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13.8.17

À Ghandi e à francesa



«Há uma nova moda: gente rica que se torna budista. Torna é exagero. Ricos que praticam budismo. Quando não tens tempo para te preocupares com contas para pagar sobra tanto tempo. Na verdade, como já tens tudo, o rico é o único que está em condições de saber o que é prescindir de tudo, mesmo sendo por umas horas. O nirvana está nas mãos dos banqueiros. É mais fácil um rico alcançar o nirvana do que um “camelo” que tem de que pagar a renda da casa. (…)

Outra das modas, de quem tem tempo, é o ioga. Eu conheço quem vá fazer ioga na Fontes Pereira de Melo às 6 horas da tarde. Não fazia melhor, em termos de nervos, ficar em casa? Já ouvi "fo**-se , fui ao raio da minha sessão de ioga e tive uma porra de merda de meia hora para arrumar o carro. Até vim cá fora fumar". Ou "que stress, não sei que meias pôr para a minha aula de ioga". Há aqui qualquer coisa que não faz sentido.

Confesso que já fui a um retiro de ioga à procura de mim mesmo e acabei por me perder na estrada para lá. (…)

Assisti a umas aulas de karma, asana, yoganidra, pranayama, topless, mas ninguém me convidou para dançar e fui-me embora. Prefiro capoeira. Cheguei à conclusão que um retiro de ioga é um bom sítio para uma pessoa se abrigar se estiver a chover, e pouco mais. Para desanuviar da meditação da concentração de ioga, tive de ir a uma grande concentração motard. Correu muito melhor, havia comida com muita gordura por todo o lado e andei à pancada com uma senhora de barbas.

Já fui acusado de escrever crónicas contra a religião católica. É falso. E se o fiz foi só porque eles estão mais presentes. Eu sou contra as religiões em geral. Não me levem a mal mas eu quando morrer, quero morrer mesmo. Não me venham despertar para cenas que vocês apreciam. Eu até quero ser cremado e espalhado pelo Chiado para que não passe pela cabeça a deuses que ainda podem aproveitar alguma coisa minha para a eternidade.

Se pudessem não me chatear depois de morto, agradecia, já chega o que me fizeram passar em vida. Eu percebo que haja quem precise de guias espirituais, mas eu fico satisfeito se souber onde há bons caracóis.

No fundo, ricos a fazer de budistas, atenção aos espíritos criativos mais sensíveis porque vem lá trocadilho, é uma espécie de à Ghandi e à francesa — chupa, António Sala.»

1 comments:

breve encontro disse...

Absolutamente fabuloso!!!