17.11.09

Entre budismos e socialismos















Como em muitos outros países budistas, os monges saem ao nascer do dia e andam pelas ruas da cidade a recolher oferendas, mas dizem-me que a tradição é mais forte no Norte do Laos e especialmente aqui, em Luang Prabang.

Quando o Sol nasce por volta das 5:30, são centenas que percorrem as ruas e recebem comida e dinheiro. Em cada família budista, há todos os dias uma pessoa que reúne o que pode e entrega de madrugada aos monges, na convicção de que o que é dado alimentará (também) os seus próprios antepassados. Se por acaso alguém sonha durante a noite com o que um pai ou um tio pode preferir, procura satisfazer em espécie esse desejo; caso contrário, a base da dádiva é sempre bolas de arroz cozido, fruta ou simplesmente dinheiro.

Diz-me o guia que nos acompanha (fluente em espanhol porque estudou em Cuba) que também ele acredita que os bens recolhidos alimentarão os seus avós. Pergunto de várias formas sugerindo que fala apenas em sentido figurado, insisto, mas a resposta é sempre negativa e absolutamente categórica. Acabo por desistir porque a racionalidade não passa necessariamente por aqui.

Pouco depois, os monges regressam aos templos e comem duas refeições, a última das quais antes do meio-dia, já que, depois disso e até ao dia seguinte, só podem ingerir alimentos líquidos. Os que recolhem alimentos nas ruas são ainda crianças ou extremamente jovens. Os mais velhos terão ficado nos templos mas não são em grande número: num país em que cerca de 50% da população tem menos de 20 anos, a vida de monge é muitas vezes temporária e, muito frequentemente, a única saída para fugir à miséria e conseguir estudar (à velha maneira das idas para o Seminário que tão bem conhecemos por aí).

É sempre difícil comunicar nestes países, em que é raro encontrar-se alguém que ultrapasse o inglês ou o francês absolutamente básico. Restam os guias e um ou outro contacto nos hotéis e não é portanto fácil tomar o pulso ao que se passa a nível político. Não se vêem cartazes com Ho Chi Minh a cada esquina como no Vietname, nem se sente os rastos da destruição dos Khmers como no Cambodja. Para além do que se lê nos livros, consegue-se conversar o mínimo para ouvir que há eleições mas um só partido, que talvez seja melhor assim porque o povo ainda não está preparado para mais, que na Tailândia é uma grande confusão. Que o sistema é parecido com o do Vietname, portanto menos duro e mais tolerante que o da China (com muita liberdade a nível de expressão e circulação, cada vez com mais propriedade privada). Cuba? «Têm muita pressa, nós havemos de lá chegar, mas à nossa maneira. Aqui acreditamos que o capitalismo é a via para o socialismo».

Será?...Mas quem sou eu para os contradizer...

Amanhã? Rumo à Birmânia…

16.11.09

No mercado de «Grande Buda da Paz»

 













Com ligeiras variantes segundo os países, os mercados asiáticos provocam sempre alguma estranheza aos nossos olhos ocidentais. Luang Prabang não foge à regra. Frutos desconhecidos (dragão, neste caso)

Arroz das mais variadas core e feitios.















As rãs vendem-se vivas.















Já esquilos e gafanhotos não escapam ao espeto.






















(«Grande Buda da Paz» é a tradução de Luang Prabang)

Pôr do Sol no Mekong

 



























Domingo, 17:30, menos 7h em Portugal
O primeiro dia acabou ontem nas margens do mítico rio Mekong que já vem de longe quando chega aqui, vai ainda bem para Sul no Laos e segue depois para o Cambodja e Veitname, onde já me tinha encontrado com ele há meia dúzia de meses. Ontem vi-o «de fora», amanhã «navegarei» uma parte do dia.

Em Luang Prabang, todos os caminhos acabam por ir lá parar, mais cedo ou mais tarde.

15.11.09

It was a long way to Luang Prabang














Fui escrevendo isto nos aviões, completei agora já em terra. Pode ser que amanhã haja mais...

Duas horas de sono, despertar às 4h15, primeira paragem em Madrid, o prazer de comprar El País e de ler o Babelia em papel. Segunda etapa em curso - longa, muito longa, terão sido doze horas quando aterrarmos em Bangkok. Faltam neste momento mais ou menos três, penso que estaremos por cima da Índia, houve tempo para dormir, para ler mais umas dezenas de páginas sobre o Laos («o país mais bombardeado do mundo», Lonely Planet dixit) e para tirar proveito da excelência do serviço da Thai, há muito desaparecida das companhias aéreas ocidentais (na foto, as hospedeiras).
Portugal estaria já mais ou menos entre parêntesis não se tivesse dado o caso de não resistir ao título da leitura de uma vizinha do lado: «José Manuel Pureza, um “católico tresmalhado”», «cristão de inspiração marxista». Lá lhe pedi a Visão e regressei durante dez minutos aos «istas» e aos «ismos», mas arrumei-os rapidamente.
(Sábado, 19h de Lisboa)

Depois de algumas horas no gigantesco aeroporto de Bangkok, uma espécie de Centro Comercial do qual o Eng. Belmiro não desdenharia, última etapa, agora num avião a hélice um pouco manhoso, mas não há-de ser nada…
(Domingo, 3h de Lisboa)

Finalmente em Luang Prabang, em merecido descanso antes do primeiro passeio - em tuc tuc. Tudo isto parece paupérrimo, mas deve ter havido por aqui uns saltos tecnológicos porque não existe ar condicionado no hotel (que bem preciso era…), mas há wireless impecável e gratuito em todos os quartos, bem melhor do que o que me calhou em sorte, há três meses, em Paris. È assim…
(Domingo, 6,20 de Lisboa)

13.11.09

ສາທາລະນະລັດປະຊາທິປະໄຕ ປະຊາຊົນລາວ


(Curioso «alfabeto». No título, o nome do país: Repúbica Popular Democrática do Laos)

Espero que Luang Prabang, para onde sigo daqui a poucas horas, seja mesmo assim. Street food? – até aí nã irei.



Julgo que poderei alimentar um pouco este blogue enquanto estiver no Laos. Depois? Quanto mais leio, mais esclarecida fico

E não se trata apenas de contar os mortos
















«A verdade dos números, porém, é complexa e jamais será decifrada na sua totalidade. O que não significa a anulação de um dever de memória para com os milhões de seres humanos, “marcados todos como traidores” como escreveu o prisioneiro-poeta Alexander Tvardovsky, que não se compadece com leituras negacionistas ou manipuladoras. Sabemos de que maneira, do lado dos complexos doutrinários que procuram moldar artificialmente a História, quando a realidade não cabe no argumento se distorce a realidade. É isto que tem procurado aplicadamente fazer o actual esforço revisionista e desculpabilizador dos métodos e das metas do Gulag.»

De um artigo de Rui Bebiano, Rever e desculpabilizar o Gulag, publicado no Público de hoje e que pode ser lido, revisto e aumentado, em A Terceira Noite ou nos Caminhos da Memória.

Síndrome da mala de cartão?













Os emigrantes portugueses sempre fizeram boa figura: como estudantes, como trabalhadores, agora em versões mais sofisticadas.
Além disso, qual é o espanto? Quase todos os putos se portam melhor fora de casa.

12.11.09

Já com a mala meia feita


















A pouco mais de 24 horas da partida – o Laos e a Birmânia esperam por mim –, leio as instruções enviadas aos viajantes e detecto, entre recomendações sobre calçado adequado e repelentes para mosquitos, este pequeno conselho, julgo que vindo de um operador turístico local:

«Não recomendamos levar literatura “à vista das autoridades” de Aung San Suu Kyi ou qualquer outra personalidade com ideologias políticas contrárias ao governo de Myanmar. “Cartas da Birmânia” é um bom livro para ler, antes de viajar ao país. Se, todavia pretende levá-lo na sua viagem, aconselhamos a encapá-lo com um papel opaco.»

Já fiz muitas viagens e nunca recebi recados destes. Nem estive, nos últimos anos, em países onde não há «roaming» de telemóveis para ninguém (só comprando cartões localmente), não se aceitam cartões de crédito nem existem ATM’s. Vamos todos portanto com uma grande mão cheia de dólares. (A propósito: quem tiver umas economias, esqueça PPR’s e Certificados de Aforro, precipite-se e guarde uns pacotes de notas verdes debaixo do colchão porque estão verdadeiramente mais baratas do que a chuva.)

Mas antes da Birmânia será o Laos, onde tudo é mais ameno. Haverá assim tempo para a preparação psicológica.

Este texto parece, mas não é, sobre a queda do Muro













«Os comunistas não deixaram que ficasse esquecida esta data maior da história da humanidade na sua exaltante caminhada para a efectiva liberdade, justiça e igualdade.»

Mas há outros que são, como por exemplo este - agressivo, racista, especialmente intolerável depois de ontem termos assistido a gestos simbólicos particularmente significativos, nas celebrações do aniversário do Armistício, que tiveram lugar em Paris:
«Particularmente a burguesia alemã que ao longo da História tem recorrido sistematicamente ao militarismo, ao assassínio de democratas e revolucionários, ao trabalho escravo, inventou a industrialização da morte e o extermínio em massa nas câmaras de gás, pretende agora apresentar os acontecimentos de 1989-1990 que conduziram ao fim do socialismo e da República Democrática Alemã como um processo «revolucionário» ou «libertador» e aproveitar a ocasião para representar a farsa do seu «amor à democracia».

P.S. 1 - «Repugnante», foi escrito agora na Caixa de Comentários. Assino e reforço.
P.S. 2 - A ler: O muro do Avante.

Só me apetece dizer: «Basta!»

(Des)sincronias

11.11.09

Cairia o Carmo e a Trindade


se isto acontecesse por cá. E o Daniel Sampaio bem podia passar à clandestinidade.

Novembro, 11


Hoje celebra-se o Armistício e, quando me chamaram a atenção para esta notícia, não me espantei por adolescentes ingleses julgarem que Hitler foi um treinador de futebol, mas sim por muitos pensarem que o símbolo do «Remembrance Day» é o logo do McDonald’s, sem nunca terem tido a curiosidade de perguntar aos pais por que razão andam de papoila ao peito, todos os anos em Novembro. Gente estranha…



Last Post

«Ismos» e «anti-ismos»


















A blogosfera voltou ao seu melhor como espaço de debate, como há muito não acontecia - sobretudo no 5 Dias, mas não só. À esquerda, foram muitos os que nos últimos dias legitimamente sentiram um impulso para uma espécie de «confissões» ou «testemunhos» de fidelidades e infidelidades, certezas e grandes pontos de interrogação, e que daí partiram para discussões mais teóricas. Excelente não se estivesse a assistir também, no meu entender, a verdadeiros malabarismos conceptuais e terminológicos que, longe de ajudarem a pensar, mascaram por vezes as verdadeiras questões – complicadíssimos esforços para salvar o que não tem salvação, para conciliar o inconciliável, que acabam muitas vezes na defesa do indefensável.

É nestes momentos que regresso às minhas origens académicas:
«What can be said at all can be said clearly and what we cannot talk about we must pass over in silence.» - Ludwig Wittgenstein

Ou, numa versão bem mais antiga, para francófilos:
«Ce que l'on conçoit bien s'énnonce clairement et les mots pour le dire arrivent aisément.» - Nicolas Boileau

10.11.09

Francisco Louçã e a queda do Muro


Como já aqui referi, este blogue publicará agora também textos que não são da minha autoria, como é hoje o caso com este de Miguel Serras Pereira.

Num texto publicado no Esquerda.net, intitulado “Vinte Anos Depois”, Francisco Louçã desenvolve sobre a queda ou derrubamento do Muro de Berlim algumas considerações um tanto desconcertantes.

Escreve, na primeira parte do comentário: «Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, floresce assim a ideologia contentatória: o comunismo acabou, diz Saramago e repete, com gosto evidente, António Vitorino. Frágil ilusão, contudo, pois continuou a ser possível ser cristão depois da Inquisição, social-democrata depois da votação dos créditos de guerra e mesmo depois do assassinato de Rosa Luxemburgo, e até continuou a ser possível ser economista liberal depois da grande depressão de 1929. Cada experiência trágica tem muitas leituras e nunca ninguém tem a última palavra. Como é possível ser socialista depois da queda da União Soviética e do seu muro, do mesmo modo que é possível – e necessário – ser socialista depois do colapso do subprime e da criminalidade financeira que se tornou deslumbrantemente evidente com a crise de 2008 e 2009.» O que, se bem o leio, significa que a queda do muro foi um mal ou um momento de crise do socialismo – ainda que não torne impossível ser-se socialista, como os males que afectaram o capitalismo não impede que este tenha defensores, ou a Igreja fiéis apesar da Inquisição. A queda do muro teria sido, pois, uma dificuldade ou uma derrota a superar. Esta maneira de ver não se distingue em nada de fundamental da oficialmente sustentada pelo PCP e por todos aqueles para quem a derrocada do regime em vigor na ex-URSS e outros países do “socialismo realmente existente” são um retrocesso histórico e político, a reparar. E diz-nos, bem vistas as coisas, que, embora talvez sejam desejáveis, as liberdades democráticas não são condições essenciais da construção do socialismo, que um regime pode ser socialista ou uma superação avançada do capitalismo ao mesmo tempo que oprime os trabalhadores e o conjunto da população, que uma economia estatizada, colectivamente dirigida e possuída por uma camada burocrática que dispõe dos meios de produção e estabelece os critérios de distribuição, decidindo também do que destina ao consumo (desigual) e ao investimento, é menos opressiva e mais progressista do que a que vigora sob os regimes oligárquicos “ocidentais”.

Mas eis que, quando mentalmente nos ocupamos de refutar Louçã, dizendo-lhe que não há socialismo sem democracia, que a democracia é condição necessária do socialismo, etc., eis que FL - depois de um absolutamente inócuo parágrafo sobre a insuficiência dos julgamentos e a necessidade de compreender (cujo autor, creio, é La Palice, apesar de FL não o citar) - parece querer roubar-nos as palavras da boca ou do pensamento, e escreve: «Compreender a derrocada de uma mentira, de um sistema social esgotado no privilégio e na desigualdade, na repressão e na censura, no militarismo e no Gulag. A queda do Muro foi o episódio final de uma agonia perante a tensão social insuportável. Mas também ensina que o socialismo só pode ser o contrário do Muro: liberdade contra a censura, responsabilidade contra o controlo sindical, todos os direitos sociais, incluindo o pluripartidarismo, a liberdade de formar sindicatos ou de fazer greve.» O que só pode significar que a queda ou derrubamento do Muro, longe de ser um obstáculo que a nossa convicção socialista deve superar pela força da convicção, só pode ser saudada como um momento de libertação, uma ocasião favorável ao combate pela emancipação dos trabalhadores, uma condição de posteriores avanços na luta pelo socialismo democrático (o único concebível, ainda que sob várias formas) ou, se assim se preferir, “democracia socialista”.

Em que ficamos, então? Como devemos avaliar em termos políticos este exercício de, numa só e a mesma breve página, se afirmarem duas teses antgónicas e entre as quais não há síntese dialéctica possível? Será esta a plataforma “dos socialistas de esquerda, mais precisos do que nunca”, que FL invoca nas últimas palavras do seu texto? Será esta a plataforma que FL defende como base do alargamento e reforço do BE?

Miguel Serras Pereira

De quando os homens se medem aos palmos


9.11.09

A César

 
















Parece-me tão legítimo que os bispos se pronunciem sobre o casamento civil de pessoas do mesmo sexo como sobre a localização do novo aeroporto ou o possível adiamento do TGV, porque qualquer grupo de cidadãos poder opinar sobre o que bem entender – neste caso, os senhores José, Manuel ou Xpto (sem Dom) podem chamar alguns jornalistas para fazerem constar que já aceitaram como um facto consumado a decisão de o Governo legislar em determinada direcção e que não vêem essa iniciativa «como uma provocação» (!...)

Já quando emitem uma «Nota Pastoral» (como o fizeram em Fevereiro deste ano e se preparam muito provavelmente para repetir agora em Fátima), o próprio nome indica que estão a dirigir-se às suas «ovelhas». Ora, para estas, as autoridades eclesiásticas não admitem, não aceitam, nem reconhecem o casamento civil – nem homo, nem hétero. O que disseram e o que vierem a dizer, como bispos, poderá quando muito afectar ou não os homossexuais católicos.

Mas o centro da questão é outro. Apesar de todas as declarações de comiseração para com o ser humano, a conferência episcopal portuguesa continua a considerar a homossexualidade como um desvio: «Se, por vezes, ela constitui apenas uma etapa transitória no desenvolvimento da criança ou adolescente, o seu prolongamento pela idade jovem e adulta denota a existência de problemas de identidade pessoal.» Tudo o resto é subterfúgio.

Jogo de sombras















«Os bastidores das comemorações do 20.º aniversário da queda do Muro serão, por isso, uma ocasião ideal para ultimar contactos no sentido de escolher os nomes para os dois novos cargos criados pelo Tratado de Lisboa, ou seja, o presidente e o ministro dos Negócios Estrangeiros da UE.»

Duas décadas depois do que foi (ou poderia ter sido?...) um passo de gigante para a criação da grande Europa, não deixa de ser simbólico que, entre peças de dominó e uma taça de champanhe, sejam sussurrados nomes e defendidos interesses, poderes e contrapoderes. Unidos, sim, ma non troppo.

P.S. Mais ou menos a propósito, este texto.

9 de Novembro


Quem quiser ver uma bela montagem de fotos e vídeos sobre a história do Muro, volte atrás.

Mas eu já estou completamente farta e hoje vi as primeiras luzes. Portanto:

8.11.09

Desta vez, cairá só um dominó



O gigantesco dominó pintado por crianças, que será derrubado no fim das comemorações como símbolo da queda do Muro, recordou-me que em 1989 eu vivia na Bélgica, que o meu filho tinha treze anos e frequentava o 8º ano numa escola de Bruxelas.

A escola inteira mobilizou-se para que os alunos percebessem o significado do que estava a acontecer. Na cadeira de História, mas não só, a matéria que estava a ser dada foi interrompida e durante muitos dias substituída por outra adequada às circunstâncias. Viram-se filmes, houve que fazer leituras, trabalhos individuais e de grupo.

Para aqueles miúdos tudo isso foi fundamental, não só para o conhecimento e a vivência dos factos e do seu valor simbólico, como para a compreensão dos alucinantes meses que se seguiram. Por exemplo, sei que em Portugal a transmissão foi feita em diferido, mas na Bélgica vimos em directo, ao vivo e a cores, a execução de Nicolae Ceauşescu e da mulher no dia de Natal – o enquadramento histórico ajudou a «digerir» a terrível violência das imagens.

Porque sou optimista, quero crer que amanhã alguns dos nossos professores vão gastar cinco minutos para explicarem que, há vinte anos, algo de importante se passou na Europa, a menos de 3.000 quilómetros de Portugal. E que não foi propriamente um desafio de futebol…

Este ano com dois dias de atraso


...mas é um ritual de que não prescindo: recordar o frente-a-frente entre Soares e Cunhal, em 6 de Novembro de 1975, a pouco mais de duas semanas do fim do PREC. O país parou para os ouvir, durante quase quatro horas.

Trinta e quatro ano depois: tudo diferente? «Olhem que não!» Vale a pena imaginar os dois primeiros minutos interpretados hoje por… José Sócrates e Jerónimo de Sousa. Eu sei que é um exercício quase impossível, por muitas e variadas razões, mas não custa tentar.

Outros muros



Num site da BBC, história e controvérsias sobre doze muros que já existiam ou foram construídos desde 1989.

Israel, Irlanda do Norte, Arábia Saudita, Ceuta e Melillla, Chipre, Paquistão – Irão, Rio de Janeiro, EUA – México, Índia – Paquistão, Coreia, Saará Ocidental e Botswana - Zimbabwe

7.11.09

Meio século


É a idade que têm os Bee Gees, embora estes três irmãos já cantassem em conjunto antes disso, mas sem nome próprio.

Se os seus maiores êxitos são provavelmente How Deep Is Your Love e Stayin' Alive, foi sem dúvida Massachusetts o que mais se ouvia nos mundos em que me movia nos fim dos anos 60. Veio e ficou durante anos.

O tempo passa depressa
















Amigos de João Martins Pereira juntam-se na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, um ano depois da sua morte, na sexta-feira 13 de Novembro às 21h30.

(A Casa da Achada fica na Rua da Achada nº 11 -ver localização aqui.)

Mais informações nos Caminhos da Memória.

«Talvez alguns, conheço casos, sejam capazes de gerir a vida como se gere uma empresa (estou a exagerar: a maioria das empresas são, elas também, geridas às apalpadelas…): estabelecer objectivos (uma carreira!), definir os meios necessários para os atingir, aplicá-los controlando a progressão, avaliando e corrigindo os desvios. Nunca o fiz – e talvez haja quem me julgue frio a esse ponto…
Foram sempre os pequenos prazeres do "logo à tarde" ou do "logo à noite" que me ajudaram a sobreviver, e não qualquer longínqua certeza ou desígnio. E se alguns planos fiz, foram sempre de curto prazo, para me libertar de tutelas insuportáveis e aumentar a margem desses pequenos prazeres. Pequenos, mas não diria fúteis: a conversa de café (ou a saborosa solidão do café), as leituras, os cinemas, os encontros, os amores passageiros, os passeios pela cidade, os pés de dança, mais tarde as viagens, as chamadas «acções colectivas» (não diria, no meu caso, militantes). Para não falar dos prazeres maiores, das amizades, dos amores "definitivos", e também da Gazeta e das escritas. Tudo isto foi a construção de mim próprio, num pano de fundo de enorme curiosidade pelo futuro, que sempre foi para mim uma aventura no desconhecido, nunca um projecto.

João Martins Pereira, O Dito e o Feito. Cadernos 1984-1987

Alerta amarelo

Cronologia de um Muro

 


Fotografias e pequenos vídeos, enter os quais um com um excerto do discurso de J.F.Kennedy, em 26/6/1963, com a frase que ficou célebre: «Ich bin ein Berliner».

A ler: Mil maneras de huir del socialismo real

6.11.09

Para acabar o serão porque isto tem andado muito sério por aqui

 

Ainda por causa do «Avante!» - epílogo



Não era minha intenção voltar aos textos do último Avante!, mas um mail de um amigo, recebido às 2:25 desta madrugada, levou-me a fazê-lo porque acabou por substituir algumas horas de sono por outras tantas de reflexão.

Ex-comunista mais do que convicto, ficou «irritado» com o que aqui escrevi nos últimos dias, não por eu ter atacado o partido mas por tê-lo feito com «flores» em vez de «tijolos», ao mostrar-me surpreendida mas não suficientemente indignada. Identifica como provável motivo o facto de eu nunca ter estado «lá dentro» e tem razão, pelo menos parcialmente.

De facto: nunca pertenci ao PCP nem a qualquer outro partido marxista-leninista, o meu primeiro contacto com o marxismo foi nos bancos da faculdade (na Bélgica, evidentemente…) e ele só me atingiu vitalmente já bem digerido pelas experiências da América Latina. Mas mais tarde aproximou-se: fui casada durante quase trinta anos com um ex-funcionário clandestino, ex-preso que depois de uma interrupção de alguns anos voltou a «alistar-se» e, se alguém um dia encontrar rastos da minha conta bancária nos arquivos, confirmo que era dela que saía o pagamento das quotas. Li muito e eu e as paredes desta casa assistimos a centenas (milhares?) de horas de discussões teóricas e práticas, sei quinhentas histórias da vida interna do partido, conheci pessoalmente alguns dos seus míticos dirigentes históricos e, como tantos outros, nunca esquecerei o olhar do Pires Jorge.

Tudo isto contribuiu para que haja em mim um distanciamento que nunca perdi, simultaneamente com uma incapacidade de «ódio». Os meus «amanhãs que cantam» nunca passaram por Outubro, Bíblia para mim só houve a do Saramago, nunca a substituí por outra e há décadas que vivo bem assim. Acredito utopicamente que o capitalismo em que vivemos não é certamente o fim da história e que algo de muito melhor acontecerá um dia, mas que isso resultará positivamente de todo o progresso da humanidade e não privilegiadamente do que se pensou e passou, algures a Leste, num afinal curtíssimo período da História.

Por tudo isto, quando leio no Editorial do Avante! de ontem que alguns continuam «…a assumir inequivocamente que as raízes essenciais do projecto de sociedade pelo qual lutam em Portugal se situam nos valores, nos princípios e nos êxitos da Revolução de Outubro» ou «que o futuro da humanidade está (…) nesse socialismo que a Revolução de Outubro nos mostrou ser possível» (os realces são meus), encolho os ombros porque me parecem pouco mais do que boutades, como algumas frases anarquistas ou certos slogans do PREC.

Isto nada retira ao reconhecimento da importância que os comunistas tiveram no mundo e em Portugal, nem ao mérito dos que ainda acreditam que por ele devem continuar a lutar. Mas pouco tenho a ver com tudo isso, a não ser no plano do diálogo com alguns, que julgo conseguir manter pelo menos até certo grau. Pelas mesmas razões, se me irrito quando vejo defesas do indefensável, não tenho motivação suficiente para guerras violentas – e assim regresso ao motivo deste texto –, também porque, sinceramente, não creio que a Quinta da Atalaia venha alguma vez a ser transformada num enorme e «aggiornado» Gulag.

Terra de horror

 











Ter estado em Varanasi, cidade santa indiana nas margens do Ganges, é um pesadelo que me acompanhará para o resto da vida e encontrei há uns dias um texto que descreve bem o que lá se passa em termos de rituais religiosos. Merece ser lido, pelo detalhe das descrições que até explicam que as castas mais elevadas têm crematórios especiais.

É no entanto demasiado frio e objectivo. E faltam lá os turistas, como eu, que ao nascer do dia se acumulam em dezenas de barcaças para ver o espectáculo – dos velhos ex-leprosos estropiados nas escadarias a pedirem esmola, dos banhos purificadores em águas assustadoramente poluídas e de possíveis corpos de crianças a boiarem (as crianças não sei queimadas mas sim atiradas ao rio, por vezes sem a pedra ao pescoço, que é suposto afundá-las, devidamente colocada) – eu vi uma, que deveria ter tido seis meses. Tenebroso.

Tudo isto numa cidade enorme e miserável, onde se vem para morrer, em nome de uma religião que muitos teimam em considerar digna de respeito por diferenças culturais e outras, e que se traduz em espectáculos que em mim provocaram apenas uma terrível revolta. Aliás, tenho dito muitas vezes, meio a sério meio a brincar, que não se desse o caso de ser já ateia e teria certamente passado a sê-lo, a partir daquela madrugada de Outubro de 2005.

P.S. - Entretanto, deste lado do mundo, pretende-se continuar a impor religiosidade com cruzes pregadas em paredes de escolas. Certamente menos chocante, mas é extraordinário que ainda seja necessário perder tempo em tribunais para ganhar guerras como esta.

5.11.09

O PCP e a queda do Muro de Berlim (2)














O que mais me impressiona num texto publicado hoje no Avante!, a propósito do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, e que tem o significativo título «20 anos de retrocesso», é o pessimismo que reflecte da primeira à última linha. A Leste, tudo é hoje «tremendo» no plano social e económico, «amplas camadas da população» estão reduzidas à miséria e «a grande maioria» está privada «de uma perspectiva optimista de futuro». Nem uma palavra de esperança, de ânimo, de reconhecimento de progresso - apenas desgraça. A única solução desejável seria portanto dar à manivela do tempo e recuar duas décadas para regressar ao mundo que estava a construir o «homem novo». O problema é que isso não acontecerá…

Curiosamente, hoje também, foi publicado no El País um artigo de Mikhail Gorbachev: «20 años después del Muro, la historia continúa».

Repare-se na diferença entre os dois títulos: «a história continua» versus «retrocesso».

Entusiástico, vitorioso? Nem pouco mais ou menos. MK reconhece que muitas foram as desilusões e os fracassos e aponta também o beco sem saída a que chegou o capitalismo. Sem pessimismo negro e paralisante. E regozija-se com o facto de o século XX ter marcado «o fim das ideologias totalitárias» no Ocidente - o que, convenhamos, já não é pouco.

«Hoy en día, mientras dejamos a las espaldas las ruinas del viejo orden, podemos pensar en nosotros mismos como activos participantes en el proceso de creación de un mundo nuevo. Muchas verdades y postulados considerados indiscutibles (tanto en el Este como en el Oeste) han dejado de serlo.»

Mikhail Gorbachev não é certamente o guru iluminado que pode apontar novos rumos ao mundo. Mas este texto, ao contrário do primeiro, deixa-nos pelo menos «respirar»!

P. S. - Chamaram-me a atenção, por mail, para a pouca «credibilidade» de MK. Reproduzo parcialmente o que respondi: é-me relativamente indiferente, neste caso, porque se trata de um / o protagonista na origem dos acontecimentos que estão em causa e dizem-me o que ele pensa neste momento. Por outro lado, eu não estou aqui para «convencer» ninguém (citando apenas pessoas «credíveis»), mas para divulgar informação (neste caso, o artigo de MK) e dar a minha opinião pessoal.

Sócrates / Pacheco Pereira, episódio 1













Como seria de esperar, o primeiro embate entre os dois, esta manhã na AR, não foi meigo nem inócuo. O essencial pode ser lido aqui.

JPP atacou com dureza? Certamente, mas foi absolutamente correcto. Não se referiu a inglês técnico nem a projectos de casas em Rapoula. Sócrates respondeu-lhe assim: «Falar de humildade ao senhor deputado talvez seja um pouco excessivo. Uma vez revolucionário, revolucionário toda a vida. De defensor da classe operária, passou a defensor da classe política» - frase absolutamente despropositada, obviamente estudada em casa e que sairia qualquer que fosse o assunto em discussão.

Hoje, desapareceu definitivamente o secretário-geral ameno da campanha eleitoral, regressou o primeiro-ministro agressivo, com um permanente e insuportável sorriso jocoso para tudo e para todos. Mais do mesmo - mas o cenário é outro.


P.S. - A ler.