18.7.20

Não era mesmo para funcionar



«Com mais de um mês de atraso, está agora anunciado que a app portuguesa de rastreio de contactos com doentes covid será lançada em finais de julho. A Comissão Nacional de Proteção de Dados, não se opondo, apresentou no entanto duas limitações preocupantes: a adoção do sistema da Apple-Google “subtrai uma parte substantiva da operacionalização da aplicação ao controlo dos seus criadores” e, em segundo lugar, há dúvidas sobre se o mecanismo permite a localização dos telemóveis (os criadores prometiam que isso seria informação privada). Mesmo admitindo que a segunda seja acautelada, o panorama das aplicações com que se compara o engenho nacional é devastador. Os sistemas estão a falhar em todo o lado.

Em França, dois milhões de pessoas descarregaram a app em poucos dias. Só houve 14 casos de contacto registados, havendo 170 mil infetados. Na Áustria, um quarto da população descarregou a app; só num em cada quatro casos de contacto com alguém infetado é que o sistema o assinalou. No estado de Vitória, na Austrália, que agora voltou ao confinamento dada a reincidência de casos, os contactos registados foram zero. Na Norue¬a, uma em cada cinco pessoas descarregou a app; em junho, o sistema foi abandonado depois de se terem constatado violações de privacidade. Na Índia, 77 milhões de pessoas usam a aplicação, mas o governo teve que garantir que ia corrigir erros que permitiam o controlo da localização. No Reino Unido, o sistema fracassou e o governo anulou a app. Ou seja, isto não serve.

Repara no que há de comum: em nenhum destes países a cobertura se aproxima sequer remotamente dos 60% necessários para ser estatisticamente eficaz. Como assinala um professor de estatística de Cambridge, se 1% da população tem covid e estiver toda testada e 1% da população descarregar a app, a possibilidade de se cruzarem é uma em dez mil (se a distribuição de umas e outras pessoas for aleatória), muito menor do que a taxa efetiva da doença entre a população. É por isso que é preciso que haja uma taxa muito elevada de participação, o que não se alcança. E, se se alcançasse, ainda era preciso que não se empilhassem problemas que desautorizam o sistema, que não funciona nuns casos ou funciona erradamente noutros. Por isso, percebo que alguns respeitados profissionais de saúde cuidem de todas as hipóteses de controlar a difusão da doença, mas com a app de rastreio estão a perder tempo correndo atrás de uma quimera.»

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