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27.8.16

A democracia não paga imposto



Expresso, 27.08.2016:


Numa outra notícia, o Expresso afirma que o PCP é a favor da isenção de IMI para os partidos políticos e que o Bloco é contra. 
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Dica (372)




 «A year has passed since the dramatic decision by Angela Merkel to take in hundreds of thousands of Syrian refugees. What drove her to make the decision and what price will the country pay for it? A look back at 14 days that changed German history.» 
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Dilemas


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O dilema da social-democracia



«Depois do Brexit, os três mosqueteiros da Europa reuniram-se a bordo do porta-aviões italiano Garibaldi e garantiram que a Europa está para durar.

Ou melhor, que a União Europeia vai dar um salto qualitativo. De boas intenções está a Europa cheia como se sabe. E por isso o Brexit não foi uma obra do acaso. Nem é a crise continuada que a mistura do euro e da austeridade cega vai alimentando, nascendo da sua mágica poção novos nacionalismos, velhas xenofobias e muito desdém por Bruxelas.

O dinheiro europeu vai servindo para afagar as lágrimas de raiva, mas um dia ele não chegará. A intromissão da UE na soberania dos países é assombrosa e humilhante. Tudo, claro, em nome dos sacrossantos interesses da Alemanha, que vão gerindo a seu prazer a inação do sul e de uma França que vive uma espiral de parolice política nunca vista. Mas o que é mais evidente é que o modelo social-democrata e democrata-cristão de Estado social que vigorou desde a II Guerra Mundial está a terminar. (…)

Há poucos dias, no Financial Times, Tony Barber escrevia um estimulante texto sobre a agonia do centro-esquerda na Europa. Recorda que no virar do século a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha e a Itália tinham governos de centro-esquerda e que essa maioria eclipsou-se. A desintegração do sistema de dois partidos que se sucediam no poder está em colapso, mas isso está a afectar sobretudo a esquerda e não a direita. Como escreve, a "terceira via" trouxe "políticas para os dias de sol e não para as tempestades de hoje". Aponta o dedo: desemprego viral, níveis de vida a estagnar ou a decrescer, cortes nos gastos públicos e, nalguns casos, a ajuda pública para salvar bancos com dinheiro dos contribuintes, aumentaram o descontentamento dos cidadãos.

Na maioria dos casos foram governos à esquerda que implementaram estas acções. As normas asfixiantes da UE ajudaram a essa desconfiança dos votantes à esquerda que se estilhaçaram em grupos mais pequenos, mas mais persuasivos em termos de ideias. (…)

O PS vive um dilema, como os seus colegas europeus: a social-democracia ou renasce ou fica insolvente.»

26.8.16

Dica (371)




«O ministro das Migrações aproveitou para alertar os jornalistas para as consequências de um eventual colapso do acordo assinado entre a União Europeia e a Turquia, que permitiu estancar a chegada de refugiados às costas das ilhas gregas.
Caso o acordo seja anulado, na sequência do aumento da tensão política após a tentativa falhada de golpe de estado na Turquia, a Grécia pode vir a ter de acolher mais 180 mil refugiados a juntar aos quase 60 mil hoje presentes em campos de refugiados e que não conseguem sair do país devido ao fecho da fronteira terrestre.» 
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Humor ácido


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Também tu, Noruega!




Para além de tudo o resto, a Europa vai pagar isto tão caro, mas tão caro!
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Mais críticos, mais chatos e com mais lata



«Chegaram ao fim os Jogos Olímpicos do Rio e começaram as críticas dos desportistas de sofá à prestação dos nossos atletas. Um clássico.

Num país onde há tanta gente nos supermercados em fato de treino, custa a aceitar resultados tão fracos. Veja-se Cuba, tem um ditador reformado que anda de fato de treino o dia inteiro, mas teve 11 medalhas. Segundo fontes, que eu inventei (não pode ser só o Marques Mendes), ficámos em quarto lugar dos países onde a prestação dos seus atletas olímpicos é mais criticada. Ou seja, nem a dizer mal chegámos à medalha. Esperava mais destes críticos.

É natural que certas pessoas sintam que ficámos aquém das expectativas. Não nos podemos esquecer de que somos um país habituado a ter gente a ganhar medalhas, como por exemplo, o Ricciardi, o Mexia e o Zeinal Bava (melhor banqueiro da Europa, melhor gestor da Europa, do mundo, etc). Depois de termos gasto 20 mil milhões de euros com banqueiros de topo, 17 milhões, em quatro anos, para atletas olímpicos, são luxos a que não nos podemos dar. (…)

Na realidade, os atletas portugueses são gente com tão pouco espírito competitivo que nem com "doping" são apanhados. A única coisa que tomam é um copo de bagaço para ganhar coragem e ir pedir dinheiro aos pais para poderem ir aos jogos. (…)

Aos que se sentem mais desgostosos com a nossa competitividade olímpica, deixo um conselho, podem sempre doar 0,5% do vosso pagamento de IRS a instituições, e há várias dedicadas ao desenvolvimento desportivo de jovens. Mas, se calhar, dá uma trabalheira ter de preencher o quadro 9 do anexo H do IRS. Não compensa, prefiro queixar-me. Na minha moderada opinião, estou a calmantes, é imoral exigir seja o que for de quem desprezámos durante quatro anos.»

João Quadros

25.8.16

Sismos destruidores


O sismo que abalou Myanmar não provocou muitas vítimas, mas danificou 185 templos de Bagan.

Estive lá há alguns anos, é um conjunto de monumentos único, visitei alguns. Sobretudo, vi-os de cima, dentro de um cesto pendurado num balão e nunca os esquecerei.


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Dica (370)



How To Tame The Populists. (Javier Solana) 

«A victory for populism would indicate that the political classes really have failed their citizens. The victory of the campaign in the United Kingdom to leave the European Union should have jolted all of us from the illusion that we are somehow protected from the risks we see around us. The unthinkable can happen. Populists can win. It is time for national leaders to show that they are paying attention.» 
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Galeano e a libertação de Paris




Eduardo Galeano, Los hijos de los días:

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Há 28 anos foi assim



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Transforma-se o trabalhador na coisa trabalhada, por virtude do muito aldrabar



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje, sobre a propósito da situação de certos estagiários:

«Algumas pessoas apressaram-se a comparar o caso com a escravatura, o que é absurdo: os escravos não pagavam para trabalhar. Havia, nos energúmenos esclavagistas do passado, uma decência que falta aos patrões empreendedores do presente. (…)

Talvez seja interessante resumir a vida destes estagiários desde a maioridade: primeiro, sujeitam-se a uma praxe académica para entrar na universidade; depois, suportam uma praxe financeira para entrar no mercado de trabalho.»

Na íntegra AQUI.
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Há 72 anos, a libertação de Paris



Entre 19 e 25 de Agosto de 1944, a libertação de Paris pôs fim a quatro anos de ocupação.

Charles de Gaulle, chefe do Governo Provisório, fez um discurso à população, que ficou célebre e imortalizado em algumas frases: «Paris outragé! Paris brisé! Paris martyrisé! Mais Paris libéré!».





E há também canções «eternas»:


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24.8.16

Porcos, bicicletas e burquinis



«Quem já tenha visto um porco andar de bicicleta talvez não se surpreenda, mas eu, que já vi uma bicicleta andar de porco, ainda não caí em mim.»

Uma frase de Manuel António Pina, que me dá muito jeito para me retirar de discussões de certos temas, para as quais tenho pouca pachorra.
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Dica (369)




«In developed democracies today, political leadership is increasingly up for grabs. Voters, clearly tired of the status quo, want change at the top, leaving even major parties’ establishments struggling to install leaders of their choosing.» 
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Angola é isto

Assunção e a maçã de Newton



«Foi Isaac Newton que estabeleceu as três leis do movimento. Ou seja, as leias da inércia, da dinâmica e da acção e reacção. No fundo, a maçã de Newton não cai porque está madura ou porque fez vento, mas porque foi atraída pela força da gravidade.

As leis da física explicam muito do sucesso dos políticos nos tempos que correm. Sabemos pois que a inércia não resolve problemas, que a dinâmica tem a ver com a quantidade força necessária para que alguém escute o que um líder diz e que se um corpo exerce uma força sobre o outro, esse acaba por exercer a mesma força em sentido contrário sobre o primeiro. O problema do CDS, desde o adeus de Paulo Portas, é que depois de um início auspicioso para Assunção Cristas, pela notória simpatia com que os media a tratam, começa a notar-se um período de ocaso. Como se Assunção tivesse perdido o sapato de Cinderela e esteja com dificuldades em voltar a encontrá-lo. Não é fácil suceder a Portas e Assunção, mesmo que tente, não tem a elasticidade para conseguir tornar memoráveis frases, mesmo que elas estejam desprovidas de conteúdo real.

Portas era um alquimista. Assunção é uma funcionária da gramática. Por isso a sua voz esgota-se no teclar de frases feitas. E, assim, o CDS não vai lá. Passos Coelho, é certo, deu uma ajuda, porque o seu discurso parece uma fotocópia mal feita do que já dizia no passado, mas agora o CDS tem de pensar em conquistar um espaço autónomo. Preparando as autárquicas. Ora o que se vê em Assunção é uma ausência de dinâmica que faz com que a mensagem do CDS pareça um tambor sempre com o mesmo ritmo de batida. E depois há os erros (a forma como geriu a ida de Hélder Amaral a Luanda) e os erros cometidos como ministra da Agricultura que hoje qualquer acção gere uma reacção sobre a sua política no sector. Não basta dizer que a economia tem um crescimento "anémico" para que alguém escute Assunção. E dentro do CDS já há quem tenha percebido isso. A maçã não cai por si só. Há que colhê-la. E Assunção ou se movimenta ou cai.»

Fernando Sobral

24.08.1916 – Léo Ferré, 100



Nasceu no Mónaco em 24 de Agosto de 1916, o pai trabalhava no Casino, a mãe era costureira e Léo, com 7 anos, já cantava no coro da catedral.

Deixou-nos preciosidades que resistem a todas as décadas, com letras suas ou de Aragon, Rimbaud e mais uns tantos. Quatro dessas «preciosidades», entre muitas outras:









[Republicação]
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23.8.16

Vivem aqui connosco



… e quase não damos por eles.

A história de Moin Uddin Ahmed.

Pior que o Brexit só a imagem da nova Europa



Ricardo Costa, Expresso diário, 23.08.2016.

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Dica (368)




«Of course, every divorce is costly; but muddling through would be even more costly. As we’ve already seen this summer in the United Kingdom, if European leaders can’t or won’t make the hard decisions, European voters will make the decisions for them – and the leaders may not be happy with the results.» 
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Angola, ainda

Parece que não se pode falar de Angola porque vivem lá portugueses



«Já perdemos a conta à quantidade de vezes que alguém defende o silêncio, a cabeça baixa ou a defesa incondicional do regime de Angola invocando um argumento: é preciso não prejudicar os interesses dos portugueses e das empresas que escolheram aquele país para trabalhar.

Paulo Portas, assumindo a sua confessada faceta de Oliveira da Figueira, invocou há dias esse mesmo argumento: é preciso criar uma boa relação com Angola para "proteger os 100 mil portugueses, as duas mil empresas", etc. etc. É um mau argumento. Na relação intensa entre Portugal e Angola há dependências mútuas. (…)

Esta influência vai além da economia e estende-se aos partidos políticos e outros centros de influência. Para a elite angolana, Portugal é um refúgio - um lugar familiar e onde têm laços (ao contrário do que acontece com o parceiro China), onde podem estacionar o dinheiro longe do risco do seu país.

Quem, como Portas, exacerba a dependência portuguesa face a Angola - uma posição estranha para alguém que falava muito em soberania durante o programa da troika - passa deliberadamente ao lado da outra dependência, a de Luanda face a Lisboa. Fá-lo por erro de leitura - ou, tratando-se de pessoas inteligentes, porque tem interesses a defender.

Dirão alguns que é legítimo fazer negócios em Angola. Eu também acho que é. E que é legítimo defender o regime para defender esses negócios. Neste último ponto divergimos. Portugal não tem de se imiscuir na governação de outro país soberano - não tem de dizer aos angolanos como serem angolanos. Mas não é disso que estamos a falar, pois não? Do que falamos é do cortejo vexatório de subserviência nos últimos anos, do pedido de desculpas de Rui Machete em Luanda, em 2013, à romaria dos partidos (com honrosa excepção do Bloco) ao beija-mão ao presidente do MPLA, passando pelo receio palpável com que o primeiro-ministro e o Presidente da República comentaram publicamente o caso Luaty Beirão.

É fácil perceber como, do ponto de vista moral, esta é uma posição muito frágil quando falamos de Angola. É fácil ver que o potencial de retaliação de Luanda é limitado. E é importante perceber como esta posição totalmente acrítica defende mais os interesses de alguns do que os da política externa de longo prazo de Portugal em Angola - o risco político naquele país é grande e nunca se sabe quem vai mandar depois de amanhã. Talvez um pouco mais de coluna vertebral e de inteligência estratégica não fizesse mal.»

22.8.16

Adivinha nocturna



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Bom para a autoestima dos gregos

Dica (367)

Cry for Ethiopia



Feyisa Lilesa ganhou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos e, ao cruzar a meta, levantou os braços e cruzou as mãos acima da cabeça, numa manifestação contra o seu governo, que pode custar-lhe a vida. Um gesto que ficará para a história actual da resistência desse magnífico país que é e Etiópia, até há pouco exemplo de paz em África e que passa agora por um período terrível de perseguições.

Estive lá há três anos. Parecia ser um oásis naquele Corno de África, entre países em permanente conflito, e era centro de onde irradiavam esperanças de conciliação e de progresso. Tristíssimo que tenha chegado a sua vez de contrariar expectativas, esperemos que apenas por pouco tempo e episodicamente, o que não parece ser o caso.

A Etiópia é um país muito extenso e tem por isso regiões com características muito diferentes. Tudo é muito pobre, as casas são absolutamente rudimentares, pessoas e animais inundam as estradas e andam grandes distâncias a pé. (Conta-se como piada que os etíopes ganham tantas medalhas em maratonas e não só porque, desde crianças, se habituam a correr quilómetros para chegar à escola.)

Embora o país seja praticamente autossuficiente em termos alimentares, tendo de importar muito pouco, tem falta de quase tudo o resto em infraestruturas e tecnologia. E aí é que as coisas se complicam, não só por problemas políticos num país que é governado há vinte e cinco anos praticamente em regime de partido único, com as inevitáveis consequências em termos de corrupção, como pelo facto de a moeda nacional ser tão fraca que tudo o que tem de vir do exterior tem um peso difícil de suportar.

Em todo o caso, aparentemente vai-se (ou ia-se?) progredindo, por exemplo através de um interessante sistema de cooperativas. E, ao contrário dos seus vizinhos da Eritreia e da Somália, é raro que etíopes fujam por essa África abaixo para se afogarem às portas da Europa. Em 2015, o PIB terá aumentado 8,7%, uma das maiores taxas de crescimento do mundo.

A paisagem é magnífica, mas não é tudo. Há também um povo altivo, orgulhoso da sua etnia («a Norte temos os árabes, a Sul os negros, nós estamos no meio»...), do facto de nunca ter sido colonizado e da sua História e das suas lendas sem fronteiras muito distintas.

Aguardemos o que aí vem, com a esperança que um povo sofrido merece. 
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O Tio Patinhas e a CGD



«A CGD é a caixa-forte do Tio Patinhas. Perdão, do Estado português. Não admira que sucessivos governos tenham considerado que deveriam ser os privilegiados seres que podiam fazer da CGD uma piscina cheia de notas e moedas onde eles nadavam com selectos amigos.

Este Governo, abençoado com a possibilidade de nomear uma nova administração para a CGD, escorregou na mesma casca de banana de anteriores executivos. Achou que era o Tio Patinhas da CGD. Por isso, fez um daqueles truques típicos de aluno cábula de David Copperfield e quis transformar pombos em galinhas voadoras. Resultado: um número falhado de natação sincronizada que acabou numa vaia monumental do BCE.

A tentação de nomear 19 administradores quando o bom senso requeria frugalidade, a obsessão de continuar a saga de colocar numa administração pessoas que já o são de outras empresas (por muito capazes e profissionais que o sejam), o erro de nem procurar que os candidatos tivessem currículos aceitáveis pelo BCE, parecem de amador encartado. Nada já admira no Ministério das Finanças de Mário Centeno: as calinadas sucedem-se a um ritmo vertiginoso, da tentativa de bisbilhotar as contas dos portugueses (agora com a "versão manteiga" de só serem as que têm mais de 50 mil euros) a esta proposta que durou longos oito meses a ser congeminada para a CGD e que agora foi simplesmente achincalhada pelo BCE.

Mário Centeno, neste caso, parece actuar como o Pato Donald, sempre sovado pelo Tio Patinhas devido às suas infantilidades. Há qualquer coisa que não se entende na actuação de Centeno e dos seus geniais subordinados neste caso. Não se acreditando que a sua acção se tenha devido a uma súbita atracção pelo modelo dos "kamikazes", falta perceber o que leva o Governo a querer continuar a apostar nesta solução, mesmo com métodos camuflados (como o de mudar a lei). Sabendo-se como é a hierarquia de funcionamento deste Governo fica-se com uma única dúvida: Centeno é o criador ou a criatura desta trapalhada?»

21.8.16

Dica (366)



Muitos mais pontos em comum. (José Manuel Pureza) 

«Não há passado que branqueie este presente nem miragem de futuro que justifique complacência. Uma esquerda que prescinde de ser intransigentemente crítica de poderes despóticos em nome de um passado libertador que virou opressão ou em nome de um suposto realismo das boas relações com potenciais investidores é uma esquerda que falta à sua responsabilidade essencial: ser coerente na luta contra a opressão e pela liberdade efetiva de todos.»
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Cada vez mais próximo do CDS



(Imagem de Pedro Piedade Marques no Facebook)
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Notícias que já não abrem telejornais

A era da política Pinóquio



«Aristóteles desenhou o primeiro mapa da ética e, por isso, também da política. Hoje, quando pensamos no que nos legou, não deixamos de ficar arrepiados. A ética ou a verdade são hoje valores insolventes no círculo do poder. Basta olhar à volta. Não deixa de ser curioso como se começou entretanto a discutir a política "pós-verdade" que começa a entranhar-se nas sociedades ocidentais. Há dias, Steve Richards, no Guardian, discorria sobre o tema, sobretudo a partir da evidência da chegada à política de "outsiders" que conquistavam espaço através de argumentos que, obviamente, não são verdadeiros. Olhava de resto para o que sucedeu no Brexit ou no que está a acontecer nos EUA com Donald Trump. (…)

O certo é que os partidos (e os núcleos duros que os controlam) estão fragilizados. Num mundo global e de poderes repartidos, os políticos, quer à direita quer à esquerda, sentem-se perdidos no labirinto das verdades e mentiras. Porque tendo de prestar contas ao eleitorado vivem num constante nevoeiro. Porque o que dizem que vão fazer nem sempre corresponde ao que podem fazer. E, assim sendo, quem não tem pejo em atirar a verdade para o caixote do lixo está à vontade para conquistar território. Quando se escuta Donald Trump a dizer que vai construir um muro (ainda mais alto) na fronteira com o México, que poderemos dizer? Os debates, com tudo isto, infantilizaram-se. São exercícios de "soundbytes" e slogans sem substância. E com isso quem está a perder é a democracia e os próprios cidadãos. (…)

Tudo é entretenimento. E isso tem muito que ver com a superficialidade reinante (basta ver a televisão portuguesa) e o "harakiri" dos círculos de poder. Enquanto a classe política fala para si própria (veja-se a quantidade de políticos no activo vestidos de "comentadores", a ocupar horas sem fim nas televisões portuguesas), os Pinóquios da política "pós-verdade" vão conquistando lugares na "pole position" para a mudança. As meias-verdades, ou "inverdades" estão a criar um novo paradigma político. E a austeridade, o desemprego e o renascer do nacionalismo face à globalização estão a contribuir para isso. E há quem não veja a realidade.»