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21.10.16

A abstenção é a alma do povo



«Quase não demos por isso, porque os nossos media estão ocupados com as eleições dos EUA, mas houve umas eleições nos Açores. Na verdade, a maioria dos portugueses mal sabe da existência da assembleia legislativa açoriana.

É o mal dos açorianos não terem um deputado como o José Manuel Coelho, que, com o seu trabalho parlamentar, nomeadamente ao nível da colecção de bandeiras nazis, fez com que todos já tenhamos visto imagens da assembleia madeirense.

Quem também quase não deu pelas eleições nos Açores foi a maioria dos açorianos. Houve 59,1% de abstenção. Qual é a desculpa?! Não me venham com o desinteresse na política. Estamos num domingo, nos Açores, será que há alguma coisa para fazer para além de ir votar?! As eleições regionais nos Açores não deviam ser recebidas pelos ilhéus como, por exemplo, um concerto da Beyoncé?! Ou, vá lá, dos Dama.

Mais de metade das pessoas da Ilha do Pico não foi votar porquê?! Porque nesse dia também havia Open do Pico, para o Master de ténis, e coincidia com a reunião dos G7 e Pico, e acabou muito tarde? Que desculpa é que um habitante do Pico tem para não ir votar, quando basta levantar-se da cama e dar vinte passos em qualquer direcção e dá um encontrão numa urna de voto?

Este desprezo dos açorianos pelos actos eleitorais vem ao encontro da minha teoria de que já chega daquela coisa de, quando há eleições nacionais, ter de ficar à espera dos Açores para saber as primeiras projecções de voto. Entre as sete e as oito da noite, ficam dez milhões de portugueses à espera de dois pastores do Corvo e de uma senhora de idade das Flores, que lhe dói o joelho, e ainda não sabe se vai votar. Porque é que não começam a votar uma hora mais cedo e fecham uma hora antes? Às dezoito horas, de domingo, nos Açores, já não há ninguém na rua, a não ser que haja um tremor de terra. (…)

Faz um bocado de confusão ver os corvinos elegerem um deputado do PPM. Não é por morarem numa fajã lávica que vos posso desculpar tudo. Vocês ainda são, para aí, uns trezentos a votar. Em oitenta e tal que votaram PPM, de certeza que havia alguém sóbrio que podia ter tentado acalmar os outros mais bebidos.»

João Quadros