16.8.22

Mais uma «Redacção da Guidinha»

 


[Com mais um ano lectivo à porta, os jornais estão cheios de notícias e de inovações, e as redes sociais de opiniões, sobre «professores» que já não precisam necessariamente de o ser e outras novidades típicas da época. No tempo da Guidinha era tudo diferente, ou talvez nem tanto assim.]

Vou-me licenciar por obra e graça do Espírito Santo

«Nestas coisas da vida uma pessoa ou tem sorte ou não tem eu cá por mim tenho de confessar que não sou das que tiveram mais sorte e tudo porque comecei a tirar a minha instruçãosita primária antes das reformas contra-reformas sugestões de reformas propostas de reformas discussões sobre reformas questões sobre reformas estudos sobre reformas esperas por reformas e o mais que há sobre reformas e o resultado deste meu azar de ter começado a ir à escola antes de tudo isto foi que tive de estudar uma data de coisas para fazer exame da primeira classe mais uma data de coisas para fazer o da segunda classe mais uma data de coisas para fazer o da terceira classe e nem digo quantas coisas para fazer o da quarta classe para verem como as coisas eram tenebrosas até tive de aprender a ler para tirar a quarta classe o que mostra como a gente era perseguida torturada e maltratada nos tempos antigos se no meu tempo já andassem estas reformas todas no ar eu tinha-me safado muito melhor para começar não tinha tido aulas durante metade do ano por causa da reforma e tinha passado para a segunda classe sem saber fazer contas de multiplicar vai na segunda classe com uns sarilhitos tinha passado para a terceira sem saber fazer contas nem de multiplicar nem de dividir e para entrar no liceu sem eles darem por isso arranjava-se uma dispensasita de exame por não saber ao certo como é que ia ser a reforma é claro que no liceu avançava da mesma maneira não tinha aulas por falta de professores não tinha aulas porque os professores faltavam não tinha aulas porque tinha de ir à cantina não tinha aulas porque os professores estavam reunidos a tratar dos interesses superiores dos alunos não tinha aulas porque os alunos estavam reunidos a tratar dos interesses superiores dos professores não tinha aulas porque os pais se reuniam a dizer que estavam a puxar de mais pelas cabeças dos filhos não tinha aulas porque havia uma grande reunião a pedir ao ministro para não haver aulas não tinha aulas porque era dia de feriado não tinha aulas porque o ministro tinha medo de mandar a gente às aulas não fosse a gente fazer-lhe barulho à porta de casa não tinha aulas porque não me apetecia ir às aulas e ninguém podia mandar-me ir com medo de que eu não fosse apesar da ordem e lá se ia a autoridade não tinha aulas porque não estava na moda haver aulas enfim o que eu quero dizer é que acabava por entrar na faculdade que é para onde eu quero ir sem ninguém perceber que eu não sabia ler nem fazer contas de multiplicar e de dividir com as coisas assim eu tenho a certeza de que chegava ao fim sem abrir um livro o que até me facilitava a vida porque se me obrigassem a abrir um livro eu estava frita por não saber ler e isso de ir às aulas era coisa que eu não fazia porque havia de arranjar maneira de lá não pôr os pés umas vezes não ia porque não havia professores outras vezes não ia porque não gostava deles outras vezes não ia porque estava à espera que fosse resolvido o problema dos transportes em Alcácer do Sal outras vezes não ia porque era dispensada de ir enquanto não viesse a reforma e outras vezes não ia porque não ia e pronto ninguém tem nada com o que faço enfim chegava ao fim do curso e davam-me um canudo todo escrito em latim e um emprego pago em dinheiro português corrente como eu gostava de ser médica porque gosto muito daqueles filmes que há na televisão com aqueles médicos bestialmente simpáticos que fazem discursos às pessoas e que as curam com palavrinhas mansas e compreensão ia para um hospital trabalhar talvez na cirurgia é claro que ao princípio matava umas pessoas para descobrir onde é que elas têm o apêndice e o fígado mas isso que importância tem neste mundo em que há gente a mais? com o tempo e com umas buscas bem organizadas acabava por saber onde é que estava o apêndice de cada um e cortava-o tão bem como se tivesse aprendido porque não há nada como o saber adquirido pela experiência eu calculo que me bastariam duzentas pessoas para ficar a operar apêndices quatrocentas para operar estômagos e umas quinhentas ou seiscentas para operar cabeças ao todo com umas mil mortesitas ficava a cirurgiar tão bem como qualquer que tivesse estudado e não tinha perdido o meu tempo em escolas faculdades e outras velharias o meu azar foi ter ido para a instrução primária antes das pessoas começarem com isto das reformas que vai haver mas não me perco por isso não senhor que não estou para ser prejudicada por coisas de que não tenho culpa nenhuma para já declaro aqui que para o ano não vou às aulas e que se me quiserem chatear vou tocar tambor em frente da casa do ministro e dar berros até ele ficar acagaçado e me dispensar com quatro valores que é o que eu costumo ter escrevendo nos pontos umas coisitas que oiço em casa e de exames nem me falem o que eu quero é uma reforma ampla e boa que não me obrigue a estudar até já ando a combinar cá com uns amigos uma reivindicação que é o ministro dar à gente o canudo logo à nascença montando um posto de entrega de canudos nas maternidades para poupar trabalho aos funcionários e para reduzir a burocracia que está cada vez pior sim porque não se entende esta exigência burocrática de a gente ter de se inscrever em escolas a que não vai para fazer exames que não faz e passar de ano quando a gente passa sem ter de fazer nada para isso neste país há a mania da burocracia.»

Luís Sttau Monteiro, in A Mosca, 22.06.1974.
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15.8.22

Grupo dos 50 e crise nas urgências

 



"É da Ministra da Saúde e da sua equipa a responsabilidade política pelas dificuldades atuais das urgências, bem como da competência das administrações hospitalares por si nomeadas e pelos conselhos diretivos das ARS o planeamento e gestão dos recursos humanos existentes e a aprovação das escalas de urgência das várias especialidades e das várias Instituições com serviço de urgência aberto ao público".

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René Magritte

 

L’idée, 1966

Partiu há 55 anos.

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Entretanto no Afeganistão

 


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A tola fidelidade ao SNS

 


«Acredito que nos deixámos manietar. Distraídos do que nos rodeava, demasiado absortos na nossa bolha de altruísmo e sem tempo para dedicar à lana caprina. Permitimos que a nossa célebre vocação fosse despudoradamente instrumentalizada, enquanto vícios menos altruístas se instalavam. E que o nosso atrasado protesto seja agora subvertido, acusando-nos de mercenarismo e encenando fait-divers que desviam a opinião pública dos gravíssimos problemas estruturais que nos farão ruir. Mas a nossa atual indignação materializa talvez a vergonha que sentimos de nós mesmos, da nossa própria passividade e resignação, que nos fizeram chegar a tal ponto.

Éramos garotos precoces, mas já comprometidos, quando escutámos o coração e seguimos este rumo. Longe de anteciparmos o perpétuo boicote à nossa serenidade. Somos hoje reféns dessa decisão, corroídos pela frustração e dobrados sobre nós mesmos, com dores que talvez não passem de somatizações pelo cansaço e pelos conflitos que mantemos connosco. Deixámo-nos desvalorizar, apesar da excelência do nosso préstimo. E ataca-nos o amor-próprio, este sentimento de vítimas afeiçoadas ao agressor. Aborrece-nos quando a sopa vem fria para a mesa ou quando o crime prescreve, enquanto alguém se desvia, de fininho. Se nós falharmos, talvez a vida de alguém termine. Foi a cruz que escolhemos. Mas se nos tomam por garantida a vocação e nos sugerem resiliência, desconhecendo que ela nos é inata, sentimo-nos profundamente insultados.

Vejo-nos num barco que navega em águas revoltas e cujo barqueiro nos trata como carga. Os que vão tombando são mera comida para peixes. Outrora sagrada, a fidelidade ao SNS é hoje tola e profanada pelo pressionante convite à emigração ou à exclusividade privada. Se a mão que nos sacramentou é a mesma que nos aponta agora a saída, é quase deselegante permanecermos.

Aos colegas que puderam estender toalhas em tempo devido, não pretendemos competir por lugares ao sol. Seria agradável que se juntassem a nós. Como grupo de pares, sejamos solidários e recíprocos. O desabafo dentro de portas faz-nos bem, nas breves pausas para café. Mas alguma porta teremos de abrir. Porque tendemos a espernear um pouco, a arrotar um ou dois impropérios, mas logo corremos a trabalhar mais.

As pessoas merecem saber que quem as trata também adoece. E que a confiança inabalável que em nós depositam, nas horas de angústia apertada, se defrauda nas nossas noites por dormir. Somos médicos e enfermeiros que não descansam e quase não veem as famílias. Autómatos com mau aspeto, que fumam demasiado e se alimentam das máquinas de café. Ao final do dia, dói-nos o corpo e a alma. Os danos colaterais seremos nós, a estabilidade do nosso casamento e dos nossos filhos. Recordo a ingenuidade daqueles anos de suor e lágrimas, alheados do dinheiro enquanto assunto. Sairíamos de casa, pela fresca e bem dormidos, de forma a cuidarmos dos outros. E regressaríamos, pela tardinha, a tempo de cuidar dos nossos. Falemos um pouco sobre o divórcio na classe médica. Conversemos sobre saúde mental.

Cansado e ambivalente, assisto aos longos debates sobre o trabalho extra. Abordemos o descanso e as repercussões da sua falta na nossa estabilidade e desempenho. Na acuidade dos nossos reflexos e decisões que poderão revelar-se determinantes na vida de alguém. As horas de trabalho extra retiram demasiado de nós. Se podemos mudar de vida? As renúncias ao que poderíamos ter sido ditaram-nos o percurso, o investimento na Medicina esvaziou-nos o fôlego. Pessoalmente, a Psiquiatria da Infância e da Adolescência como que me define a identidade. Abandoná-la seria abandonar-me e não posso amputar-me de tal forma. Que não mo faça a doença ou a perda do que tomo por seguro. Porque aí, seguramente, a vida que eu escolhi atraiçoou-me.

Como médico de saúde mental, numa conjuntura de insalubridade e patologia estrutural, sinto-me a soprar contra o vento. Nesta área de entrelace com a sociedade e com a cultura, de fronteiras cada vez mais esbatidas entre o normal e o patológico, comparo-me ao amortecedor do carro velho, que resiste à estrada esburacada. E aceito este papel do pequeno David, agarrado à sua fisga. Sabendo que posso tombar, porque o médico nem tempo tem para ir ao médico. E quando é bruto e mal-humorado, quando chega tarde ou desmarca em cima da hora, não tem gosto em fazê-lo. Talvez se debata com íntimos conflitos, refém de uma sequência de decisões que o assoberbaram. A família não lhe vale, porque não o vê.

Se estes médicos sucumbirem, sobrarão de nós os que legitimamente se dedicaram à exclusividade privada ou colocaram a sua formação de qualidade ao serviço do mundo, fora de portas. Em troca do proporcional e genuíno reconhecimento que lhes devolveu o amor-próprio e a serenidade.»

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14.8.22

14.08.1385 – A nossa Padeira

 


Conta a história ou a lenda, e para o caso pouco importa, que foi num 14 de Agosto que «uma mulher corpulenta, ossuda e feia, de nariz adunco, boca muito rasgada e cabelos crespos», com seis dedos em cada mão, Brites de Almeida de seu nome, pegou em armas e se juntou às tropas portuguesas que se fartaram de matar castelhanos. Veio a casa, despachou mais sete que encontrou escondidos no forno e fez-se de novo à estrada. Ah, valente!
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14.08.1936 – Os massacres de Badajoz

 


Em 12 de Agosto de 1936, as tropas nacionalistas começaram o assalto a Badajoz, naquela que foi a luta mais dura desde o início da Guerra Civil. Quando a cidade se rendeu, todos os que tinham resistido foram levados para a praça de touros, ou para as imediações do cemitério, para serem executados ─ no dia 14 de Agosto de 1936. Não se conhece exactamente o número de mortos, que varia, segundo as fontes, entre 2.000 e quase 4.000.






O governo português foi cúmplice das tropas nacionalistas, tanto deixando que alguns dos seus elementos penetrassem no nosso território em perseguição aos republicanos, como colocando alguns destes na fronteira do Caia, de onde foram levados para Badajoz e executados.
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Candidatura

 


Mais nenhum ministro precisa de contratar um consultor por 5 800/mês? Estou disponível e sei de tudo o que for preciso.
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Fernando Medina e Sérgio Figueiredo acham que os portugueses são parvos

 


«A ideia de que Sérgio Figueiredo convidou Fernando Medina para ser comentador da TVI por ser seu amigo até não me convence. É normal um director de informação de uma estação de televisão querer como comentador o presidente da Câmara de Lisboa e sucessor indigitado de António Costa (a propósito, alguém já convidou o Carlos Moedas?). Os comentários de políticos no activo ou fora dele dão audiências e, se assim não fosse, nenhuma televisão apostaria um tostão no modelo. Será uma idiossincrasia portuguesa? Talvez. Sendo Sérgio Figueiredo amigo ou não, a decisão de convidar Medina para comentar é uma opção normal de um homem com aquelas funções.

O que não é normal nem sério é Fernando Medina contratar o antigo jornalista, ex-director da TVI, ex-director do Diário Económico, cuja carreira foi feita apenas no campo da comunicação, para “consultor estratégico” com uma job description de morrer a rir: “Definição, implementação e acompanhamento de políticas públicas.” Por amor de Deus. O ministro das Finanças está a fazer de todos nós um bando de tontinhos, ao achar que a “definição” das políticas públicas vai ser feita por um antigo jornalista? Que eu saiba, é ao Governo, aos vários ministérios, que cabe essa definição e, de resto, a função pública portuguesa tem várias “comissões”, com especialistas com currículos pesados, para fazer esse trabalho. Há várias universidades com especialidade em políticas públicas. Então a “implementação” e a “monitorização” vai caber a um ex-jornalista? Com um contrato que não pode ser sujeito ao escrutínio público?

Suponho que, se estivéssemos em outro país que não Portugal, cairia o Carmo e a Trindade. Aqui quase nunca cai. Afinal, José Sócrates foi primeiro-ministro entre 2005 e 2011 e também ninguém no PS desconfiou de nada até ao dia da detenção… e mesmo assim... Nem sequer o jornalista Sérgio Figueiredo, que, palavras dele, “gostava” do antigo primeiro-ministro e nos seis anos em que José Sócrates governou manteve com ele uma “relação que se tornou pessoal”, como escreveu depois da detenção de Sócrates, estranhou alguma coisa.

O meu conselho a todos os jovens jornalistas, que para os velhos já não vale a pena: tenham poucos amigos. Mantenham a vossa liberdade e independência intactas. Não se envolvam emocionalmente com as pessoas sobre as quais têm que escrever. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, nas palavras imortais de Manuela Ferreira Leite. A amizade (como o amor) é cega e pelos vistos cegou Sérgio Figueiredo ao ponto de ele nunca ter desconfiado de nada e ter vivido a detenção de Sócrates com “angústia”.

O primeiro-ministro, ao dizer que não se mete no assunto e a lavar as mãos como Pilatos, dá o sinal de que no seu Governo cada um faz o que lhe apetece – qualquer ministro pode dar todos os “jobs” a todos os “boys” que sejam amigos, com os argumentos mais hilariantes, que ele não se importa um avo com o assunto. Se António Costa pensa de maneira diferente do que aqui estou a escrever, eu cá não percebi. Devia, pelo menos, ter sido mais explícito, como o foi no caso do despacho do aeroporto de Pedro Nuno Santos.

Como dizia João Bilhim, o antigo presidente da Cresap (Comissão para o Recrutamento e Selecção da Administração Pública), que tive o gosto de entrevistar esta semana, se Sérgio Figueiredo fosse contratado para assessor de imprensa era normal. Afinal, a vida dele foi “comunicar”. É natural que a imagem de Fernando Medina, que inesperadamente perdeu as eleições para a Câmara de Lisboa para Carlos Moedas em Setembro último, precise de um “boost” e que ache até que o assessor de imprensa que já contratou tem trabalho a mais e precise de outro. Mas não nos faça, a todos os portugueses e mesmo a alguns socialistas, passar por parvos.»

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13.8.22

Imigrantes indispensáveis

 


(El País, 13.08.2022)

E o mesmo aconteceria em grande parte da Europa, Portugal incluído.
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13.08.1961 – O dia em que nasceu um Muro em Berlim







Este começou a ser construído há 61 anos e durou 28. Muros não nos faltam hoje, não são feitos com tijolos e não sabemos quanto tempo durarão.




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Indo ele a caminho de Viseu

 



Guiou e foi entrevistado durante quatro horas (sim, quatro, com duas breves paragens, a TVI e a CNN ainda vão mostrar mais do aquilo que já foi emitido), chegou ao destino e discursou. Oiçam-no, que vale a pena, e digam se isto não vos fez recordar alguém, aliás um meritíssimo antecessor:

«É a quinta vez que venho como presidente da República, mas é a primeira que venho à inauguração. É a décima nona vez que venho à Feira de S. Mateus.»
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Todo o investimento é bem-vindo?

 


«No debate político e económico, quando se discutem pressupostos indispensáveis para o "crescimento" e o "desenvolvimento", convoca-se a necessidade de investimento. E é muito comum formar-se o consenso em torno da ideia de que todo o investimento estrangeiro é bem-vindo. Não! Isso não é verdade, nem para o investimento estrangeiro nem para o nacional.

Os investimentos são bons ou maus em função do que deles resultar a favor de toda a população, das condições estruturais que ficam para o desenvolvimento do país, da qualificação e fixação de "recursos humanos" que cada investimento pode gerar. Um negócio pode ser vantajoso para quem nele intervém, mesmo que seja o Estado (os poderes que o representam), e prejudicial para o povo e o país.

Portugal está prisioneiro de um baixo perfil de especialização da sua economia, num contexto marcado por uma inflação galopante e por mudanças geopolíticas que acentuam pressões dos países poderosos sobre os outros. Investimentos especulativos, ou em atividades de baixo potencial de melhoria de produtividade acabarão por tolher a nossa capacidade de mudança de rumo. O emprego até pode crescer de forma passageira, mas fixam-se os baixos salários, desperdiça-se o investimento já realizado na educação e na formação dos mais jovens, acentuam-se desigualdades, alastra a pobreza. É esta a realidade que estamos a viver.

Vejamos o que se passa com o turismo, a hotelaria, a restauração e o imobiliário (com impactos nas políticas de habitação) onde temos hoje negócio a rodos, mas contradições gritantes a gerarem impactos negativos no nosso futuro coletivo: o emprego e os salários não evoluem; as condições de acesso à habitação empurram as pessoas para longe dos seus locais de trabalho e de estruturas de apoio social, agravando encargos; os preços da restauração são para turistas, que não é a nossa condição do dia a dia.

Interroguemo-nos sobre os verdadeiros efeitos dos vistos gold, apresentados como instrumento de atração de investimento para dinamizar a economia e criar emprego. Entrou muita gente indesejada com condutas suspeitas - em Portugal como na União Europeia os indesejados são as populações que fogem da guerra e da miséria. Tudo indica que estamos perante um lamaçal de negociatas promíscuas, não houve criação de emprego, a fuga aos impostos presume-se elevada e este processo contribui para a especulação imobiliária.

Há que analisar com muita atenção o tipo de investimentos de que necessitamos e as condições em que eles nos podem ser vantajosos na recuperação de indústrias e em setores estratégicos como a gestão da água, os recursos dos oceanos, as atividades de resposta aos bloqueios climáticos e ambientais.

A nossa localização geográfica não nos permite produções agrícolas com elevados consumos de água, nitratos e pesticidas. Contudo, é essa a via seguida no investimento na agricultura. Cada "crise" serve para excluir mais agricultores e produções que podiam construir vias alternativas.

Vamos para a exploração do lítio, a produção de hidrogénio, a identificação e desenvolvimento dos recursos do mar em segurança, colocando à cabeça os interesses de toda a população e assegurando posicionamentos vantajosos nas respetivas cadeias de valor, ou apenas ao sabor dos grandes negócios propostos pelos potentados económicos e financeiros já instalados?

Se não tomarmos cautelas, não faltarão investimentos indesejados.»

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12.8.22

12 de Agosto – Dia Mundial do Elefante

 



Estes são do Pinnawala Elephant Orphanage (Sri Lanka), fundado em 1975 para recolher sete pequenos elefantes órfãos. São agora muitos, de todas as idades, e os primeiros já são avós. Vi-os em 2011 e eram então 96.


Em 2021, nasceram dois gémeos neste orfanato, o que não acontecia no Sri Lanka há 80 anos!

(Em casa e no banho que vão tomar duas vezes por dia.)
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Um Inverno russo

 

«O Verão está no fim e, com o Outono e o Inverno, a frente principal da guerra russo-ucraniana tenderá a deslocar-se para a Europa Ocidental. Tal é o desígnio de Vladimir Putin. Parece apostar numa guerra prolongada em que, à falta de sucessos militares na Ucrânia, o ressentimento social contra os efeitos das sanções desgaste e rompa a solidariedade europeia. O previsível enfraquecimento de Joe Biden após as eleições intercalares de Novembro completaria o quadro. A demissão do governo italiano de Mario Draghi foi um péssimo sinal.

A invasão da Ucrânia é desde o início uma fase do confronto global com o Ocidente. Tanto Moscovo como Pequim, por vias diferentes, querem rever a ordem político-económica mundial e forçar uma redistribuição de poderes e áreas de influência.

Se a economia russa continua a ser minada pelas sanções, o Kremlin tem a expectativa de que um efeito de boomerang produza divisões no Ocidente e dentro da NATO, graças às represálias russas nos mercados energéticos ou na ruptura dos abastecimentos de cereais.

A guerra começou com um duplo fiasco para Moscovo. O primeiro foi a surpresa ucraniana: a unidade nacional e uma insuspeita inteligência militar que forçou Moscovo a reduzir os objectivos e a rever várias vezes a sua estratégia. Em segundo lugar, revitalizou a NATO e provocou uma dura reacção contra Moscovo, quando Putin apostava numa reacção débil de um "Ocidente dividido e decadente".

Moscovo não desistiu da guerra. Parar a ofensiva sem conquistar todo o Donbass e outros objectivos no Sul seria o suicídio político de Putin, dizem analistas. Por outro lado, ambas as partes têm objectivos absolutos e inegociáveis, o que torna longínquo um cenário de negociações.

Depois de Draghi

A demissão de Draghi e as eleições de 25 de Setembro ameaçam enfraquecer a resposta italiana perante a guerra na Ucrânia, assim como privar a Europa de uma liderança eficaz perante o desafio russo. Ou seja, não só enfraquecer (ou até virar) a atitude italiana como a unidade da acção europeia. Se os seus sucessores falharem, é toda a Europa que será tocada.

"Draghi apoiou aberta e concretamente a Ucrânia, promoveu a viagem com Macron e Scholz, elaborou com a secretária do Tesouro americana, Janet Yellen, as sanções e guiou a comunidade ocidental nesta situação", frisa o economista alemão Guntram Wolff, ex-presidente do think tank Bruegel, de Bruxelas.

Putin tem os olhos postos na Itália. "Espera que saiam das eleições dois cenários", escreve o politólogo Angelo Panebianco. "Ou uma Itália tornada instável ou a vitória de uma coligação em que têm peso e responsabilidades partidos que são seus amigos ou, pelo menos, não hostis. Ambas as soluções seriam agradáveis para a Rússia."

Se Giorgia Meloni, líder dos Irmãos de Itália (FdI), se proclama atlantista e defende a manutenção das sanções e a ajuda militar a Kiev, já Berlusconi é um "velho amigo" de Putin, e Matteo Salvini, da Liga, tem sido um fiel cúmplice do Presidente russo. Foi forçado, pelo seu partido, a anular um recente projecto de viagem a Moscovo.

Berlusconi procura manter uma certa ambiguidade. Salvini ataca as sanções que diz inúteis e apenas sacrificam os italianos. Enquanto inesperado "pacifista", tal como os restos do Movimento 5 Estrelas (M5S), opõe-se terminantemente ao fornecimento de armas a Kiev, decidido por Draghi.

A subida dos preços da energia, apesar de a resposta italiana ter sido das mais eficazes, tende a enfraquecer a quase unânime reacção contra a invasão da Ucrânia. Salvini não hesitará em explorar todos os descontentamentos.

Tudo isto pode ser resumido no título de um artigo de uma antiga governante americana na Foreign Policy: "As eleições antecipadas italianas podem oferecer a Putin a vitória de que ele precisa."

Também as eleições legislativas francesas complicaram a situação europeia. Macron perdeu a maioria na Assembleia Nacional. As posições pró-russas saíram reforçadas, à direita e à esquerda. Marine Le Pen tem sido prudente, mas já apontou a ineficácia das sanções a Moscovo. À esquerda, uma grande parte da coligação NUPES, sobretudo o núcleo duro da França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, são hostis às sanções e à NATO.

Para lá do racionamento energético, Putin espera ainda uma reacção aos custos multimilionários do apoio militar e da reconstrução da Ucrânia. Para ele, a Itália (sem Draghi) e a Alemanha serão os fracos da aliança ocidental. A pressão de Moscovo vai subir. Cabe aos ocidentais prevenir a manobra de Putin e reformular a sua estratégia.

Está no horizonte outro momento marcante: as eleições americanas de Novembro. Há analistas que admitem que Putin esteja à espera do enfraquecimento de Biden para abrir negociações.

Caro leitor: não quero ser pessimista, mas apenas chamar a atenção para a nossa "batalha de Inverno".»

Jorge Almeida Fernandes
Newsletter do Público, 11.08.2022
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