31.8.18

Quase 2/3 dos jovens admitem prescindir de ter emprego fixo



Cátia Mateus no Expresso diário de 30.08.2018:

«Foi a “Forbes” quem lançou o alerta já no ano passado: em 2020 os millennials - a geração de profissionais nascida entre a década de 80 do século passado e a viragem do milénio - vão representar 40% da força de trabalho mundial. Em 2025 serão 75%. E mais do que os números, foi a análise realizada pela publicação de gestão que fez soar o alerta entre os gestores: “Quer se goste ou não, os millennials serão ativos críticos para a sustentabilidade dos negócios. Se eles não quiserem trabalhar para as vossas empresas, o vosso negócio morre”. O que a consultora Deloitte agora demonstra é que este afastamento das gerações mais jovens - não só da geração millennial, mas também da sua sucessora geração Z (nascidos entre 1995 e 2012) - já está a acontecer.

O mais recente Millennial Survey, o estudo anual da consultora que analisa a prestação desta geração no mercado de trabalho, agora divulgado, revela que globalmente os millennials e a geração Z estão menos leais às empresas, confiam menos nos seus líderes e na ética das organizações. O resultado desta descrença traduz-se em números: 62% dos profissionais encara a hipótese de trabalhar em regime de freelancer como uma alternativa ao emprego a tempo inteiro, apesar da instabilidade associada a modelos de trabalho flexíveis.

Esta nova realidade marca uma inversão face ao foco na estabilidade que caracterizou gerações anteriores. Os novos profissionais não só não querem “criar raízes” nas empresas, como se orientam por outros valores que não os da estabilidade. Segundo o relatório da Deloitte (sustentado em entrevistas a mais de 10 mil millennials e 1850 jovens da geração Z em 36 países), 43% dos profissionais nascidos na até à viragem do milénio ponderam abandonar o seu emprego atual nos próximos dois anos e para 72% é proibitivo permanecer cinco ou mais anos na mesma organização. Na geração Z não há referências a um horizonte temporal de cinco anos. Mas sabe-se que 61% dos nascidos a partir de 1995, que já estão no mercado de trabalho, querem mudar de emprega até 2020.

O que afasta esta geração?

Todos os estudos apontam na mesma direção: não é o dinheiro que move estes profissionais, ou melhor, não é apenas o dinheiro. Destas gerações de profissionais sabe-se que são mais ambiciosas do que as anteriores e que têm maior consciência do seu valor profissional. Mas sabe-se também que para eles, tão ou mais importante do que trabalhar para garantir um salário, é trabalhar de forma ética, com líderes inspiradores e em empresas que gerem impactos sociais positivos. E é aqui que as organizações estão a perder pontos na retenção dos millennials e Z's que preferem assumir os riscos de trabalhar de forma independente.

Mais uma vez, os números da Deloitte demonstram-no. 52% dos jovens profissionais ouvidos no estudo não reconhecem um comportamento ético nas empresas e 56% também não identificam qualquer interesse em criar impacto positivo na sociedade por parte dos líderes. Resultados que segundo Sério do Monte Lee, partner (sócio) da Deloitte, “devem servir de alerta para os líderes empresariais” porque, refere, as novas gerações “sentem que os líderes estão muito focados nas agendas das suas empresas e pouco preocupados com o seu contributo para a sociedade”.

Uma orientação que está a ditar o seu afastamento das empresas e não é de agora. Em 2014, num artigo publicado na Harvard Business Review, Julia Fetherston e Vilas Dahr demonstravam que “a maioria dos millennials acredita que as empresas, e não os governos, terão o maior impacto na resolução dos principais problemas sociais” e defendiam que uma das grandes ambições desta geração é ser parte ativa nesse processo. Uma visão também corroborada pelo partner da Deloitte que acrescenta que “para conquistar a confiança e lealdade destas gerações, as empresas devem encontrar formas de impactar positivamente as comunidades locais e forcar-se em questões como a diversidade, inclusão e flexibilidade”.

Organizações com um propósito e líderes com forte vocação social são parte do caminho para reter uma geração que em breve dominará o mercado de trabalho mundial. A outra parte, conclui o estudo, passa por “conduzir uma atividade que seja capaz de gerar um impacto positivo na sociedade e no ambiente, ser um acelerador de ideias, produtos e serviços inovadores, ter um plano de carreiras que desenvolva e melhore, na prática, a vida dos seus profissionais e construir um ambiente de trabalho inclusivo”.»
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