeno, mais do que libertá-lo”. Apesar de tudo, Marisa crê que “há aqui alguma autoridade de alguém que conseguiu no país, com politicas contra-cíclicas e obviamente com um acordo maioritário parlamentar à esquerda, fazer exatamente aquilo que o Eurogrupo não permitiria”.

Finalmente, fica à espera de saber “o que vai ganhar”: “se é a influência de Mário Centeno no Eurogrupo, se é a influência do Eurogrupo em Mário Centeno”.»

Daqui.
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Dica (721)



Understanding Populism In Eastern Europe (Sławomir Sierakowski) 

«Eastern European populism differs from that in the West in important ways, owing to the region’s weak liberal tradition, which translates into ineffective checks and balances on government and shallow support for institutions such as freedom of expression and independent courts. Sławomir Sierakowski, the founder of the Krytyka Polityczna movement, explains.» (Vídeo)
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Lisboa no seu melhor



Hugo van der Ding no Facebook.
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Guião de uma direita infeliz



Francisco Louçã, no Expresso Economia de 17.02.2018. 

«A direita tem um problema que a condena, sabe-se derrotada. O conclave do PSD vem lembrá-lo urbi et orbi, discutindo o que fazer com a calamidade de 2019 e com o líder vencível nessa fatídica eleição. Havia de se chegar aqui: nas eleições internas de janeiro, o que levantava ânimo era o fugaz governo de 2005, então despedido por indecente e má figura pelo Presidente, enquanto a era da troika foi sorrateiramente evocada como um deserto antes do oásis, apesar de este ter sido maliciosamente capturado por corsários ocasionais. Para o PSD, a história resume-se assim a carreiras incomodadas, pouco cuidando de quem paga impostos, procura emprego e vê os filhos emigrar. Falta gente vivida nessa narrativa.

Mas, perdoe-me quem se fascinar por estes mentideros, o problema dos problemas é mesmo que a direita política não representa a direita económica e talvez nem sequer a direita social. E desconfio de que uns e outros sabem dessa síndrome Deolinda.

Rui Rio e o futuro melhor

A moção que Rio apresenta este fim de semana, que já foi o seu mote de campanha para a presidência do PSD, abunda naqueles condimentos de língua de pau que fazem estes documentos úteis se irrelevantes. Ele há um Portugal que "se supera", se tiver "um propósito" e o "rumo certo". Já ouviu isto em algum lugar? A candura não ofende, mas ressoa também o tom celebratório do líder, que afinal reconhece que todos antes dele falharam, pois houve "quase duas décadas em que os partidos e os políticos não conseguiram conceber e transmitir uma visão inspiradora, coerente e convincente, capaz de mobilizar os portugueses para uma sociedade de futuro". Já se sabe, com uma "visão inspiradora", o tal "propósito", o líder será "capaz de mobilizar os portugueses para uma sociedade de futuro".

Temos futuro, portanto. Exatamente catorze futuros, alguns repetidos: a política de Rio vai "garantir o futuro", que será "melhor para todos", ou só "melhor", com uma "visão de futuro", para uma "sociedade de futuro", "rumo ao futuro", tudo "orientado para o futuro", com "esperança num futuro melhor".

Esta ideia de salvação é o melhor que Rio apresenta. Não por ser boa, é até arrogante, mas porque é a mais moderna: é assim que se faz a política populista nos dias de hoje. Líderes de discurso vazio, que se adaptam ao que for, de promessas várias, que se adaptam a quem for, e que procuram concentrar em si todo o poder, tais messias, esses são os émulos do sucesso Macron.

Rio tem dias nesse percurso salvífico, já teve êxito ao fazer frente a Pinto da Costa, o que nenhum presidente de Câmara tinha ousado, mas lançou depois Valentim Loureiro para a Junta Metropolitana do Porto, e apoiou e desapoiou Rui Moreira, por razões sempre misteriosas. A coerência, se porventura existe, está no que escreve agora: quer um líder com uma "visão" e um "propósito", que é simplesmente ele próprio.

A desvantagem da vantagem

Só que, para triunfar, Rio tem uma desvantagem que esmorece tanta virtude: é que quem não o conhece já o conhece bem demais. É antigo para estes propósitos e falta-lhe o carisma da renovação, não surpreende nem as emoções nem as razões. Tudo o que disser é repetido e, pior, não suscita curiosidade. A vantagem, em contrapartida, é que diz coisas novas mesmo quando repisa o mantra tradicional: Rio quer um "Estado forte e organizado para libertar os cidadãos", o que o distingue suavemente daquela direita estadófaga que tem como refrão "menos mas melhor Estado". No caso do presidente do PSD, é o seu temor das ameaças, como a globalização, insegurança, alterações climáticas e decomposição dos regimes, que o move para um "Estado forte", sempre prometendo que os cidadãos serão "libertados". Ou seja, é um liberalismo temperado por medos, que exige que o Estado abra negócios, mas que precisa de proteção, mais do que no passado. Rui Rio e a sua moção são, portanto, a recapitulação daquela social-democracia mesclada com liberalismo no discurso e suficientemente negocista na governação que fez os melhores sucessos do PSD. E, no entanto, a direita económica não confia nele.



20.2.18

O futuro é das crianças


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Rui quê?

Polícia amigo, o povo está contigo




«No topo da tabela, as polícias inspiram confiança de forma transversal ao espectro partidário, com os eleitores do PSD, CDS, BE e CDU a convergirem na pontuação (15) e os do PS a mostrarem-se menos entusiastas (12).»


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37º Congresso Rennie



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O momento Kodak



«Alguém chamou "partidos Kodak" a muitos dos partidos que marcaram durante décadas a vida política da sociedade ocidental. Havia uma razão não fotográfica para isso: a marca que George Eastman fundou em 1888 dominou durante gerações o mundo da fotografia. A revolução digital levou ao colapso da empresa do dia para a noite. O PSD não se defronta com um "momento Kodak". Mas, ao aclamar Rui Rio como novo líder, o PSD não deixou de mostrar sinais de nervosismo: à porta já está Luís Montenegro, antecipando-se em versão Speedy Gonzalez a toda a concorrência interna (incluindo Passos Coelho), para lhe suceder. E isso acontecerá se, em 2019, o PSD não voltar ao poder. Seja como vencedor das eleições ou coligado num bloco central ou com o CDS. Rui Rio venceu, mas tem um quarto com vista para a guilhotina. E ele sabe isso. Talvez por isso o seu discurso de encerramento do Congresso do PSD tenha sido tão abstracto: na ausência de propostas políticas concretas, Rui Rio apelou à fé. É certo que o novo líder falou das questões sociais (um tema tabu no tempo de Passos Coelho), de acordos de regime, de vontade de vencer. Mas tudo pareceu ser ainda muito genérico.

O PSD, para regressar ao poder, neste tempo de bonança económica que favorece o Governo, precisa de ter um projecto com propostas sólidas e não generalidades com que todos podem concordar, porque são demasiado vagas. Precisa de abrir as janelas à sociedade civil (como soube fazer o CDS sob a batuta de Paulo Portas, antes de este rumar ao mundo dos negócios). Precisa de deixar de ser um partido apenas delimitado pelos seus políticos de carreira. Precisa de falar concretamente de outros temas que continuam a não ser considerados importantes: ambiente, cultura, segurança, património. Rui Rio, ao contrário do que se possa pensar, tem o relógio a correr contra si: 2019, com a sua chuva de eleições, é já aí. E esse é o tempo do novo líder neste PSD que necessita de poder como de pão-de-ló.»

Fernando Sobral
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19.2.18

Dica (720)




«William Robinson, profesor de la Universidad de California, advierte sobre la acumulación de tensiones internacionales que podrían derivar en el estallido de una nueva crisis global. Las condiciones estructurales que desataron la gran recesión de 2008 siguen vigentes. Estas incluyen niveles sin precedentes de desigualdad social, endeudamiento público y privado y especulación financiera. El detonante, sostiene, podría ser el estallido de la burbuja bursátil, el impago de deudas o una nueva conflagración militar internacional.»
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19.02.1997 – O dia em que morreu Rómulo de Carvalho / António Gedeão

Rómulo de Carvalho / António Gedeão morreu em 19 de Fevereiro de 1997. Foi um grande professor de Química, estudioso e grande divulgador da História da Ciência, que os seus alunos do Liceu Pedro Nunes e do Liceu Camões nunca esqueceram.

Também poeta, autor de numerosos livros e do texto que deu vida à inesquecível canção Pedra Filosofal. Um pretexto como qualquer outro para a ouvir de novo, com a beleza de sempre e oportuna, hoje como em 1969, quando Manuel Freire musicou o poema publicado em Movimento Perpétuo (1956).



Fica também este manuscrito com parte do poema «Como será estar contente», publicado em Máquina de Fogo, 1960:


Lançar os olhos em volta, / moderado e complacente, / e tratar com toda a gente / sem tristeza nem revolta? / Sentir-se um homem feliz, / satisfeito com o que sente, / com o que pensa e com o que diz? / Como será estar contente?

Deve haver qualquer mecânica, / qualquer retesada mola / que se solta e desenrola / no próprio instante preciso, / para que um homem de carne, / de olhos pregados no rosto, / possa olhar e rir com gosto / sem estranhar o som do riso. (...)
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Infiltrados e infiltradas


Absolutamente extraordinário!

«Creía que eso de infiltrar maderos o picoletos entre los malos era una cosa delicada, que por razones obvias se llevaba a cabo con discreción extrema. (…)
¿Adivinan ustedes cómo se recluta en España a policías para infiltrarlos entre delincuentes y terroristas? Pues sí, lo han adivinado: mediante convocatorias públicas que además salen en los periódicos. "Interior selecciona a 40 policías para infiltrarlos en grupos criminales", titulaba sin complejos un diario hace un par de semanas. A continuación exponía los criterios de selección –idiomas, pruebas psicotécnicas y psicológicas– y luego, eso es lo más bonito, detallaba en qué iba a consistir la tarea de quienes superasen tales pruebas.»

Arturo Pérez-Reverte
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Rios não confluentes



«Durante três dias observadores e oradores do congresso do PSD dedicaram-se ao “sexo dos anjos”, como lhe chamou Rui Rio: o regresso do bloco central. Se o debate é saber se o PSD está disponível para debater com o PS ou qualquer outro partido as grandes reformas que defende, é só um debate idiota. Qualquer partido que não seja liderado pelo ressentimento, como foi nos últimos dois anos, está disponível para aprovar as reformas que defende. Se se trata de permitir que o PS passe a governar com o pisca-pisca, umas vezes à esquerda outras vezes à direita, não me parece que o próximo ano e meio o permita e que seja sequer isso que esteja na cabeça de Rio. Nas suas duas intervenções Rio deixou clara a naturalidade com isto tem de ser encarado. O facto deste ser o grande cisma deste congresso diz até que ponto é nebulosa toda a restante linha estratégica de Rui Rio.

É significativo que o discurso politicamente mais clarificador na noite de sexta-feira não tenha sido o do novo líder, mas a do cessante. Passos Coelho reafirmou o que disse nos últimos anos sem que, em nenhum momento, tenha sido contrariado no congresso. A sua intervenção, que pretendeu reafirmar a natureza “pragmática” do PSD, não poderia ter sido mais ideológica. Uma intervenção fortemente antissocial-democrata, que insistiu em tratar serviços e prestações públicas como mera resposta a clientelas eleitorais. E que repisou aquela que foi a maior marca discursiva da sua liderança: a ideia de que tudo o que permita que as pessoas respirarem um pouco é irresponsável. Se é tempo de crise são necessários sacrifícios, se a economia melhora continuam a ser necessários sacrifícios para prevenir o futuro. A austeridade eterna é a promessa que Passos Coelho quer que o PSD seja portador. O problema é que se o futuro for sempre uma promessa adiada a governação faz-se sempre contra a maioria das pessoas. Passos diz que isso é não querer agradar.

O grande problema das intervenções de Rui Rio (o de abertura foi muito mais fraco do que o de encerramento), é que julga poder manter-se na linha deste discurso passista em matéria económica, mudar o tom na agenda social e fazer ruturas do ponto de vista da saúde da nossa democracia. A crise da confiança dos cidadãos na democracia não resulta de questões institucionais, como o modo de eleição dos deputados, mesmo que essa seja a forma mais fácil de lidar com o problema. Ela é transversal a países com modos muito diferentes de eleger deputados e desenhos institucionais muito distintos. A crise da democracia corresponde à incapacidade da política responder às ansiedades das pessoas. É uma crise substantiva, com uma forte relevância no crescimento da desigualdade, não é uma crise formal. E Rio acredita que é mexendo na forma que resolve a substância.

Ninguém conhece em grande pormenor o que Rio considera serem “as reformas que são precisas” em matéria de regime político. Para além de umas generalidades, umas generosas outras disparatadas, elas não passam de um nobre desconforto com uma política que se afasta das pessoas e com um discurso demagógico que ganha espaço, a que ele próprio não consegue responder. Mesmo a sua corajosa posição em relação à justicialização da política e a politização da justiça, que subscrevo na integra, pouco ou nada depende de qualquer “reforma estrutural”. E a sua coragem logo tropeçou na escolha de Elina Fraga, antiga bastonária da Ordem dos Advogados que, em 2014, fez uma queixa-crime contra Passos Coelho e o seu governo por causa do mapa judiciário. Querem mais judicialização da política do que isto? Rui Rio tenta-se afastar da política de casos e escândalo, da demagogia e do justicialismo, em que a direita partidária e mediática tem apostado. É nobre da sua parte, mas poucas vezes um líder teve tão desfasado da corrente para onde segue o seu espaço político. Ao ponto de não conseguir rodear-se de pessoas que cumpram os mínimos nesta sua exigência.



18.2.18

E quanto a Santana Lopes



«Quando o Presidente do teu clube te diz que não podes ler jornais nem ver televisão e ainda por cima és recasado.»

Rui Rocha no Facebook
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O «novo» PSD




Só agora ouvi o novo bem-amado líder, já que quando ele falou estava eu a almoçar na praia. Que eles continuem a ser um Rio, mas nestes tempos de seca não me parece que levem muita água. Bom fim de Domingo, Geringonça.
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Era uma vez na América


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Este artigo não tem título



«Não tem título para que não se corra o risco de formar impressões baseadas apenas no título. E é curto para que seja mais facilmente processado.

Vivemos numa sociedade em que tudo é rápido. Como vivemos na era dos anglicismos, talvez seja melhor dizer “fast”. Não há tempo para digerir a informação, para pensar e reflectir. Não sei se este termo existe, mas chamar-lhe-ei ‘fast-thinking’. A informação tem de aparecer já dissecada e processada para que não tenha de se perder um segundo nesse processo. Alguém que dê as respostas prontas, os resultados, para que não tenhamos de nos centrar no processo.

Olhamos à nossa volta e tudo acontece muito rápido. As crianças acumulam entradas de agendas gigantescas e assustadoras, divididas a cem à hora entre aulas, actividades extracurriculares e afins. Fins-de-semana de correria, a saltitar entre festas de anos dos amigos, actividades culturais, desportivas e afins. Férias programadas ao minuto, para que não sobre qualquer tempo livre, para que tenham um segundo que permita imaginar ou inventar algo para fazer.

Temos também os famosos “ATL” – Ateliers de Tempos Livres... onde existe tudo menos tempo livre. Actividades e mais actividades, mais entradas de agenda.

Se as actividades são boas? Claro que sim. Socializar com os amigos? Fantástico! Passear com a família e descobrir coisas novas? Obviamente que sim. Mas também é necessário algum tempo para não fazer nada. Tempo efectivamente livre, no qual as crianças aprendam a estar, a pensar, sem tarefas e programas. Sem o “ter de fazer”.

Estas crianças crescem e tornam-se em adolescentes de imediato. Membros entusiastas do “aqui e agora”. Do “já”, do “imediatamente”. Não há tempo para esperar por nada. O prazer não pode ser adiado e a tolerância à frustração é baixa ou inexistente. Perde-se, por vezes, o sentido da vida.

Estes adolescentes crescem e tornam-se adultos, muitas vezes impulsivos, que reagem sem o devido processamento cognitivo. Vivem segundo as primeiras impressões, as quais são aceites como válidas, como certas, sem contestação ou argumentário. Impressões que acabam por influenciar emoções e comportamentos. Tudo tem que ser muito rápido. A fotografia à comida, partilhada numa certa hora que, dizem as estatísticas, é a hora em que existe maior probabilidade de ser visualizada e, claro está, a ânsia de receber “likes”. As fotografias dos filhos, nas mais variadas situações e que se espalham pelas redes sociais com uma rapidez incrível, sem que os pais tenham a mínima noção de onde podem ir parar. Ou que uso poderão vir a ter...

Se algo não for fotografado, partilhado e “gostado”, é como se não existisse. As vivências deixam de ter o significado da experiência, dependendo mais da reacção dos outros a essas mesmas vivências. O número de “likes”, visualizações e partilhas dita tudo hoje em dia.

As redes sociais têm muitas vantagens, é certo, desde que não nos anulem a capacidade de pensar, com calma. Reflectir antes de agir ou reagir.

A pressão em nosso redor é de tal forma elevada que também eu, confesso, sou muitas vezes arrastada para esta forma “fast” de viver. Não apenas a agenda caótica, a multiplicidade de projectos, desafios e obrigações, mas também a necessidade de estar a par, de perceber em tempo quase real o que se passa à nossa volta. É como colocar os carris da linha de ferro com o comboio nas costas...

Vivemos tempos em que impera o imediatismo. Tente-se encontrar um equilíbrio, ou a velocidade deixará tudo para trás, inclusive nós próprios, esquecidos por uma vida demasiado rápida para reter o essencial.»

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17.2.18

Dica (719)



En la biblioteca del azar (Antonio Muñoz Molina)
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Como se faz um canalha



«Há imagens que não se esquecem e que definem as pessoas. Uma delas é a de Rui Rio num barco, no Rio Douro, a abrir uma garrafa de champanhe com os seus convivas enquanto assiste à demolição de uma das torres do Bairro do Aleixo. No bairro – sei-o porque estava lá – o clima era de desespero, com um enorme aparato policial montado, mulheres que gritavam de raiva ao ver a sua casa ser implodida, homens a chorar junto ao gradeado enquanto o pó dos destroços se espalhava, crianças atónitas junto ao lugar onde até há poucos dias brincavam e que parecia, agora, um cenário de guerra. Se acaso a demolição daquelas torres tivesse sido negociada com a população, talvez um Presidente da Câmara estivesse junto aos moradores naquele momento, de consciência tranquila por ter cumprido o seu dever e garantido uma alternativa para a vida daquela gente. Se não fosse esse o caso, uma pessoa normal que tivesse tomado convictamente aquela decisão teria ao menos o pudor de se remeter ao silêncio perante o sofrimento dos outros. Rui Rio não fez uma coisa nem outra. Foi para a frente do bairro, no aconchego de um barco no meio do rio, juntou os amigos e celebrou, frente aos cidadãos desesperados da sua cidade, o momento em que as suas casas a vinham a baixo. Perante o sofrimento dos outros, Rui Rio sorriu e brindou.»

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O desafio de Pedro Nuno Santos ao PS



«O artigo de Pedro Nuno Santos, “Os desafios da social-democracia”, dirige-se a um interlocutor errado. O congresso do PSD é o último sítio onde esse desafio terá resposta. Pelo contrário, o desafio começa em casa. Quais os conteúdos de uma verdadeira opção social-democrata que o PS possa propor a si próprio? Sem esta definição, será difícil ao PS, como defende PNS no final, “garantir que a mudança política conseguida em 2015 seja uma efetiva viragem e não apenas um parêntesis na história do PS e da democracia portuguesa”.

1. A atual experiência governativa é historicamente singular porque foi a primeira vez que o PS esteve disponível — ou foi forçado pela aritmética eleitoral — a procurar um acordo com a esquerda. Ao contrário do que afirma PNS, o Partido Socialista não “deixou de estar obrigado” a governar com a direita, simplesmente porque essa sempre foi uma escolha. De resto, o fundo dessa convergência — os pilares estruturais da alternância, do Tratado Orçamental, as leis laborais e a submissão à NATO — mantém-se intacto.

É certo que os acordos assinados com a esquerda permitiram suster a ofensiva liberal e remover do programa do Governo propostas eleitorais do PS que a continuavam. Assim, foram definidos alguns avanços e criadas condições para outros. A solução política desta legislatura é essencialmente defensiva, com limitados ganhos para a classe trabalhadora e que não resolveram os problemas estruturais do país. Não é menos importante por isso, mas é o que é: um acordo político imediato, longe de um projeto estratégico para redefinir Portugal.

A evolução neoliberal da família política socialista é um fenómeno global. Os tempos dos Partidos Socialistas do ‘Estado de bem-estar social’, no contexto de crescimento económico dos anos 1950 e 60, terminaram com a estagnação dos anos 70. Não há volta atrás. Os seus novos programas políticos integraram acriticamente os pilares da ofensiva neoliberal, ou, como PNS bem identifica, a doutrina das “reformas estruturais": a globalização económica, a flexibilização laboral, a liberalização financeira. A União Europeia, liderada pela aliança entre a nova ‘social-democracia’ e os conservadores, não é mais do que a institucionalização destes princípios: as leis da concorrência que proíbem qualquer intervenção pública nas economias e pressionam as privatizações; as regras orçamentais cegas; a suposta ‘independência’ do Banco Central Europeu, que serve para promover os mercados financeiros. Foi aí que o programa social-democrata soçobrou e desistiu de si próprio, arrastando todo o espectro político para a direita.