18.11.07

Ratzinger e os bispos portugueses

Actualizado - Ver (**)

Assim que o Papa falou aos bispos portugueses em Roma, no fim da chamada visita Ad Limina Apostolorum, os órgãos de comunicação social dispararam e usaram expressões como «reprimenda», «raspanete» e outras semelhantes. Fui ler o discurso na íntegra (versão oficial aqui) e passei à frente.

Eis senão quando apontaram armas na mesma direcção primeiro Pacheco Pereira, no Abrupto, depois Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente, entre outros, e muitos, mais ou menos jocosamente, na blogosfera.

Apesar de já levar mais anos de ateia do que de católica convicta que fui, sinto-me sempre atavicamente interpelada por estas questões.

Em primeiro lugar, o que o papa disse não resultou de uma qualquer auditoria ao estado da Igreja portuguesa (tipo Tribunal de Contas ou ASAE), mas sim de uma análise que o Vaticano fez dos relatórios que os próprios bispos enviaram como preparação da visita a Roma. Ou seja: foram estes que forneceram os números e as percentagens inquietantes e a visão que têm sobre a prática religiosa no país (*). O papa tirou algumas ilações óbvias e fez considerações tão gerais que são puramente voluntaristas e não vêm alterar o que quer que seja – e ele é o primeiro a sabê-lo.

Bem mais importante: está na moda, sobretudo por parte de ateus confessadamente empedernidos, manifestar um grande apreço pela figura do actual papa. Comparativamente com o seu antecessor, é mais intelectual, melhor teólogo, não é polaco, sabe muito bem o que quer? Certamente. Mas Bento XVI não demonstra qualquer sentido de abertura da Igreja nem no plano teológico, nem no disciplinar, muito menos no da moral, que lhe confira autoridade prática para exigir que as comunidades católicas se renovem. Muito pelo contrário. E, como escreve Frei Bento Domingues hoje no Público, «...não ficaria mal aos bispos lembrar ao Santo Padre e à Cúria Romana que, embora haja muitas igrejas locais que resistem à renovação, a fonte principal dessas oposições radica no próprio Vaticano»(**). Enquanto assim for, Roma e as suas «delegações» continuarão a ver igrejas cada vez mais vazias nos países da velha cristandade e terão de se contentar com as multidões que acorrem às Covas das Irias deste mundo.
Que isto não seja visto como uma qualquer defesa «patriótica» dos bispos lusitanos, mas sim como a convicção de que eles não são mais do que um simples componente de uma muito complexa engrenagem.

Quanto a muitos católicos que vivem com os pés na terra e os olhos no progresso, continuarão nas catacumbas várias a que regressaram quando as esperanças criadas pelo Concílio se esfumaram, e onde vão vivendo a sua fé e os seus ritos eclesiais em comunidades que não os excluem ou das quais não se sentem excluídos. Quanto mais novos são mais ignoram, paulatinamente, as hierarquias eclesiásticas, romanas ou portuguesas. Sentem que têm pouco (ou nada) a ver com quem continua a recusar o uso do preservativo, o Sim à despenalização do aborto, a comunhão aos divorciados e o casamento aos padres; com quem beatifica centenas de heróis da guerra civil espanhola (só de um dos lados) e anda à procura de milagres para canonizar pastorinhos ou condestáveis.

Falei com uma ou outra dessas pessoas sobre o discurso do papa aos bispos portugueses, a que grande importância dão tantos outsiders. Como reacção, não obtive mais do que um muito significativo encolher de ombros.
Faço o mesmo.

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(*) Creio, aliás, que há situações muito semelhantes em vários outros países europeus tradicionalmente católicos, como a Espanha, a Itália ou a França.

(**) Aconselho a leitura de todo o artigo, infelizmente sem link disponível.

(***) Shyznogud deixou o seguinte comentário:
Muito devido a este post transcrevi o artigo de Frei Bento para o baú onde costumamos pôr os textos mais longos para criarmos links. Aqui está ele se alguém tiver curiosidade:
clicar.

9 comments:

Cristina disse...

olá Joana

eu, não gosto mais deste Papa do que de outro qualquer. na verdade, não gosto de nenhum, nem do que eles representam, nem a Igreja em geral me merece qualquer respeito. Reconheço que alguns padres por esse mundo fora fazem um bom trabalho com as comunidades em que se inserem, e por aí fico.

mas, esta chamada de atenção para a fé veio, curiosamente, no sentido do qual já me tenho manifestado: porque diabo há-de a igreja querer estender as suas leis e o seu chicote à sociedade inteira? porquê tanta preocupação em manifestar o seu poder? quem for católico que viva de acordo com as suas regras e ponto final mas, a verdade, é que nem esses. a igreja, não só sabe cativar novos fiéis, como nem os seus acarinha.

beijo

Joana Lopes disse...

A Igreja nunca renunciará ao seu poder que é muito forte e o mais consolidado no mundo.

Bjs

samuel disse...

Eu que sou filho de um pastor protestante, mesmo tendo saído da igreja com menos de 15 anitos provocando o escândalo que se imagina, fui "educado" numa espécie de alergia à ICAR que rapidamente estendi à "minha" igreja, similares e subprodutos.
Felizmente nunca essa alergia foi direccionada a pessoas.
Quando estou em dias mais "rebarbativos" o que hilariantemente (reconheço) me tira do sério no que respeita à arrogância da Igreja Católica para com todos os que não têm nem querem, ter nada a ver com ela... é o alucinado toque dos sinos nas igrejas e capelas, por toda essa província.
Mesmo para os católicos deve ser estúpido ser chamado para a missa por uma sineta , exactamente como no tempo em que ninguém tinha relógios...

Anónimo disse...

De acordo consigo no que respeita à interpretação da "reprimenda" papal aos bispos portugueses. Excepto que não considerou a hipótese de o papa ter sido informado mais e melhor por uns bispos (Policarpo, Carlos Azevedo, Clemente, etc) do que por outros (Ortiga, etc), o que acrescentaria já uma nuancezinha ao sermão.

Pertenço ao número dos já não crentes que reconhecem neste papa qualidades intelectuais atraentes. E posições de ortodoxia teológica, no melhor sentido do termo, como a que tem revelado em relação a Fátima - e que muitos portugueses parece que ainda não entenderam. JP II foi um grande promotor de formas de religiosidade popular que desviam o catolicismo da leitura dos evangelhos para o reino dos cultos mágicos de multidão, tão ao gosto do mundo mediterrânico e sul-americano. Bento XVI, depois de ter lembrado a posição mais límpida da Igreja em relação a aparições e outras "revelações privadas" e de se ter negado a alinhar em interpretações fatimistas reaccionárias, recusou com um ano de antedecedência vir a Fátima alegando agenda carregada... Longe da acutilância das posições dum Hans Küng, o papa revela-se fiel (tanto quanto um papa pode sê-lo) ao distanciamento dos teólogos conciliares da Europa Central e do Norte em relação ao marianismo de arraial milagreiro. Não acho que os ateus devam ser insensíveis aos possíveis efeitos pedagógicos duma tal posição sobre a massa católica, a não ser que apostem no quanto pior melhor.

Joana Lopes disse...

sapka, muito obrigada pelo seu comentário com o qual, globalmente, concordo. Mas há todo o resto de conservadorismo, nomeadamente as questões relacionadas com o plano da «moral» que, a meu ver, pesam mais.

Shyznogud disse...

Muito devido a este post transcrevi o artifo de Frei Bento para o baú onde costumamos pôr os textos mais longos para criarmos links. Aqui está ele se alguém tiver curiosidade:

http://womenage.lifelogger.com/581808

Joana Lopes disse...

Obrigada, Shyznogud, já pus o seu coentário no «post».

Ana Cláudia Vicente disse...

Joana,
[isto vai ser um bocado longo, sorry]

mais curioso ainda, alguns media e opinadores não só descreveram o resultado da visita como o "pregar de um raspanete", como apresentaram a própria visita episcopal a Roma como uma espécie de convocatória extraordinária que não foi. Suponho que das duas uma: ou quem dá as notícias não quer ter muito trabalho a compreender e explicar estas coisas, ou é simplesmente mais excitante vendê-las assim,a um público que quer é animação.

De facto, as considerações papais derivam da informação produzida pela igreja portuguesa, e são, antes de mais, a formalização, o reconhecimento público de um estado de coisas. Esse simples reconhecimento público pode parecer óbvio e tardio para quem está de fora, mas reveste-se, para os católicos portugueses (por vir de quem vem), de uma carga simbólica particular, torna-se numa interpelação à comunidade de crentes com vista à transformação desse mesmo estado de coisas.

Quanto à responsabilidade por esse mesmo estado de coisas, concordo, no domínio eclesiológico, com a análise de Frei Bento Domingues. A estrutura tríplice do catolicismo (comunidades de crentes, Santa Sé, Estado do Vaticano)é pesada, e o corpus essencial à crença e prática católicas, reafirmado no Concílio Vaticano II, tem vindo a subsumir-se num debate de momento dominado por uma visão de fechamento, de conservação. Acrescentaria, no caso português, o factor demográfico: os católicos (sacerdotes e leigos) portugueses são em boa parte os mesmos, e envelhecidos, historicamente pouco virados para a reflexão sobre as suas próprias práticas.

Vai-se sair deste status quo? Penso que sim. Os católicos que não se encontram 'cristalizados' não estão propriamente em situação de clandestinidade, nisso não concordo consigo, e a renovação geracional agudizará as questões que são já, tão prementes. Penso que assistimos ao fim de um certo "catolicismo sociológico difuso", de uma situação "maioritária", e que as comunidades católicas, confrontadas com outra dimensão e um universo social mais plural, estão a ser obrigadas a repensar-se de forma mais consistente. Isto está a gerar tensões, claro. Ainda bem.

Joana Lopes disse...

Obrigada, Ana Cláudia, pelo seu comentário.
Oxalá tenha razão no optimismo manisfestado no último parágrafo.
Um abraço.