8.1.17

Dica (474)



Como recordo Mário Soares. (João Semedo) 

«Não há vidas sem mácula. A vida longa, intensa e plena de Mário Soares não é excepção, mesmo sendo ele uma figura excepcional. De que Mário Soares falamos, que Mário Soares recordamos hoje? O Mário Soares da Fonte Luminosa e do socialismo na gaveta, o líder do PS que arrastou toda a direita atrás de si? Ou o Mário Soares da luta antifascista e do exílio e que, mais tarde, nos apertos da democracia, se levantou contra a direita, quer no combate a Cavaco quer, tempos depois, na oposição à troika e ao governo de Passos e Portas?

Não podemos falar de um e ignorar o outro, o próprio não nos perdoaria, como um dia me disse, sem ponta de arrependimento: “Eu fui isso tudo, eu fiz isso tudo, para o bem e para o mal”, a meio de um longo desabafo sobre a amargura e a inquietação com que olhava para os caminhos seguidos pela social-democracia europeia e o seu PS, sem esconder a sua irritação com as facilidades oferecidas aos mercados e à alta-finança pelos governos europeus liderados por partidos socialistas ou trabalhistas, tratados por ele com dureza e alguns palavrões.»

N.B- Um dos textos mais decentes, que li até agora. 
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4 comments:

Victor Nogueira disse...

Por outras palavras, parece.me que o comunicado do PCP é na linha do de João Semedo. E entendo que o comunicado do PCP, ao realçar as acções antifascistas de Soares, terá sido uma chamada de atenção para travar / moderar eventuais reacções extremistas de quem justamente não se esqueça do lado negativo de MS desde 1975.

Joana Lopes disse...

Como assim? O comunicado do PCP é burocrático e inaceitável na linguagem, na minha opinião. Há dias em que as coisas devem ser escritas de outro modo - precisamente o que Semedo faz.
E o PCP omite todo o passado recente, anti-troika, de Soares. Porquê? Porque não lhe interessa.

Victor Nogueira disse...

Joana: São sobejamente conhecidas as divergências entre PS e PCP desde o 25 de Abril, desde Cunhal e Soares até ao presente, passando pelos vários "MFA" dentro do MFA em termos estratégicos e tácticos. O Portugal de hoje - de óptimo ao péssimo, conforme os "intérpretes" e analistas - é resultado do curso (pos)seguido na (con)sequência do 25 de Novembro. O Comunicado do PCP tem as leituras resultantes do entendimento variado de quem o lê. O PCP não diaboliza Soares, reconhece o seu passado antifascista, mas (subentende-se) não cauciona a política do PS nem branqueia a história. E em meu entender é também uma mensagem para os militantes e simpatizantes do PCP. Mensagem re-afirmada por Jerónimo de Sousa em declarações posteriores. No entanto o alvo das baterias e das críticas parece ser o PCP (que com o BE e o PEV permitem o Governo do PS/Costa, impedindo que PSD/CDS formassem Governo) e não as declarações hipócritas de Cristas/CDS, Passes de Coelho/PSD ou Cavaco. Estes nem no anti-fascismo de Soares falam. Calam-no.

João Pedro disse...


E, acrescento, não foi ele o coveiro dos sonhos de Abril ?

Mais, não foi o povo que o acompanhou na hora do último adeus foi o regime, como se refere num post acima publicado.

João Pedro