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25.6.17

«All You Need Is Love» – 50 anos



Lembro-me bem desse 25 de Junho, quando foi lançado All you need is love, dos Beatles. A BBC convidou-os a participarem no primeiro evento transmitido mundialmente via satélite, ao vivo e simultaneamente para 26 países, o programa terá sido visto por cerca de 350 milhões de pessoas e, vá lá saber-se por que milagre inesperado,  quase no fim do reinado do dr. Salazar, Portugal foi um desses países. 

Avisados antecipadamente, reunimo-nos em casa de amigos e vimos e escutámos a emissão, comovida e «liturgicamente». Tempos de uma certa inocência – perdida, sem dúvida. 

Dos estúdios Abbey Road, em plena guerra do Vietname, saiu a mensagem mais simples que imaginar se possa, propositadamente assim concebida para que pudesse ser entendida por todos os povos do planeta. 


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24.6.17

Bichos, muita bicharada (2)



Alguns dos 200.000 pinguins da Ilha Magdalena. Estreito de Magalhães, Chile (2003).

Chegam a ter 70cm e a pesar 7kgs. No Inverno muitos fogem do frio e conseguem percorrer cerca de 4.000 kms, até às águas quentes do litoral brasileiro. Em meados de Agosto regressam à Ilha Magdalena para cumprirem o ciclo reprodutivo: chocam os ovos e cuidam das crias.
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Dica (575)



As vantagens dos incêndios (Miguel Tamen) 

«São os cenários humanos obtidos de graça que tornam o espectáculo mais repelente. Nessas alturas o jornalista aproxima-se pé ante pé e faz perguntas que sabe antecipadamente serem de êxito garantido. É o herdeiro das mães que gostam de ver os filhos a chorar, e das crianças que arrancam as pernas às moscas. A sua vileza maior consiste em tornar pessoas vis: em deliberadamente e com premeditação converter o mundo num repositório de figurantes em que cada pessoa paga o seu aparecimento na televisão com o espectáculo público daquilo que em circunstâncias normais lhe deveria aparecer apenas em sonhos.

Embora alguns jornalistas gostem de se mostrar entre pessoas mortas, são os barulhos e os gestos das pessoas vivas que lhes permitem ocupar o tempo de emissão com mais proveito; e são eles que mobilam com conteúdos o que de qualquer maneira os jornalistas nunca conseguiriam por si só imaginar: um cão, um filho, um tractor, uma mala de roupa. Visto o que se tem visto, os acontecimentos recentes sugerem que nem sempre será boa ideia não matar o mensageiro.»
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Deve ser dos nervos…




Das duas uma: ou esta notícia foi escrita pelo Sebastião Pereira com pseudónimo «Lusa», ou não entendo como é que o prmeiro-ministro de um governo permite que seja divulgada uma exigência destas, feita a uma das suas ministras. (Ou será que «pré-entendo»?)
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A agenda do rescaldo



«Estamos em rescaldo do incêndio, depois de 64 mortos e muitos feridos, 150 famílias desalojadas e 46 mil hectares ardidos. O drama é demasiado e não se pode fechar os olhos. Já chegou a hora da política.

Começo pelas críticas a Marcelo. Na minha opinião, o Presidente fez bem em ir imediatamente ao local e em incentivar os que combatiam o incêndio. Acho desprezível o ataque que lhe foi feito em poucas horas por um deputado do CDS e por outros mandarins da direita. No mesmo sentido, a sugestão de um deputado do PSD (parece que vice da sua bancada) de que os feridos se curam depressa demais entra no domínio do Alien contra Predador.

Em contrapartida, Passos Coelho e Assunção Cristas foram cuidadosos nos primeiros dias. Tinham boas razões para isso, além do natural respeito pelos mortos e pelo sofrimento de quem ainda via o incêndio à porta. Quanto à dirigente do CDS, ela teme mais do que tudo que a sua passagem pelo ministério da agricultura, em que promoveu a extensão do eucaliptal, se torne um centro de atenção. E ela como Passos Coelho temem ainda que o caso SIRESP seja tóxico para os partidos que criaram o negócio, que foi assinado já depois de o governo PSD-CDS ter perdido as eleições de 2005 e favorecendo um centro de negócios de homens do PSD (a SLN, dona do BPN), ao preço de 485 milhões, que terá sido cinco vezes o devido segundo o PÚBLICO de então, além de se assegurar uma renda de 100% na manutenção, pagando o dobro do devido (e que os governos PS aceitaram). Soube-se agora, também pelo PÚBLICO, que Passos Coelho pôs na gaveta uma redução de 25 milhões, já negociada com o consórcio do SIRESP. E, já agora, o SIRESP não funciona.


23.6.17

Bichos, muita bicharada (1)



Avós, pais e netos do Orfanato de Elefantes de Pinnawala, num dos dois banhos diários. Sri Lanka (2011).

Este orfanato foi fundado em 1975, com sete elefantes órfãos. Atrai ao Sri Lanka estudiosos do mundo inteiro e é objecto de muitos filmes e livros. Cresceu e multiplicou-se, os primeiros órfãos já são avós. 
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Turquia: do retrocesso

E quanto ao SIRESP...



Inimigo Público, 22.06.2017.
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Dica (574)



Disaster at Arm’s Length (Entrevista com Richard Seymour) 

«The Grenfell Tower fire exposed the class violence embedded in London's rich, gentrifying neighborhoods.» 
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Pedrógão Enorme



«É muito triste escrever sobre o tema desta semana. É triste e monótono. Incêndios em Portugal. Andamos há anos nisto. Gastámos milhões num tal de SIRESP que, em termos de comunicações, acabou por ser como o meu pai com o telemóvel. Dezasseis horas incontactável porque estava no modo silencioso.

Vamos ver o que é o SIRESP e sabemos que, na origem, foi adjudicado a uma holding do BPN. 17 de Junho de 2017 e morrem pessoas em incêndios e ouvimos falar no BPN. Os bancos fizeram-nos muito pior do que nós imaginamos. Por tudo o que tenho ouvido por aí, penso que aquele senhor redondo do SLB, o Pedro o Guerra, é que devia ir dirigir o SIRESP.

Para piorar tudo isto, a cobertura jornalística do incêndio mostrou que, além de reformular a floresta, precisamos de dar uma grande volta ao jornalismo. Estou tão farto de ver filmar pessoas a chorar que já não tenho sal no corpo e estou cansado de ouvir textos jornalísticos/poéticos que juntam lume com inferno e céu com penumbra de cinza. Vocês, jornalistas, estão a dar a notícia de um incêndio, não estão a fazer o prefácio de um livro do Chagas Freitas. Ainda nem fazem bem jornalismo e já querem ser escritores.

Não se filma, e entrevista, um homem que acabou de perder, carbonizados, a mulher e os filhos. Ele até pode responder às vossas perguntas, mas tanto falava para um microfone como para um sapato. Perguntar a uma pessoa desfeita como se sente depois de uma tragédia destas devia merecer uma tareia com um pau em brasa, dada pelos psicólogos, que deviam estar a evitar isto. Aliás, preocupa-me é se mande para o Pedrógão, no meio dos psicólogos, o Quintino Aires.

Aproveito para expressar aqui o meu ódio para com aquelas pessoas que vão "ver o fogo". As pessoas que vão ver o fogo... ui. A minha ideia era uma inundação em casa, até ao tecto, e filmada para eles verem quando voltassem de "ver os fogos."

A floresta em Portugal é o centro de mesa daquilo a que chamaram o arco da governação. É a personificação vegetal do centrão. Dos interesses e desinteresses.

Há tanta coisa para esclarecer, e vão ter de rolar cabeças, mas sabem por que é que muitas daquelas pessoas se safaram? Porque estão habituadas a andar 100 km para ter um médico, ficar sem água, etc. É uma luta, têm de improvisar. Aquilo é gente rija que não se queixa porque o metro está atrasado dez minutos ou porque fazem falta mais vinte estações. Viver um ano no interior abandonado de Portugal devia fazer parte do curso dos comandos.

Além dos interesses económicos, o interior vale meia dúzia de votos. Na verdade, se não fossem lá filmar os incêndios, nós nem dávamos pelo que tinha acontecido. Podiam arder aldeias que só saberíamos anos depois. Tirando a aldeia de Picha, que conhecemos porque gostamos de fazer trocadilhos, o resto não fazia parte dos nossos mapas. Estas pessoas que insistem em viver no interior são uma chatice. Aquilo já era para estar abandonado há anos. São uns teimosos. Tiram-lhes os médicos, os correios, as escolas, e elas insistem em viver ali. Chatas!»

22.6.17

O estranhíssimo caso de Sebastião Pereira



«Nos últimos dias, à semelhança de toda a imprensa espanhola, o El Mundo (Espanha) tem publicado inúmeras notícias sobre o incêndio de Pedrógão Grande. Mas ao contrário da generalidade dos jornais, como o El Pais e outros que o têm feito de forma neutra, o El Mundo tem publicado textos, sem excepção, que demonstram uma orientação claramente anti-governamental e que procuram atribuir responsabilidades a António Costa, Ministros e autoridades portuguesas.

Alguns exemplos: “Caos no maior incêndio da história de Portugal: 64 mortos, um avião-fantasma e 27 aldeias evacuadas.”, “gestão desastrosa da tragédia”, "A evidente falta de coordenação entre as autoridades, provocou uma enxurrada de críticas à gestão do desastre por parte do Governo do primeiro-ministro António Costa, e em particular da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, a menos de quatro meses das eleições legislativas.”

O caso atinge mesmo proporções políticas colossais. Não só é sugerido que o caso pode fazer cair ministros e até todo o governo, sugere ainda que pode mesmo “pôr fim à carreira política de António Costa.” É este o clima que o El Mundo diz que se vive em Portugal.

A torrente de notícias duras e o tom crítico não tardaram a chegar a Portugal, e a imprensa portuguesa, na sua maioria, deu eco às críticas do El Mundo: Sábado, SIC Notícias, Jornal Económico, Observador, Expresso, Correio da Manhã são exemplos de órgãos que foram publicando notícias sobre aquelas notícias. Casos destes são frequentes: recorrer à imprensa internacional para validar posições sobre questões internas; ver o que “o que se anda a dizer de nós lá fora” e, se disserem mal, há quase automaticamente um enorme potencial mediático.

O autor de todos estes textos do El Mundo é sempre o mesmo: Sebastião Pereira. E é justamente aqui que o problema começa. Até ao último Sábado, Sebastião Pereira nunca tinha escrito um único texto no El Mundo ou em qualquer outro órgão de comunicação social português ou espanhol. Uma conclusão que resulta de uma pesquisa em todos os arquivos online. Não há também qualquer registo com o nome de Sebastião Pereira na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), a única instituição que pode habilitar jornalistas portugueses a exercer a profissão em Portugal. Nas redes sociais, nas escolas de jornalismo e entre jornalistas que estiveram no local do incêndio, ninguém sabe ou ouviu falar de tal nome.

Segundo o El Mundo, Sebastião Pereira é um freelancer a actuar em Lisboa, que, no Sábado, se ofereceu directamente ao jornal para fazer a cobertura dos incêndios florestais de Pedrógão Grande, aproveitando para isso o facto de já estar pela zona.

É este o estranhíssimo caso de Sebastião Pereira, o jornalista-fantasma.

Neste momento, e depois de investirmos algumas horas no assunto, podemos afirmar com segurança que o "jornalista português Sebastião Pereira" não existe, logo:

1. Ou Sebastião Pereira não é jornalista e, usando o seu nome próprio ou um pseudónimo, enganou um dos maiores jornais espanhóis e a imprensa portuguesa foi de arrasto num enorme logro.
2. Ou Sebastião Pereira é um jornalista português com carteira (ou carteira de estagiário) que está a usar um pseudónimo para dissimular a sua verdadeira identidade (na consciência, talvez, de que a verdadeira identidade cortaria a corrente mediática que se formou e que deu origem às notícias em Portugal)
3. Ou o El Mundo está a enganar todos os seus leitores e não contratou nenhum jornalista, estando apenas a reproduzir textos de outros órgãos, criando a assinatura de uma personagem fictícia.

Em qualquer das hipóteses, o caso é gravíssimo por várias razões. Desde logo, porque podemos já dizer que grande parte da imprensa portuguesa foi caixa de ressonância de uma notícia que tem, no mínimo, um problema de consistência enorme no plano da autoria. Mas pode ainda ser mais grave, dependendo do que vier a saber-se a partir deste preciso momento.

Entendemos que o El Mundo tem de dar explicações sobre este caso, identificando inequivocamente Sebastião Pereira. Tem de dar explicações urgentes. É nesse sentido que propomos a todos os nossos seguidores que nos ajudem a contactar Paco Rosell (Diretor) e Silvia Roman (Jefa Sección Internacional), para que ambos se pronunciem sobre o que se está a passar.

Apelamos que nos façam chegar todas as informações que considerem úteis.

Regressaremos ao tema logo que se justifique.»

(O truques da imprensa portuguesa no Facebook) 
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Um disco riscado chamado Portugal



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:


Na íntegra AQUI.
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O mundo da Uber depois do rebelde Kalanick



Confesso que não tenho estado especialmente atenta aos recentes problemas internos da Uber. Mas sorri ao ler este texto. Se julgam que transformam a cultura de uma empresa alterando etiquetas não vão longe: ler que vão mudar o nome da sala da gestão executiva de «Sala da Guerra» para «Sala da Paz» até dá vontade de rir…

«A Uber não é uma empresa como as outras. Já se tinha percebido, pelo seu rápido sucesso e crescimento, mas também pelos seus "mandamentos", que são ensinados aos funcionários e que não primam exactamente pela candura ("pisar calos" é um exemplo).

Na origem e no centro de tudo está o polémico Trevor Kalanick, fundador e até ontem CEO da empresa norte-americana. Uma semana depois de ter anunciado uma ausência prolongada, de forma a tornar-se uma pessoa melhor, comunicou esta quarta-feira que abandona a administração executiva. Isto depois de um grupo de accionistas o ter pressionado a fazer. "Amo a Uber mais do que qualquer outra coisa no mundo, e neste momento difícil da minha vida pessoal decidi aceitar o pedido dos investidores para me afastar para que a Uber se possa desenvolver em vez de se envolver noutra luta", afirmou Kalanick, em comunicado.

Há várias movimentações em curso: encontrar uma nova equipa de gestão para uma empresa que veio do nada e vale agora mais de 60 mil milhões de dólares; mas também mudar os valores da empresa, como explicou recentemente a administradora Arianna Huffington. Um dos passos nesta limpeza do politicamente correcto é a mudança na sala da gestão executiva: a "Sala de Guerra" passará agora a chamar-se "Sala de Paz"...

Leslie Hook, num excelente artigo publicado no Financial Times, defende que "estas mudanças cosméticas não vão mudar a cultura da Uber de um dia para o outro". Para isso, "serão os seus futuros líderes, mais do que uma lista de valores empresariais sanitizada, a desempenhar um papel central".

Na Bloomberg, Leila Abboud descreve: "O próximo CEO terá de ser um diplomata, um delegador e um defensor dos controlos internos demasiado tempo negligenciados na start-up mais valiosa do mundo. Não é uma tarefa pequena."»

Dica (573)



Stop Pretending You’re Not Rich (Richard V. Reeves)
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21.6.17

Mercados Variegados (15)



Peixe seco no Mercado Nyaung U. Bagan, Birmânia (2009).
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Quando os padres convocavam contramanifestações



A efeméride foi há três dias, mas andávamos então ocupados com dramas humanos imediatos. Mas o passado «não passou».

Há 42 anos, eu estava no Campo Santana, em Lisboa, numa manifestação à porta do Patriarcado, que tinha ali a sua sede, de apoio aos trabalhadores da Rádio Renascença. Não era a primeira vez que o fazia: antes do 25 de Abril, participara em vários protestos contra o cardeal Cerejeira, por atitudes que ele tomava, ou omitia, nas relações entre a Igreja portuguesa e o governo, em tempos de ditadura. Tipicamente, acabávamos sempre refugiados no átrio ou, pelo menos, protegidos pelo gradeamento que, no passeio, rodeava a porta principal – reacção instantânea quando se aproximavam os tradicionais Volkswagen creme nívea da PSP.

Mas, em 18 de Junho de 1975, os ventos eram bem diferentes e foram outros que se refugiaram dentro da sede patriarcal. Passo a explicar, mas muito resumidamente, porque foi longo e complexo o chamado «caso da Rádio Renascença».

Quando a Revolução aconteceu, a Rádio Renascença (RR) era uma das três grandes estações de radiodifusão, a par da Emissora Nacional e do Rádio Clube Português, com um ambiente relativamente livre dentro dos limites existentes (por pertencer à Igreja), e não foi por acaso que sobre ela incidiu a escolha para a transmissão de «Grândola» como senha para os militares avançarem. Mas, curiosamente, foi lá que teve lugar a primeira greve em serviços de informação, logo no dia 30 de Abril, por uma profunda divergência entre jornalistas e directores, a propósito da cobertura da chegada a Portugal de Mário Soares e de Cunhal. A estação esteve parada cerca de 19 horas, os trabalhadores ocuparam o espaço e o conselho de gerência acabou por abandonar o local. Este foi apenas o primeiro capítulo de uma atribulada história que duraria até Dezembro de 1975, data em que a gestão da estação foi definitivamente devolvida à Igreja.

Pelo meio, o tal episódio de 18 de Junho de 1975. Durante mais uma crise interna, sindicatos representativos de vários sectores – jornalistas, revisores de imprensa, tipógrafos e telecomunicações – convocaram uma manifestação a ter lugar junto do Patriarcado. E teria sido apenas mais um evento, entre muitos semelhantes que aconteciam quotidianamente, não se tivesse dado o caso de ter havido uma convocatória para uma contramanifestação, feita por muitos padres, a pedido do conselho de gerência da RR (texto na imagem, aqui ao lado).

Estava lançado o rastilho para um confronto que teve tiros para o ar dados pela PSP e pela Polícia Militar, muitas pedradas e cerca de 40 feridos, com os manifestantes pró-Patriarcado refugiados no interior do edifício e evacuados já de madrugada em camiões militares.

Antes, durante e depois, foram divergentes os apoios recebidos por cada um dos lados. A UDP foi a primeira organização política a apelar para a participação na manifestação de apoio aos trabalhadores, acompanhada, entre outros, pelo MES, LCI, LUAR, PRP/BR, CMLP, ORPCML, Associação de ex-Presos Políticos Antifascistas, várias comissões de trabalhadores (com realce para a dos TLP), e organizações católicas como a JOC e Cristãos pelo Socialismo. Contra a manifestação, embora com diferentes nuances, declararam-se o PS, o PPD, o CDS, o PDC e o PCP. Estranho? Olhem que não, olhem que não! 

Se reina o delírio…



António Gonçalves no Facebook.
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Com dedicatória especial a uma «jurnalista»



… da SIC, que estava de serviço ontem ao fim da tarde, num dos locais dos fogos, e que teve um comportamento lamentável a propósito da falsa notícia sobre a queda de uma aeronave.

Jurnalismo

«Sô doutor juiz, eu deitar boatos da boca pra fora?! Seja, mas tenho atenuantes. O Adérito, um primo meu que abalou para Madrid, já faz um ror de anos, é que me telefonou a perguntar que coisa foi essa de a avioneta cair no quintal. A informação, portantos, eu não a inventei. Veio-me cá ter. Também é verdade que horas antes telefonei ao Nuno - é um irmão do Adérito, que também emigrou para Espanha - e eu disse ao Nuno que foi cá um estrondo o que tinha ouvido para as bandas do quintal, até parecia um avião a explodir, daqueles com piloto inglês como havia antigamente na Grande Guerra. Confirmo mas isso com o Nuno não tem nada a ver, são conversas entre primos. Agora, quando de Espanha me telefonam a perguntar do quintal e do Canadére e do inglês e tudo, eu digo: "Olá..." O que conta é que a coisa chegava-me do estrangeiro e com aqueles pormenores todos... Desculpe, meretíssimo, diz que...? Ah isso... Sim, sim, o Adérito também é primo, aliás, eu já o dissera, mas, esse, é atilado, nada a ver com o Nuno, um estroina. É para o senhor doutor perceber a diferença: se a notícia vem do Adérito fiquei alerta. Mas não me pus logo com atoardas. Fui averiguar. Deitei-me a caminho do posto da Guarda, e perguntei ao sargento: "Que é isso do avião?" Ele olhou-me e não desmentiu - juro pela minha mãezinha, não desmentiu. Desbobinei tudo, o avião, o quintal, o estrondo, a bigodaça loura do piloto... E o comandante da Guarda, népias. Mas eu bem vi que ele chamou um guarda, que se meteu num jipe e, veja a coincidência, foi para as bandas do meu quintal. Tava confirmado. Quanto a mim, fui para a taberna. Durante hora e meia do que é que eu havia de falar? Claro... Mas está aí outro mistério! Se não tinha caído nenhum avião, porque é que me permitiram falar durante hora e meia do avião, do meu quintal e isso tudo? E depois, eu é que sou o boateiro, sô doutor juiz?!»  

20.6.17

Mercados Variegados (13)



Bonecas feitas à beira da estrada. Costa dos Esqueletos, Namíbia (2007).
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As vítimas dos incêndios e da televisão


Um grande texto de António Guerreiro no Público:

«Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana. (…) 

A que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.» 
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