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21.7.07

Canções na memória (X)

It's a Long Way to Tiperrary

Cantada pelos soldados britâncios durante a 1ª Guerra Munidal.
Escrita por Jack Judge e Harry Williams em 1912.
Interpretada aqui por John McCormack, numa famosa gravação de 1914.

Para ouvir, clique na foto: (*)

Refrão:
It's a long way to Tipperary,
It's a long way to go.
It's a long way to Tipperary
To the sweetest girl I know!
Goodbye Piccadilly,
Farewell Leicester Square!
It's a long long way to Tipperary,
But my heart's right there.


(*) Deve poder usar Windows Media Player

19.7.07

Há 32 anos, na Fonte Luminosa

No seguimento do chamado «caso República», depois de muitas peripécias, o jornal saiu para a rua em 10 de Julho de 1975, com o nome de um director nomeado pelo MFA (e não com o de Raul Rego). Os ministros socialistas que faziam parte do IV Governo Provisório (Mário Soares, Salgado Zenha e Almeida Santos) pediram a demissão, foram seguidos pelo PSD, o que provocou a queda do Governo e a sua substituição pelo seguinte – o quinto e último presidido por Vasco Gonçalves –, que tomou posse em 8 de Agosto.

Entretanto, no dia 19 de Julho, o PS organizou a famosa manifestação da Fonte Luminosa – marco importante na história daquele verão quente de 1975, tanto para os participantes (falou-se de mais de 100 000 pessoas), como para quem estava bem longe (como era o meu caso).

Aqui ficam alguns excertos do discurso então proferido por Mário Soares (tirados de O Portal da História).

«O dia de hoje foi um dia grave na história do nosso povo. Depois de uma campanha alarmista de boatos sem precedentes, de uma ‘intentona’ artificial, de uma falsa conjura com intenção de enganar o povo; depois disso, organizaram-se barreiras para impedir que o povo dos arredores de Lisboa, deputações do povo de Portugal viesse aqui manifestar-se livremente, em favor da liberdade, da democracia, do socialismo. (...)

A verdade é que a contra-revolução estava nas barragens organizadas pelos energúmenos, agitadores e arruaceiros para impedir que o povo de Portugal se manifestasse e dissesse qual era a sua vontade.
É uma cúpula de paranóicos, a direcção do PCP. É uma cúpula de irresponsáveis a dos dirigentes da Intersindical, que não representam o povo português. E as Forças Armadas, dando cobertura a esses irresponsáveis, indo acreditar que havia uma marcha sobre Lisboa, que nunca existiu – que só existiu na cabeça desses paranóicos – constituíram também graves responsabilidades.(...)

A vossa presença torna evidente um facto extraordinário que vai ter profundas consequências na vida política portuguesa. Em primeiro lugar ela torna patente que não é possível continuar com essa técnica de chamar reaccionários e fascistas a tudo o que não é comunista do PCP ou apaniguado, ou do filhote MDP.
Esta demonstração formidável (e mais formidável ainda pelos obstáculos que se levantaram) prova que nada pode vencer a determinação popular de estar connosco. Tanto mais que não dispomos da Televisão, nem de rádio, nem dos jornais de Lisboa. Desse Século e desse Diário de Notícias que são o Pravda e o Izvestia portugueses.(...)

Dizemos que a reacção não passará, mas digamos também que a social-reacção não passará. Temos dito, e prova-se na prática da nossa acção política quotidiana, que nós não somos anticomunistas. Quem está a provocar o anticomunismo, como nem Caetano nem Salazar foram capazes de provocar é a cúpula reaccionária do PCP.(...)

A situação portuguesa é de tal maneira grave, o ambiente requer um Governo de salvação nacional e de unidade das forças políticas, que nós dizemos daqui ao Presidente da República e ao Conselho da Revolução que o primeiro-ministro designado para constituir o 5.º Governo Provisório não nos parece ser neste momento um factor de coesão e de unidade nacional. Portanto dizemos-lhes, com a autoridade de sermos um partido maioritário na representação do povo português, que será melhor eles escolherem uma outra individualidade que dê mais garantias de apartidarismo real, para que possa formar um governo de coligação nacional.(...)

O MFA que faça pois atenção, porque a hora é de autocrítica, é de emendar os erros passados. E esse MFA que iniciou esta revolução que foi chamada justamente a mais bela da Europa, uma revolução das flores, esse MFA se escutar a voz do Povo, tem todas as condições para, aliado ao Povo, poder salvar ainda a nossa revolução que está em perigo, porque há aqui e ali manchas de contra-revolucionários que querem polarizar à sua volta o descontentamento provocado pelo sectarismo e pelo fanatismo intolerável dos sociais-reaccionários que são a direcção do PCP».(...)

Este foi um dia de vitória. Tenhamos confiança no futuro, tenhamos confiança no nosso Povo. A revolução está em marcha e não pára.

Venceremos!»



Em nome da Utopia (2)

Thomas More, 1ª edição de «Utopia»
Louvain, 1516

«As utopias não são mais do que verdades prematuras»
Lamartine


Verdades prematuras, precisam-se.



Padres e Bispos que enfrentaram a ditadura

Já foi publicado neste blogue (em 13/4/2007) um memorandum sobre este tema, elaborado por Nuno Teotónio Pereira e que tem sido objecto de muitas consultas.

Resolvi pô-lo agora no outro blogue -
Entre os textos da memória -, destinado precisamente a este tipo de documentos e que tem um formato mais apropriado para a respectiva leitura.

16.7.07

«La mort de l'intellectuel de gauche?»

Jack Lang aceitou esta noite um convite de Sarkozy para ser membro de uma comissão de reflexão sobre a modernização das instituições em França (um Simplex à francesa?). O mítico Ministro da Cultura e da Educação Nacional socialista, durante longos anos em mais de duas décadas, enfrenta a oposição clara do seu partido, tendo apresentado o pedido de demissão do respectivo secretariado.

Este é apenas o episódio mais recente de uma série de iniciativas do presidente da República francês, que já conta no seu gabinete com seis socialistas de peso – antes de mais Bernard Kouchner, como Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Um outro socialista – Dominique Strauss-Kanh – tem o seu apoio para se candidatar à chefia do FMI (mas, neste caso, o PS está de acordo).

Nicolas Sarkozy afirma que não ficará por aqui e terá dito, pouco depois de ser eleito: «Je veux occuper tout l’espace, c'est la règle».

Entretanto o debate sobre os efeitos, para a esquerda, desta fase pós-gaulista vai aquecendo. Alain Badiou, um polémico filósofo francês, fundador do PSU, soissante-huitard discípulo de Althusser e de Lacan, recentemente acusado de anti-semitismo, não poupa nas palavras:

«Le ralliement à M. Sarkozy symbolise la possibilité pour des intellectuels et des philosophes d'être désormais des réactionnaires classiques "sans hésitation ni murmure", comme dit le règlement militaire. (...)
Nous allons assister – ce à quoi j'aspire – à la mort de l'intellectuel de gauche, qui va sombrer en même temps que la gauche tout entière, avant de renaître de ses cendres comme le phénix! Cette renaissance ne peut se faire que selon le partage: ou radicalisme politique de type nouveau, ou ralliement réactionnaire. Pas de milieu.»
(*)


A procissão ainda vai no adro.
Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos.
Tenho a impressão (a intuição) de que as ondas de choque vão cá chegar.

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Informação sobre estes assuntos, por exemplo:
neste texto,
neste,
e neste.

(*) Texto de entrevista aqui

P.S. - CORRECÇÃO: Não se trata de uma espécie de Simplex, como acima referi, mas de reformas mais profundas das instituições.

15.7.07

Dia de Reflexão ou Dia de Cão?

Este é o meu cão,visivelmente preocupado


Nuno Brederode Santos,
Dia de cão (DN, 15/7/2007)

«A reflexão imposta por lei é o produto directo e linear de uma transição democrática.(...) Mas, trinta e tal anos e dezenas de votações depois, a sua subsistência é a manifestação de um puro paternalismo de Estado.(...)

Ora, porque assim não é, o dia de reflexão torna-se estranho, enevoado e penoso de viver. Há uma bruma anómala à nossa volta e parece que nos movemos numa
second life onde cada olhar é um espanto e cada passo uma aventura. De manhã, no café, primam pela ausência os amigos e vizinhos mais político-dependentes. E os demais avatares que pontuam a esplanada são seres desconhecidos, translúcidos e dotados de sorrisos lentos e mãos que mexem como num espaço sem gravidade.(...)

Recolho a casa. Onde não terei serenidade psicológica para ler, nem vertigem activista para escrever. Olharei bovinamente para a televisão, na esperança (sempre) vã de ver passar, por entre as pálpebras a meia haste, o relance de um candidato, a sombra de um eleitor ou, ao menos, o olhar cúmplice de um "pivot" de telejornal a transmitir-me qualquer coisa que se assemelhe, já não a solidariedade, mas pelo menos a um pouco de compreensão. Em vez disso, porém, serei bombardeado com desastres de viação, fogos frustrados, crimes passionais e patetices ditas "sociais" de "celebridades" que o não são. Com sorte, terei talvez o comendador Berardo a explicar mais uma iniciativa altruísta. Ou até um dirigente da oposição a dizer que exige ao poder o que não pode dar e um governante a dar-me aquilo que já é meu. Depois, terei minuciosas e por vezes ininteligíveis notícias sobre acontecimentos políticos, mas da Europa e do Mundo, onde a maldição não chega. E, logo que se tenha dado despacho a quase vinte minutos de electrodomésticos, automóveis, detergentes, telemóveis e supermercados, servir-me-ão os eventos do mundo admirável da época das transferências no futebol nacional.

Está escrito, vai ser assim. E, pelos vistos, até que a morte nos separe.»