Páginas

11.4.16

Portugal e o cerco europeu



«Bruxelas. Foi útil, quando começou a crise das dívidas soberanas, como trincheira para que o vírus não se propagasse a Espanha e Itália.

Mas agora é visto como um protectorado, a quem se dá ordens, porque controla a dívida e o poder político português é demasiado frágil para bater o pé a quem julga ser dono da União Europeia. Como conviver (e definir um espaço de soberania) contra um destino e o futuro que lhe está a ser desenhado pela União Europeia? Não é uma luta fácil para quem está cercado por uma dívida externa que ameaça eternizar-se e cuja única solidariedade europeia ciranda à volta da palavra compreensão. Será esta a hora de voltar a questionar a opção europeia por parte de quem está no seu extremo oeste? Sun Tzu, o mestre de “A Arte da Guerra”, tem uma boa sugestão para o futuro de Portugal: “A estratégia sem táctica é o caminho mais lento para a vitória. Táctica sem estratégia é o ruído antes da derrota.” O drama de sucessivos governos portugueses é que têm feito da táctica a sua única agenda política. Portugal precisa de ter uma posição própria e uma política de alianças que ultrapasse o “diktat” da EU. O “caso Banif” (a que alinhavamos o “caso BES”, o “caso BPI” e o “caso BCP” e talvez o próximo “caso CGD”) exemplifica aquilo que a EU quer de Portugal: que é ser um apeadeiro de Madrid e, por maioria de razão, da estação central dos burocratas de Bruxelas. (…)

Parece ser evidente que assistimos a uma repetição muito cruel do passado, quando a Inglaterra nos fez assinar o Tratado de Methuen, destruindo as veleidades industriais de Portugal. Só que desta vez, no seu jogo de força bruta, a Europa mostra que tem pés de barro. Tem pela frente uma crise sem solução (a dos refugiados) e uma outra (o “Brexit”) que pode ter consequências devastadoras para o futuro de qualquer ideia comum europeia. Ainda assim continua a tentar submeter os países periféricos como Portugal a ditames que não aplica à Alemanha. Basta olhar para os apoios estatais alemães aos seus “landesbanks” e aos cruzamentos entre grandes empresas e bancos ali existentes sem qualquer controlo. Para já não falar dos paraísos fiscais existentes no interior da Europa (como no Luxemburgo) que nunca foram investigados. É esta Europa feita só para alguns com que temos de nos confrontar. Os políticos portugueses deveriam começar a reflectir sobre isso.»

Fernando Sobral

0 comments: