21.11.07

Voo rasante?

Tinha uma expectativa elevada quanto a este livro (*):

- Porque era grande a minha ignorância quanto aos meandros pós-independência em Moçambique, embora por lá tenha nascido e vivido a infância – portuguesa de segunda, com a honra que quiseram conceder-me.

- Porque há muitos anos que conhecia de nome o mítico autor, moçambicano branco que aos vinte e poucos anos fugiu para o Tanganica num avião da Força Aérea Portuguesa para se juntar à luta da FRELIMO e que ocupou depois, no novo país, um sem número de cargos ao mais alto nível.

Acabada a leitura, o principal sentimento que fica é o da desilusão (**). Em quase 300 páginas, vêem-se passar décadas de factos narrados «operacionalmente», quase como se se tratasse de um relatório a ser apresentado a umas quaisquer autoridades. Nem discuto se há incorrecções, responsabilidades incorrectamente atribuídas ou muitas omissões (até é normal que existam), porque não tenho competência para o fazer. Mas pede-se mais a um livro de Memórias. Pede-se distância e reflexão. Pede-se, também, que transpareça um mínimo de calor humano através do que se vai contando. Ora este texto é desagradavelmente gélido.

O mais grave é, no entanto, que Jacinto Veloso revela (ou quer revelar, nem me interessa a distinção) uma ausência de cultura política e de posicionamento ideológico para além do admissível. Dois exemplos:

- De uma longa entrevista concedida, em Moçambique, a propósito do livro:
«Machado da Graça – O afastarmo-nos da União Soviética e aproximarmo-nos do Ocidente trouxe-nos para esta situação em que estamos agora, de capitalismo aberto. Seria este o interesse nacional?
Jacinto Veloso – Não, eu acho que não. O interesse nacional, na minha perspectiva, como membro da Frelimo, e como político da Frelimo, é produzir riqueza, sim senhor, mas é resolver os problemas sociais e económicos do país, do povo moçambicano. Este é que é o interesse. E este é o interesse que, desde o início, existe. Só que pensámos que íamos por um certo caminho e afinal tivemos que ir por um outro caminho. Que é este caminho do capitalismo. Hoje a situação é um bocado complicada, um capitalismo um bocado selvagem, mas é uma fase (...)».


- Do livro, pp. 253-254:
«A confrontação Leste-Oeste deu lugar à chamada globalização, uma teoria moderna pela qual os países são globalizados por outros, que são os globalizadores, política com a qual convivemos até hoje».

Fiz-me entender?

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(*) Jacinto Veloso, Memórias em Voo Rasante. Contributos para a História Política Recente da África Austral, Papa-Letras, Lisboa, 2007, 290 p.
(**) Aconselho a leitura da análise muito crítica de João Tunes, no
Água Lisa (6).

2 comments:

Lutz disse...

Cara Joana Lopes,
os créditos do post «os dandys» não me cabe a mim, mas ao José Luiz Sarmento, do lego ergo sum.

Joana Lopes disse...

Obrigada, está corrigido: não tinha visto que o seu texto era link...