7.10.07

Comandante Che Guevara (1)

Andam por aí indignações várias porque a Atlântico escolheu para capa do seu último número esta fotografia de Che Guevara com bigode à Hitler.



Declaração de interesses:
Sou leitora (quase) habitual da revista desde o primeiro número. Lamento que «as esquerdas» desdenhem e a ignorem mas não consigam ter nada de equivalente.


Voltando à fotografia. Independentemente do conteúdo do artigo de Rui Ramos (lá chegarei, provavelmente, num segundo post), a capa é um bom furo (quem não faz marketing, até na blogosfera, que atire a primeira pedra), é muito forte e, sobretudo, é um exercício de liberdade de expressão e como tal deve normalmente encarada. Concorde-se ou não – e eu discordo frontalmente – com a mensagem que veicula.

Está ao mesmo nível das caricaturas de Maomé, do preservativo no nariz do papa ou da falta de respeito para com a família real espanhola. Quem não quiser que não olhe. Ou há saudades da censura?


A propósito do 40º aniversário da morte de Che Guevara, os próximos dias vão ser pródigos em posicionamentos politicamente correctíssimos de ex-idólatras arrependidos. Não será o meu caso. Nunca andei com T-shirts guevarianas, mas continuo a valorizar – e muito – o papel que este e outros «heróis» da América Latina tiveram na minha geração e em várias outras, especialmente significativo no Portugal de Salazar.

Como diz Rui Bebiano em A Terceira Noite, num texto de leitura absolutamente obrigatória, «No seu tempo, [CG] foi sim um agente transformador, integrado no fluxo mundial de expectativa de mudança vivido no decurso dos “longos anos 60”, e, ao mesmo tempo, integrador de solidariedades e de projectos de emancipação que cumpriram o seu papel histórico.»

E, em jeito de provocação, tão legítima como a que concedo a quem odeia Che Guevara, hoje ou desde sempre, este blogue tem pela primeira vez música de fundo (que pode ser desligada...).



5 comments:

Shyznogud disse...

Joana, parece-me que nenhum dos críticos da capa (entre os quais me incluo) defendeu a sua censura e/ou proibição mas, apenas, fizeram notar o seu mau gosto (at very least). Quando, na quinta-feira, resolvi falar no tema foi como reacção às loas à dita capa. Que é uma provocação (e eu até costumo gostar de provocações, mas esta é infeliz e pueril).

Joana Lopes disse...

Era impensável que houvesse censura ou proibição - só o referi por «boutade».
Não estava a pensar no seu texto, mas li vários demasiado «indignados», «enojados», etc. - o que não me parece uma reacção muito sã.
A capa é coerente com o conteúdo do artigo de RR, todo ele cheio de «sound bytes». Lá chegarei.

carlos freitas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
carlos freitas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
carlos freitas disse...

Ainda não li o artigo. Apenas vi a capa. E apenas julgo a capa. Marketing. Os icones são utilizados ao sabor das marés. É por isso que são icones. Já vi uma pomba branca na boina do Guevara, quando o que existiu foi uma estrela de cinco pontas. Depende da "onda". Aparente vontade de chamar a atenção de uma juventude sem ideologia que usa símbolos como quem come hamburgueres. Já agora propunha para próxima capa da revista Hitler com boina à Che. Contra a qual não teria igualmente nada contra! Façam lá a festa que, eu, nem ao trabalho me dou de ir comprar a revista. Em tempos comprava a Kapa. Era melhor. Mas até essa já é um mito. Sem icones na Kapa.