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20.10.16

Geringonça 2.0



«A direita não perde uma oportunidade para afirmar que continuamos em austeridade. "À la esquerda", como gosta de dizer Assunção Cristas. Não se entende o argumento. Estamos a falar dos mesmos partidos, PSD e CDS, que aplicaram a austeridade quando foram Governo e a queriam prolongar caso vencessem as eleições. Para a direita, a austeridade é coisa boa. O empobrecimento é uma solução para o país. A crítica não faz por isso sentido. A menos que se refira ao "tipo" de austeridade. Ou seja, à la esquerda tira-se alguma coisa aos ricos para dar aos pobres, à la direita tira-se aos pobres para dar aos ricos. Deve ser isso. (…)

Mais decisiva para a situação atual é a opção europeia de atacar os défices públicos de forma a salvar os prejuízos privados. Ainda recentemente, numa entrevista, o Presidente Obama afirmou que as políticas de austeridade estão na origem do fraco crescimento na Europa. Nos Estados Unidos, aplicou-se com sucesso a receita oposta, isto é, investimento público.

A incongruência da posição europeia está à vista nas consequências imediatas, não há aliás nenhum país europeu que esteja bem, nem a Alemanha, ainda mais numa perspetiva futura. A extraordinária evolução tecnológica das últimas décadas abre todos os dias novos e promissores campos por explorar. Com uma Europa estagnada, o grosso dos investimentos na inovação estão a ser feitos nos Estados Unidos e na Ásia. A Europa perdeu a corrida da internet, da robótica, da impressão 3D, dos carros elétricos, da inteligência artificial. O Velho Continente não lidera nenhuma revolução tecnológica. E, no entanto, temos excelentes cientistas, gente extremamente criativa, uma juventude com elevada formação. Faltam investidores. (…)

Num cenário tão hostil, pressionado por uma Europa política e economicamente retrógrada e, por outro lado, por um país empobrecido a solicitar mais e mais despesa, o Governo de António Costa tem conseguido um surpreendente equilíbrio. Impossível sem a posição solidária dos partidos à sua esquerda que têm dado uma notável lição social e política face a uma direita cada vez mais radical e destrutiva.

Acertadas as contas falta agora cumprir o futuro. Veremos se em 2017 a geringonça consegue ir além da reposição de rendimentos. Até porque sem um "upgrade" o acordo à esquerda arrisca a perder-se nas trapalhadas do dia a dia.»

Leonel Moura