21.1.19

China: regresso à terra natal para o Festival da Primavera



Mais imagens aqui.
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E, não obstante, o Supremo Tribunal de Justiça viola a Constituição da República



«Quinze de Janeiro. É sempre normal, por esta data, ter lugar a cerimónia de abertura do Novo Ano Judicial e este ano não foi excepção. Com a presença dos titulares dos cargos mais importantes da República.

Este ano de 2019, em que estamos a dois meses de completar 45 anos sobre a Revolução de Abril de 1974 e 43 sobre a aprovação da Constituição da República Portuguesa. Em que em Junho passarão 18 anos sobre a publicação em Diário da República da Lei da Liberdade Religiosa.

E, não obstante, o cardeal patriarca lá estava na sessão solene, com lugar de destaque e invocação pela generalidade dos que usaram da palavra, como é também sempre normal. Ora, é precisamente a normalidade desta presença que não pode aceitar-se e nem sequer a sua habitualidade.

Portugal é uma democracia laica e, tanto quanto presumo, nenhum dos partidos representados na Assembleia da República pretende reverter esta realidade, que muito custou a alcançar a quantos lutaram contra o Estado Novo.

A Constituição da República, desde a sua primeira versão de 1976, é claríssima na consagração da separação das religiões e do Estado, sem qualquer excepção, nem sequer da Igreja Católica, num país cuja população se declara maioritariamente católica.

Determina o actual art.º 41.º, n.º 4 da Constituição que As igrejas e outras comunidades estão separadas do Estado, disposição que é repetida no art.º 3.º da Lei da Liberdade Religiosa, contida na Lei n.º 16/2001, de 22 de Junho.

Estabelece o n.º 2 do artigo seguinte (o 4.º) da Lei da Liberdade Religiosa que Nos actos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade.

Estas disposições legais são obviamente do conhecimento das mais altas instâncias nacionais e muito mais o são, naturalmente, dos titulares dos cargos mais relevantes da máquina judicial, que são os venerandos conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça. E, não obstante, todos têm feito tábua rasa dos dispositivos constitucionais atrás convocados e condescendem com a sua violação. Talvez seja por considerarem a sua violação normal e habitual ou vice-versa. Talvez.

Talvez seja eu quem está errada. Talvez. Mas, não obstante, abençoado (já que de religião se trata) erro, que me mantém a lucidez.»

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20.1.19

Três anos sem Nuno Teotónio Pereira


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20.01.1973 - Amílcar Cabral



Foi nesse dia, há 46 anos, que Amílcar Cabral foi assassinado em Conacri. Tivesse a morte esperado um pouco mais e teria assistido ao 25 de Abril.

Nasceu na Guiné, em Bafatá, em 12 de Setembro de 1924, fez o liceu em Cabo Verde e veio mais tarde para Lisboa onde se licenciou em Agronomia. Em 1956 foi um dos fundadores do PAIGC, partido que, em Janeiro de 1963, declarou guerra contra o colonialismo de Portugal.

Está disponível online um riquíssimo arquivo, recuperado e tratado pela Fundação Mário Soares, a pedido das autoridades guineenses e cabo-verdianas e com o especial empenho de Aristides Pereira, Iva Cabral e Pedro Pires. Encontra-se na «Casa Comum», site criado por aquela Fundação, e pode ser consultado a partir daqui.

Um pouco de história e (boa) música com os Super Mama Djombo:



Leitura aconselhada: Diana Andringa, Conversas sobre Amílcar (Público, Janeiro de 1993)

Eles pulam e avançam




Estes discursos estão a ir mais longe, e mais depressa, do que talvez suspeitássemos..
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Ele lá sabe...


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Mulheres



«Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Falar de igualdade entre homens e mulheres já não é necessário, dizem algumas vozes que procuram convencer que por se dizer uma coisa ela é automaticamente realidade. Penso exatamente o contrário. Este é o tempo de não deixarmos cair os direitos das mulheres, de não aceitar recuos, de percebermos que a resistência é a condição para não perder o direito que nunca o foi mas que pode vir a ser. Fingir que não está a acontecer é meio caminho andado para voltarmos à condição de pessoas de primeira e pessoas de segunda, com a agravante da suposta legitimidade democrática.

Em toda a Europa, as mulheres estão menos integradas no mercado de trabalho, em média 12% abaixo dos homens. Das que têm trabalho, um terço exerce-o só a tempo parcial. As mulheres têm salários mais baixos, mais concretamente 16% menos do que os homens só na União Europeia. As mesmas qualificações e o mesmo posto não são sinónimo de salário igual. As mulheres têm pensões ainda mais baixas. Neste caso, a média é de 40%, e não os 16%, porque se acumulam todas as desigualdades de uma vida. São as mulheres quem mais cuida dos filhos. São as mulheres quem mais cuida de familiares com deficiência ou com necessidades de cuidado permanente. Também na União Europeia, 80% dos cuidados são prestados por cuidadores informais, dessas 75% são mulheres. As injustiças acumuladas de uma vida fazem que as mulheres cheguem à idade de reforma com quase metade dos recursos para viver.

Por muitas declarações que continuem a ser feitas, a igualdade entre homens e mulheres só estará mais próxima de ser realidade quando passar a integrar as políticas concretas. Nesta semana deu-se um passo no Parlamento Europeu para que sejam integradas nas políticas fiscais. Caberá aos diferentes governos aceitar ou não o repto, mas nenhuma das propostas apresentadas é impossível. Impossível é continuar a fechar os olhos às evidências.»

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19.1.19

Muros e muralhas


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10.01.1942 - Nara Leão



Nara Leão faria hoje 77 anos e morreu, em 1989, com apenas 47. Estreou-se em 1963, mas a sua verdadeira consagração deu-se depois do golpe militar de 1964, em «Opinião», um espectáculo de crítica à repressão policial. Foi passando de musa da Bossa Nova a cantora de protesto.

Canções? Muitas, com destaque para «O Barquinho», «Com Açúcar e com Afecto» e a inesquecível interpretação de «A Banda» com Chico Buarque da Holanda.






E em 1966: ainda hoje como se fosse ontem.


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Jornalismo a meia-haste





Graça Franco
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Mujica e Bolsonaro, o que nos eleva e rebaixa



«Há umas semanas vi o filme “Uma Noite de 12 Anos”, de Alvaro Brecher. O filme conta os 12 terríveis anos de cativeiro de José Mujica, carinhosamente conhecido pelo seu povo como “Pepe”. Durante a ditadura militar uruguaia, Mujica e dois companheiros viveram 12 anos de terror, grande parte do tempo em isolamento total, com sessões de tortura e fome. “Pepe” esteve mesmo à beira da demência. O filme está disponível na Netflix.

Apesar de Mujica ter sido Presidente do Uruguai, viveu sempre uma vida espartana, abaixo de classe média. Numa casa pequena, fora de Montevideu, onde trata, com a sua mulher (que é senadora), da sua pequena exploração agrícola. Tem um “carocha”, uma casa minúscula e pouco mais. Tenho inveja de pessoas como “Pepe”. Que se conseguem libertar do dinheiro e do que ele nos dá. São mais livres do que eu sou ou alguma vez conseguirei ser. Se querem conhecer a sua vida, as suas contradições e o seu exemplo, podem ver o documentário de Emir Kusturica, “El Pe pe”. Aí não se esquece que a sua militância nos Tupamaros incluiu assaltos a bancos e luta armada. Mujica não é beatificado.

Já AQUI escrevi que não podemos fazer política com a santidade. Porque isso excluiria quase todos da política e a aproximaria perigosamente da religião. Mas isso não nos impede de nos comovermos com Jose Mujica. Com o que a sua história, a sua resiliência e a sua pobreza escolhida nos ensinam. O exemplo é sempre mais comovente quando não é dever e quando não é para ser seguido. Quando é uma escolha do próprio que a ninguém a quer impor. No caso de Mujica, é uma radical coerência política que ajuda a ilustrar um desejo intransigente de liberdade. Vi “Uma Noite de 12 Anos” poucos dias depois da tomada de posse de Jair Bolsonaro. Ao ver o filme sobre aqueles 12 terríveis anos de cativeiro, tortura e sadismo, e ao olhar para como foi Presidente e como continua a ser político, não pude deixar de pensar no contraste. De um lado temos um homem que lutou a vida toda, que sofreu a tortura e o isolamento durante anos, do outro um militar medíocre (apesar de ter a Academia Militar, nunca passou de capitão) e que vegetou num congresso durante 26 anos, sem nada de relevante ter ali produzido – conseguiu aprovar apenas dois projetos, mesmo quando havia largas maiorias conservadoras.

De um lado temos um homem que é, para qualquer pessoa, extraordinário. E é extraordinário porque se distingue de nós pela liberdade que escolheu para si e de praticamente todos os estadistas pela simplicidade que conseguiu manter. Fazendo dela uma mensagem política. E foi através dessa extraordinária diferença que se aproximou do povo. Do outro lado temos um homem boçal no trato e indiferente nas suas capacidades. E é através da semelhança com a banalidade humana, no que ela tem de pior, que ele se aproxima do povo. De um lado temos alguém que teve uma vida dura e que não guardou ressentimento. A sua mensagem é de tolerância. Do outro temos um tipo cuja vida não se distingue pela coragem ou pelo trabalho, mas pela capacidade de transmitir em público o pior dos sentimentos humanos: o preconceito, o ódio e o ressentimento. De um lado temos um discurso combativo mas nunca consumido pelo ódio, do outro temos o ódio como único programa político.

A democracia tende, pelo menos do ponto de vista simbólico, a igualizar o poder de todos. E é por isso que ela também tende para a mediania, que é a sua parte dececionante. As redes sociais vieram trazer uma coisa mais estranha, que alguns autores já tinham assinalado, há dois séculos, como um perigo democrático: o desprezo por tudo o que se distinga. Uma das coisas mais comuns no discurso político, à esquerda e à direita, é a ideia de que queremos “pessoas como nós” a representar-nos. Não aqueles que consideramos os melhores de nós. Na realidade, a tendência tem sido a de querer aqueles que representam o pior de nós. E que assim nos reconfortam.

Os heróis são os santos laicos. Precisamos deles como exemplo que nos permite a busca de um ideal. São uma espécie de utopia viva que nos dá um horizonte para onde caminhar. Não quero uma política feita de santos, quero uma política feita de pessoas. Mas no meio daqueles que nos representam tem de haver alguns exemplos que nos mobilizem. A diferença entre Mujica e Bolsonaro não é apenas política, apesar dela ser bastante relevante. As suas funções junto do povo são as opostas. Um é seguido pelo povo por ser aquilo que todos sentimos que devíamos ser. Eleva-nos. O outro é seguido pelo povo por ser aquilo que nós sabemos que não devíamos ser mas somos. Rebaixa-nos, porque nos autoriza a não querer ser melhores. Um teve uma vida extraordinária, outro teve uma vida ordinária, nos dois sentidos que a palavra tem. Um retirou do seu sofrimento (na luta armada e nos terríveis anos de prisão e tortura) alegria; outro retirou do seu privilégio (nas forças armadas onde foi um militar sem brilho, no Congresso onde foi deputado sem obra) ódio. Eles não são apenas dois olhares políticos, eles são, mesmo detestando maniqueísmos, o que mais se aproxima do bem e do mal. Mesmo com as contradições que cada um tenha, porque nem o bem ou o mal são simples.»

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18.1.19

Ary dos Santos morreu num 18 de Janeiro



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Marcelo no nosso labirinto




Baralhada me confesso: o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa vai a este evento religioso como jovem católico ou como presidente de Portugal?
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Em tempos de Gerigonça, também se formam Zingarelhos




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Robôs e outras coisas que vale a pena discutir



«Absorvido pelas agendas particulares que determinam a discussão pública, o país passa muitas vezes ao lado dos verdadeiros desafios do futuro próximo. Como o que um estudo da CIP põe em questão, ao alertar para a destruição de 1,1 milhões de postos de trabalho no curto prazo de uma década por força das mudanças em curso com a digitalização e robotização da economia.

Não é ficção científica, e mesmo que os mais cépticos tendam a encontrar alguma dose de exagero, os desafios com que a actual geração que trabalha ou a que se prepara para entrar no mercado laboral se confronta ameaça mudar radicalmente o mundo que conhecemos. Discutir as consequências dessa mudança nos empregos, na política, na geografia das cidades ou nas rotinas do quotidiano é uma obrigação.

PUB O impacte da robotização vai causar mudanças em todos os países desenvolvidos e se as perspectivas do estudo dirigido pela consultora McKinsey apontam para a destruição de mais de 20% dos postos de trabalho existentes, é porque Portugal continua sustentado num modelo de desenvolvimento que tolera vastas zonas de arcaísmo em que predominam os salários baixos. Muitos dos seus trabalhadores (uns 700 mil) poderão dispor de alternativas. Outros talvez não – porque o que se augura só em parte poderá ser uma destruição criativa. Muitas empresas e ofícios deixarão de fazer sentido.

É verdade que Portugal está mais bem preparado do que nunca para a quarta revolução industrial, como avisou o primeiro-ministro. Talvez – porque as exigências dessa revolução implicam uma noção de velocidade e de ruptura que tornam a era do vapor um idílico pôr-do-sol.

Mantendo as marcas da sociedade dual que o sociólogo Adérito Sedas Nunes detectou nos anos de 1960, com segmentos de produção científica e de organização empresarial do primeiro mundo com vastas camadas de população sem o ensino secundário a trabalhar em empresas ineficientes, Portugal vai sofrer um choque que ditará o seu próximo ciclo de desenvolvimento.

Entretidos com a próxima greve, o conflito politiqueiro ou com as indignações do dia das redes sociais, os portugueses estão a passar ao lado destas ameaças (e das suas oportunidades). Era bom que, para lá das medidas anunciadas pelo Governo, houvesse novas acções de formação, novos currículos escolares, mais estímulos à reconversão empresarial ou mais aposta na ciência.

Para lá chegarmos, porém, teremos de acreditar que no próximo ciclo político haverá oportunidade para discutir o país e não apenas a agenda da constelação de estrelas e de cometas que gravita em torno do Estado.»

Manuel Carvalho
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17.1.19

Para festejar os 90, um Popeye politicamente correcto



«A nova série Popeye’s Island Adventures, disponível no YouTube, contará com 25 curtas animados para celebrar os 90 anos que o personagem completa em 2019. Os episódios apresentam um marinheiro de traços mais amigáveis, um apito no lugar do cachimbo e espinafre orgânico na dieta. Para quem não lembra, Popeye abria um enlatado com a hortaliça — agora, ele tem sua própria horta no navio.


E pachorra para aturar isto?
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Françoise Hardy, 75



Françoise Hardy nasceu em 17 de Janeiro de 1944. Em 2015, em luta contra um cancro, anunciou que tinha posto fim à carreira. Mas venceu o dito cancro e lançou, em 2018, o seu 28º álbum: «Personne d’autre».

Seja como for, quando desaparecer, nós, «les garçons et les filles de son âge», ficaremos para sempre a dever-lhe memórias de ternura e de inocência. Voltar a ouvi-la, nos seus primeiros tempos, devolve-nos uma ingenuidade que parece hoje irreal, quase impossível que alguma vez tenha existido.

Do álbum de 2018:




Do álbum de 2012:




E, inevitavelmente, o início de tudo (1962), a canção ícone que ficou para sempre, com letra e música de sua autoria:


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A China, enquanto a Europa dorme




O corredor aéreo de Chongqing. 430 metros de largura a 300 metros de altura. (Ler mais informação aqui.)

Em 2004, quando lá estive, Chongqing, era uma cidade caótica, feiíssima, com uma poluição devastadora, nas margens do rio Yangtse. Era então «uma aldeia» com 9 milhões de habitantes e leio que tem crescido mais de 600.000 por ano. Safavam-se os pandas do Jardim Zoológico e os palácios do tempo de Chiang Kai-shek quando esta cidade foi capital da China. Hoje é assim…



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Battisti, Marielle e "Bolsogate"



«De repente, os passageiros de um naviozinho que atravessava tranquilamente parte do rio Amazonas são surpreendidos por um cenário cinematográfico: a polícia abalroa a embarcação em plena caça ao homem, como num filme de ação americano, daqueles de sessão da tarde.

Além dos passageiros do barco amazonense, também funcionários de embaixadas estrangeiras em Brasília tiveram os seus pacatos e burocráticos dias desassossegados pela entrada abrupta de agentes excitadíssimos, na mesma caça ao homem, de arma em punho.

A família de um amigo do ex-presidente Lula da Silva parou tudo o que estava a fazer quando polícias, possuídos por um furor bélico, lhe invadiram a casa ainda na tal caça ao homem.

Foram cerca de 30 diligências deste tipo - à Inspetor Clouseau, portanto - em menos de um mês para tentar encontrar Cesare Battisti, um ex-terrorista de extrema-esquerda italiano, sessentão, que se exilou no Brasil por anos e era considerado foragido desde pouco antes do Natal.

Não estava no barco do Amazonas, em nenhuma embaixada estrangeira ou sequer escondido em casa de um amigo de Lula, como a polícia do Brasil supôs. Foi apanhado enquanto caminhava numa via de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, pela Interpol, por uma polícia especial italiana e por agentes bolivianos na peugada de Battisti naquela localidade há quase um mês, andavam as autoridades brasileiras à toa, de pista falsa em pista falsa.

O governo Bolsonaro, infestado de militares, ainda tentou sair bem na fotografia: após reunião com o presidente himself, o ministro da Justiça Sergio Moro e o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, o titular do Gabinete de Segurança Institucional general Augusto Heleno anunciou que de Santa Cruz, Battisti apanharia um voo para território brasileiro, enviando ao local uma aeronave paga pelos contribuintes para esse efeito.

Os italianos não quiseram saber e trasladaram o terrorista diretamente da Bolívia para Roma, passando por cima - literalmente - do Brasil.

O voo para Fiumicino decorreu a 14 de janeiro, dia em que passaram dez meses sobre o assassínio de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, cidade que passou o ano todo sob intervenção militar especial.

De então para cá, só se sabe que nada se sabe. Só não se sabe se não se sabe porque não se quer saber ou porque não se consegue mesmo saber porque má-fé e incompetência confundem-se entre si e confundem-nos a todos.

No início de dezembro, entretanto, estourou o "Bolsogate", um escândalo em que, desconfiam as autoridades, um assessor do ex-deputado estadual do Rio Flávio Bolsonaro, primogénito de Jair, recolhia o dinheiro dos outros assessores todos, na sua maioria fantasmas, e os repassava ao deputado, prática velha e ilegal chamada localmente de "mensalinho". Até Michelle Bolsonaro, a primeira-dama, aparece como destinatária dessas transferências.

Solicitado a prestar esclarecimentos, o assessor em causa já se furtou duas vezes, alegando razões de saúde. Os seus familiares também escaparam. E Flávio, que tem a prerrogativa parlamentar de escolher hora e data para falar, ainda não se dispôs a enfrentar a justiça, lembrando a velha rábula do pai a fugir dos debates televisivos eleitorais.

Os dribles policiais de Bolsonaro e amigos, assim como os de Battisti e os dos assassinos de Marielle, são casos, entre outros, que servem para adensar a insegurança dos brasileiros em quem lhes deve garantir segurança.

Não é justo responsabilizar apenas o atual presidente, empossado no início do ano, por estes fracassos - mas é obrigatório exigir resultados durante o seu mandato.

Afinal, a segurança é a sua (única) área de expertise, o seu governo parece uma messe de oficiais na reserva e ainda cabe lá Moro, o implacável super-herói na luta contra o crime.

E afinal foi Bolsonaro quem deu em campanha eleitoral a solução genial para a guerra de traficantes na favela da Rocinha: distribuir, através de um helicóptero, milhares de panfletos no local a dar seis horas para os criminosos se entregarem. Caso eles não o fizessem, abrir fogo sobre a maior favela do país.»

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