21.11.19

S. Tomé (2)



São necessárias horas para ir da cidade de S. Tomé a Ponta Baleia, de onde se parte para o Ilhéu das Rolas, até porque a estrada não ajuda muito. Mas tem-se a vantagem de se ver sempre verde e mais verde durante todo o caminho nesta parte Sul da ilha, árvores e mais árvores, com destaque para um grande conjunto de palmeiras, especialmente bem tratadas e que são (obviamente…) exploradas por empresas estrangeiras para extracção de óleo. Alguma bicharada errante à beira da estrada, a já clássica imagem de mulheres a lavarem roupa no rio e, finalmente, uma viagem numa lancha bastante rudimentar, que me proporcionou um belo duche do Atlântico durante a viagem. A chegada e a água de coco que nos esperava.

Amanhã falarei do dito Ilhéu, embora não esteja disposta a andar muito para pôr um pé de cada lado da hipotética linha do Equador… Até porque já tenho um diploma que atesta que já fiz essa apaixonante façanha, algures nas redondezas de Quito. Não chove!







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20.11.19

S. Tomé (1)



Longa volta pelo Norte da ilha, com pouco calor, nenhum Sol e alguns aguaceiros indesejados (mas parece que tudo vai melhorar!)

Roças e mais roças dedicadas ao cacau, muitas paradas outras ainda activas, onde vi os diferentes processos de secagem deste bem precioso, mas onde quem nele trabalha vive em condições de uma pobreza gritante. Disse-me alguém que são felizes porque estão habituados a ter pouco, mas custa a crer. Crianças por tudo quanto é lado, lindíssimas e de uma doçura comovedora e, claro, como não podia faltar, o símbolo do Benfica numa parede…

Mar e árvores imponentes em cada curva e muito para ver e para tentar entender esta terra porque só passou um dia. Foi longo, a Internet não ajuda (nada!), ficam algumas imagens e amanhã há mais – do Ilhéu das Rolas.







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José Mário Branco


As imagens de S. Tomé, onde estou desde ontem, ficam para mais logo, mas levei o dia todo pelas estradas desta ilha sem que isto me saísse da cabeça. (Talvez porque foi em Novembro que ele se foi embora…)

«Quando a nossa festa s'estragou / E o mês de Novembro se vingou / Eu olhei p'ra ti / E então entendi / Foi um sonho lindo que acabou / Houve aqui alguém que se enganou.»


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18.11.19

Adeus e até já



Se o Natal é quando um homem quiser, nenhuma razão para que o Verão não o seja e eu prefiro-o em Novembro. Por isso amanhã, bem cedinho, vou por esse mundo abaixo à procura de calor. Pouco tempo, mas vai dar para desligar daqui e para respirar um outro ar. Se a net ajudar, haverá fotografias e… pouco mais.
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Hong Kong



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Manuel António Pina, 76



Manuel António Pina nasceu em 18.11.1943 e continua bem vivo connosco, todos gostaríamos de continuar a saber o que pensaria da espuma dos dias que correm, a ler novos poemas, a saber como se comportavam os seus gatos.

A rever: o trailer de um excelente filme de Ricardo Espírito Santo.




A recordar: a última crónica que publicou no JN:

Coisas sólidas e verdadeiras (01.08.2012)

«O leitor que, à semelhança do de O'Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, "mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político". Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de todos eles, da 'troika', do défice, da crise, de editoriais, de analistas!

Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.

Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: "E estes, quem serão?" Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida.»
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Mujica e a Bolívia




«"Quiero por este medio ocupar unos minutos de su tiempo en llegarle a su corazón con estas pocas letras que encierran el clamor de muchos. No es mi intención juzgar lo que no me corresponde, ni laudar lo que es deber de otros. Vengo a expresar ese clamor, respetuosamente, con la esperanza de que llegue a su oído", comenzó Mujica.»
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De volta aos salários



«Retomo o tema dos salários para refletir sobre dois temas importantes que estiveram em relevo na última semana: o Governo, como lhe compete, fixou o valor do salário mínimo nacional (SMN), a vigorar a partir de 1 de janeiro de 2020, em 635 euros; o primeiro-ministro assumiu como objetivo o aumento dos salários médios e, simultaneamente, "que o peso dos salários no PIB se aproxime daquele que existia antes da crise" acrescentando ainda a necessidade de medidas específicas que valorizem a retribuição dos jovens mais qualificados.

O Governo devia e podia ser mais ambicioso quanto ao SMN, contudo, trata-se de um aumento (5,8%) positivo que vai beneficiar diretamente, segundo os números do Governo, 720 800 trabalhadores. Este aumento será, necessariamente, utilizado pelas pessoas que o receberem, para melhorar tenuemente a sua vida.

É justo e traz vantagens para a economia o estabelecimento de um SMN digno. O nosso continua a não conseguir tirar da pobreza muitos dos que o auferem. Mesmo assim, quando se chega ao momento de estabelecer as atualizações, lá vêm as forças políticas da Direita dizerem que é um exagero e as confederações patronais reclamarem "contrapartidas".

Surge, entretanto, face à constatação da desaceleração das exportações, o alerta de que a atualização do SMN pode agravar esse problema. Já vimos, nos anos da troika e do Governo PSD/CDS, quanto injusta e errada foi essa política e quase todas as forças políticas e económicas proclamam que não devemos querer ser competitivos pelos baixos salários. Seria bom que quem pega nessa tese se ocupasse no estudo dos verdadeiros fatores de ordem externa e interna que estão a impedir o necessário aumento das exportações. A atualização do SMN deve ser complementada com medidas dirigidas à redução do número de trabalhadores abrangidos, o que impõe a revitalização da negociação coletiva, com reapreciação de velhas grelhas profissionais, criação de novas, e definição e atualização de carreiras.

Esta semana surgiram informações e notícias que nos vêm confirmar um facto a que já aludi neste espaço: as dinâmicas do mercado, ou seja, a relativa escassez de mão de obra, a continuada emigração de trabalhadores jovens qualificados em dimensão significativa (mesmo que o saldo migratório se tenha alterado positivamente), a existência de projetos de investimento, que conduziram ao aumento do salário médio em quase 3% no período de um ano - variação homóloga entre setembro de 2018 e setembro de 2019, já divulgada pelo INE. Este número não pode deixar de estar presente na discussão das bases para qualquer acordo de política de rendimentos.

Esta constatação encaminha-nos para quatro conclusões com significativo suporte: i) a manter-se esta dinâmica de mercado, as metas anunciadas por António Costa para estas matérias serão cumpridas sem grandes obstáculos; ii) não se pode tolerar uma atuação em cartel por parte das confederações patronais, utilizando a Concertação Social como instrumento de travagem do crescimento dos salários; iii) O Governo tem à mão instrumentos que pode e deve utilizar para, por exemplo, tornar digna a remuneração do trabalho suplementar; iv) tem de ser dinamizada a contratação coletiva, com velhos e novos conteúdos e garantindo melhoria de condições profissionais e de vida.»

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17.11.19

Bolívia: e há quem diga que não houve um golpe




«La Comisión Interamericana de Derechos Humanos (CIDH) alertó en Twitter de que esta norma firmada por Áñez al frente de su Ejecutivo interino "pretende eximir de responsabilidad penal al personal de las Fuerzas Armadas que participe en los operativos para restablecimiento y estabilidad del orden interno".

"El grave decreto de Bolivia desconoce los estándares internacionales de DDHH -derechos humanos- y por su estilo estimula la represión violenta", advirtió en una serie de mensajes en la red social.

La entidad condenó "cualquier acto administrativo del gobierno de Bolivia que atente contra el derecho a la verdad, la justicia y al derecho internacional de los DDHH, particularmente en el contexto de actuaciones de Fuerzas Armadas en las protestas sociales".»
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Grande jornalismo!



Só contra os «protestantes»? Se forem budistas ou católicos safam-se?
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Obras do Museu Salazar suspensas



«As obras para a construção do Centro Interpretativo do Estado Novo, mais conhecido por Museu Salazar, em Santa Comba Dão, foram interrompidas há cerca de duas semanas. Isto pouco tempo depois de terem tido início, no meio de muita polémica. Os técnicos responsáveis pela reestruturação da antiga Escola-Cantina Salazar descobriram que uma parte das vigas que sustentam o telhado está podre.

“Neste momento estão já colocados 70 metros quadrados de telhas novas. Mas tivemos um percalço e fomos obrigados a parar temporariamente a obra por motivos técnicos. As vigas estão mais envelhecidas do que se julgava e vão ser substituídas por um novo material conhecido por aço leve”, conta ao Expresso João Onofre, vereador da Câmara Municipal de Santa Comba Dão.

As vigas estão em tão mau estado que um simples soprador elétrico de jardim (máquina usada para afastar as folhas no chão) fazia estremecer a estrutura, garante João Onofre.

As obras, que incidem sobretudo sobre o telhado, portas e janelas da casa, vão ficar agora oficialmente suspensas durante “algumas semanas”, para não haver derrapagem de prazos com o empreiteiro. Questionado se sabe quando é que a nova estrutura será montada, o vereador diz não ter ideia.

Ainda segundo o político social-democrata, foi necessário proteger a zona ainda sem telhado com um plástico, para que a velha Escola-Cantina Salazar não fique a céu aberto e inundada com a água da chuva. “Mas a obra é para avançar mal tudo isto seja resolvido”, garante.

João Onofre revela que esta semana, durante uma reunião de responsáveis camarários, foi aprovado um orçamento de “190 mil a 200 mil euros” destinado ao futuro Centro Interpretativo do Estado Novo.

Petições da polémica

Contactado pelo Expresso, Leonel Gouveia, presidente da Câmara de Santa Comba Dão, preferiu não fazer qualquer comentário, alegando não ter mais nada a acrescentar sobre o assunto. Mas em julho, em declarações ao Expresso, garantia que a abertura das portas do Centro Interpretativo do Estado Novo estava prevista para dali a três meses. Ou seja, sensivelmente entre outubro e novembro.

O espaço museológico está localizado na antiga Escola-Cantina Salazar, vizinha do lado da casa onde viveu o ditador e a quatro quilómetros do local onde Salazar foi sepultado. O objetivo é manter a traça original desta escola, a primeira do país a ter direito a uma cantina, em 1942: “Foi precursora da política de ação social escolar do Estado Novo”, lembrou na altura o responsável da autarquia, que explicou que numa primeira fase o museu terá duas salas de exposições temporárias, com mais conteúdos multimédia e interativos do que objetos pessoais do ditador.

Nos meses seguintes estalou a polémica. Grupos de cidadãos avançaram com petições pró e contra a construção do Centro Interpretativo do Estado Novo. Entre os detratores encontra-se um grupo de 204 presos políticos e historiadores que temem que o museu sirva para branquear a ideologia do Estado Novo e venha a ser mais um pretexto para romarias de neofascistas a Santa Comba Dão. Atualmente, a campa de Oliveira Salazar é já um local de peregrinação de saudosistas.

A autarquia emitiu um comunicado em agosto onde negava a criação de um “Museu Salazar”. Assumiu que, em conjugação com outras entidades da região, com destaque para a ADICES (Associação de Desenvolvimento Local), “tem vindo a trabalhar num projeto cultural agregador do potencial turístico da região, visando a criação de uma rede de Centros Interpretativos de História e Memória Política da Primeira República e do Estado Novo”.

Uma rede que, segundo Leonel Gouveia, visa “a promoção e o aprofundamento da democracia e do desenvolvimento integrado de um vasto território da Região Centro” e dar a conhecer a participação destes territórios na história política do século XX português. O presidente da Câmara sublinhou ainda que toda a consultoria científica e tecnológica é assegurada pela equipa do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra.

Também em agosto, a petição online “Museu de Salazar, Não!” foi encerrada, depois de terem sido recolhidas mais de 18 mil assinaturas. Os promotores — que a tinham enviado ao primeiro-ministro, António Costa, logo quando reuniu 15 mil assinaturas — aguardam agora uma resposta do Governo. Um pouco menos popular foi a petição a favor do espaço museológico em Santa Comba Dão, que se ficou nas 11 mil assinaturas.»

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A Espanha aqui tão perto



«É tentador olhar para o processo político espanhol e pensar que ele é de tal forma diferente do português que o fracasso coletivo que vislumbramos para lá da fronteira não chegará cá. Tentador, mas, também, equívoco.

É óbvio que não temos uma questão nacional e que a nossa natureza periférica nos tem protegido das vagas imigratórias que perturbam grande parte das democracias europeias. Acima de tudo, não devemos desvalorizar a forma como a nossa transição para a democracia promoveu uma rutura com o legado autoritário do Estado Novo, garantindo uma censura moral que nos foi protegendo face à emergência de partidos de extrema-direita com expressão significativa. De certa forma, no caso espanhol, a transição democrática negociada viabilizou muitos elementos de continuidade entre regimes, designadamente nos corpos especiais do Estado. Sintomaticamente, o PP — ao contrário do PSD — sempre teve sectores assumidamente iliberais e, agora, é com naturalidade que o Vox cresce, resgatando o saudosismo do franquismo. É mesmo um daqueles casos em que continuamos a beneficiar do 25 de Abril como revolução social.

Se há fatores que nos protegem, não devemos, contudo, sobrevalorizá-los. Em Portugal como em Espanha, há um descontentamento latente com as instituições do regime que, mais cedo ou mais tarde, se manifesta politicamente. A fragmentação parlamentar — adornada pelo episódio lamentável que foi a possibilidade de inviabilizar a participação no debate quinzenal dos novos/pequenos partidos — é apenas um sintoma relevante desse descontentamento. Que tenderá a crescer agora que se combinam condições objetivas e subjetivas (há protagonistas para refundar o sistema partidário, credibilizados pela sua participação no Parlamento).

A questão é particularmente sensível à direita, onde os partidos tradicionais e o espaço de moderação estão objetivamente ameaçados. Depois das eleições de 2015, a possibilidade de PS ou PSD governarem passou a estar dependente da capacidade de liderar uma maioria no respetivo bloco político. Se à esquerda há reais limites para o entendimento programático (mas nenhuma tendência séria de crescimento do PCP ou do BE à custa do PS), à direita o desafio é saber como se forma uma maioria, contendo as perdas de PSD e CDS para o Chega. E aí o risco de mimetizar Espanha é real.

Em Espanha, foi determinante para a ascensão do Vox o seu reconhecimento, pelo PP e pelos Ciudadanos, como parceiro para compromissos. Em Portugal, PSD e CDS terão de resistir à mesma tentação. Por paradoxal que possa parecer, essa capacidade dependerá também da responsabilidade do conjunto dos partidos democráticos. Só assim se garantirá que a serpente não sai do ovo em que, apesar de tudo, se mantém.»

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16.11.19

Chile: o direito de viver em paz



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Olhem que dois: Chomsky e Mujica



Ler ISTO.
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Chile: da barbárie




«Vítimas foram atingidas por balas de borracha ou chumbo disparadas por policiais durante as manifestações, iniciadas há menos de um mês. Governo diz que vai custear tratamento de quem sofreu "violência política".

A principal associação médica do Chile anunciou nesta quinta-feira (14/11) que pelo menos 230 pessoas perderam a visão, parcial ou completamente do olho afetado, devido a tiros com espingarda de pressão disparadas por agentes de segurança do Estado durante protestos no país sul-americano.»
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O fim do neoliberalismo e o renascimento da História



«NOVA IORQUE — No final da Guerra Fria, o cientista político Francis Fukuyama escreveu um famoso ensaio chamado “The End of History?”. Ele argumentou que a queda do comunismo eliminaria o último obstáculo que separava o mundo inteiro do seu destino de democracia liberal e economia de mercado. Muita gente concordou.

Hoje, à medida que enfrentamos uma retirada da ordem global liberal baseada em regras, com governantes autocráticos e demagogos à frente de países que contêm bem mais da metade da população do mundo, a ideia de Fukuyama parece peculiar e ingénua. Mas reforçou a doutrina económica neoliberal que prevaleceu nos últimos 40 anos. A credibilidade da fé do neoliberalismo em mercados desenfreados como sendo o caminho mais seguro para a prosperidade partilhada está na unidade dos cuidados intensivos nos dias de hoje. E com razão. O declínio simultâneo da confiança no neoliberalismo e na democracia não é coincidência ou uma mera correlação. O neoliberalismo prejudica a democracia há 40 anos.

A forma de globalização prescrita pelo neoliberalismo deixou indivíduos e sociedades inteiras incapazes de controlar uma parte importante de seu próprio destino, tal como Dani Rodrik, de Harvard, explicou de forma tão clara, e tal como afirmo nos meus livros “Globalization and Its Discontents Revisited” e “People, Power, and Profits”. Os efeitos da liberalização do mercado de capitais foram particularmente odiosos: se o principal candidato à presidência num mercado emergente “perdesse a graça” em Wall Street, os bancos retirariam o seu dinheiro do país. Os eleitores enfrentavam assim uma escolha dolorosa: ceder a Wall Street ou enfrentar crise financeira. Era como se Wall Street tivesse mais poder político do que os cidadãos do país.

Mesmo nos países ricos, era dito aos cidadãos comuns: “Vocês não podem defender as políticas que desejam” — fosse ela a proteção social adequada, os salários decentes, a tributação progressiva ou um sistema financeiro bem regulamentado — “porque o país perderá competitividade, os empregos desaparecerão e vocês sofrerão.”

Tanto nos países ricos como nos pobres, as elites prometeram que as políticas neoliberais levariam a um crescimento económico mais rápido e que os benefícios iriam ser repartidos para que todos, inclusive os mais pobres, ficassem em melhor situação. Para se chegar a esse patamar, os trabalhadores teriam, contudo, de aceitar salários mais baixos e todos os cidadãos teriam de aceitar cortes em importantes programas governamentais.

As elites alegaram que as suas promessas eram baseadas em modelos económicos científicos e na “investigação com base em provas”. Após 40 anos, os números estão aí: o crescimento diminuiu e os frutos desse crescimento foram na sua esmagadora maioria para um punhado que está no topo. À medida que os salários estagnavam e o mercado de ações subia, o rendimento e a riqueza espalhavam-se para os mais ricos, em vez de se espalharem para os mais pobres.

Como é que a restrição salarial — para alcançar ou manter a competitividade — e a redução dos programas governamentais podem resultar em padrões de vida mais elevados? Os cidadãos comuns sentiram como se lhes tivessem vendido uma lista de artigos. Estavam certos em sentirem-se enganados. Enfrentamos agora as consequências políticas deste grande artifício: desconfiança das elites, da ‘ciência’ económica em que se baseava o neoliberalismo e do sistema político corrompido pelo dinheiro que tornou tudo isso possível.

A verdade é que, apesar do nome, a era do neoliberalismo estava longe de ser liberal. Impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiães eram totalmente intolerantes à dissidência. Os economistas com perspetivas heterodoxas eram tratados como hereges a ser evitados ou, na melhor das hipóteses, desviados para algumas instituições isoladas. O neoliberalismo continha poucas semelhanças com a “sociedade aberta” que Karl Popper defendia. Tal como George Soros enfatizou, Popper reconheceu que a nossa sociedade é um sistema complexo e em constante evolução, no qual quanto mais aprendemos mais o nosso conhecimento muda o comportamento do sistema.

Em nenhum lugar essa intolerância foi maior do que na macroeconomia, onde os modelos predominantes descartaram a possibilidade de uma crise como a que vivemos em 2008. Quando o impossível aconteceu, foi tratado como se fosse uma inundação em 500 anos — um fenómeno insólito que nenhum modelo poderia ter previsto. Ainda hoje os defensores dessas teorias recusam-se a aceitar que a sua crença nos mercados autorregulados e a rejeição de externalidades como inexistentes ou sem importância levaram à desregulamentação que foi essencial para alimentar a crise. A teoria continua a sobreviver, com tentativas ptolemaicas de ajustá-la aos factos, o que atesta a realidade de que as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm uma morte lenta.

Se a crise financeira de 2008 não conseguiu fazer-nos perceber que os mercados sem restrições não funcionam, a crise climática certamente deveria conseguir: o neoliberalismo acabará literalmente com a nossa civilização. Mas também está claro que os demagogos que querem que viremos as costas à ciência e à tolerância só pioram as coisas. O único caminho a seguir, o único caminho para salvar o nosso planeta e a nossa civilização é um renascimento da História. Temos de revitalizar o século das luzes e reafirmar o nosso compromisso de honrar os seus valores de liberdade, respeito pelo conhecimento e democracia.»

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15.11.19

UE sobre Bolívia




Se se perguntar agora ao nosso ministro dos Negócios Estrangeiros qual é a posição do governo português, já se sabe que resposta dará.
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Nazismo vs fascismo



Lembrei-me de que iam ser apresentados hoje cinco votos relacionados com a resolução do Parlamento Europeu que condenou, em termos iguais, o nazismo e o comunismo e tive tanta sorte que liguei a TV precisamente quando o tema ia começar a ser discutido.

Esta notícia resume o que passou e João Oliveira, do PCP, acertou em cheio: está a tornar-se «cada vez mais claro que PSD e CDS estão a cobrir por cima" as iniciativas "reacionárias" da Iniciativa Liberal e do Chega». Habituemo-nos! (Terá sido a IL que apresentou o primeiro voto.)

Foi apenas aprovado o que o PS apresentou? Obviamente. Só não entendo por que motivo este voto existiu, até porque não me parece que o PS opte sempre pela «condenação de todos os regimes totalitários». Deixasse, hoje, a direita a propor e a perder sozinha – creio que teria sido mais «pedagógico». Opinião minha, claro.

Ler AQUI notícia sobre a votação.
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A escola tem responsabilidades



«Todas as crianças e jovens têm o dever de ir à escola. E que deveres tem a escola para com eles? O tom em que o PSD e o CDS se pronunciaram sobre educação no debate quinzenal com o Governo sugere que pouco ou nenhum.

Para quem assim pensa há um problema no fim de cada ano letivo quando um aluno não atingiu os objetivos definidos. Mas não têm razão, a retenção é a má resposta que damos a um problema que se forma desde o primeiro dia de aulas, quando uma escola desiste de educar alguns dos seus alunos ou os entrega ao exterior, aos centros de explicações e aos pais, para que compensem essa sua desistência, se tiverem capital social e dinheiro para isso.

Há mesmo quem tenha intelectualizado a ausência de deveres da escola e ache que quando os níveis de retenção descem é porque se instala o "facilitismo", termo inventado por uma corrente de opinião que - como no fantasma que CDS e PSD brandiram - pensa que sempre que melhoram os resultados escolares dos alunos é porque a exigência baixou. Mesmo sabendo que os factos dizem que os alunos portugueses estão a subir nos rankings internacionais de competências adquiridas.

A visão neoelitista que tem muita ressonância na direita (e em alguma esquerda) portuguesa é, no entanto, muito ignorante sobre o que é hoje a educação e para que serve no mundo do século XXI. A escola ocupa um papel nas sociedades modernas que lhe cria um dever especial de preparar todos os seus alunos para viverem numa sociedade complexa, que exige a todos elevado nível de competências, em mudança permanente e que requer uma abertura ao mundo que lhes permita não serem excluídos para a vida logo nos primeiros anos da sua existência. Aqueles que a escola excluir agora muito provavelmente estão lançados numa vida de pobreza e falta de oportunidades. E a escola é responsável por evitar que isso aconteça, porque não pode ser mais um braço da fábrica de desigualdades, tem que ser um instrumento de uma sociedade inclusiva.

A transição da escola irresponsável para escola responsável pelos seus alunos é difícil. Para que a retenção deixe de existir porque a escola é eficaz, muita coisa tem que mudar. Os orçamentos de funcionamento têm que subir. Os quadros de pessoal especializado têm que ser diversificados e adequados ao meio social em que cada escola atua. Tem que haver dentro de cada escola (neste artigo chamo sempre escola aos agrupamentos escolares) poder, competência e recursos para tomar as decisões necessárias no tempo certo. E tudo isto, não ao nível de projetos-piloto ou ações limitadas, mas em todo o território nacional e como prática normal de todo o sistema educativo.

Os governos - alguns deles - bem, têm procurado ter atenção a estas carências e muitos municípios, melhor ainda, têm assumido responsabilidades que permitem criar escolas exemplares. Mas estamos longe de ter atingido o patamar de excelência que necessitamos neste domínio e é muito saudável que o Governo tenha agora a ambição de o atingir.

Os amantes da educação têm um desafio enorme pela frente para criar uma escola responsável pelos seus alunos. E sabem que não é ela que cria a maior parte dos problemas que levam atualmente à retenção, recebe-os da nossa enorme desigualdade social e da segregação espacial. Por vezes, não os consegue mitigar, desiste. Muitas outras vezes consegue e quando consegue põe em funcionamento comunidades educativas inclusivas, que têm muitos protagonistas, mas que passam inevitavelmente por dois perfis da maior importância, a direção e os professores, os maestros e os solistas desta orquestra.

Na minha experiência como sociólogo e como pai já vi escolas prosperar e definhar pelo dinamismo e pela decadência da sua direção. Mas todas as que vi ter sucesso dependeram de um trabalho intenso de professores que acreditam na educação, procuram atualizar-se permanentemente, se dedicam aos seus alunos, têm enorme consciência das suas dificuldades e se mobilizam por eles.

Esse trabalho, infelizmente, não tem sido reconhecido social, política nem salarialmente. Com frequência excessiva tratam-se os professores como se fossem um grupo de gente que se sobrevaloriza, trabalha pouco e tem uma profissão fácil. Nada mais errado. Sem repor uma relação saudável do governo com os professores e sem atuar firmemente na promoção do respeito e dignidade da sua função, sou cético quanto a que se atinjam os resultados pretendidos.

Aos que pensam sobre a escola como Rui Rio faria bem tentarem ser professores, não digo um ano letivo, só um mês.»

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