22.2.10

Não é nobreza, é nobritude




No jornal «i» de hoje, uma longa entrevista ao candidato anunciado.

Dois excertos que só vêm confirmar as minhas inquietações:

«Chegou o momento de a sociedade civil se exprimir.» «Chegou a hora de os cidadãos dizerem que querem ser escutados e eu quero ser o porta-voz desses que não tiveram voz durante décadas.»
Isto é grave porque podia ter sido dito no dia 24 de Abril de 1974. Há décadas não tínhamos «voz», mas hoje todos a temos. E se é verdade que uns a têm mais do que outros, não se trata de invocar a sociedade civil (mas o que é isso?...), mas sim de governar bem para diminuir diferenças sociais e económicas. E, que eu saiba, isso não é propriamente a função de um PR.

«Não estou aqui para dividir entre esquerda, centro e direita. Isso não me interessa. Eu vou por valores. Há muita gente que ainda não entendeu que já ninguém acredita nessas coisas da direita e da esquerda: acreditam em valores, em pessoas com carácter e com coluna vertebral.»
Precisamente por se acreditar em valores é que fez, faz e continuará a fazer sentido, usar termos como «esquerdas», «direitas», e outros afins, para tentar compreender a realidade política. Porque é de política que se trata e não de carácter, coluna vertebral ou de ter medo de crocodilos e não de mosquitos.

O dr. Fernando Nobre começa a dizer ao que vem e transpira virtude. Não basta.

19 comments:

Vitor M. Trigo disse...

Joana,
devo dizer-te que concordo com tudo o que dizes. A esquerda e a direita existem e ainda bem - assim sabemos (mais ou menos) onde estão. O centro, e o centrão, lembram-me o "caldeirão" (aquele grupo para onde iam os que, nas alas de conto-coral dos tempos do liceu, não sabiam cantar).
O que eu não consigo perceber é onde estão as virtudes de MA e os perigos de FN 8refrindo-me só a estes dois).
Acho que ambos disfarçam algo potencialmente perigoso. Mau feitio, o meu, eu sei.Como tu, mas certamente com argumentos e razões distintas, arrepio-me (como tu por vezes dizes)com as alusões à chamada sociedade civil em contraponto aos partidos políticos.
Mas, esperemos, que a procissão ainda vai no adro.

Anónimo disse...

Quando é que deixamos de discutir rótulos (direita, esquerda, centro, etc.), de fazer jogos florais (nobreza, nobritude...)e passamos a discutir ideias?
Talvez fosse mais útil.

José Carlos Pereira

xatoo disse...

"governar bem"! - as receitas já foram todas inventadas (marxismo, liberalismo, conservadorismo); só falta efectiv/ liberdade de escolha, que de facto a manipualção burguesa não permite (de antes ou depois do 25A). Temos de facto liberdade para falar, mas quem nos ouve no meio da parafernália opinativa? Vota-se numa prespectiva e os contratantes do presente paradigam constroem outra, pré-determinada que lhe é oposta. De que mecanismos dispomos para evitar esta falácia "democrática"?
Para solucionar a questão do "governar bem" numa óptica de bases de esquerda é partir da análise concreta dos interesses das classes em presença e equacionar as soluções. Sem as falsas capas da "complexidade". Ou se é marxista, ou não se é de esquerda. Isto parece-me muito óbvio. Todas as outras opções estão inquinadas pelas estruturas de dominação existentes. Fazer contratos com o "inimigo" é passar-lhes um certificado para lhe dar legitimidade...

que deus me acuda disse...

Vou inscrever-me rapidamente numa sociedade, não vão incluir-me na "civil", que eu nunca soube o que seja e com a qual sempre embirrei.
Virtude?; Ingenuidade?
Se forem apenas características destas, por que não chamar-lhe estupidez ou ignorância?

Joana Lopes disse...

Vítor,
Repito o que já disse várias vezes: não sou especialmente fã de MA, não votei nele em 2006, mas escolhê-lo-ia se as eleições fossem amanhã. Tem mil defeitos, mas nunca o ouviste dizer coisas como as que refiro neste post. É um político, o que, para mim, não é um mal mas sim um requisito para ocupar o cargo de PR.

Joana Lopes disse...

José Carlos Pereira,
Se não me engano, já deixou um comentário num outro post sobre a mesma temática, o que quer dizer que não é a primeira vez que passa por esta «casa».
Este blogue pode ser acusado de muitas coisas, mas não de não procurar, precisamente, que se discutam ideias: leia, se tiver paciência, todos os comentários aqui publicados a propósito do anúncio da candidatura de FN.

Joana Lopes disse...

xatoo, eu podia dizer apenas que estou de acordo consigo em quase tudo, mas prefiro recordar também que estamos a discutir APENAS de um epifenómeno - as eleições de um PR - e não a tratar da tomada do Palácio de Inverno...

Joana Lopes disse...

que deus me acuda, estou contigo: quando for grande, quero perceber o que é isso da tal «sociedade civil». Parece-me sempre que deve ser qualquer coisa contra o MFA...

io disse...

Li a entrevista ao início da tarde e reencaminhei o link por email justamente com o comentário de que me parecia haver ali, para além de uma arrogância profunda, uma triste confusão sobre quais as funções constitucionais de um Presidente da República, já para não falar da desconfiança que me provoca o tom diverso das suas palavras quando se refere a Cavaco Silva e a Manuel Alegre.
Esta candidatura deixou-me de pé atrás desde o primeiro momento e, à medida que vou lendo o que o Dr. Fernando Nobre discorre nas sucessivas entrevistas, mais lamento ele não ter dado ouvidos à sensatez da sua mulher.

Paulo disse...

e veio o Nobre,qual D.Sebastião,
disse o que qualquer populista
diria, não é de esquerda,nem direita, ele paira acima,o grande
educador da"sociedade civil"(???)
de tudo o que disse,espremido,sai
uma água tarela...não sabemos o
que está atrás do monte de baganha

Pedro Viana disse...

Concordo com o post. Ainda na mesma entrevista, a dada altura FN diz que a democracia não se esgota na representação, mas que deve envolver também a participação activa dos cidadãos na tomada de decisões. Infelizmente, logo a seguir reduz essa participação a... referendos. Muito pouco.

A segunda parte da crónica de hoje, segunda-feira, do Rui Tavares, no Público, é também interessante. Porque afirma claramente que precisamos de mais democracia, e candidatos que mobilizem os cidadãos em vez de se apresentar como salvadores da pátria. E acaba com uma proposta de debates conjuntos entre MA e FN, que me parece o mais próximo que poderemos chegar duma "união" das candidaturas.

Anónimo disse...

olá Joana
Não sou político nem pretendente a sê-lo, mas não teria sido de bom tom, antes de se anunciar como candidato, ter-se demitido da presidência da AMI? Quem é que agora aparece? o cidadão candidato a Presidente ou o presidente da AMI? Nesta "baralhada", torna-se é legitimo a qualquer cidadão indagar sobre as contas da AMI, incluindo, entre outras, o vencimento do seu presidente.
JM

Nota: tenho estado a ler partes do livro com o título deste blog.

Joana Lopes disse...

io, Também reparei na diferença de tom na referência a Cavaco e a Alegre.

Joana Lopes disse...

Pedro Viana,
Achei a parte final da crónica do Rui Tavares um pouco lírica, embora interessante: não estou a imaginar FN e MA a percorrerem o país, numa tarefa mais ou menos pedagógica. Pode ser que aconteça, mas não antevejo qualquer tipo de «união» entre as duas candidaturas - a não ser que haja um acordo tácito para que uma delas desista à última hora.

Joana Lopes disse...

JM
Obrigada pela referência ao livro.

Deveria FN ter pedido a demissão de presidente da AMI. Não sei, devo dizer que não tenho opinião sobre o assunto. Fiquei com a ideia de que suspendeu a actividade, não?

Anónimo disse...

Joana,
parece-me que o Pedro Viana tem razão - apresenta no fundo a mesma proposta que eu tenho aqui defendido, noutras caixas de comentários, embora eu a formule noutros termos.
Antes do mais, não é tanto de convencer os dois candidatos que se trata, mas de propor aos que nas suas candidaturas querem transformar a intervenção nas eleições presidenciais numa afirmação de cidadania activa, visando a participação igualitária no exercício do poder político e uma efectiva democratização deste, que imponham essa carta de princípios aos dois candidatos. Negativamente, também seria importante obrigá-los a enunciarem a ideia de que os movimentos da cidadania activa e a extensão da participação democrática são incompatíveis só se podem fazer sem "homens providenciais" e contra eles.
A condição de uma intervenção que valha a pena nas presidenciais, através do apoio a uma candidatura, só faz sentido se não nos obrigar a subscrever e avalizar posições e concepções que negam os propósitos de democratização e de extensão igualitária das liberdades e direitos que politicamente nos identificam como cidadãos que entendem que um poder político democraticamente legítimo só pode ser o do auto-governo, o da participação de cada um nas decisões que vinculam todos.
E, para concluir, a propósito de "esquerda" e "direita", eu diria que o critério mínimo da "esquerda" em que vale a pena apostar seria a afirmação da democracia entendida nos termos que uso no final do parágrafo anterior. E a verdade é que vemos muitas vezes apresentar como de "esquerda" propostas e soluções que excluem à partida a igualdade dos cidadãos perante o poder e, sobretudo, no seu exercício.

miguel serras pereira

miguel serras pereira disse...

Ainda mais isto, camaradas:

se podemos sentir-nos obrigados a intervir nas presidenciais - contra a reciclagem "económica" autoritária do regime e pela sua democratização -, isso só pode fazer sentido para tentarmos obrigar os candidatos e as candidaturas a alguma coisa em benefício dos propósitos que resumi no comentário anterior. É uma exigência democrática mínima deixar claro em qualquer intervenção nas presidenciais que a obrigação dos candidatos perante os que os apoiem prima sobre a obrigação dos apoiantes perante os candidatos. Para que estes deixem de ser representantes e se atenham ao papel de mandatários, obrigados pelas condições do mandato.

Joana Lopes disse...

Miguel,
200% de acordo, Miguel, mas COMO? Em que arenas propões que se concretize a pressão para que isso aconteça?

miguel serras pereira disse...

Joana,
a resposta é cada um de nós onde está e onde passa, onde pode chegar. Junto daqueles que integram as candidaturas, dos que fazem parte de colectivos ou grupos a que também pertencemos.

Não percebo nada do Twitter, mas vi pelo Arrastão, ontem, que o Miguel Portas - embora em termos ligeiramente diferentes, mais abertamente pró-Alegre, mas isso pouco conta agora - assume uma posição próxima, sob este aspecto. Outros pensam como ele no BE e na sua área.

Portanto, talvez fosse possível que tu e/ou alguns dos que nestas caixas de comentários têm defendido a perspectiva da "cidadania activa" (isto é a democratização do regime através da extensão da participação democrática no exercíco do poder de todos aqueles que as suas decisões vinculam) fizessem uma declaração ou apelo a entregar às candidaturas (e também aos candidatos) e fazer circular pela malta.

Não me ofereço para redigir um primeiro rascunho porque sou demasiado espalha-brasas e estou com absoluta falta de tempo para esse efeito. Mas daria a ajuda que pudesse. Passaram por esta caixa de comentários e pelas dos outros posts sobre as presidenciais todas as ideias e formulações indispensáveis. Algum ou alguns dos seus autores poderiam preparar um documento, eventualmente com o contributo de gente que não passou por aqui; contacatar depois um pequeno núcleo de primeiros subscritores que sugeririam uma ou outra emenda, subscreveriam e — sempre seria um passo mais.

O documento em que penso não elogiaria nem atacaria MA ou FN - nada diria sobre as suas pessoas e trajectos políticos. A ideia é que tanto apoiantes de uma candidatura como da outra, a par de indecisos entre as duas ou decididos não-apoiantes de nenhuma pudessem subscrever a coisa.
Os princípios teriam de ser claros, mas suficientemente gerais, constituindo uma plataforma mínima mas democraticamente distintiva.
Aqui tens o exemplo de uma acção que me parece justa e que contém um princípio de resposta à tua questão. Haverá por aqui alguém que queira tentar fazê-la arrancar?

msp