17.4.14

Adeus Gabo!



García Márquez morreu hoje, acabo de o saber. Sinto-me regressar a Aracataca, a terra onde Gabo nasceu e na qual se inspirou para criar a mítica aldeia de Macondo, de Cem anos de solidão. Estive lá há um ano e meio, e retomo parte do que então escrevi.

Aracataca é hoje uma localidade de 45.000 habitantes, feíssima, desmazelada, que não honra como devia o que de mais importante deu ao mundo, a não ser pela (boa) conservação da moradia em que Gabo nasceu, actualmente transformada num pequeno museu. Trata-se da casa dos avós, com quem viveu até aos 10 anos e que o marcaram profundamente. Família desafogada que não aprovou o casamento da filha com um simples telegrafista e que, por esse motivo, guardou a custódia do neto.

No museu, vêem-se as várias divisões da antiga habitação, documentadas com muitas citações de obras de GGM, sobretudo do primeiro volume da sua autobiografia – Vivir para contarla –, ao qual, infelizmente, não se seguiu nenhum outro…

Gabo foi pela última vez a Aracataca em 2007, para uma tripla comemoração: dos seus 80 anos, do 40º aniversário da publicação de Cem anos de solidão e do 25º da atribuição do Nobel da Literatura.

Em Aracataca, está-se sempre à espera de reencontrar algum membro da família Buendía ao virar de uma esquina, um qualquer José Arcádio ou um dos muitos Aurelianos…

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A morte de José Arcadio Buendía, em Cien años de soledad:
«Entonces entraron al cuarto de José Arcadio Buendía, lo sacudieron con todas sus fuerzas, le gritaron al oído, le pusieron un espejo frente a las fosas nasales, pero no pudieron despertarlo.
Poco después, cuando el carpintero le tomaba las medidas para el ataúd, vieron a través de la ventana que estaba cayendo una llovizna de minúsculas flores amarillas. Cayeron toda la noche sobre el pueblo en una tormenta silenciosa, y cubrieron los techos y atascaron las puertas, y sofocaron a los animales que durmieron a la intemperie. Tantas flores cayeron del cielo, que las calles amanecieron tapizadas de una colcha compacta, y tuvieron que despejarías con palas y rastrillos para que pudiera pasar el entierro.»



Adeus, Gabo! 
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