1.11.12

O Processo de Refundação Em Curso



Afinal é simples: a misteriosa «refundação» reduz-se a um relatório a apresentar este mês à troika em termos gerais e, detalhadamente e para aprovação, em Fevereiro. Nele, serão definidas e quantificadas reduções de custos, de estruturas e de serviços e do número de funcionários.

Marques Mendes explicou tudo isto ontem, na TVI24, de forma cristalina, e revelou também o que seria de esperar: já cá estão (terão chegado esta semana) os técnicos do FMI que vão assessorar o governo nesta tarefa.

Por razões óbvias, a caução do PS (e da UGT, chamada ontem à arena por Paulo Portas, no seu discurso no Parlamento) será preciosa. O famoso apelo lançado ao PS terá mesmo saído como um dos primeiros conselhos dos «assessores» do FMI? É bem possível.

Passos escreveu uma carta a Seguro, esta acusou a recepção mas não revelou ainda o que responderá. À saída do Parlamento depois da votação do OE, afirmou que sempre teve «uma postura de enorme responsabilidade, colocando o interesse nacional acima de qualquer outro interesse», mas foi acrescentando que «há uma alternativa em Portugal e essa alternativa é protagonizada pelo PS, que alia disciplina e rigor orçamental à prioridade do crescimento e do emprego».


Ou seja? Vai o PS recusar sentar-se à mesa, correndo o risco de fazer o papel do PCP e do Bloco quando não quiseram falar com a troika? Será que pode?

Vai insistir na tecla: «É tarde»? É o que faz Francisco Assis, em artigo do Público de hoje (sem link): «O que pretende verdadeiramente o primeiro-ministro? Recuperar a iniciativa política? Relativizar a dimensão do seu próprio falhanço? Comprometer o PS com um programa de redução do Estado social? Talvez um pouco de tudo isto. Seja como for, tenha as intenções que tiver, esta proposta chega tarde de mais. De certa forma, é pena que assim seja.» 

Mais vale tarde do que nunca, será a resposta óbvia. Nascerá no Largo do Rato alguma formulação para uma «abstenção violenta»»? 

Mas vale a pena voltar ao artigo de Francisco Assis, muito, muito elucidativo: «Precisamos de estabelecer um verdadeiro compromisso histórico entre a esquerda democrática e o centro-direita portugueses. O actual Governo já não dispõe de condições para promover tal consenso. O país precisa de entrar rapidamente num novo ciclo político. O Partido Socialista volta a estar no centro da vida política nacional, readquirindo uma condição de charneira que aumenta a sua responsabilidade imediata. É, por isso, natural que dentro deste partido se estabeleça uma discussão útil entre aqueles que preconizam a solução acima defendida, e alguns sectores mais voltados para entendimentos à esquerda. Essa discussão deve fazer-se sem tabus e sem receios. Pela minha parte, espero que prevaleçam os primeiros, sem que haja a tentação de dispensar o contributo dos segundos.» (O sublinhado é meu.)

Claríssimo como água: o centrão, mas com o PS ao leme. Refundações há muitas.

P.S. - O artigo de Francisco Assis pode ser lido na íntegra AQUI.
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