21.5.19

Voto (1)


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20.5.19

Futebóis



Não sei se Lisboa só tem reformados e gente no desemprego, mas a Praça do Município já está cheia de adeptos do Benfica para umas festividades na CML, que terão lugar às 18:30 e oiço que alguns estão lá desde a 1:00 da tarde. Para verem o quê, exactamente? Cada jogador com mais um Santo António pintado de vermelho na mão? A taça? Ou a águia desce à baixa? Note-se que nada tive contra os festejos, a quente, no Sábado à noite no Marquês. Mas mais? Hoje?
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A CML não quer uma rua com os nomes dos assassinados pela PIDE em 25 de Abril de 1974?


Há cerca de um ano, 446 cidadãos puseram «à consideração da Câmara Municipal de Lisboa, e respectiva comissão de toponímia. a proposta de atribuir os nomes de João Arruda, Fernando Gesteiro, Fernando dos Reis e José Barnetto a um arruamento ou lugar da capital. Por dever de memória para com aqueles que viveram a liberdade durante apenas algumas horas e que podem ajudar-nos a dar a essa palavra um significado maior. São eles os heróis improváveis da revolução. Não permitamos que se lhes junte o adjectivo "esquecidos"».

A iniciativa foi bem acolhida a nível da Assembleia Municipal, em reunião de duas comissões na qual estive presente juntamente com Pedro Vieira que encabeçou o abaixo-assinado e a pedido deste. O tempo passou e foi hoje recebida uma comunicação do gabinete da vereadora da cultura da CML, em que é anunciada a recusa. É avançado como motivo principal que «os Cidadãos em causa já se encontram devidamente homenageados» numa placa com os nomes pretendidos numa parede do agora condomínio de luxo que foi sede daquela organização, na R. António Maria Cardoso, em Lisboa. Como se esta iniciativa que tanta luta deu a muitos de nós, e que NÃO foi iniciativa da CML, devesse ser motivo para o alheamento desta, num concelho onde se abrem novas ruas e becos por tudo quando é sítio!

Quando for recebido o texto do «Ofício do Núcleo de Toponímia» (hoje, chegou apenas um mail a anunciá-lo), serão decididas as acções a tomar.

(Pode ser lido AQUI o texto do abaixo-assinado enviado em Maio de 2018, bem como os nomes de todos os subscritores.)
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Descoberto plano para manipular a democracia em Portugal



«Ao fazer compras online ou ao pôr um “like” no Facebook, expomos a nossa identidade e privacidade a uma reserva gigantesca de dados. Sim, há aí um enorme potencial para a humanidade. Mas há também uma série de ameaças para as quais temos de estar atentos. Oitavo de uma série de dez textos sobre os riscos da “revolução digital”.

Este título podia remeter para uma notícia verdadeira, mas não é o caso. Foi fabricado apenas para demonstrar como se pode facilmente manipular a informação com o objectivo de conseguir mais visualizações e reacções (as minhas desculpas aos leitores!). A manipulação pode ser feita com base em factos verdadeiros ou pode ser totalmente fabricada, mas, uma vez lançados nas redes sociais, os conteúdos ganham vida própria e influenciam percepções e contextos offline.

Os novos media digitais simbolizam abertura, permitem aproximar e mobilizar pessoas, divulgar ideias e promover pluralidade nos debates. Mas existe também a outra face da moeda e, se dúvidas ainda persistissem sobre o seu impacto negativo na democracia, os mais recentes acontecimentos contribuiriam certamente para as dissipar. O ambiente online, que é amplamente definido por algoritmos criados por empresas como o Facebook e Google, está a transformar os comportamentos sociais e políticos. Apesar de não terem sido eleitos, Mark Zuckerberg (Facebook) e Larry Page (Google, Alphabet) estão actualmente entre as pessoas que mais poder têm no mundo. E entre o que mais tem proliferado com a utilização dos novos meios de comunicação está o extremismo. Os media online têm estado no centro do debate sobre eleições de populistas, campanhas de ódio ou ataques terroristas, levando a cada vez mais pressão para controlar (e censurar) o conteúdo na Internet.

São vários os “novos” desafios à democracia, entre eles: a criação de “bolhas”, que isolam os cidadãos numa realidade em que só lhes é dito aquilo que querem ouvir, a partilha de notícias falsas, e os problemas que isto coloca à liberdade de expressão.

As novas tecnologias vieram aperfeiçoar os instrumentos que permitem segmentar os utilizadores/eleitores e direccionar-lhes mensagens específicas. E se a lógica destas técnicas não é nova, uma vez que a aplicação de técnicas de mercado à democracia já é feita pelo menos desde a década 1930, a rapidez e precisão aumentaram exponencialmente. Algoritmos permitem agora recolher e analisar quantidades imensas de dados pessoais que cada utilizador produz através das suas pesquisas na Internet, das suas compras online, dos seus telemóveis e dos seus perfis nas redes sociais.

Pensemos numa qualquer campanha política. O seu sucesso passa pela capacidade que os candidatos têm de interagir com os eleitores e para isso sempre precisaram de informação. Mas se antes as mensagens eram mais genéricas, para agradar a “gregos e a troianos”, agora é possível agrupar os eleitores de acordo com critérios específicos (localização, sexo, interesses e comportamentos, etc.), o que permite enviar mensagens altamente personalizadas com base nos seus perfis. Estes programas de inteligência artificial conseguem mesmo prever características mais sensíveis, como a religião, e ajudar a desenhar mensagens que podem ser diferentes para si e para a pessoa que está ao seu lado, sem que ninguém se aperceba. Naturalmente, estes dados pessoais dos utilizadores podem ser utilizados para vários fins, incluindo para influenciar as suas percepções políticas, com efeitos nos resultados das eleições.

E se, idealmente, a informação sobre os factos seria uma base neutra, fundamental para resolver debates políticos, algo que permitiria sustentar acordos, agora é, mais que nunca, uma mercadoria, sujeita às regras de mercado, cuja livre manipulação é considerada ”normal” na disputa pelo poder. Organizações com menos escrúpulos podem criar informação falsa (as chamadas “fake news”) e enviá-las apenas aos eleitores mais susceptíveis. Isto não faz parte de um futuro distante, é o presente.

O que nos coloca perante outra questão fundamental: a dos limites à liberdade de expressão. As redes sociais e sua utilização foram apresentadas como uma ferramenta com enorme potencial de democratização e de participação política (recordemos os eventos que ficaram conhecidos como a Primavera Árabe) e têm certamente permitido que mais pessoas comuniquem em países totalitários ou com regimes muito controladores. No entanto, a utilização que tem sido feita dos meios online em eventos recentes, como os ataques terroristas em Christchurch, Nova Zelândia, em Março de 2019, ou no Sri Lanka cerca de um mês depois, levaram a pedidos de censura da informação e de limites à circulação de informação, práticas até agora próprias de governos autoritários. O Governo do Sri Lanka justificou o bloqueio das redes sociais após os ataques terroristas para evitar a propagação de notícias falsas que pudessem causar o pânico entre a população ou incitar ao ódio contra grupos específicos de uma sociedade, que é multicultural. E após o ataque em Christchurch que foi transmitido em directo, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, tornou-se uma das mais fervorosas defensoras da censura nas redes sociais, com o objectivo de eliminar os conteúdos relacionados com extremismos e terrorismo que circulam nestas redes.

A decisão do Facebook de apagar páginas e perfis de extrema-direita antes das eleições de Espanha (Abril de 2019) e das eleições europeias (já no próximo domingo) e a do Twitter de fornecer uma ferramenta para os utilizadores poderem denunciar informação falsa relacionada com as eleições demonstram não só como estas estratégias estão a ser postas em prática, como são, em muitos casos, bem-sucedidas. Ainda assim, o Facebook, cujas políticas têm motivado muitas críticas ultimamente, anunciou que não fechava estas páginas devido ao seu conteúdo, mas sim pelos indícios de se tratar de violações da política de autenticidade (ou seja, de serem páginas e contas falsas eventualmente actualizadas por software automático, bots, e não por utilizadores reais). Falsidade e extremismos parecem caminhar lado a lado nas redes sociais.

Deve então a manutenção do princípio de uma Internet completamente livre e aberta sobrepor-se à prevenção de extremismo e falsidade? O debate que tem de ser feito não se deve centrar apenas nos limites à liberdade de expressão, mas deve incluir também a responsabilidade das plataformas online e redes sociais na partilha de conteúdo falso ou de natureza extremista. As redes sociais não são os media tradicionais, que podem ser responsabilizados pelo que publicam, nem operadores neutros, como as redes de telecomunicações. Têm como modelo de negócio a monetização dos dados dos seus utilizadores e essa informação está a ser utilizada em campanhas com fins diversos, para influenciar comportamentos, incluindo eleitorais.

Se historicamente os media tradicionais têm operado na distinção entre o interesse do público (para aumentar as audiências e, logo, as receitas) e o interesse público, que inclui a defesa dos valores democráticos, para as empresas da Internet esta visão dos conteúdos a publicar está completamente ultrapassada: o seu modelo de negócio assenta em promover o que provoca mais receitas, geradas por mais visitas e clicks, promovidas por mais reacções. Isto cria uma espiral de afastamento, um efeito centrífugo nas opiniões, afastando-as do centro para os extremos, porque é precisamente aí que estão as emoções.

A sociedade pode exigir a responsabilização destas plataformas mas, para isso, é fundamental que os cidadãos e eleitores estejam informados e que assumam a sua responsabilidade na divulgação de conteúdos falsos. Para além das contas falsas e bots, os cidadãos também partilham “fake news”, logo cada um de nós tem de se perguntar se pensa na veracidade e no impacto daquilo que decide partilhar online. Existem cada vez mais serviços de identificação de notícias falsas, como o snopes.com e, mais recentemente em Portugal, o Polígrafo. Mas campanhas como a “Pro-Truth Pledge” alertam que só uma sociedade mais atenta, informada e comprometida com a verdade pode colocar travões à epidemia de notícias falsas. Plataformas que promovem o debate aberto e inclusivo podem ajudar a contrariar a radicalização e a polarização. Estes espaços virtuais também podem facilitar a identificação de notícias falsas, reforçando o combate à desinformação nas eleições futuras. Fora dos ciclos eleitorais, a participação democrática dos cidadãos pode ser potenciada pela dinâmica das redes sociais. Precisamos, contudo, de legislação adaptada à nova realidade que proteja a democracia. Mas também passa por nós: não nos deixemos manipular, nem manipular a nossa democracia.»

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19.5.19

António Barreto 3.0?



E, inesperadamente, lê-se isto que António Barreto escreve no Público de hoje, 19.05.2019:

«O que também enfraqueceu o Estado democrático foram as privatizações e as reprivatizações que moldaram a política e a economia das duas últimas décadas. Feitas aparentemente pelas boas razões, por espíritos liberais, concebidas para libertar a sociedade e a economia, levadas a cabo com as melhores intenções expressas, acabaram por ser o leilão histórico de empresas, a destruição de algumas, a alienação irreflectida de outras e a entrega de poderes a grupos de predadores nacionais e estrangeiros. Assim se liquidaram, alienaram ou miniaturizaram empresas e sectores como os telefones, os cimentos, a electricidade, os petróleos, a rede eléctrica, o gás, os correios e outras.

Catervas de políticos à solta, bandos de capitalistas (nem todos empresários…) e de traficantes de influência (nem todos ilegais…), associados a advogados e seus escritórios, ligaram-se ao poder político com mais profundidade e mais intimidade do que o Estado Novo salazarista ou o comunismo de Cunhal e Gonçalves e estreitaram o seu conúbio com dois partidos, o PS e o PSD. Governam a sociedade e a política. E até agora não encontram diante de si instituições livres, independentes e eficazes que lhes ponham travão. É o que faz um país vulnerável.»
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Agora os pandas



Nem com um grande esforço de imaginação, pensei alguma vez que a guerra entre grandes potências mundiais passasse pelo destino de dois desgraçados pandas e fizesse com que tivessem de cruzar oceanos e sofrer quarentenas.

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10 de Junho?


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A hostilidade aos professores



«A hostilidade aos professores é evidente em muitos sectores da sociedade portuguesa. Manifestou-se mais uma vez no último conflito gerado pelas votações dos partidos na Assembleia atribuindo aos professores a contagem integral do tempo de serviço. Antes, durante e depois deste processo, a vaga de hostilidade aos professores atingiu níveis elevados, com a comunicação social a escavar fundo a ferida, com sondagens orientadas e uma miríade de artigos de opinião e editoriais.

Valia a pena parar para pensar, porque este movimento de hostilidade é mais anómalo do que se pensa, e acompanha outros, como o ataque aos velhos como sendo um “fardo” dos novos. Mostram que estamos a entrar numa cosmovisão social que implica um retrocesso enorme naquilo a que chamamos precariamente “civilização”. É preciso recuar muito para encontrar ataques aos professores, o último dos quais teve expressão quando a escola laica, em países como a França, foi um alvo importante da igreja, que tinha o monopólio do ensino.

Mas eu seria muito cuidadoso sobre as razões dessa actual hostilidade, porque ela incorpora aspectos muito negativos da evolução da nossa sociedade. É um caminho que muita gente está a trilhar, sem perceber que ele vai dar a um profundo retrocesso. E isso acontece muitas vezes na história: anda-se para trás quase sem se dar por ela, contando com a inacção, a apatia, ou a acédia, de quem deveria reagir. Como a democracia é uma fina película contra a barbárie e é apenas defendida pela vontade dos homens e não por nenhuma lei da natureza, mais vale prevenir com todos os megafones possíveis.

Há vários aspectos na actual hostilidade. Há uma agravante no caso português que tem a ver com a vitória muito significativa da ideologia da troika, que está longe de ter desaparecido e, nalguns casos, migrou para sectores que lhe deveriam ser alheios e não são: os socialistas, por exemplo. Disfarçada de “economia”, essa ideologia assenta numa visão pseudo-cíentifica, muito rudimentar e simplista, cheia de variantes neo-malthusianas, que se apresentou como não tendo alternativa, a nefasta TINA. Isto encheu-nos as cabeças e não saiu delas.

Essa ideologia centra-se na crítica do Estado, em particular do Estado social, e transforma os funcionários públicos em cúmplices de uma rede de privilégio, sendo descritos apenas como “despesa” excessiva. Vale a pena ensinar-lhes um pouco de história europeia e lembrar-lhes o papel do Estado desde Bismarck como instrumento para impedir sociedades bipolares de “proletários” e ricos, com a consequente conflitualidade social extrema. Acresce que esse processo criou à volta do Estado uma classe média, os tais desdenhados funcionários públicos, que não só funcionou como tampão como arrastou muita gente que vinha da pobreza e acedeu à mediania. A economia privada e o dinamismo das empresas, quando existiu ou existe, teve e tem igualmente esse papel, mas não chegou para criar este elevador social.

Portanto, gritem contra a função pública e os malefícios do Estado, que também existem como é óbvio, mas percebam que o pacote de não ter professores, enfermeiros, médicos, jardineiros, funcionário das repartições, leva atrás de si o ensino e a saúde pública, que são componentes essenciais do elevador social, o único meio de retirar as pessoas da pobreza, quer no privado, quer no público. Pais lavradores, que conheceram a verdadeira pobreza, filha professora primária ou funcionária pública, neto estudante universitário – sendo que o papel da educação é um elemento fundamental para esta ascensão.

Depois, há outros ingredientes. Os professores protestam, fazem greves, boicotam exames, fecham escolas, e hoje há uma forte penalização para as lutas sociais. Quem defende os seus interesses é penalizado e de imediato tem contra si muita comunicação social, o bas-fond das redes sociais e a maioria da opinião pública. São os enfermeiros, os camionistas, os professores, os trabalhadores dos transportes – manifestam-se, são logo classificados de privilegiados e egoístas. Os mansos que recebem migalhas no fundo do seu ressentimento invejam quem se mexe. Sem mediações, a sociedade esconde os que não precisam, e pune os que lutam. As greves hoje são solitárias.

Por fim, e o mais importante, há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala. É o que leva Trump a dizer que se combatia o incêndio de Notre Dame com aviões tanques atirando toneladas de água, cujo resultado seria derrubar o que veio a escapar, paredes, vitrais, obras de arte. É destas “bocas” que pululam nas redes sociais que nasce também a hostilidade aos professores. É o ascenso da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro.»

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18.5.19

«Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem»


… já dizia Cristo e o conselho não perdeu actualidade.

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«O medo não pode ser tudo, este é ainda o tempo de esperança.»



Marisa Matias, no almoço nacional do Bloco de Esquerda.

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E as contas certas servem para quê?



«E se a crise em torno dos professores não tiver sido má de todo para a ‘geringonça’? Porventura a hipótese pode ser colocada.

É óbvio que, se a ameaça de demissão se tem concretizado, as condições para PS, BE e PCP se voltarem a entender eram bem menores. Levar a legislatura até ao fim é uma condição necessária para a formação de uma nova ‘geringonça’, mesmo que com contornos distintos da atual. Mas pode bem não ser suficiente.

Recuemos três anos e meio. Quando o executivo tomou posse, pairavam dois espetros sobre os partidos que apoiam a solução parlamentar: para muitos, o PS estava a esquerdizar-se de forma irreversível, a alienar o centro e a deixar-se capturar pelo radicalismo dos seus parceiros; para outros tantos, era o PCP e o BE que iam perder a identidade programática, acabariam no bolso do PS e, quando fosse altura de votar, os portugueses poucos incentivos teriam para dar-lhes o seu voto.

Hoje sabemos que nenhum dos dois cenários se concretizou. PS, BE e PCP preservaram, no essencial, a sua identidade programática. A crise em torno dos professores também pode ser lida à luz desta tendência. Afinal, a dramatização ajudou a cimentar a clivagem e acentuou a diferenciação entre partidos. Claro está que com riscos associados. Desde logo, ao ameaçar o equilíbrio entre demarcação e capacidade de preservar o diálogo.

E a abertura para o diálogo é a chave para quem considera que nenhum partido, por si só, alcançará uma maioria absoluta. Aliás, tendo em conta que, tudo indica, a maioria de votos estará nos partidos à esquerda, a governabilidade dependerá, de novo, de um entendimento a três.

O que traz de volta o tema das contas certas. Após o resgate, a má reputação orçamental passou a ser o principal handicap eleitoral dos socialistas. Ao longo desta legislatura, o PS recuperou a credibilidade perdida e, por exemplo, com a crise em torno da carreira dos professores, conseguiu mesmo sugerir que é o único partido responsável orçamentalmente. Não é um ativo irrelevante.

Mas também não é um ativo suficiente para vencer eleições e criar condições de governabilidade. Com a economia a crescer e o emprego em alta, os temas económicos e orçamentais tendem a perder saliência e os eleitores passam a preocupar-se com outros assuntos – por exemplo com a qualidade dos serviços públicos na educação, saúde e proteção social. Mais importante, o rigor passa a ser visto como um instrumento que tem de estar ao serviço de alguma coisa.

Logo, agora que o PS ficou com a bandeira da responsabilidade orçamental e que BE e PCP são vistos como representantes credíveis dos interesses de partes do eleitorado, a obrigação dos três partidos é encontrarem uma plataforma partilhada que diga o que é que pretendem fazer com as contas certas. Se não o fizerem, as condições de governabilidade serão poucas e os eleitores não lhes perdoarão.»

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Excelente e é português



Um português nascido na Damaia. Ver muito mais AQUI – vale mesmo a pena.
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17.5.19

Os quatro piscas



«A mensagem de apoio de António Costa a Emmanuel Macron não mereceu interesse dos jornalistas. Estamos numa campanha para as europeias e seria um disparate perder tempo a falar da Europa. Costa apresenta a coisa como uma aliança progressista que vai de Macron a Tsipras. Chamar de progressista a uma aliança que junta o mais impopular Presidente da história recente de França, responsável por uma reforma ultraliberal da lei laboral, e o homem que, traindo o voto do seu povo, aplicou um programa de austeridade muitíssimo mais violento do que o de Passos, é obra. O Alexis Tsipras progressista foi aquele que Costa acusou, em 2015, de combater a Europa de forma “tonta”. Este é apenas um náufrago.

No comício de Estrasburgo em que Costa participou através de um vídeo estavam os Ciudadanos espanhóis, o Partido Liberal alemão, o Em Marcha! de Macron, vários partidos de centro-direita, e, da ala mais à direita dos socialistas, apenas o Partido Democrático italiano. Nesta aproximação ao centro-direita, Costa deu um passo inédito: transferiu o apoio ao PS francês, partido a quem o PS deve muito na sua história, para o centro-direita. Mário Soares deve estar a dar voltas na campa.

Costa tem dito que o caminho português é um exemplo para a Europa. E é assim que a esquerda europeia olha para cá. Estranharão que quem se faz exemplo de unidade à esquerda traia a sua própria família política na Europa para se aliar ao centro e à direita. Qual dos Costas se enganou? O europeu ou o nacional? Nenhum deles.

Há quatro anos, acreditei que António Costa tinha sabido juntar os seus interesses pessoais a um olhar estratégico sobre o futuro dos socialistas, de maneira a dar-lhes espaço para não ficarem dependentes da direita para governar, salvar o PS do destino dos seus congéneres europeus e mudar o rumo da governação, com a construção de um bloco maioritário à esquerda. A fabricação da crise dos professores matou essa ilusão. Muitos olharam para ela pelo seu valor circunstancial – o conflito com a Fenprof – ou pelo seu objetivo tático – conquistar votos à direita. Mas o objetivo estratégico era mais relevante: romper unilateralmente e de forma não explícita, e portanto sem custos, a geringonça. Costa está a abandonar os seus aliados externos e internos para se deslocar para o centro. E Augusto Santos Silva é o teórico desta estratégia. Acredita que será ele o Tony Blair português, sucedendo a Costa se ele for para a Europa.

António Costa sonha, talvez com excesso de otimismo, com a presidência da Conselho Europeu. Como se viu com Barroso ou Constâncio, a carreira europeia é o sonho dos políticos sem rumo mas com ambição. Internamente, precisa de se descolar da esquerda e, ainda assim, garantir um bom resultado nas eleições. Na Europa, precisa de estar no barco do centro e do centro-direita que não está com o PPE. Não é o escombro dos socialistas que lhe dará qualquer futuro. A solidariedade socialista fica para consumo interno, com a participação do candidato holandês à presidência da Comissão Europeia, Frans Timmermans, na campanha. Como há quatro anos, as alianças têm uma utilidade pessoal. António Costa alimentou uma crise com um discurso para a direita, apoia Macron contra o PSF para ganhar o centro na Europa e canta o “Bella Ciao”, como hino da candidatura europeia, para entreter a esquerda, que fica apenas com a melodia. Já não pisca para a direita e para a esquerda, põe os quatro piscas ao mesmo tempo.

Estando nós em campanha para as europeias, seria normal que isto estivesse no centro do debate político. Isto, e o facto de Paulo Rangel e Nuno Melo apoiarem, para presidente da Comissão Europeia, Manfred Weber, o homem que pediu sanções para Portugal quando nos reerguíamos da crise. Como a comunicação social é viciada na irrelevância, é possível fazer um discurso cá dentro e outro lá fora. Juntar a esquerda cá dentro e fazer uma geringonça de centro-direita lá fora. Ser patriota cá dentro e apoiar quem nos tentou lixar lá fora. Porque é que ninguém liga às europeias? Porque elas não têm nada a ver com a Europa, com Portugal e com nada.»



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Novos arguidos?



Quantas vezes não ficamos admirados quando é anunciada a morte de alguém que julgávamos há muito fora deste mundo. Está a acontecer-me o mesmo quando leio que Fulano e Beltrano serão novos arguidos: julgava que já eram...
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O Berardo que Portugal merece



«Se há algo que resulta claro do processo de inquirição a Joe Berardo, é que a avaliação e resultados finais das comissões de inquérito dependem muito mais da desfaçatez dos inquiridos do que das competências de qualquer uma das comissões.

Convém, assim, que o inquirido seja um pulha, um mau carácter. Que goze e abuse da prepotência, que seja inábil na gestão do seu ego desmedido e que, de preferência, finja ter a memória de um peixe de águas frias e profundas. Se assim for, os resultados são garantidos: um pleno de indignação. Se, por outro lado, os inquiridos tiverem a personalidade de uma amiba, despojados de qualquer tipo de golpe de asa, amorfos por conveniência, humildes e defensivos até, eis que o teste do algodão passa pela superfície da rama e com nada mexe, nada transtorna. Tudo arrefece. As comissões de inquérito, por exclusiva vontade política, são a felicidade dos defensores do politicamente correcto. É preciso aparecer um crápula para lhes entregar alguma dignidade.

A resistência ao choque é um privilégio do motorista dos autocarros das viagens de finalistas. É dele que se espera que, independentemente do que possa acontecer nos bancos, mantenha uma atitude firme e calma. Não tivesse Joe Berardo uma lata épica e proporcional ao tamanho das suas dívidas e Portugal continuaria a ser o motorista do ilustre comendador. Que interessaria a dívida de 962 milhões de euros à CGD, BCP e Novo Banco se Joe Berardo fosse um personagem domesticado, escultural na argumentação e com pose de comendador? Nada. O empresário madeirense cometeu um erro impensável à luz da onda da indignação temporária: mostrou que esteve mesmo sempre a gozar connosco.

Berardo já jogou o seu "joker" dentro do sistema do Estado e rirá novamente quando e se lhe retirarem a condecoração da Ordem do Infante D. Henrique ou qualquer outra. "Eu show Berardo" ou o "Triunfo dos porcos". Sai vencedor o homem que se aproveita da incompetência e conivência do poder político, da poluição dos monopolistas e das negociatas espúrias com o dinheiro dos contribuintes. Fará um brinde à impunidade na companhia e bela vida de Salgado, Bava, Bataglia e Vasconcellos. Entretenhamo-nos, então, a crucificar moralmente o homem que lucrou com tudo isto sem cuidar de punir os que permitiram que empobrecêssemos todos. Está à vista que o arco de poder dos "partidos-negócio" não se importa de, sem vergonha e muito altivo, partir a espinha para dar a ideia de que de nada sabia, nada podia fazer mas que até se importa. O riso de Joe Berardo é plenamente justificado. Já esta indignação política, que finge surpresa, é uma indigente colecção de museu.»

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16.5.19

Europeias? Não se atrase



Já não será usado Cartão de Eleitor, as listas estão organizadas por ordem alfabéticas e, por isso, a sua Assembleia de Voto poderá ser diferente daquela onde tem votado.

Pode aceder AQUI a um site onde, uma vez introduzida a informação requerida, receberá imediatamente a resposta. 
Em alternativa, enviar um SMS para 3838 com a mensagem RE (espaço) número do CC ou BI (espaço) data de nascimento (ano, mês e dia, tudo junto. Ex 19710827). A resposta também é imediata.
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Banca?


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Clemente, o grande defensor da extrema-direita



Não vale a pena procurar muito longe para se encontrar uma porta escancarada para a grande direita entrar em Portugal. Com pedidos de desculpa canhestros ou sem eles. É só ler isto, do princípio ao fim.


«O Patriarcado de Lisboa partilhou nesta quarta-feira na sua página do Facebook um post que associa a coligação Basta, o Nós Cidadãos e o CDS à "defesa da vida" e onde se lê um apelo ao voto nestas três forças políticas, com duas hashtags muito claras: #euvotoprovida (eu voto pró-vida) e #avidaem1lugar (a vida em primeiro lugar). O post - um gráfico elaborado e publicado originalmente pela Federação Portuguesa pela Vida - aponta que estas são as únicas forças políticas que defendem "a vida".»
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Querida, vamos mudar de banco



«A rede de caixas automáticas em Portugal é muito grande, sendo enorme o seu grau de utilização por parte dos clientes. Deve dizer-se que é um serviço de enorme qualidade que resultou de um trabalho de décadas realizado pela SIBS, que, para além do mérito, soube aproveitar a oportunidade histórica de ter iniciado o projeto num momento em que a banca se encontrava nacionalizada e em que as decisões de investimento eram tomadas por uma só entidade. A verdade é que a expansão da rede poupou muito dinheiro aos bancos. Em pessoal, em instalações, em rapidez e simplificação das operações.

Mas é também verdade que tal como a árvore não faz a floresta, a "rede multibanco" não se confunde com o sistema bancário. Dito de outra maneira, só faz sentido avaliar este serviço em concreto no contexto da relação entre os bancos e cada um dos seus clientes.

A atividade bancária é aquela que consiste em facilitar o movimento do dinheiro entre quem o tem e quem dele precisa. Basicamente assim é. Mas esta equação nasce da confiança que os depositantes têm na instituição que irá gerir adequadamente os recursos que são colocados à sua disposição, nomeadamente quando os aplica junto daqueles que deles necessitam. Esta atividade tem contribuído de forma inegável para o desenvolvimento acelerado do progresso económico mundial.

A relação entre banco e cliente é das mais simples que pode existir. Cada um de nós deposita na instituição em que confia as suas disponibilidades, esperando que esta o remunere sob a forma de juros e/ou de serviços. Esta, por sua vez, aplica os recursos que os clientes lhes confiam procurando retirar daí os proveitos necessários a poder devolver aos depositantes o que lhes pertença, cobrir os custos da operação e remunerar os respetivos acionistas. Sempre foi assim que as coisas funcionaram e, com algumas conhecidas exceções, o sistema mostrou ser eficiente e robusto.

Nos últimos anos muita coisa mudou. Parece que o dinheiro depositado já não é mais dos clientes, que os recursos já não são aplicados de forma prudente e racional, que os acionistas já não assumem os riscos de uma atividade económica e que, por causa do famoso "risco sistémico", conseguiram atingir o melhor de dois mundos. Ficam com os proveitos gerados (muitas vezes com habilidades contabilísticas) e partilham com os contribuintes os prejuízos registados.

A confiança, principal ativo desta atividade, foi-se perdendo e hoje já ninguém aceita que os regimes de exceção e de favor continuem. Ser cliente de uma instituição financeira, depositar dinheiro, utilizar serviços bancários não é propriamente um favor que o banco nos faz. Mas parece. A opacidade dos contratos, a discricionariedade das decisões, a falta de transparência das comissões aplicadas é hoje a regra de instituições que foram respeitadas enquanto se mantiveram centradas nos seus clientes e que deixaram de o ser quando passaram a olhar apenas para si próprias. Faz muita falta ao mercado uma instituição financeira que volte a considerar os clientes como o seu principal ativo e que os trate com respeito. Quando isso acontecer prometo que, lá em casa, todos iremos mudar de banco.»

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