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18.3.17

A "crispação" e os "patriotas"


«Diz Jaime Nogueira Pinto que há em Portugal "uma certa crispação" (Observador, 6.3.2017). É verdade, eu também já o tinha notado. Passada mais de uma semana sobre o que foi descrito como outro episódio de "censura" perpetrado pela "extrema-esquerda" - por "maoistas", assim lhes chamou Pinto -, era bom percebermos por que tanta gente, de forma tão obviamente precipitada (para não lhe chamar outra coisa), quis ver "PREC" no legitimíssimo desagrado com que estudantes da FCSH da Nova de Lisboa viram a convocação na sua faculdade de uma conferência organizada pela Nova Portugalidade, uma micro-associação da extrema-direita (perdão: "grupo cultural de jovens patriotas", segundo Nogueira Pinto) que, assegura o Diretor da faculdade, Francisco Caramelo, vinha acompanhada da "exigência da presença da Polícia antes e durante a conferência".

Ao considerar o Diretor (com bem mais coragem do que o comum dos gestores universitários que há tantos anos temos) que tal exigência era "inaceitável", os "patriotas" anunciaram-lhe que "trariam dez homens, que estariam na sala durante a conferência, e que garantiriam a segurança do evento" (comunicado Diretor FCSH, 13.3.2017), o que motivou, então sim, o cancelamento da conferência. Dias depois, a Associação de Estudantes denunciou ter sido "invadida por quatro dezenas de indivíduos afetos à extrema-direita, que se identificaram como tal", "exigiram conhecer individualmente alguns dos membros" e deles tiraram fotos que apareceram "publicadas em redes sociais da extrema-direita" (comunicado AEFCSH, 11.3.2017). (…)

Nogueira Pinto, além da sua atividade empresarial no ramo da segurança, está muito mais interessado em propor leituras neoconservadoras da história portuguesa e do mundo dos nossos dias do que em se deixar confundir com o comum dos atores partidários da direita. Tem tal saída nos media privados e públicos (…) que a extrema-direita estudantil dos nossos dias, herdeira daquela que ele próprio mobilizou contra Marcelo Caetano nos últimos anos da ditadura, é a ele que convida.

Não admira que o Diretor da FCSH se queixe de "uma sucessão perturbadora de notícias que, fundadas em afirmações erróneas e até mentirosas, repetidamente reproduzidas", e de que, onde havia ameaças da extrema-direita (que não cessaram: o PNR anunciou uma concentração à porta da faculdade no próximo dia 21), tenha havido tanta gente a querer ver "PREC", "ato de censura", "intolerância", "sectarismo" e "estupidez" da "rapaziada do Bloco" (ao contrário do meu hábito de referenciar tudo quanto cito, peço escusa em nem nomear todos aqueles que soltaram estas pérolas...).

Nada disto é inocente. Ainda que os limites da viragem à esquerda no governo do nosso país sejam tão evidentes, esse mundo político e mediático que, afinal, se revê no horror com que Cavaco encarou a possibilidade de acordos do PS à esquerda quer obrigar-nos a fingir que voltámos a 1975 - um 1975 que continuam a reinventar com as mesmas armas da "pós-verdade" que muitos deles denunciam em Trump.»

Manuel Loff