11.9.19

O #metoo chegou aos animais



«O vídeo que aqui deixo, em que são entrevistadas três ativistas da organização “Almas Veganas” que dirigem um santuário animal em Girona, não é uma rábula humorística. É real e foi viral em Espanha. Até permitiu que o partido de extrema-direita usasse para, de uma penada, ridicularizar o movimento feminista e os movimentos de defesa dos animais. Neste vídeo, as ativistas explicam que separaram os galos das galinhas para que estes não as “violem”. Para que não se pense que a utilização da expressão foi um lapso, explicam que a usam porque não fazem qualquer distinção entre humanos e restantes espécies. Que as galinhas sofrem quando são galadas. Até tentam fugir. E que os galos as fecundam contra a sua vontade. Tudo isto sem um sorriso, porque olham para a bicharada como eu olhava quando, em criança, via desenhos animados. Ninguém as levou a dizer aquilo. Em vídeos divulgados pelo próprio movimento a ideia é repetida. Aliás, elas próprias disseram que sabiam que a entrevista serviria para as ridicularizar, mas isso contribuiria para disseminar a causa. Mais vale pateta do que calado.





Este movimento, que mistura o “antiespecismo abolicionista” (as galinhas são nossas escravas que vivem em campos de concentração) com o “transfeminismo intersseccional” e o “comunismo libertário”, é o retrato da decadência de uma parte da esquerda, perdida numa total ausência de foco.

Dirão que é fácil pegar num movimento absurdo, com um discurso absurdo, para ridicularizar uma causa nobre. E têm toda a razão. Por isso, gostava de começar por separar as águas. Nada do que escrevo sobre o “animalismo”, nas suas várias correntes, se confunde com o que penso sobre movimentos que se batem pelo bem-estar animal. Não subscrevo, como é sabido, as posições destes movimentos sobre muitos assuntos, incluindo o mais mediático – a tourada. Por razões mais complexas dos que as que cabem neste texto e que já tratei noutro. Mas, nas suas versões normais, considero-os totalmente sintonizados com os valores que norteiam as sociedades modernas e democráticas. De tal forma que os partidos em que costumo votar até assumiram a sua agenda sem que isso me incomode minimamente. E sou solidário, sobretudo por razões ambientais, com a preocupação com os efeitos da industrialização da nossa relação com a natureza e com os excessos alimentares que resultam mais da pobreza no mundo ocidental do que do consumismo. Desde que não se vejam como um prolongamento lógico da luta pelos direitos humanos e mantenham clara a distinção entre estes e os nossos deveres para com os animais, estamos dentro do campo do debate político que não corresponde a um corte civilizacional muitíssimo mais perverso do que parece à partida.

Apesar de ser tentador, não escolho divulgar este vídeo para ridicularizar uma causa. Escolho-o porque o que parece ridículo a qualquer pessoa normal é, na realidade, a consequência lógica de todo o discurso que se anuncia como “antiespecista”. A ideia de que as galinhas são fecundadas contra a sua vontade parte do princípio de que a autodeterminação sexual faz parte do mundo animal. Que os animais se movem, se podem mover por valores humanos (todos os valores são humanos, na realidade). Valores de igualdade, individualidade e autodeterminação. Valores que nascem da história, da cultura e da capacidade única que os humanos têm de se reinventar.

Alguém que acha que uma galinha é violada porque a sua vontade foi desrespeitada pelo galo não está próximo dos animais e da natureza. Vive inacreditavelmente distante deles. Não é por acaso que estes movimentos são quase exclusivamente urbanos. Porque resultam da ausência de um contacto saudável e equilibrado com a natureza. Eles estão ainda mais distantes do mundo animal do que qualquer empresário que os transforma em mercadoria. Porque são incapazes de olhar para o animal sem pensar na forma como os humanos sentem, pensam e agem. Os animalistas são os mais antropocêntricos dos humanos. Porque humanizam as outras espécies até ao ponto de lhes conferir valores e direitos que lhes são inaplicáveis, como a autodeterminação sexual.

Não é por acaso que falamos da “selva” quando queremos falamos do capitalismo moderno. Porque a selva, como metáfora da natureza, representa a lei do mais forte, desprovida de limites morais, que são sempre os humanos. Os animais não são cruéis nem solidários. Ou só o são aos nossos olhos, quando tentamos compreender os seus comportamentos à luz da nossa própria experiência.

Como deixei claro, recusar este olhar antropocêntrico sobre os animais, que usa termos como “escravatura” ou “violação” para descrever a nossa participação (modernizada) no ciclo natural ou a relação natural entre animais, não é recusar o debate sobre os nossos deveres para o bem-estar animal. Não é fácil fazer esta distinção, mas ela é indispensável. A defesa do bem-estar animal é uma coisa, animalismo é outra. Concordo com umas coisas e discordo de outras na agenda dos primeiros. Mas nunca os considerei perigosos ou “malucos”. Sendo ridículos, porque não percebem as razões profundas que levam os direitos humanos a não serem extensíveis a outras espécies: a luta pela igualdade e o direito à liberdade individual não têm qualquer sentido fora da comunidade humana. Com esta incompreensão, são uma disrupção que põe em perigo os principais adquiridos civilizacionais da modernidade.

Não é possível justificar a oposição à pena de morte sem ser com base na excecionalidade de cada vida humana. Não é possível ser contra a exploração do homem pelo homem (um termo que tem de ser atualizado) sem perceber o valor único da liberdade humana. Não é possível perceber nada do que são os valores que nos libertaram e continuam a libertar da escravidão se não tratarmos a Humanidade com a excecionalidade que lhe é devida por nós, humanos (o resto será com Deus, para quem acredite nele). Como estes animalistas não podem, sem se transformarem em monstros, tratar os humanos como se fossem animais, tratam os animais como se fossem humanos. O resultado pode ser mais ou menos ridículo para quem tenha qualquer contacto com a natureza. Neste caso, fez com que o #metoo chegasse aos animais. Ridicularizando o animalismo, o que não me incomoda, mas também o feminismo, o que é bem mais grave.»

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