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27.6.16

Aeroporto: memórias de uma varanda



Já aterrei dezenas de vezes em Lisboa, o aeroporto é hoje um verdadeiro labirinto, cada vez maior, sempre diferente. Mas quando percorro os infindáveis corredores e as amplas zonas de chegada de pessoas e de malas (quando chegam…), não é raro lembrar-me dele como era nos idos de 60-70. Tinha acabado de regressar à pátria há dois dias quando o Facebook me recordou que, já há alguns anos, tinha publicado um texto que agora repesco.

A varanda que a imagem mostra existiu no aeroporto de Lisboa, durante muitos tempo, e veio acordar algumas das memórias mais nítidas que guardo de certas actividades de resistência, em tempos de Salazar e de Caetano. Ao vê-la, recordo imediatamente um esquema de vigilância que utilizei muitas vezes.

É sabido que quem chegava via frequentemente as malas vasculhadas, não só nem tanto pela alfândega normal, em busca de perfumes ou de jóias, mas pelos agentes da PIDE, que procuravam livros proibidos e, sobretudo, cartas ou outros documentos politicamente suspeitos. Como estes não podiam ser enviados por correio normal porque não passavam nas malhas dos censores instalados nos CTT da época, eram levados e trazidos por quem viajava. E porque eu o fazia frequentemente por razões profissionais, fui «pombo-correio» activíssimo sobretudo nos últimos anos da ditadura, de e para o estrangeiro.

O mais seguro era transportar a informação em microfilmes (esses grandes percursores das nossas pens…), facilmente alojáveis em frascos de medicamentos e tão pouco usados que a PIDE não os procurava. Mas nem sempre era fácil. Mais difícil era a papelada…

O meu esquema mais seguro, mas do qual não podia abusar exageradamente e a que só recorria em casos mais perigosos, era pedir a um amigo, alto funcionário da TAP com livre-trânsito permanente, que me fosse esperar à saída do avião. No percurso de autocarro para a aerogare, no meio de uma galhofa improvisada, passava-lhe os papeis para os bolsos do casaco.

Para o resto, era arriscar. E é aí que entra a varanda. Era importante não só por minha causa mas pela segurança dos destinatários da minha «mercadoria», que se soubesse rapidamente se eu tinha chegado a bom porto, ou seja, se não tinha sido presa por me terem apreendido algo. (E seria mesmo presa porque não trazia propriamente histórias de encantar, nem planos para festas infantis…) Pedia por isso quase sempre a alguém que me fosse esperar e visse, da varanda, se eu tinha passado. Ninguém pedia nem dava explicações sobre motivos nem conteúdos, nem era necessário – era grande a rede de cumplicidades. Passei sempre. Tive sorte.

O mundo mudou. Hoje, quase só se vasculham malas a gente de pele escura. Também passo sempre. 
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