11.8.15

Don Draper não vem



«Don Draper não vai ser contratado por nenhum partido político português para lhe salvar a campanha eleitoral. Ele recusa-se a reproduzir neste cantinho a sua ideia vencedora para um refrigerante: "I'd like to teach the world to sing in perfect harmony."

Os Saatchis também não estão disponíveis para replicar a campanha que, muitos acreditam, levou Margaret Thatcher ao poder: "Labour Isn't Working." Assim PSD, CDS e PS têm de se contentar com ideias mais pobres. O choque frontal do PS com os seus cartazes mostra sobretudo uma coisa: a confiança absoluta é perigosa, excepto quando o convencido tem os punhos fortes. E o PS não tem. Por isso, a campanha do PS tem parecido, até ao momento, um canteiro de obras sempre em construção: cai um tijolo, coloca-se outro. Em vez de ter o canteiro cheio de ideias políticas fortes.

E o certo é que, até agora, o sentido das palavras nos cartazes do PS lembra o esperanto de George Orwell em "1984": vencedor, no esperanto do PS, significa vencido. O que é grave para quem quer ser alternativa. António Costa tem tempo, mas ele desgasta-se em batalhas inúteis com a inutilidade das ideias que circulam no seu círculo criativo. O mais grave em toda esta polémica servida num copo de água é que ela parece desvalorizar a ferida maior que não cicatriza neste país: o desemprego. Os números, um bocadinho mais acima ou mais abaixo, são o espelho da pobreza nacional e da esperança que se eclipsou, entre os que não conseguem empregos, os que o têm mas deixaram de ter segurança e os que, desistindo, emigraram.

No meio de tudo isso o INE tornou-se a bruxa das novas inquisições: vai para a fogueira por qualquer dos números que apresente. É esta a primeira lição desta pré-campanha: já ninguém confia em ninguém. E simboliza a miséria franciscana da campanha eleitoral que se viverá em Setembro, com muito pó e frases empolgadas e poucas ideias. Nem Don Drapper ou os Saatchis salvariam a imagem deste pântano folclórico que se adivinha.»

Fernando Sobral