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10.1.17

A triste venda do Novo Banco



«Mani, que nasceu na Pérsia no século III, fundou uma ideologia religiosa que, ainda hoje, parece dominar os povos e as sociedades: o maniqueísmo.

Segundo a sua lógica radical, o mundo dividia-se entre o Bem e o Mal, entre a Luz e as Trevas. Com o tempo, todos os antagonismos foram aí beber o seu alimento perfeito: direita/esquerda; individual/colectivo; fiel/infiel. Nos dias de hoje esta dicotomia está de regresso, ainda com mais força e intolerância. A discussão sobre o futuro do Novo Banco está a fazer-se sobre esse território minado. Uns defendem que, face à penúria das ofertas de compra, o banco deve ser nacionalizado; outros, fiéis de um liberalismo económico utópico, defendem que deve ser vendido. Tudo em nome da defesa dessa figura de retórica que são os contribuintes, que só são chamados à batalha quando interessa. E não quando são espoliados com impostos, taxas, "destruições criativas" e sonegação de serviços públicos. Nada de novo, de resto.

O Novo Banco nasceu das cinzas do BES, depois de um incêndio em que as motivações políticas do anterior Governo (destruir Ricardo Salgado) se juntaram aos erros de gestão do banco e aos desejos da União Europeia que desejava criar grandes bancos a nível europeu (e neles não cabiam os portugueses). O Banco de Portugal serviu, nessa matéria, como um mordomo eficaz. Destruiu-se uma marca valiosa e criou-se outra que vale o que vale. A história ainda se há-de fazer sobre esta política de terra queimada que tem vindo a consumir, um após outro, os grandes bancos portugueses. (…) A criação de uma loja dos 300 para vender o Novo Banco, onde surge novamente o Banco de Portugal com uma presença dispensável (o episódio de surgir com uma proposta de venda a uns minutos do limite do prazo é notável), mostra o triste tempo em que vivemos. A história do BES merecia mais. A herança do Novo Banco também.»