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26.2.16

O "Brexit" e o conto de fadas



«Num dos episódios de "Sim, sr. Ministro", Jim Hacker e Sir Humphrey mostram claramente o que os divide sobre a presença dos britânicos na Europa. Diz Humphrey: "Ministro, a Grã-Bretanha teve sempre o mesmo objectivo de política externa pelo menos durante 500 anos: criar uma Europa desunida.

Por causa disso combatemos com os holandeses contra os espanhóis, com os alemães contra os franceses, com os franceses e italianos contra os alemães, e com os franceses contra os alemães e os italianos. Dividir e governar, como vê. Para que é que iríamos mudar agora, se sempre resultou tão bem?" (…) Neste momento, seguindo a linha cínica de "Sim, sr. Ministro", os britânicos já não se precisam de preocupar: a União Europeia é uma bagunça em que estão todos contra todos. Por causa de tudo. O "Brexit" é, por isso, uma questão que apenas é relevante para alguns sectores como a City londrina. Militarmente a Grã-Bretanha é fundamental na Europa, mas já decide as suas intervenções por si própria. E em termos de aliança está mais próxima dos EUA, da Austrália ou do Canadá, no grande eixo anglo-saxónico global.

A Grã-Bretanha sempre desconfiou, com razão, desta Europa que vai sendo cada vez mais uma moeda (o euro) e um exército de burocratas sediados em Bruxelas que estão apenas preocupados com os défices excessivos e não com o problema de milhões de migrantes, a crise do desemprego ou os atentados às liberdades em diferentes países do Leste europeu. Que Europa é esta, pois então? E para que é que a Grã-Bretanha quer fazer parte dela? A Europa é hoje um castelo de Kafka com pés de barro. Não é uma "Europa solidária e socialmente sensível", como alguns sonhavam. As críticas ao "egoísmo" britânico esquecem o que fez na II Guerra Mundial perante uma Europa em guerra. Mas a Europa escusa de ficar espantada: quando a libra não se integrou no euro, a cotação do petróleo do mar do Norte ficou fora da moeda europeia. E com isso ela deixou de poder ser, um dia, um combatente a sério do dólar. Portugal pode olhar para o seu sonho europeu: seguimos as "recomendações" de Bruxelas e os resultados são visíveis: umas finanças anémicas, uma dívida impagável, um sector bancário vendido a pataco a estrangeiros, a destruição gradual da indústria, agricultura e pescas. E, claro, uma emigração contínua. O sonho de nos aproximarmos do "rendimento médio" dos europeus esfumou-se e hoje Bruxelas considera que é com salários baixos que lá vamos.

O conto de fadas é de terror. E a ameaça britânica vem, pelo menos, agitar este pântano. Pense-se um pouco: enquanto Portugal tem sido temente do que diz Berlim e Bruxelas, a Irlanda percebeu há muito quem são os seus aliados (os EUA e a Grã-Bretanha). O investimento que acolhe e lhe serviu para driblar a crise vem dali e não de uma Europa que usa só os mesmos instrumentos para humilhar os mais fracos e salvar os mais fortes. Estamos a ver, com o OE de António Costa, o que é a Europa de Kafka que criámos. Pode ser que o "Brexit" nos ajude a abrir os olhos.»

Fernando Sobral

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