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21.2.09

Os bispos, again











Os bispos têm todo o direito de dizer publicamente o que pensam e de comunicarem as suas directivas aos católicos. Com a nota pastoral. «Em favor do verdadeiro casamento», ontem publicada, não anunciaram nada de especialmente original em relação ao que era conhecido, mas, no meu entender, voltaram a insistir em conceitos errados e a utilizar expressões no mínimo infelizes.

1 - Falar de «tentativa de desestruturar a sociedade» é fazer um processo de intenções. Como se aqueles que defendem o casamento entre pessoas do mesmo sexo tivessem um projecto específico de destruição do que quer que seja.

2 - Dizer que «a verdade da vida humana assenta na complementaridade do homem e da mulher» é uma frase no mínimo estranha, até porque não se vislumbra uma possível definição de «verdade da vida humana».

3 - Afirmar que a homossexualidade na idade adulta «denota a existência de problemas de identidade pessoal» é uma mera opinião, posta ao serviço de convicções religiosas, o que lhe retira qualquer espécie de autoridade.

Haveria mais a dizer mas penso que nem vale a pena. Não é certamente com textos destes que os bispos alguma vez contribuirão para a construção de uma sociedade realmente «estruturada» e tolerante.

20.2.09

O que Darwin não previu










(Daqui, recebido por mail de uma blogger que teima em ser clandestina.)

Com dedicatória para uma juíza de Torres Vedras





















Sempre ouvi falar desta portaria mas nunca a tinha visto (leiam até ao fim).

Hoje vale pela anedota, mas há sempre uns puritanos à espreita ao virar de uma qualquer esquina. Cuidado com eles porque são certamente os mesmos que fizeram ontem campanha contra o aborto, estão hoje contra o casamento de homossexuais e lutarão amanhã contra a eutanásia. Mesmo que não pareça, com algumas nuances, está tudo ligado. Ou estarei enganada?


(A imagem foi roubada ao casoual.)

19.2.09

Lá vão os bispos outra vez para o Casino

Desta vez, talvez se consiga













A comunicação social tem publicitado, nos últimos dias, uma série de iniciativas que visam impedir a destruição de mais um ex-libris da resistência e o movimento «Não apaguem a Memória!» acaba de divulgar um Comunicado nesse sentido.


COMUNICADO


Nos últimos dias têm vindo a lume diversas notícias anunciando a mudança dos tribunais a funcionar na Boa-Hora para o Parque das Nações e a cedência do edifício para «hôtel de charme».

Assim, depois da passagem a espaço burocrático da antiga prisão política do Aljube, da transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo, da proposta de fazer uma pousada no forte de Peniche, chegou a vez do Tribunal Plenário de Lisboa. Apesar das boas palavras e resoluções da Assembleia da República, parece não poder haver dúvidas de que a memória da luta antifascista é algo que, para lá de não se querer preservar, se pretende destruir.

Dizem-nos que não é por fazer da PIDE um condomínio, de Peniche uma pousada, da Boa Hora um hotel que a memória da resistência antifascista desaparecerá.
Ora não é o temor de que a alteração física dos edifícios leve ao esquecimento que nos leva a protestar pela sucessiva entrega desses lugares de memória da resistência a projectos imobiliários. O que nos preocupa é o sinal que isso envia às novas gerações, que não viveram a luta antifascista. O que nos preocupa é que a facilidade com que se destroem símbolos lhes comunique uma ideia de desinteresse por uma luta que está na base da democracia em que vivemos, ou, mesmo, de complacência para com a ditadura.
O que nos preocupa é só conseguirmos compreender esse desinteresse pela memória da resistência como um sinal de vitória póstuma da ditadura. Ou seja: como um desinvestimento na democracia. O que nos confunde tanto mais quanto ao mesmo tempo se preparam, com pompa e circunstância, as comemorações do Centenário da República.

Insistimos, por isso, na necessidade de recordar, na António Maria Cardoso, que ali sofreram e morreram diversos antifascistas; de recusar a transformação de Peniche e da Boa-Hora em unidades hoteleiras; de preservar o Aljube e criar, ali, o Museu da República e Resistência.

A Direcção do NAM


(Também publicado aqui.)

(Foto de Ana Vidigal)

Etiqueta e boas maneiras












Saem dos baús as últimas histórias dos ditadores do século 20. A Time divulga hoje uma série de tiques e maneiras de Hitler, reunidas em documentos que serão leiloados, em Londres, no início de Março.

Sabemos agora que estava raramente atento ao que se passava à sua volta durante as refeições, que se distraía e roía nervosamente as unhas ou limpava mesmo o nariz (!...). Era vegetariano (bem me parecia...), comia tantos doces que chegava a ter «transtornos digestivos» e proibia que alguém fumasse à mesa (mau pioneirismo).

Não se terá casado para que as preocupações com a família não interferissem na dedicação à pátria (onde é que eu já ouvi isto?) e diz-se que as suas relações amorosas eram geralmente platónicas (também nós julgávamos o mesmo daquele que nos saiu em rifa e...). Acreditava numa protecção especial da divina providência para com a sua pessoa (enganou-se) e, bem a propósito nestes dias em que não se fala de outra coisa, parece que, afinal, não tinha tendências homossexuais (os senhores bispos podem dormir descansados).

18.2.09

#cpms – «125 minutos com Fátima Campos Ferreira»

Ela não pára: 2ª feira, nos Prós & Contras, 3ª no Casino da Figueira, desta vez em melhor companhia: o cardeal Saraiva Martins. Tema? #cpms, obviamente (*).

Que disse ele? O expectável. Mas gostei desta parte: embora reconhecendo que é o Estado que elabora as suas leis, diz que «neste sector em concreto, é absolutamente necessária uma colaboração sincera, autêntica e eficaz entre o Estado e a Igreja (...) cedendo um bocadinho dos dois lados».

A Igreja estará disposta a ceder em quê? Casamento, sim, mas só para homos que também sejam bi - seria talvez uma boa sugestão. Ou para quem prometa ser homo só às segundas, quartas e sextas. Ou só para loiros. Haja deus...


(*) Sigla usada no Twitter para «Casamentos de Pessoas do Mesmo Sexo».

USB_Wine?

video

17.2.09

«Ponte Salazar»? Mais papistas do que o papa...

Os ânimos agitaram-se porque o Público dá hoje a conhecer a existência de um site onde foi lançada uma petição para que a actual Ponte 25 de Abril retome o seu nome original. O site, agora mais requintado, conheço-o há muito porque por lá tenho encontrado material precioso para ilustrar muitos posts.

Quanto à petição, recordo que, ao visitar as obras finais da ponte, nas vésperas da sua inauguração, Salazar perguntou:

«As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas? É que, se estão fundidas no bloco de bronze, vão dar muito trabalho a arrancar.» (*)

Respeitem, pelo menos, a clarividência do mestre! É o mínimo... E contentem-se com as séries da SIC.

Ou será que têm saudades da voz do outro? Oiçam-no então.




(*) Franco Nogueira, Salazar, Vol VI, p.200.

Prós & Contras no Twitter

O Prós & Contras sobre casamento de pessoas do mesmo sexo foi seguido no Twitter por dezenas, talvez centenas, de pessoas. É um sistema totalmente aberto, como é sabido, onde cada um se expõe como entende. Com um preço a pagar: o de assumir o que escreve.

Assim sendo, aqui fica, sem comentários, o que pensa Pedro Duarte, deputado da Nação, e como o exprimiu, referindo-se a Isabel Moreira (que estava na mesa, defendendo o «Sim»):















(A origem da imagem é esta. Foi-me cedida por mmbotelho.)

ADENDA:

Através de memoria virtual, tomei conhecimento das duas últimas afirmações de Pedro Duarte no Twitter:

«Alguém, ilegitimamente, twittou ontem em meu nome com conteúdos ofensivos, que lamento.
Assim, encerro hoje a minha conta no Twitter até perceber o q se passou.Obg a q/ me avisou e peço desculpa aos visados.»

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(Só pode «twitar» o próprio ou quem conheça a sua password. )

16.2.09

O muro e o ovo













Haruki Murakami, escritor japonês absolutamente excepcional, com muitas obras traduzidas em português, acaba de receber o prémio literário «Jerusalem Prize for the Freedom of the Individual in Society», durante uma feira internacional do livro naquela cidade.

Disse então:

«Quando fui convidado para receber este prémio, aconselharam-me a não vir por causa da guerra em Gaza. Perguntei a mim próprio se visitar Israel seria a opção mais correcta, se corresponderia a apoiar um dos lados.

Decidi vir (...), falar em vez de ficar calado e eis o que tenho a dizer:

Se há um muro muito alto e muito duro e um ovo que se quebra contra ele, por mais que o muro tenha razão e o ovo não, ficarei sempre do lado do ovo. Porquê? Porque cada um de nós é um ovo, uma alma única fechada num ovo frágil. E porque cada de nós é confrontado com um muro alto – e esse muro é o sistema. (...)

Todos somos seres humanos. Indivíduos, ovos frágeis. Não temos qualquer esperança contra o muro, porque ele é demasiado alto, escuro e frio. Se queremos combatê-lo, temos de nos juntar para conseguir calor e força. Não devemos deixar que o sistema nos controle e crie o que somos, porque fomos nós que criámos o sistema.»

Texto na íntegra aqui (link enviado por Carlos Vaz Marques no Twitter).

De referendo em referendo












É sabido desde o início da madrugada, hora de Lisboa, que o Sim ganhou na Venezuela e que Hugo Chávez tem a futuro do país a seus pés.

Com o barril de petróleo muito barato, uma corrupção mais do que crónica e um clima de violência aparentemente incontrolável, a vida de Chávez não será fácil – muito menos o será a dos venezuelanos. Celebrou a vitória de todos, mesmo daqueles que votaram Não, o que me parece, no mínimo, insultuoso. Falou durante duas horas e todas as cadeias de televisão foram obrigadas a transmitir a sua festa, ficando assim impedidas de dar voz a qualquer tipo de opositor. Recebeu os parabéns de Fidel que o felicitou por uma vitória «incomensurável» (quando 54% é uma medida bem precisa e nem sequer muito espectacular).

Não foi a primeira vez, nem terá sido infelizmente a última, que uma tirania foi democraticamente ratificada - um preço a pagar, mas com sabor amargo, muito amargo.

Uns copitos p'ra esquecer a crise...

Na reunião do G7, o ministro das finanças do Japão foi adormecendo de vez em quando e depois falou:

15.2.09

Cada país tem os Kim-jong-il que consegue










Sócrates foi reeleito ontem secretário-geral do PS com 96,43% dos votos. Há poucos dias, Portas obteve 96,1% no CDS, recentemente o PC escolheu Jerónimo quase por unanimidade (apenas 4 abstenções).

No caso do BE, a moção subscrita por Louçã para a Mesa da Convenção obteve 78,7%. Melhor, melhor... bem me parecia.