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5.4.17

Os deuses e o Novo Banco



«Quando, em 409 a.C., Atenas e Esparta se guerreavam, esta ocupava posições militares que impediam a exploração das minas de Laurion, de onde a cidade ia buscar o metal para fazer as suas moedas.

Para poder continuar os combates contra Esparta, Péricles só vê uma hipótese: tocar no tesouro dos deuses (as oferendas e os objectos sagrados, incluindo o ouro que revestia a estátua da deusa Atena). Para a guerra, os gregos pediam um empréstimo aos deuses. Até há muito pouco tempo pouco mudou: a principal causa de dívida pública eram as guerras. Hoje, tudo mudou. A dívida pública portuguesa faz-se de muitos delírios e de algumas necessidades. E como já não há deuses a quem pedir emprestado, restam entidades mortais que, às vezes, se julgam imortais. A incompetência da troika no que se refere ao sector financeiro teve aliados nacionais: o anterior Governo e o BdP. Todos juntos assobiaram para o ar quando se depararam com o Banif e, depois, quiseram fazer do BES um exemplo. (…)

O caso do BES foi uma sucessão de ligeirezas e casmurrices ideológicas. Bruxelas usou o BES como um laboratório de armas de destruição maciça, para ver o que acontecia a cobaias periféricas. Depois, Passos Coelho fez finca-pé em guilhotinar o banco. E o BdP veio, com a resolução, prometer o paraíso, porque o banco seria vendido rapidamente e sem custos para os contribuintes. Viu-se o que resultou da actividade destes deuses descalços.»

Fernando Sobral

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