9.3.21

Eu bem digo que isto anda confuso!



 

Camilo Lourenço quer que eu compre uma liquidificadora, Joana Carneiro anda de cabelos ao vento a esforçar-se para me vender 5G via Vodafone e Marcelo está no Norte em cerimónias religiosas no dia em que toma posse como PR de uma República laica. Tirem-me deste filme!
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Desconfinamento?

 

@André Ruivo

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Não mostrem isto ao PAN

 



«Nos Estados Unidos, há santuários de animais que disponibilizam abraços de vacas para quem sente falta de afecto. Sessões custam 75 dólares (cerca de 63 euros).» « Abraçar vacas também é popular nos Países Baixos.»

#eunãoqueroumavacacáemcasa
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Pandemia económica

 


«O mercado laboral está a sofrer um sério revés desde o início do ano. Os dados indicam que, depois da evolução relativamente favorável em 2020, a taxa de desemprego em Portugal está a destoar pela negativa no conjunto dos países da Zona Euro no arranque de 2021, tendo mesmo sofrido o agravamento mais acentuado em janeiro entre todos os países da região.

Segundo o Eurostat, a taxa de desemprego em Portugal avançou de 6,8% em dezembro para 7,2% em janeiro. Apesar desta deterioração, Portugal conseguiu uma evolução muito mais favorável na taxa de desemprego no conjunto do ano passado. Claro está que esta situação está "mascarada" por um desemprego subestimado, devido aos apoios concedidos às empresas e trabalhadores. A verdade é que, perante os números mais recentes, o mercado laboral mostra sintomas de que estes apoios podem ser altamente insuficientes, receando-se uma escalada enorme do desemprego quando voltarmos à nova normalidade. A terceira vaga da pandemia atingiu-nos muito mais do que a segunda e isso terá consequências enormes na recuperação económica. As restrições à mobilidade, a bem da saúde dos portugueses, tiveram um efeito perverso e um duro golpe no tecido produtivo. Após um ano de resistência, o sofrimento das empresas e famílias mais expostas está a ser levado ao extremo. Cada vez são mais as lojas, hotéis e restaurantes que terão muitas dificuldades em voltar a abrir as portas.

Perante este cenário, fica claro que o Governo deve intensificar os apoios, não só para defender os postos de trabalho, mas também para estimular o consumo interno. Para isso, há que dar um forte apoio ao setor privado - como está a ser feito pelo resto da Europa -, mesmo para empresas em falência devido à pandemia. É que, perante esta situação, o risco aumenta em empresas exauridas, com pouca força para retomar a atividade. Logo agora que alguma luz no horizonte se aproxima com a dissipação da terceira vaga e o avanço da vacinação.»

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8.3.21

O drama dos aeroportos

 


Se não resolverem o problema da localização de aeroportos, poderemos sempre viajar em caravanas como esta.
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Sempre neste dia

 

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Portugal e direito a voto das mulheres

 


Quanto a direito ao voto feminino, em Portugal foi assim:

Tudo começou com o decreto 19.692, de 5 de Maio de 1931. Mas com excepções, como a de Carolina Beatriz Ângelo (na foto) que foi a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto (nas constituintes de 28.05.1911), concedido por sentença judicial, após exigência da condição de chefe de família, dada a sua viuvez.


Em 1933 e em 1946 foram levantadas algumas restrições, mas só quase no fim de 1968, já durante o marcelismo, é que acabaram por ser removidas quaisquer discriminações para a eleição de deputados à Assembleia Nacional. (Depois do 25 de Abril, o direito universal de voto passou a aplicar-se também às eleições presidenciais e autárquicas.)


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7.3.21

Pedro Nuno Santos e o PS

 


Eu sei que o texto é reservado a assinantes e é muito longo. Deixo aqui um dos últimos parágrafos:

«Pedro Nuno Santos acabaria a palestra aos jovens socialistas com mais uma crítica à ala centrista do PS: "Ouvimos os estrategas da nossa área política a dizer que é no centro que se ganham eleições. Não nego isso. O erro no raciocínio é a conclusão: alguns pensam que para ganhar o centro temos de ceder no nosso programa, da esquerda para a direita. Mas o centro ganha-se mostrando a esse eleitorado que a nossa resposta é a que melhor responde aos anseios e desafios. O centro ganha-se à esquerda.
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Já alguém o mandou hoje para a terra dele?



 

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O que se sente e o que se pensa

 


«Uma boa conversa pode ser tão importante quanto a comida, a bebida, o exercício ou o amor. É uma das grandes necessidades humanas. À minha volta, aqueles que estão confinados em família, queixam-se da obrigatoriedade da proximidade extrema e permanente a que se encontram sujeitos. Alguns dos que estão sozinhos dizem que até os lábios secam. Podem passar-se dias em que não falam com ninguém, para além das momentâneas comunicações digitais. Outros argumentam que mantém a sanidade tendo conversas imaginárias consigo próprios.

Há um provérbio de inspiração árabe que aconselha a não falar, se o que vai ser dito não for mais bonito que o silêncio. É uma noção algo romântica porque existem silêncios que podem funcionar como autênticos socos, conseguindo ser tão ou mais agressivos do que as palavras. A nossa realidade é a linguagem, mas a nossa realidade são também as emboscadas dessa linguagem. Principalmente quando o espaço público respira conflitualidade como acontece no presente.

Vivemos um tempo onde impera a experiência emocional individual e a capacidade de escutar se perdeu. A Internet por vezes consegue ser um espaço comunicativo de acção comum, mas tende a desintegrar-se em espaços expositivos do eu. Há sede de atenção e afirmação. Há quem tenha prazer em provocar discórdia, seja impenetrável à crítica, como se concordar com o outro fosse perturbador. Muitas vezes não se quer debater, apenas sentenciar. Identificam-se fragilidades alheias, mas não se retribui, de forma produtiva, com nenhuma ideia ou desafio como alternativa. Ainda assim não vale a pena fugir-se do conflito, até porque ao fazê-lo procuram-se apenas refúgios de semelhança. E assim privamo-nos de entender, negociar e experimentar, pondo-nos em contacto com a nossa diferença e dos outros, como é inevitável que aconteça. Sem nos expormos às tensões, maior será a dificuldade em alcançar formas de coabitação, seja entre países, cidades, bairros ou em relações a dois.

Por norma diz-se que para resolver discórdias o melhor é separar os juízos das reacções emocionais. É difícil. A informação emocional tende a ser mais veloz do que a cortical. A impulsividade vai à frente da racionalidade. Como os choques tendem a emergir quando alguém nos põe em causa ou aos nossos interesses, por norma vêm acompanhados de emoções de animosidade. E a beligerância e a irascibilidade não são boa companhia para emitir veredictos. Quando estamos zangados as possibilidades de serem pronunciadas sentenças terríveis, das quais muitas vezes depois nos arrependemos, aumentam exponencialmente.

Justificamos essas acções com o que se sentia naquele instante, mas esquece-se o óbvio. No calor de um episódio virulento, o que se pensa não é o mesmo que se sente. A diferença é imensa. Em alvoroço não há a faculdade de estabelecer equilíbrio. Todos conhecemos o poder tranquilizador ou incendiário das palavras, tal como sabemos que as mesmas coisas podem ser ditas de muitas maneiras, causando efeitos diferentes. Pode-se ser crítico e construtivo ao mesmo tempo, sem danificar a auto-estima de ninguém. Nessas alturas de tensão mais vale respirar fundo, ou seja, dar tempo aos canais da racionalidade para alcançar os circuitos emocionais para os abrandar. O sentimento é subjugado pelo momento, acorrentado ao escrutínio do aqui e agora, e em cenários de antagonismo oferece resumos amplificados da situação. Daí a distinção crucial entre dizer o que se sente e dizer o que se pensa.

Da mesma forma é preciso auscultar as abertas para falar, escutar e estar calado. O silêncio pode ser conclusão, espera, cumplicidade, questionamento ou menosprezo. Existe uma multiplicidade discursiva em que se decide não dizer uma única palavra. Mas a grande questão é saber quando nos refugiamos nas palavras ou no silêncio que a vida nos oferece. A inteligência discursiva, ou o início de uma bela conversa, deve ser isso. Escolher as palavras ou os silêncios que cada momento exige.»

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6.3.21

Cavaco e Mordaças



 

Quarenta e nove anos depois de Mário Soares ter publicado «Portugal Amordaçado» (em Paris porque havia muitas mordaças por cá), vem Cavaco Silva falar de «Democracia Amordaçada».
Percebe-se: ele sentia-se provavelmente mais livre em 1972 do que em 2021.
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Teletrabalho, pois claro

 

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06.03.1927 – Gabriel García Márquez

 


Gabriel Garcia Márquez faria hoje 94 anos e morreu há sete. Em rigorosa «peregrinação», fiz um desvio de dezenas de quilómetros para chegar a Aracataca, em 2012, sempre à espera de encontrar algum membro da família Buendía ao virar de uma esquina, um qualquer José Arcádio ou um dos muitos Aurelianos… Foi em Aracataca que se inspirou para criar a mítica aldeia de Macondo, de Cem anos de solidão.

Mais detalhes neste post do ano passado.
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Um ano entre crenças e lições

 


«Depois do acidente nuclear de Chernobyl (1986) acreditei que perante a brutalidade do evento todos os malefícios da indústria nuclear ficassem duradouramente à vista, e cheguei a propor a categoria de "pedagogia da catástrofe".

Depois disso tivemos o ainda maior desastre japonês de Fukushima (2011), cuja gravidade levou a Alemanha a acelerar o encerramento das suas centrais nucleares.

Contudo, sou obrigado a reconhecer que a combinação entre a higiene psicológica do esquecimento e a "indústria da mentira organizada", citando uma expressão de Hannah Arendt, reduz o alcance da minha proposta.

Hoje penso que a crença - herdada, inculcada, propagandeada ao longo da vida pelos interesses que dela se servem - tem precedência sobre o conhecimento. Se uma tragédia, por mais veemente que se afigure, puser em causa uma crença rudimentar, mas poderosa e confortável, não há qualquer garantia de as lições da tragédia serem aprendidas.

Voltando ao meu exemplo do nuclear: num recentíssimo livro, Bill Gates, o santo patrono dos bilionários filantropos, colocou o nuclear no lado dos remédios para a emergência climática. A lição da catástrofe fica escrita na areia, até ser apagada pela nova maré cheia...

Será que aprenderemos alguma coisa com esta pandemia global, que nos ataca em vagas sucessivas? Para todos aqueles que quando a tragédia começou já tinham uma resposta na ponta da língua, a crença prévia blindou qualquer possibilidade de aprendizagem. Não apenas cretinos certificados, como Trump e Bolsonaro, ou os milicianos das teorias conspirativas para quem o mundo é desprovido de mistério, mas também intelectuais como Giorgio Agamben não se sentiram interpelados pela voragem de interrogações e incertezas contidas no advento da covid-19. Foram ao baú dos seus preconceitos e fantasias, ou das suas sofisticadas grelhas teóricas e - imitando o Dr. Pangloss do Candide de Voltaire - decretaram que o assunto ficava demonstrado com um definitivo silogismo...

A covid-19 oferece hoje o espetáculo do maior campo de batalha entre a reafirmação dogmática da crença e a procura esforçada de um conhecimento que possa ser útil para salvar vidas e evitar tragédias futuras ainda maiores. Essa batalha ganha contornos claros quando se resume o objetivo final da luta contra a pandemia como sendo o regresso à normalidade. Para os partidários da crença, a pandemia não precisa de ser explicada, mas sim vencida, para podermos retomar o ritmo do crescimento económico ativo em 2019. Para quem, pelo contrário, insiste na necessidade de conhecer a raiz causal da pandemia, é na própria normalidade que se encontram as sementes do mal que nos aflige. Já em 2019, o mundo sabia que estamos a descer o perigoso declive da crise ambiental e da emergência climática. A União Europeia foi ao ponto, no final desse ano, de fazer do Plano Ecológico Europeu a sua bandeira estratégica.

É hoje inegável que a covid-19, como todas as novas doenças nascidas da destruição da biodiversidade, fazem parte integrante da crise ambiental e climática.

As medidas de recuperação e resiliência, apesar de aspetos positivos, estão ainda carregadas de uma dolosa pegada ecológica - de aeroportos e minas à agricultura e silvicultura intensivas. Mais entropia, mais impactos, menos serviços dos ecossistemas. É tempo de libertar a vontade e a imaginação coletivas das correntes que nos prendem a um passado sem janela para o amanhã.»

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5.3.21

Um sistema, dois países

 



«O agente da PSP Manuel Morais, conhecido pelo seu ativismo antirracismo nas polícias, foi esta sexta-feira notificado do indeferimento do seu recurso à suspensão de 10 dias por ter chamado "aberração" a André Ventura.»
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António Costa

 


António Costa, Público, 05.03.2021

E o. primeiro ministro também não representa aquilo que é o sentimento generalizado do país. Felizmente.
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A coragem de Mamadou Ba

 


«Mamadou Ba tem quase um metro e noventa, é corpulento e exibe um sorriso meio irónico, meio desafiador que parece dizer “eu vim para vos lixar a cabeça.” Sabe-se como, em geral, os brancos não gostam de negros impertinentes. A arrogância é uma característica deplorável, mas num negro ela torna-se quase inaceitável. Querem um exemplo? Ljubomir Stanisic, o último macho-alfa do planeta, tão seguro de si que quase explode de confiança. Desbocado, temerário, agressivo, parece um homem sempre pronto a recorrer à violência e que, por isso mesmo, e só por isso, não tem de recorrer à violência. Resultado? É uma estrela. Pagam-lhe milhões. Se fosse um negro? Deus nos livre!

O negro aceitável é humilde, bondoso, dócil, submisso. Pode ser intratável, mas apenas no raio limitado das suas competências. Por exemplo, o foco, a obstinação, o fervor maníaco de um Nélson Évora em competição é valorizado porque é lúdico, canalizado para uma atividade de regras estabelecidas e indiscutíveis. Fora isso, preferimos um Obikwelu, um tipo desarmante de tão simpático e genuíno, mas cujas características – que nada me faz acreditar que não sejam genuínas – tocam no nosso subconsciente: “este preto não é perigoso.”

Com Mamadou Ba a história é outra. Pela sua postura, pela sua função desestabilizadora, é uma ameaça à tranquilidade geral. Como se recusa a encaixar no tipo narrativo mais conveniente para a maioria da população – branca – é quase a personificação do negro malévolo, perigoso, vingativo, eventual assaltante ou violador, o “turra”, o negro insubmisso, ingrato, que recusa as migalhas da misericórdia branca e exige ser tratado como um homem e, assim, cria um abalo sísmico no interior de um sistema em que o negro que levanta a voz é sempre mais ameaçador que um branco – porque o branco nem sequer tem de levantar a voz.

Adversários e inimigos de Mamadou Ba gostam de dizer que é um provocador, retirando dessa forma substância e conteúdo à sua intervenção política. Ba seria apenas um agitador, alguém que se diverte a chatear os outros. E é possível que haja esse lado de provocação, mas o que é que quase certo é que, numa sociedade como a nossa, a tolerância para com um provocador negro é infinitamente inferior à reservada aos provocadores brancos.

Que se saiba, Mamadou Ba nunca usou de violência física nem advoga qualquer tipo de violência, não é líder de um grupo terrorista nem, que eu tenha conhecimento, alguma vez ameaçou alguém. Mas é uma ameaça ao sossego, a um certo consenso podre acerca do lugar apropriado para os negros na nossa sociedade. É normal que muitos canalizem para ele o ódio que têm de conter noutras circunstâncias e com outras personagens, que o vejam como uma ameaça porque ele, ao falar como fala, ao intervir como intervém sendo negro em Portugal, é um sujeito raro.

Muitos acusam-no de contribuir para a destruição da harmonia social ao inventar uma questão racial que não existe. Mas a maior ameaça a essa suposta harmonia social é a própria existência dele nos termos por ele escolhidos. E as reações a essa postura destroem o mito da harmonia social que é apenas a ideia de que harmonia é cada um se manter no lugar que lhe está destinado. E Mamadou Ba não aceita isso.

Em termos políticos, não concordo em quase nada com Mamadou Ba e acho que a atomização da sociedade em pequenas células identitárias é nefasta e contraria os princípios de uma verdadeira democracia e de uma República. Há dias, estava a ouvi-lo na televisão e acho que não concordei uma única vez com ele. Mas admiro-lhe a coragem e o desassombro. Num país de subalternos e medrosos, não é coisa pouca.» 

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4.3.21

Desconfinar?

 



Estou quase a concluir que é melhor continuarmos confinados para siempre e que não se fale mais do assunto.(Cansaço!…)
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Tempo delas

 


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Como será a nossa vida depois do pesadelo?

 


«Todos fomos surpreendidos pela chegada desta pandemia. Pela dimensão, fruto da capacidade de transmissão da covid-19, e pela rapidez com que nos atingiu. No início de Janeiro de 2020, as autoridades de saúde davam a notícia desta nova doença, ligada a hábitos estranhos dos chineses, que comem morcegos e pangolins. Nunca tinha ouvido falar dessa longínqua cidade de Huang, apesar de ter 12 milhões de habitantes, pelos vistos com infra-estruturas muito modernas, mas manias ancestrais. Considerava-se que a maleita não chegaria cá, a esta Europa tão civilizada como distante. Ainda me lembro da análise que se fazia ao vestuário dos chineses, que incluía as máscaras de cores garridas, que conhecíamos das nossas viagens exóticas. Talvez protegessem os chineses do ar poluído dos seus motores ruidosos, mas não tinham valor para evitar a propagação dessa nova doença. Enfim, é impressionante como nos enganamos! A velocidade com que esta pandemia se tornou global, parece estar ligada ao tráfego aéreo, que tardamos a proibir, se é que isso ainda era possível. As grandes pandemias que conhecíamos, a última há mais de um século, viajaram de barco para todo o mundo. Esta, rasgou os céus, em velocidade de cruzeiro low cost.

Esta situação opressiva que vivemos, vai acabar por passar, apesar das variantes inevitáveis dos vírus, que irão surgindo. As vacinas, que passaram por ser a afirmação da vitória do espírito europeu, até se tornarem no seu maior embaraço, vão acabar por chegar. A razia dos mais velhos, em conjunto com a legião dos imunizados, servirão de “corta fogo”, para termos algum descanso. Não vai ficar tudo bem, mas iremos sobreviver, como sempre. A dúvida que permanece é se aprendemos alguma coisa, depois desta catástrofe que se abateu sobre nós, e nos infernizou a vida, mais de um ano seguido.

A maior parte dos amigos com que partilho esta inquietação, garante-me que vai voltar tudo ao mesmo, talvez ainda de forma mais exuberante. Festas suadas de milhares de pessoas, compras desenfreadas, viagens intercontinentais em promoção. Parece que assim foi noutras pandemias, talvez porque a geração que as apanhou considera que o aperto não se repetirá nas suas vidas, e é preciso esquecer.

Gostava muito que desta vez não tivessem razão. O Homem, como ser inteligente que é, aproveitaria o confinamento para concluir que não precisa de renovar o guarda roupa em todas as estações, que pode fazer muito trabalho em casa e não precisa de voar para o outro lado do mundo, por uma reunião de três dias. O nosso modelo de desenvolvimento, está posto em causa. Mesmo para quem pode gozar com o aquecimento global, procurando os lugares aprazíveis que o dinheiro pode comprar, não escapa às novas pragas, em muito geradas pelas alterações do clima. E, agora, as pandemias podem ser mais frequentes e apoquentar mais vezes uma mesma geração. Estou com um otimismo contido. Talvez este abalo brutal tenha feito a humanidade repensar o mundo.»

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