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2.6.16

«Pigs in Space»



«Os deliciosos Marretas souberam, em tempos, brincar com algumas das mais populares séries televisivas dos anos 60 e 70, como "Star Trek". Criaram assim os "Pigs in Space", que se deslocavam numa insólita nave espacial, a "Swinetrek".

Portugal, sabe-se, está cheio de OVNI que alimentam todos os tipos de teorias da conspiração ou mesmo certezas absolutas. Tem agora também vacas voadoras, cortesia de António Costa, para explicar que não existem impossíveis neste país. Já se desconfiava que este era um país onde já nada surpreende. Afinal, os Marretas poderiam agora recuperar o seu velho quadro e adaptá-lo a Portugal. Não para gozar connosco, mas apenas para que possamos sorrir com aquilo que parece ser sempre uma possibilidade aqui neste sítio. Disfarçamos os nossos problemas estruturais, mas nunca saramos as feridas que dilaceram o país. A dívida será o nosso calcanhar de Aquiles durante décadas. A corrosão dos serviços públicos continuará. O desemprego será estrutural. O crescimento será anémico. A corrupção não desaparecerá.

Há milagres? Existem. Mas são tão improváveis como vacas voadoras. Eça de Queiroz traduzia friamente a crise de sempre. Cohen dizia que "a única ocupação mesmo dos Ministérios era esta - 'cobrar o imposto' e 'fazer o empréstimo'. E assim se havia de continuar...". A questão não era necessitar ou não do empréstimo, mas sim de fazê-lo sem parecê-lo. Era uma tradição e isso era uma força superior contra a qual nenhum Ministério conseguiria lutar. Sem riqueza própria, o crédito externo sempre foi a bóia de salvação. Talvez por isso se compreenda melhor como a política de bolsos vazios de Portugal sempre o impediu de se tornar importante estrategicamente em áreas que poderiam ser rentáveis e que acabam sempre por ir parar a mãos alheias. Vende-se o que é bom porque isso resolve problemas do momento. Só que nunca mais se recuperou dessa fraqueza estratégica. Em certos momentos aparecem vacas voadoras ou mesmo dinheiro que parece infinito. Mas é uma vertigem de nave espacial.»

Fernando Sobral

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