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5.9.09

Outros cartazes, outras campanhas (3)

O realismo segundo Woody Allen
















«A vida é muito dura, muito agreste, brutal, curta de mais, feia e má, e, no fim, não há esperança que nos salve. A isto eu chamo realismo. (…) Sinto mesmo que a nossa maior obrigação na vida é aceitar o facto de que a vida não quer dizer nada, é vazia, que somos o resultado de um acaso tendo por fundo um universo que também não tem significado nenhum. Universo esse que, claro, também vai acabar como tudo o resto. (…)

É preciso olhar esta realidade nos olhos e, apesar delas, encontrar o nosso caminho. É por isso que não me vejo como pessimista ou cínico. Quem me acha pessimista é que vive debaixo de uma enorme ilusão. Essas pessoas, não percebo. Venderam-se a si mesmas uma verdade sobre o significado final da existência quando toda a gente sabe que, lá para o fim, não há boas novidades para ninguém. Lá para o fim é tudo muito decepcionante.»

Woody Allen, em entrevista ao Expresso, revista Única, 5/9/2009, pp. 24-25

E tropeçou no céu como se fosse música

4.9.09

Debater ou não debater
















Na sua crónica no Público de hoje, Vasco Pulido Valente critica a irrelevância das entrevistas que estão a decorrer nas televisões, não só pelo formato adoptado mas também pela atitude dos intervenientes.

«Os dez "debates" são uma espécie de imposto, que o poder, contrariadamente, paga à democracia. (…) Os "debates" servem para demonstrar que existe por aqui um país "normal". Demonstram precisamente o contrário.»

Sim quanto ao que é dito, não necessariamente quanto às expectativas que parecem subjacentes. Esperar muito destes episódios da campanha é pôr a fasquia a uma altura inadequada, porque eles não são mais do que elos numa complicada engrenagem, peças de um jogo que tem as suas regras, com méritos e deméritos, elementos do tal sistema que, não o esqueçamos, é (apenas) o pior excluindo todos os outros.

Uma dessas regras determinou – e bem, no meu entender – que cada líder partidário enfrente todos os outros. Mas há um preço a pagar: alguns debates menos interessantes do que outros, já que todos sabemos que os realmente importantes, mesmo ou principalmente para os protagonistas, não são dez mas apenas três ou quatro.

Por isso entendo mal o burburinho das reacções à entrevista feita ontem a Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa.

Foi claro e explícito, desde os primeiros minutos, que ambos tinham decidido não abrir hostilidades, mas antes denunciar e combater aqueles que consideram os seus verdadeiros adversários nesta campanha. Porque sabiam que o primeiro a atacar se arriscava seriamente a «perder»? Também, mas não só. Qualquer dos dois (sobretudo Francisco Louçã) poderia ter ido mais longe na diferenciação entre os dois partidos? Talvez, mas não era fácil ficar a meio caminho (atacar mas pouco) e ambos terão considerado que o espectáculo não compensaria os danos - o que não se diria hoje sobre a esquerda fratricida se a opção tivesse sido exactamente a oposta da que foi?

Os eleitores indecisos entre votar num ou no outro destes dois partidos (em número pouco significativo, na minha opinião) terão ficado frustrados e não esclarecidos? Oportunidades não faltarão - vinte e quatro dias é muito tempo…

Para ler e meditar












Na versão portuguesa de Le Monde Diplomatique de Setembro, Sandra Monteiro chama a atenção para «duas ideias que podem corroer as relações entre os cidadãos eleitores e o sistema através do qual se chega à sua representação parlamentar.

A primeira ideia consiste em invocar constantemente os perigos da instabilidade política e da ingovernabilidade do país a propósito de um possível resultado eleitoral que não dê a maioria absoluta a nenhuma das forças partidárias candidatas, situação que seria mais grave ainda por perspectivar a realização de um novo escrutínio num eventual prazo de dois anos e por ocorrer num período de crise. Passe-se por cima do facto de esses alertas surgirem tantas vezes na boca de quem, noutras circunstâncias, denuncia a falta de pluralidade inerente à governação em maioria absoluta e de quem parece estar convencido de que o pior da crise foi já ultrapassado (para quem?). (…)

A segunda ideia que com frequência aparece e desgasta a relação com a representação é a hipervalorização do «quem» (imagem, fulanização) e do «como» (concretização do caminho), enquanto questões verdadeiramente em debate, em detrimento do «o quê», associado a valores e objectivos sobre os quais haveria acordo. Esta ideia marginaliza as diferenças político-ideológicas que marcam as propostas, seja negando a sua existência em proveito de um falso consenso, seja sugerindo que, quando existem, são apenas o resultado de uma estratégia de campanha.»

A ler na íntegra.

Como se fosse esparguete








Berlusconi quer vender AC Milan a Gadafi

Ficar de olho…

Mais uma corrente, mais um prémio. Este - «Vale a pena ficar de olho nesse blog!» - veio da Maria Josefa Paias, a quem muito agradeço.

Como já vem sendo hábito, só nomeio um blogue (e não dez…) - hoje, as Janelas, de JPB – não as percam de vista.

3.9.09

Políticas de Memória

Estarei hoje, em Coimbra, nesta sessão do Bloco de Esquerda:

«O que são “políticas para a memória”? Qual deve ser o papel do Estado e da sociedade civil na activação de estratégias que fomentem o interesse e o conhecimento pelo passado? O que acontece a uma sociedade que se esquece?
A campanha às eleições legislativas do Bloco de Esquerda promove na próxima quinta-feira, dia 3 de Setembro, em Coimbra, uma acção em torno destas questões.
17.00 – Acto de sinalização da antiga sede da PIDE/DGS, na rua Antero de Quental. Com intervenções de Fernando Rosas e José Dias.
18.00 – Debate no Café Santa Cruz sobre "Políticas da Memória". Com Fernando Rosas, Natércia Coimbra, António Sousa Ribeiro e Joana Lopes.»


Normalmente, as iniciativas partidárias da pré-campanha não abordam este tipo de temas - é só futuros e alguns futuríveis.

Policarpo dreams








O cardeal de Lisboa deixou vários alertas ao clero reunido em Simpósio. Segundo a Ecclesia,

«Enquanto houver alguns, bispos e padres, que se consideram com o direito de decidir pela sua cabeça, os caminhos de pastoral, o sentido da existência moral, a maneira de celebrar, estamos a fragilizar a proposta cristã, num mundo que saberá aproveitar, com os seus critérios, as nossas divisões.»

Para Policarpo, os padres de hoje «permanecem egocêntricos quando reivindicam autonomia de critérios, na gestão dos afectos, no estabelecer de prioridades, na atitude perante os bens materiais.»

Novidades? Absolutamente nenhuma. Mas estamos perante alguém que não é linear nem constante: tão depressa se mostra aberto e dialogante, como regressa a um pensamento e a uma linguagem autoritários, onde «o mundo» é o inimigo sempre à espreita.

Neste caso, deixa-nos uma verdadeira pérola, quando fala de egocentrismo a propósito de autonomia para gerir afectos (!!!). Só me vem à cabeça um diálogo ouvido há décadas:
- Com o sexo não se brinca!
- Ai não? Então com que é que se brinca?

Uma gargalhada contra o racismo

Paris, 30/8/2009

2.9.09

E os Manifestos?


















Tiveram o seu mês, entre 19 de Junho e 18 de Julho: primeiro o dos 28 economistas, pouco depois o de 51 economistas e cientistas sociais, mais tarde aquele que ficou conhecido como Manifesto de 25 intelectuais – ao todo, muita gente e muitas páginas.

Ainda alguém se lembra de quem escreveu e o quê? Não sei. Mas, se os dois primeiros documentos eram declarações de princípios e de opiniões mais ou menos fechadas, o mesmo não se passava com o terceiro - «O nosso presente e o nosso futuro: algumas questões prementes». Como o próprio título o indicava, ele era isso mesmo: um conjunto extensíssimo de perguntas, abrangendo todos os domínios possíveis ou imagináveis, como convite para uma discussão alargada com as forças partidárias e a chamada sociedade civil, antes do acto eleitoral do próximo dia 27.

Assume-se que tenha sido entregue, como previsto, aos diferentes grupos da Assembleia da República e que tenha havido desenvolvimentos. Ou não houve? No site aberto quando o documento foi lançado, a última entrada é de 18 de Julho. Alguém sabe o que se passou entretanto? Será normal que um trabalho de vulto (não se trata de ironia, é mesmo um texto importante, concorde-se ou não com o tipo de formulações ou com muitas das posições implícitas), de um conjunto de nomes tão sonantes, «desapareça»? Não seria de bom-tom que os autores informassem o comum dos mortais sobre o andamento dos trabalhos ou sobre as razões para uma eventual desistência?

E, com entrevista, abriu a «saison»
















Regressou Sócrates com o tom ameno de Junho. Talvez o verniz não estale ainda esta noite, mas não durará certamente até ao início da campanha.

Entretanto: os seus apoiantes acusam o PCP e o Bloco de não dizerem o que farão na madrugada de 28 de Setembro (data azarada, by the way…) para viabilizarem um governo de esquerda, se o PS ganhar sem maioria absoluta. Mas ninguém consegue arrancar uma palavra a Sócrates sobre o assunto e os ditos apoiantes consideram o facto legítimo e absolutamente natural. Sobrancerias de quem está no poder ou perto dele.

1.9.09

Gaddafi, Qadhafi, Khadafi, Gadhafi, Gadafi ou Gathafi – tanto faz













Ainda não consegui perceber que países terão recusado o convite para se associarem aos festejos de seis dias, que hoje começaram na Líbia.

Camelos, cavalos, elefantes, centenas de artistas, responsáveis políticos, entre os quais alguns com mandatos de captura por crimes contra a humanidade. Rios de dinheiro para a triste celebração do quadragésimo aniversário no poder de um verdadeiro e perigosíssimo fantoche.

Ninguém me convence que é inevitável pactuar com isto tudo em nome de real politik ou de bom comportamento de democracias respeitadoras de tudo e de todos. Vivemos, quase sem darmos já por isso, num mundo com ética reduzida – porque é disso que se trata. Já nos habituámos a um conjunto de valores empobrecido, que estamos a deixar como legado aos nossos filhos e aos nossos netos.

«Los refugiados de Barrancos»
















Amanhã, 4ªf, às 21:35, pode ver online este importante documentário.

«Setembro de 1936. Os últimos redutos republicanos situados junto à fronteira portuguesa são conquistados pelas tropas do General Franco. Tal como aconteceu em Badajoz e noutras povoações, a repressão desatada é brutal. O apoio do regime salazarista aos sublevados não aconselha a fuga a Portugal, mas, para muitos, esta é a única saída. Com efeito, centenas de pessoas decidem passar a fronteira, perseguidas, de perto, pelos militares revolucionários. O procedimento habitual das autoridades portuguesas é entregá-las aos franquistas, que as fuzilam sem demora. Porém, graças à humanitária intervenção do Comandante da Guarda Fiscal de Safara, Tenente António Augusto de Seixas, cria-se um campo de refugiados perto da localidade de Barrancos para alojar e proteger a este grupo de exilados espanhóis.»

Mais informações aqui.

Senhoras decentes









Nem a primeira faria comícios, nem a segunda visitaria fábricas de cuecas.

1 de Setembro de 1939

Há 70 anos, a Alemanha invadiu a Polónia. Dois dias depois, a Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha.



Está também disponível uma série de três outros vídeos sobre a invasão da Polónia, num total de cerca de vinte minutos: I, II e III.




Léo Ferré, L'affiche rouge

31.8.09

Glorioso

8 - 1 !!!!!

Talvez não fosse má ideia












«Se há algo digno de nota neste programa [Fala com elas] é o número imbatível de planos que mostram as pernas das participantes. Não se vê isto na Quadratura do Círculo.»
(Vasco Barreto)

Na «Quadratura do Círculo» é mais barbas, de facto. Também não vale a pena procurar muitas pernas nos dez debates que aí vêm durante a próxima quinzena. Mas mostrar os sapatos não seria uma má ideia – dizem muito mais do que colares, gravatas ou cortes de cabelo. Além disso, com a pedra no sapato estarão todos, cada um achará que os outros não chegam às solas dos seus sapatos - e à espera de sapatos de defunto andamos nós há muito tempo.

Uma questão de probabilidades













Em 1988, eu trabalhava e vivia na Bélgica com a família. Para evitar uma das habituais e terrivelmente cansativas vindas a Lisboa em tempo festivo, decidimos ir aos Estados Unidos, embora eu tivesse regressado de Nova Iorque três semanas antes – nunca se deve contar as vezes que se vai a esta cidade, mas sim as oportunidades perdidas de o fazer.

Por razões de férias escolares do meu filho, só poderíamos partir já bem perto de 24 de Dezembro, de preferência a 21. No meu local de trabalho – o paraíso na terra que Adão e Eva gostariam de ter conhecido -, tínhamos tudo até uma agência de viagens, gerida por um companheiro quase quotidiano dos meus almoços. Quem me conhece sabe que detesto desistir seja do que for e quase o torturei para que me conseguisse os lugares que eu pretendia nos voos Bruxelas / Londres / Nova Iorque – os tais do dia 21. Sem sucesso, fomos obrigados a ir na véspera.

Já num hotel em Manhattan, vi as imagens do PAN NAM 103 do dia 21 de Dezembro de 1988. Sempre que volta a falar-se de Lockerbie, como é o caso agora, ainda fico paralisada.

30.8.09

A time of innocence

















Simon & Garfunkel, Bookends

Outros cartazes, outras campanhas (2)






















(Clicar para ler melhor)

Há dez anos, em Timor












Foi em 30 de Agosto de 1999 que se realizou o referendo em Timor.
Nos últimos dias, muitas referências na imprensa. Aqui ao lado, nos Caminhos da Memória, um interessante testemunho e excertos de um diário de Diana Andringa.

«Há dez anos, saíamos às ruas a manifestar-nos por Timor-Leste. Há dez anos, o povo timorense afirmava nas urnas o seu desejo de ser livre e ver partir o ocupante indonésio.
David vencia Golias: pagava-o em mortos e sangue, mas garantia a sua independência.»

Entretanto, na Venezuela