4.11.13

O estigma da emigração



Mafalda Durão Ferreira foi subdirectora-geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas e, bem antes disso, desde o início da década de 70, trabalhou como assistente social no Consulado de Portugal em Paris, precisamente junto de emigrantes que chegavam aos milhares. Sabe do que fala e escreve hoje, no Público, um texto que merece ser lido.

«A FLAD e a OCDE promoveram recentemente, em Lisboa, o seminário Novas Dinâmicas Migratórias Internacionais: Portugal no Contexto dos Países da OCDE. Neste seminário, usou da palavra o director-geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas (DGACCP), João Maria Cabral, o qual, segundo o PÚBLICO online, avisou que ia ser “provocatório”. Disse: “Não quero branquear o fenómeno social, mas a emigração pode ser vista como algo positivo e enriquecedor”.

Ora cumpre perguntar: positivo e enriquecedor para quem? Para quem parte, com sofrimento e perda, para as famílias que ficam, privadas de pais, filhos e filhas? Para o país que investiu na formação de quem parte? Para Portugal, país com graves problemas de natalidade e que fica privado da geração em idade fecunda? Ou para os países que os recebem, a custo zero, sem nada terem gasto ou investido na sua formação e pagando-lhes metade ou menos dos ordenados que pagam aos seus nacionais com idênticas habilitações? (...)

Para os portugueses, a emigração é uma alternativa à fome, à miséria, ao desemprego, à exploração, desde há décadas! Nunca precisaram de ser ensinados a partir, a pegar na trouxa e partir. Mas são sempre os mesmos a partir, ainda que licenciados, sem bolsas de estudo, sem respaldo familiar, etc. (...)

O que todos nós queríamos era que Portugal fosse uma “Alternativa” para todos os portugueses. Foi para isso que se fez o 25 de Abril, por um Portugal de todos, e não para ouvir discursos que são a despudorada verbalização de políticas que fazem lembrar os tempos da ditadura.»





O estigma da emigração

«A FLAD e a OCDE promoveram recentemente, em Lisboa, o seminário Novas Dinâmicas Migratórias Internacionais: Portugal no Contexto dos Países da OCDE. Neste seminário, usou da palavra o director-geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas (DGACCP), João Maria Cabral, o qual, segundo o PÚBLICO online, avisou que ia ser “provocatório”. Disse: “Não quero branquear o fenómeno social, mas a emigração pode ser vista como algo positivo e enriquecedor”.

Ora cumpre perguntar: positivo e enriquecedor para quem? Para quem parte, com sofrimento e perda, para as famílias que ficam, privadas de pais, filhos e filhas? Para o país que investiu na formação de quem parte? Para Portugal, país com graves problemas de natalidade e que fica privado da geração em idade fecunda? Ou para os países que os recebem, a custo zero, sem nada terem gasto ou investido na sua formação e pagando-lhes metade ou menos dos ordenados que pagam aos seus nacionais com idênticas habilitações?

E disse ainda o sr. director-geral da ACCP: “A saída pode ser uma mais-valia (…) a emigração pode oferecer mais do que as remessas dos emigrantes, (...) há que eliminar o estigma do fenómeno migratório.”

O sr. director-geral da ACCP reproduziu na íntegra a linha de “pensamento” do ex-ministro Relvas e do primeiro-ministro: “Emigrem!”

A única coisa que vislumbro como “provocatório” e inovador no seu discurso é a desfaçatez de vir procurar apresentar a emigração como “a” óptima alternativa para os portugueses atingidos pelo flagelo do desemprego. Descobriu a pólvora!

Para os portugueses, a emigração é uma alternativa à fome, à miséria, ao desemprego, à exploração, desde há décadas! Nunca precisaram de ser ensinados a partir, a pegar na trouxa e partir. Mas são sempre os mesmos a partir, ainda que licenciados, sem bolsas de estudo, sem respaldo familiar, etc.

Estar desempregado, quer se queira, quer não, é sentido como um estigma pelo atingido. Emigrar é fugir a esse estigma, é ganhar vida e a dignidade que o país lhe recusa!

O que todos nós queríamos era que Portugal fosse uma “Alternativa” para todos os portugueses. Foi para isso que se fez o 25 de Abril, por um Portugal de todos, e não para ouvir discursos que são a despudorada verbalização de políticas que fazem lembrar os tempos da ditadura. 
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