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11.9.16

Hoje soube-me a pouco



«Nas televisões e seus dramas quotidianos, incêndios, desavenças, crimes e outros desastres naturais e artificiais, nunca faltam os depoimentos dos chamados populares. Gente que o acaso fez estar à hora errada no local errado, e assim, indefesa, é apanhada pelos diretos e perguntas triviais do jornalista de serviço.

O resultado é invariavelmente dececionante. Não tanto porque raramente se acrescenta alguma informação útil, mas sobretudo porque a prestação individual destes figurantes é quase sempre desanimadora. A maioria tem dificuldade em articular um discurso coerente, dar uma opinião fundamentada, enfim, tanta vez, simplesmente dizer alguma coisa que passe das interjeições.

Quarenta anos passados do 25 de Abril é frustrante perceber que uma parte considerável da nossa população pouco evoluiu no campo da cultura, da educação, do civismo. Os maiores de 60 anos andaram na escola do fascismo e viveram a miséria da ditadura, mas a maioria dos citados interlocutores das televisões já frequentaram a escola da democracia. A diferença existe, mas não é tão acentuada como se esperaria. O que falhou?

A escola democrática não foi capaz de alterar comportamentos e saberes. O meio ambiente e a miséria acabaram por sobrepor-se favorecendo a ignorância e a rotina. Com destaque para a débil situação económica de muitos portugueses que teima em não melhorar. (…)

O problema não é objetivamente dos pobres. Mas das elites. A estratégia do empobrecimento não é uma ideia original de Passos Coelho, ainda que a tenha aplicado com vigor. Está presente no pensamento dos não-pobres, sobretudo da classe média e ricos. Um país com 30% de pobres dá muito jeito aos ricos e fornece muita limpeza à classe média. (…)

Continuamos na mesma. Pelo menos à esquerda há consciência do problema e vontade de o minimizar. O acordo entre o PS e a sua esquerda só trata praticamente desse aspeto, isto é, reposição do rendimento, aumento das pensões mínimas e do salário mínimo. É muito para a situação económica de Portugal. É imenso quando pensamos que se trata de uma visão diametralmente oposta daquela que vigora em Bruxelas. Mas é pouco, muito pouco, para a necessidade das pessoas e sobretudo para a necessidade do próprio país que, deste modo, desperdiça um quarto da sua população.»

1 comments:

Otto Solano disse...

Absolutamente de acordo, pois nem o autor do artigo sabe escrever o nosso idioma CORRECTAMENTE.