«A condenação de Marie Le Pen levanta uma primeira questão: trata-se de aplicar a justiça, “doa a quem doer”, ou de uma sentença política para a afastar das eleições presidenciais de 2027?
La Pen defende obviamente a segunda interpretação. Após o primeiro julgamento em Novembro de 2024, lançou uma campanha de denúncia da Justiça, acusando os magistrados de impedir que sejam os cidadãos a eleger os seus representantes. Na iminência de se ver fora da eleição presidencial, clamou: “É uma pena de morte política.”
Mas Marine falou também contra si mesmo. Em 2013, depois de assumir a presidência da Frente Nacional (hoje, União Nacional), exigiu “penas de inelegibilidade vitalícia para os condenados por desvio de fundos públicos”.
Toda a extrema-direita europeia se solidariza com Marine. O porta-voz de Vladimir Putin denuncia as crescentes violações das regras democráticas na Europa Ocidental. No actual clima criado pela escalada de Trump contra o Estado de Direito, o caso Le Pen terá renovadas repercussões internacionais. E o americano Elon Musk não podia faltar: "Quando a esquerda não consegue ganhar pelo voto democrático, abusa do sistema legal para aprisionar seus rivais. Essa é sua estratégia padrão ao redor do mundo.”
Aos que denunciam o “governo de juízes”, responde, no Le Monde, o magistrado Vincent Sizaire. “A ordem jurídica republicana não pode ser mais clara. Numa sociedade democrática (…) com o primado da lei, ninguém pode pretender beneficiar de um regime de excepção, e os eleitos ainda menos que os outros.”
Milhares de franceses sofreram de condenações de inelegibilidade por análogos delitos. Entre eles, figuras políticas de primeiro plano: o socialista Henri Emmanuelli, em 1996; Jean-Marie Le Pen, por várias vezes, o ex-primeiro-ministro Alain Juppé, em 2004, Nicolas Sarkozy, em 2020, ou o antigo primeiro-ministro François Fillon, em 2020, este com 10 anos de inelegibilidade.
Claro que, no caso de Marine, há uma diferença fundamental. Declarou o primeiro-ministro, François Bayrou, antes de conhecer a sentença: “Se Marine Le Pen não puder apresentar-se, há o risco de um choque na opinião pública.” É evidente, já que ela está no topo das sondagens presidenciais. Jordan Bardella, o presidente do partido de Le Pen, lançou um apelo a uma “mobilização geral e pacífica”.
É previsível que estale uma nova crise política em França, onde a situação do Governo é particularmente vulnerável. Surge também num crítico momento político para a Europa, em conflito crescente com a América de Trump e a braços com a guerra na Ucrânia.
A arma do referendo
A queda (provisória) de Marine Le PenMarine Le Pen tem uma carreira política de excepção. Logo após suceder ao pai, Jean-Marie Le Pen, na liderança da Frente Nacional, em 2011, muitos disseram: ela é muito mais perigosa do que “o abominável” Jean-Marie Le Pen, porque, ao contrário dele, quer o poder.
“É guiada por uma única ideia, a conquista do Eliseu”, explicou o historiador Nicolas Lebourg. Para aceder ao poder, propôs-se destruir o sistema bipolarizador (esquerda-direita) da V República, criando uma nova direita por ela hegemonizada. Tratou de “devorar” a direita tradicional, gaullista e liberal. E conseguiu a “desdiabolização” da extrema-direita.
Qual a síntese do programa presidencial? Antes das presidenciais de 2022, prometeu que a primeira medida simbólica seria retirar a bandeira europeia de todos os edifícios públicos franceses.
Sabendo que se fosse eleita não teria uma maioria parlamentar, o seu modelo seria o do recurso maciço ao referendo, para contornar o Parlamento, de modo a ir impondo as grandes metas do partido, da imigração aos privilégios dos franceses, passando por um progressivo divórcio com a União Europeia.
Marine Le Pen sofre o primeiro grande desaire da sua carreira no momento que a contra-revolução de Trump lhe parecia abrir uma esplendorosa avenida para os seus desígnios. Resta-lhe, como sempre, a vitimização.»