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1.5.17

Nuno Brederode – uma crónica entre muitas


@Miguel Baltazar

Já disse que segui de perto as crónicas que Nuno Brederode Santos publicava no Diário de Notícias, as suas angústias enquanto as escrevia, e o meu prazer de as partilhar neste blogue, Domingo após Domingo: citava-as parcialmente e remetia para o texto na íntegra, divulgado no jornal. Ontem, fui à procura delas e verifiquei o que já temia: o Diário de Notícias não «respeitou» os links, estarão talvez num limbo inacessível e, portanto, perdidos para os leitores. Mas conservei alguns dos originais, que o Nuno me enviava por mail, e republico um deles, delicioso, e que não é datado como outros, onde eram comentados factos políticos da época.

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A mansarda e o jardim

«Ajoujados à servidão dos fumadores, os “meus” gerontes reúnem, pela manhã, na esplanada do café, porque “lá dentro” não se pode fumar. Albardam-se como os índios da reserva, mas sem direito a fogueira comunal. Falo por mim: camisola interior numa fibra mais severa que amianto, camisola “lambswhool”, casaco, “cachecol” e gabardina. O vento frio corta a direito, em grandes lençóis horizontais que ignoram as lentes dos óculos e libertam lágrimas indesejadas. A mão só sai da luva para brandir a chávena e, mesmo assim, o corpo treme todo, como se levado ao paredão de um pecado ou crime de que não guardo consciência nem memória. Busco refúgio na ideia de que, na véspera do Natal, haverá por certo um stock de temperança e amor pelo desvalido que me irá proteger das culpas que desconheço. E olho para os três jornais que comprei, perguntando-me quantos anos mais resistirei a trazê-los debaixo da camisola. Os vizinhos deram sumiço, acolhidos aos fogos de família do país interior, de onde só voltarão no domingo, carregados de chouriças e azeite “lá de casa”. Só mesmo alguns jovens passam, eles e elas na arrogância das camisolinhas de manga curta, a lembrar-nos o que já tivemos e como nos resta merecer os aconchegos da segurança social.

O empregado é muito jovem, talvez trabalhador-estudante. É educado, afável e solícito. Ao toque para a segunda bica, faz conversa e diz para uma conviva, meio morta de frio: “Fulano conhece-a muito bem. Manda-lhe cumprimentos”. Ela parece não se surpreender e pergunta: “Conhece Fulano? É-lhe alguma coisa?”. Ao que o rapaz, sempre sóbrio e respeitoso, responde: “Sim, sim. Ele é namorado da minha avó”.

Qualquer coisa de animal e antiquíssimo rugiu em mim. E refugiei-me na tosse tabágica para dissimular o espanto e a gargalhada. Não sei bem o quê nem o porquê. O meu mundo dos avós esvaiu-se há muito, obediente aos ditames naturais. Mas, numa vertigem de imagens em corrupio, no involuntário carrossel que nos sintetiza as memórias, eu coloquei ali, naquela cena, a última avó que se me foi e imaginei-lhe um estupor tão grande que nem lhe deixava espaço à indignação.

Namorado da avó? Então ela, viúva de tão longe e tantas noites, contida a tricotar desde o lusco-fusco, em frente do televisor, e cujo maior assomo de convivialidade com homens se cingia a retribuir o “boa noite” profissional de Pedro Moutinho e a “despedir-se com amizade” do engenheiro Sousa Veloso, poderia alguma vez admitir – ou até, presumo eu, conceber – a existência do estatuto, social mas a ameaçar o jurídico, de “namorado da avó”? Então a botija de água quente que, na viuvez deitada, lhe aquecia os pés, poderiam outras avós, as desse futuro que é o nosso presente, trocá-la pelo calor original de um corpo de homem? E a abnegação, o sacrifício, a severa mortalha interior que toma o corpo por dentro, precisamente porque nos embrulha a alma? A vontade de Deus agora é questionável? Corrigimos-lhe o traço firme conforme nos apraz, sem que as iras do Velho Testamento nos arrasem? Suponho que a minha avó condenaria os desmandos de outros credos, que sepultam a viúva em vida ou lapidam a de memória ingrata na praça pública. Mas nem por isso teria podido inocentar, nem simplesmente ignorar, um tal desaforo na cristandade.

Mal o jovem virou costas, os meus parceiros – que não tinham precisado de se esconder cobardemente por detrás de um ataque de tosse provocado e tinham sabido guardar uma cordial sisudez para a circunstância – disseram adeus à compostura e fizeram-se a um carnaval de gargalhadas. Todos tinham, afinal, pensado o mesmo que eu. Naturalmente, todos tinham avós para recordar e encontravam nessa busca um igual tesouro arqueológico.

Pois é, avó. Parece que o inferno se adapta aos tempos, na exacta medida e ao ritmo com que nós os vamos fazendo. A ameaça também precisa de ser funcional. Não tem sentido ameaçar com o que o ameaçado já nem percebe, porque já cai fora do alcance do seu código de valores. E sabe que mais? Por esquivo que lhe seja este mundo de namorados das avós, o certo é que essa coisa laboriosa que é a felicidade já deixou o bafio de vésperas que era a mansarda do seu tempo e respira o ar sem dono de um pequeno jardim. No meu caso, com buganvílias. Mas também com a mesma ternura por si.» 
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