21.6.21

Os refugiados de hoje

 


… serão os médicos, professores, artistas, heróis no desporto, cientistas, etc., etc.

David Schneider no Twitter
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Reconstruir o tecido social

 


«Na sua intervenção, no dia 10 de junho, o presidente da República interrogou-se, em nome de todos os portugueses, nestes termos: "esta Terra" - o país que somos - "exige mais de nós? Que o não esqueçamos nos próximos anos, não nos limitando a remendar o tecido social ferido pela pandemia, reconstruamos esse tecido a pensar em 2030, 2040, 2050". É mesmo por aqui que vamos, senhor presidente?

Trata-se de um propósito positivamente transformador da vida dos portugueses, com duas exigências de partida: i) a sociedade portuguesa - começando pelo presidente - ser capaz de romper com a tolerância e condescendência face à pobreza; ii) não sermos embrenhados na discussão de soluções mágicas para daqui a décadas, como forma de escamotear os problemas do presente, que é contínuo.

A profunda relação entre o trabalho, o emprego e a proteção social está no cerne de qualquer estratégia para reconstrução do tecido social. É preciso valorizar o trabalho e criar mais e melhor emprego, o que passa por reforçar e qualificar o tecido produtivo e garantir os direitos sociais e laborais às pessoas. Nestes campos, há que pôr de lado as políticas de remendos e dar passos consistentes que rompam com posturas oportunistas ou tacanhas muito enraizadas na sociedade.

O tecido produtivo está deslaçado, não basta fazer-lhe chegar dinheiro. Se a economia for tratada apenas como negócio, alavancada por um forte pendor de importações e assente numa dimensão desproporcionada de serviços de baixo valor acrescentado e de baixos salários; se continuarmos com relações intersetoriais não entrosadas e desequilíbrios regionais sistémicos, não se geram bases para reconstruir o tecido social. Mude-se de agulha nas políticas económicas e assegure-se um sistema de relações laborais em condições de dar efetividade ao diálogo e à negociação coletiva.

O sistema de proteção de que precisamos exige compromissos de solidariedade social estruturada. Cidadãos persistentemente dependentes da caridade de outrem perdem a dignidade e a liberdade e são reprodutores de pobreza, em todo o espaço das suas relações sociais. É indispensável reforçar o sistema de segurança social. Isso depende, em primeiro lugar, do volume de emprego, do valor dos salários e da existência de vínculos laborais para todos os trabalhadores - portugueses e imigrantes. Na maioria das situações a precariedade só tem uma justificação: ser instrumento de redução da remuneração do trabalho. E um trabalhador que roda de emprego em emprego tende a usufruir de um salário cada vez menor.

Os setores políticos e económicos que aproveitaram a anterior crise para instabilizar as relações de trabalho e transferir, injustamente, riqueza e poder do trabalho para o capital gritam agora, sem vergonha, contra as instabilidades que resultariam de alterações à legislação laboral necessárias para criar um pouco mais de justiça. O governador do Banco de Portugal já veio, esta semana, alimentar o peditório: só sabe olhar trabalho e salários como variável de ajustamento.

Senhor governador, preocupe-se com o que é fundamental na sua missão: a supervisão do sistema financeiro e a sua sustentabilidade. Se o fizer com eficácia dará saúde à economia, ajudará a reduzir encargos do Estado e, seguramente, contribuirá para reconstruir o tecido social.»

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20.6.21

João Semedo

 


Seriam 70, hoje.
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Carta para Noah

 


«Escrevo-te esta carta para quando souberes ler. Não é provável que a venhas a encontrar. Mas imagina que um dia resolves pesquisar o ano de 2021, este mês de junho, e deparas com um episódio da tua vida. E opiniões, muitas opiniões. Entre elas estará a minha.

A minha profissão é ver crescer crianças como tu. E responder a perguntas. Está bem ou mal? Magro ou gordo? Alto ou baixo? Devia falar mais? Que lhe dou para comer? Dorme suficientemente? Porque se porta assim? Pode fazer isto? E aquilo?

Pois tu, caso não te lembres já, ou não te tenham voltado a falar disso, esta semana acordaste muito cedo, levantaste-te, e saíste pela porta da rua entreaberta. Dizem que foste atrás do teu pai. E desapareceste. Estiveste desaparecido um dia e meio.

A GNR montou um quartel general na praça da aldeia onde vives. Vieram pessoas participar nas buscas. Não se cansaram. Fizeram-no sob a coordenação de uma equipa profissional. Milhares de pessoas pensaram em ti com afeto, preocupação e esperança. Até que um casal te encontrou. E voltaste à tua família e ao teu cão.

Tenho duas fotografias tuas. Uma foi a que os teus pais publicaram para que te procurássemos. A outra é a que mostra um momento pouco após o teu achamento. Tu és um menino esperto e aventureiro. Vê-se bem. Também se vê que o teu pai gosta de ti e que os soldados da GNR desta vez estão satisfeitos, porque fizeram o seu trabalho.

Não sei mais nada da tua família. Nem tenho de saber. Basta-me que se tenham reunido. Mas quero que saibas que os teus pais são gente boa. Tu soubeste caminhar pelos baldios de Proença, pela lama e pelos trilhos, atravessaste a vau uma ribeira, talvez te tenhas alimentado e bebido água. Não te magoaste. Não foste atacado. Talvez não tenhas encontrado nenhum animal maior do que tu. Se sobreviveste foi porque os teus pais estiveram contigo, estes anos. E te viram crescer. E te ajudaram, quando precisaste. E agora, que te perdeste, eles estiveram à frente dos que te procuraram.

Tens de ter algum cuidado. Aprender melhor os caminhos de volta. Saber olhar para o sol. Marcar os trilhos. Levar mantimentos.

Mas podes contar connosco. Espero que nos encontres, muitas vezes. Porque nós precisamos das nossas crianças, todas. E precisamos tanto de alguns como tu, Noah.»

Luís Januário (pediatra) no Facebook
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O teu trabalho nas minhas mãos



 

«Se está a ler esta crónica através do seu smartphone, lamento informá-lo de que a probabilidade de ter o resultado da exploração de uma criança congolesa nas mãos é elevado. E sim, eu sei que o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil já passou, mas só hoje consegui ler o artigo The dark side of Congo’s cobalt rush que guardei, também no meu smartphone, há cerca de duas semanas. E caramba se alguma vez, especialmente este ano, é tarde para escrever sobre trabalho infantil.

Gostava de começar por vos apresentar Ziki, menino congolês que “conheci” durante a leitura e que, depois de perder os pais num acidente, foi enviado por uma tia para trabalhar numa mina de cobalto quando tinha cerca de quatro anos. A mesma idade do meu filho, que ainda ontem fez uma festa porque se conseguiu calçar sozinho. E se para nós é estranho que uma criança desta idade trabalhe, no Congo, o trabalho infantil nestas minas é uma espécie de prato do dia, apesar da sua proibição legal.

Aliás, nem sei se devia chamar “trabalho” ao que estas crianças fazem, porque cada relato que leio é mais assustador do que o anterior. Crianças que trabalham 12 horas diárias em minas caseiras inseguras, sem qualquer material de protecção individual, muitas vezes drogadas para não sentirem fome e a receberem uma remuneração entre o nada e o miserável, consoante aquilo que consigam produzir. Crianças a quem não são sequer fornecidos alimentos se não fizerem dinheiro suficiente para o patrão que as explora.


19.6.21

Se o Alemanha-Portugal vos afectou muito…


 

... um bom descanso ajuda.
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19.06.1944 – Quando o Chico nasceu

 


Chico Buarque da Holanda faz hoje 77 anos. Vi-o pela primeira vez em 1966, em Lisboa, em «Morte e Vida Severina», estreada no Brasil pouco antes, com poema de João Cabral de Melo Neto e música do Chico. É até difícil imaginar que este tinha então apenas 22 anos!

Muitos o recordarão hoje de outras formas, eu prefiro esta:


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O argumento soviético da loucura



 

José Pacheco Pereira no Público:

«Os mecanismos do radicalismo hoje em curso à direita do espectro político são bem visíveis em textos de articulistas, nas páginas das redes sociais e nesse espelho das cabeças que são os comentários em caixas de comentários sem moderação ou pouco moderadas, seja no Observador, no Sol, e mesmo no PÚBLICO. Aliás, a prática de uma mesma publicação ser moderada no corpo principal e permitir tudo nas páginas do seu Facebook favorece a degradação da opinião, com o falso argumento da sua democratização.

Embora seja fácil perceber que uma multiplicidade de nomes falsos e pseudónimos pertencem à mesma pessoa, para se criar a ilusão da quantidade, não é irrelevante conhecer esta forma ficcional de vox populi, intencional e pretendendo obter objectivos políticos. Do mesmo modo, é possível perceber outros mecanismos deliberados, como seja enviar opiniões pejorativas ou no início ou numa fase já avançada dos comentários, de modo a que estes sejam ou os primeiros ou os últimos e, de algum modo, condicionarem a leitura do conjunto. Há gente que faz isto como quem respira, verdadeiros militantes das caixas de comentários, e há profissionais de agências de comunicação ou grupos organizados nos partidos políticos, semelhantes aos que existem nos programas de rádio, os fóruns em directo de opiniões, a actuarem escondidos.

Muitos dos mecanismos deste tipo não são exclusivos da direita radical, existem também à esquerda, mas a maré tribal que está a subir é a da direita radical, associada ao populismo antidemocrático, exacerbado pelo sentimento de impotência face à situação política actual e às sondagens. Os temas e o modo de os apresentar e discutir são tão semelhantes entre si, do Observador ao Diabo, que representam um elenco que pode ser identificado e discutido.

Noutros artigos voltarei a esta questão, com os retratos do “argumentário”, quase todo associado a ataques pessoais, que desde o início do século XX foi identificado e estudado como um modus operandi do jornalismo de ataque populista radical. Hoje fico-me por aquilo que é o uso do argumento soviético do período de Brejnev para usar a interpretação psicológica, psicanalítica e psiquiátrica para explicar a dissidência. A dissidência era considerada uma doença mental, e vários opositores ao regime soviético como Vladimir Bukovski, Leonid Pliushch e Grigorenko foram perseguidos como doentes. A ideia apresentada de forma simplista era esta: como é possível, sem padecer de uma qualquer doença mental, pôr em causa um regime perfeito de sociabilidade política como o socialismo soviético, fonte de felicidade e bem-estar? Como era possível, sem diminuição das faculdades mentais, estar “contra o povo”?

Este argumento soviético é hoje muito usado no mundo do ataque pessoal da direita radical. Pode parecer estranho pela aparente oposição política, mas não é: há uma similitude na vontade de destruir o outro e os mecanismos para o fazer são idênticos. Este tipo de ataques muito comuns nas margens cinzentas da política está cada vez mais a emigrar para as zonas “respeitáveis” da opinião. Como é possível sem se ser doente, demente, senil, “maluquinho”, lunático, sem se ter as faculdades mentais diminuídas, pôr em causa o discurso da direita radical sobre o “ditador” Costa, sobre o “socialismo autoritário” que nos rege, como não é possível ver a essência corrupta da democracia, descrita como o “sistema”, como é possível não se aceitarem as teses “científicas” sobre a realidade, como, em suma, se pode discordar sobre o mundo do Mal que nos governa sem se ser ou servil ou doente ou as duas coisas?

Os termos que usei e que repito – demente, senil, “maluquinho”, lunático, sem as faculdades todas – foram todos usados por cá nos dias de hoje, e são uma espécie de upgrade da redução das posições políticas a traços e comportamentos psicológicos, seja a inveja, seja o ressentimento, os dois mais comuns, que são centrais nos ataques pessoais. É um estilo cada vez mais vulgar, que acompanha a crescente incapacidade de aceitar posições numa conversação democrática, ou sequer admitir que ela possa existir porque isso é aceitar o “sistema”. O melhor exemplo são os republicanos pró-Trump, e os seus imitadores nacionais.

Se retirarmos o psicologismo, e a sua forma superior no argumento da dissidência ou da discordância como doença mental, não sobra quase nada. Espreme-se e sai vazio, o que significa que não se trata de debater ou discutir, mas de considerar que o outro não pode nunca ser ouvido ou ser um interlocutor, porque está diminuído nas suas faculdades mentais, como se vê pelas suas posições...»
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18.6.21

Maria Bethânia

 



Chega hoje aos 75.
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Noah e o bisavô



 

Foram quase dois dias terríveis, mas que acabaram bem, muito bem, talvez por o Noah ser bravo, uma criança sem dúvida muito forte.
O ADN não engana. E estou certa de que o seu bisavô, o meu queridíssimo amigo NUNO BRAGANÇA, daria uma enorme gargalhada como esta quando ele apareceu.

(P.S. – Sei, desde ontem, quem é a mãe da criança – alguém de impecável pelo que me diz quem a conhece bem. Mas só hoje escrevo isto porque vi há pouco o seu nome divulgado nalguma imprensa.)
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A ditadura do futebol



 

«A minha paixão pelo futebol não é recente, não é de moda, não é fruto do acaso. Vem de sempre, do mais longe da infância, manteve-se sempre constante e alimentou-se sempre de um genuíno prazer pela estética e pela geometria do jogo: até mesmo ver miúdos a jogar na areia de uma praia me cativa, não apenas ver jogar Messi ou Ronaldo. Mas, hoje em dia, dou por mim a ficar cada vez mais farto de futebol. O jogo, em si mesmo, é cada vez mais desinteressante, a partir do momento em que o seu objectivo principal — marcar golos — foi substituído pelo de não deixar o adversário marcar golos. O futebol-arte foi substituído pelo futebol-indústria, no qual desaguaram em força todas as máfias de dinheiro obscuro do mundo — da Rússia, do Médio Oriente, da Ásia — que forçaram o espectáculo futebolístico até aos limites: mais jogos, mais competições, mais horas de transmissões televisivas de jogos e debates sobre jogos, e jogadores pagos pornograficamente, com a contrapartida de jogarem até à exaustão. Todos os envolvidos no negócio — donos e administradores dos clubes, técnicos, jogadores, programadores de televisão, dirigentes das Federações, da UEFA e da FIFA — sabem que a corda está esticada até ao limite, mas apostam na infinitude de um filão que não se esgotará nunca, pois acreditam que não se esgotará nunca, passando de geração em geração a paixão do público por este jogo. E, por isso, não é possível abrandar nem conter a ambição — daí a recente tentativa, por enquanto frustrada, de 12 dos mais ricos clubes europeus quererem ainda enxertar uma outra competição, só para eles, às já existentes. E, quando se paga seis, dez, vinte milhões por ano a um jogador, e mais do que isso a um treinador, perder não é opção. Daí que todos os treinadores, sem excepção, cuidem hoje, primeiro que tudo, de preparar as suas equipas para não perder. Os das mais ricas preparam-nas também e depois, para tentar ganhar; os outros, apenas para defender. O resultado à vista é que todas as equipas acabam a jogar da mesma maneira, um futebol previsível, cauteloso, aborrecido, destinado a matar à nascença o improviso e o génio. Bom exemplo disso é a saída de bola dos guarda-redes, actualmente a jogada mais ensaiada pelos treinadores, a mais repetitiva e a mais desinteressante. Aliás, tenho para mim e desde há muito, que, com honrosas excepções — como um padre-treinador que tive aos 15 anos — os treinadores só servem para complicar o que é simples. E quando vieram acrescentar-lhes o VAR (hoje, o personagem principal e invisível do jogo) e toda uma teia de intrincadas interpretações técnico-jurídicas sobre as 13 leis do futebol — ainda por cima, mudando todos os anos — este jogo, outrora fascinante, vai-se tornando cada vez mais aborrecido.

Mas se o futebol é cada vez mais aborrecido, o espaço que ele ocupa nas nossas vidas — ou naquilo que nos propõem que sejam as nossas vidas — é cada vez maior. Isso não acontece por acaso, mas porque os biliões investidos neste negócio precisam de retorno: precisam de público, de atenção mediática, de espaço publicitário, e tudo isso está interligado. Convencer cada vez mais pessoas de que o futebol é parte essencial da vida delas é a chave do negócio. Atrair a atenção de novos públicos, sem distinção de género, de condição social, de origem geográfica. O futebol, repetem-nos, é a única coisa que une todos os povos do mundo, que estabelece tréguas entre as guerras, que esbate as diferenças, que combate o racismo e mais uma série de causas bonitas. Era bom que assim fosse e não a alienação de massas, sabiamente promovida pelo futebol — em cuja sombra um exército de privilegiados, das Federações nacio¬nais, dos clubes, da UEFA e da FIFA, acumulam fortunas e chantageiam governos.

Isso é conseguido, obviamente, graças ao empenho e conivência do jornalismo e, em particular, das televisões. Sem a comunicação social e sem as televisões, a alienação — ou as audiências, se assim lhes preferirem chamar — não atingiriam o patamar que hoje atingiram e o negócio afundar-se-ia. É um pouco assim em todos os países, mas evidentemente que é tanto pior quanto mais subdesenvolvido culturalmente é um país. E Portugal é disso um exemplo eloquente.

Em Portugal e até ao 25 de Abril, o futebol ocupou um papel tão importante quanto tudo o resto ou não tinha importância ou não era consentido — essa foi a missão que lhe atribuiu o Estado Novo. Com a democracia, outras coisas, mais importantes, mais urgentes e novas, passaram a ocupar-nos e o futebol passou para segundo plano. Até que (a sondagem do Expresso da semana passada confirma-o) os portugueses, que confundem democracia com bem-estar, começaram a suspirar por outro ditador ou autocrata, que restaurasse o “espírito pátrio” e nos devolvesse o orgulho nacional perdido. Encontraram-no no Euro de 2004 e na figura importada de Luis Filipe Scolari, um homem de extrema-direita, que chegou, mediu a cena e soube tirar todo o partido dela. Convenceu os portugueses que o Euro — no qual investimos milhões a perder de vista — era uma oportunidade única de restaurar a grandeza da pátria por via do futebol, afinal de contas a nossa melhor, se não única, valência. O resto é história: dez milhões menos um português (eu) passaram um mês a cantar o hino e vestidos com as horrendas cores da bandeira, a vitoriar os novos heróis do mar que acabaram derrotados por uma selecção medíocre, nas nossas barbas.


17.6.21

Cerco de Lisboa



 

Eu sou antiga, mas ainda não tinha vivido nenhum Cerco de Lisboa.
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18.06.1940 – De Gaulle

 



Vale a pena ouvir este apelo do general De Gaulle, lido na BBC, considerado como símbolo e início da Resistência francesa na II Guerra Mundial.
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No comboio descendente, vai tudo à gargalhada



 

«Já toda a gente reparou na recente e vertiginosa mudança nos modos de comunicação, através da banalização da boçalidade. Um chefe de um partido sugere levemente que o ministro devia ser decapitado, os liberais treinam os meninos a atirar setas à cara dos adversários (com a natural exceção da do chefe do partido que acha que o ministro deve ser decapitado), a candidata laranja à Amadora quer exterminar um partido e é aplaudida pela turba da sede, um cordato e elegante administrador da Gulbenkian solta o animal feroz que afinal morava dentro de si, junta-se uma fronda para assegurar que há um “fundo de verdade” em que os comunistas comem crianças, um ministro, outro que não o decapitável, convoca raios e coriscos por lhe terem lembrado a borla fiscal das barragens, o bastonário de uma ordem profissional indigna-se para assegurar que umas casas de uma urbanização aparentemente não licenciada são alugadas por cem mil euros por mês na emergência da covid em Odemira, e quantos mais exemplos são necessários para dizer desta mudança que é tribalização de espaços públicos?

Há duas formas de menorizar este rápido deslizar da linguagem. Uma é que já foi assim, talvez mais vezes do que as que ocorrem à nossa memória recente: no PREC foi à bomba e fogo posto, algumas vozes incendiavam a pradaria, houve mesmo um candidato presidencial da direita unida que exibia a distinção de ter dirigido um campo de concentração durante a ditadura, houve programas de televisão cortados, houve jornalistas a responder em tribunal por discutirem planeamento familiar em antena, houve governo que correu com Marcelo do seu comentário televisivo, houve ameaça de censura a Saramago, houve Pides condecorados. Já houve o mal e a caramunha. E, se é certo que qualquer período de instabilidade ou de grande disputa aquece os termómetros da palavra, também agora estamos em vésperas de eleições, autárquicas que sejam, mas vão definir o mapa da direita e revelar-lhe se tem alguma chance para os próximos anos, o pote está a ficar muito distante. A segunda forma de relativizar esta temperatura é lembrar que até somos de brandos costumes: em contrapartida, em Espanha não houve um único dia do seu mandato como ministro em que Pablo Iglesias não tivesse uma manifestação da extrema-direita instalada à porta da casa onde vive com os seus filhos.

Permita-me dizer-lhe que estes dois argumentos são mancos. Há pior e até já houve pior, mas nada disso explica este comboio descendente. Vale a pena compreendê-lo, porque isto vai durar mais do que o breve campeonato europeu de futebol: o que alicerça a degradação da linguagem, poluindo a política para esvaziar os espaços de conversação e de enunciado de posições e propostas, é uma combinação entre a concorrência feroz à direita (o que é novo e notável, desde há quarenta anos que não surgiam novos partidos eleitoralmente viáveis nesta ala e, pela primeira vez desde o 25 de Abril, podemos estar nas vésperas do desaparecimento de um dos partidos da Constituinte) e o predomínio de novos modos de comunicação que são impulsionadores da necropolítica.

A mudança que as redes sociais produzem não é a difusão dos memes ou o uso do sarcasmo, aliás desejável nos debates democráticos que, como lembrava um editorialista, não têm por que ser “amorfos”; o seu efeito é, antes, a intoxicação intensa. A linguagem é usada neste terreno para uma função predominante: a blindagem, ou seja, para deixar de comunicar, para se tornar opaca e intraduzível, para fechar os seus seguidores numa redoma inexpugnável, protegida por barreiras de ódio. Isso é possível precisamente porque vivemos em hipercomunicação, com o ecrã a colonizar muitas horas do nosso dia, e porque a sociabilidade passou a ser esta forma de encriptação que cria símbolos, ícones e liturgias na gritaria, forjando identidades fictícias e obediências sectárias. Quanto mais comunicante for a incomunicabilidade, maior o seu sucesso. É por isso que a figura típica deste mundo é o bufão. E o bufão é quem, para aplicar o poema de Fernando Pessoa, vai no comboio descendente à gargalhada, criando um espetáculo em que vão “uns por verem rir os outros/ E os outros sem ser por nada”, “uns calados para os outros/E os outros a dar-lhes trela/(…) Mas que grande reinação”.

Não é tudo novo? Não. Mas já se alcandorou ao esplendor de sugerir a decapitação de um adversário. Não é fala de Estado Islâmico, é mesmo a direita portuguesa.»

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16.6.21

Sintonias…



 António Costa, Público, 16.06.2021.
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David Mourão-Ferreira morreu há 25 anos

 


David Mourão-Ferreira morreu em 16 de Junho de 1996. Um dos nossos grandes poetas do século XX, ficcionista também, acidentalmente político como Secretário de Estado da Cultura, de 1976 a Janeiro de 1978 e em 1979, autor de alguns poemas imortalizados pelo fado na voz de Amália Rodrigues.

Dois poemas ditos pelo próprio, um cantado por Amália:








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Passaporte para o atalho

 


«Apesar dos sustos e das variantes, o mundo rico prepara-se para integrar a covid na normalidade das nossas vidas como integramos tantos outros riscos. Mesmo sem o levantamento de patentes, o processo de vacinação avança e a imunidade de grupo está a poucos meses. Como parte do regresso à normalidade, vem aí o Certificado Digital Europeu. Só que, ao criar o passaporte verde, a Comissão Europeia não o regulou. Cada país faz o que entender, com os critérios e medidas que quiser.

Para além de muitas aberrações e de uma total imprevisibilidade, a pandemia passou a ser usada como instrumento de competição económica e arma política. E em vez do regresso de fronteiras com regras conhecidas, vivemos ao gosto da arbitrariedade. Schengen sobrevive para os que vêm de fora. Morreu para a liberdade de movimentos internos, serve como muralha para manter a muralha externa. E os que estão para lá dessa muralha foram os principais prejudicados pela defesa do negócio das farmacêuticas, que tenderá a piorar.

O Parlamento Europeu aprovou uma recomendação para a Comissão Europeia fazer o que se recusa, por preferir defender os interesses de um país produtor de vacinas: a suspensão temporária de patentes, que a lei internacional permite e que foi recomendada pela OMS, ONU, Médicos Sem Fronteiras, dezenas de especialistas e prémios Nobel. Os países ricos safaram-se sem este passo, à custa do resto do mundo. Os EUA têm mais de metade da população com pelo menos uma vacina, a Europa mais de um terço. Mas África está pouco acima dos 2%, com vários países próximos de zero. Não tendo garantido o levantamento da patente e as condições para uma vacinação global, o confortável condomínio terá de fechar ainda mais os portões, instalar câmaras e contratar vigilantes, em vez de cuidar do bairro. Este passaporte acabará por servir para isso.

Nada contra a sua existência. Quando viajamos de e para vários países é obrigatório um certificado de vacinação para a febre amarela, por exemplo. Mas isso só é aceitável quando todos se podem vacinar. E só não está a ser toda a gente vacinada porque se escolheu privilegiar o negócio de meia dúzia de multinacionais fortemente subsidiadas pelos Estados. Uma coisa é estar disponível para limitar liberdades em nome da saúde pública, outra é fazê-lo para proteger os lucros estratosféricos de acionistas a quem saiu, sem qualquer risco, a sorte grande.

Ouvi Marques Mendes defender um passaporte nacional, como existe em alguns países. Ele permitiria aos vacinados entrar em estabelecimentos (ou partes deles) vedados aos que não o estão. Apesar de não me agradar, poderia aceitar esta ideia quando a vacinação estiver terminada, se houver muitas pessoas a recusar a vacina, o que não é provável. Quem escolhe não participar no esforço coletivo porque quer entregar os riscos aos outros que lide com as suas escolhas. Mas, até a vacina ser um direito acessível a todos, isto é impensável. Para o que é relevante, que não pode ser tudo, há os testes.

É assustador percebermos até que ponto estamos disponíveis para viver em sociedades de castas sanitárias. As distopias estão, por estes tempos, mais perto do comentário político do que da ficção científica. Todos temos pressa de ver a economia a andar. Mas é bom ter cuidado e saber para onde nos levam os atalhos.»

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15.6.21

Vergonha alheia



 


Vivo eu há tanto anos para ter um PR que diz isto sem ter vergonha na cara. Tenho eu: VERGONHA ALHEIA.

«"Hoje é dia de futebol, e aqui estamos todos unidos em torno do futebol e, portanto, eu não vou agora estar a falar de outros temas, porque é desconcentrar o fundamental. Temos de estar focados, e estamos todos focados: o senhor primeiro-ministro, o senhor presidente da Assembleia da República, eu próprio, o senhor presidente [da Federação Portuguesa de Futebol] Fernando Gomes, os portugueses todos", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.»
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Bola. Dia dela


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Há quem aproveite

 


... a falta de civismo dos outros.
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