15.11.18

Brasil: agora o novo ministro das Relações Exteriores



As opiniões polémicas do novo chanceler sobre raça, fake news e 8 temas.

Um simples exemplo, mas há que ler o texto todo:

«Sou Ernesto Araújo. Tenho 28 anos de serviço público e sou também escritor. Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.»
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O PS nunca desilude


Igual a si próprio há 45 anos. E a ministra da Cultura? Que se lixe, engula sapos.

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Porque é que a democracia está a vacilar?



«Jair Bolsonaro, vencedor das presidenciais do Brasil, é um hiper-nacionalista da extrema-direita, apaixonado por armas e um fraco adepto da comunicação social. O facto de ele não estar desenquadrado no meio dos líderes globais de hoje - incluindo os líderes de algumas das maiores democracias do mundo - deve preocupar-nos a todos. E isso leva-nos à seguinte questão: porque é que a democracia está a vacilar?

Estamos num ponto de viragem histórico. O rápido progresso tecnológico, particularmente o surgimento da tecnologia digital e da inteligência artificial, está a transformar a forma como as nossas economias e sociedades funcionam. Ainda que essas tecnologias tenham trazido benefícios importantes, também levantaram sérios desafios - e deixaram muitos segmentos da população a sentir-se vulneráveis, ansiosos e zangados.

Uma consequência do recente progresso tecnológico tem sido um declínio na proporção relativa dos salários no PIB. Como um número relativamente pequeno de pessoas reivindicou uma fatia crescente do bolo, na forma de rendas e lucros, a crescente desigualdade de riqueza e rendimentos alimentou a frustração generalizada com os arranjos económicos e políticos existentes.

Já lá vai o tempo em que se podia contar com um emprego fixo nas fábricas para pagar as contas indefinidamente. Com as máquinas a assumirem uma parte importante dos empregos na produção industrial, as empresas estão a procurar cada vez mais trabalhadores com elevada qualificação em áreas que vão da ciência às artes. Essa mudança na procura de competências está a alimentar a frustração. Imagine que, depois uma vida inteira de musculação, lhe dizem que as regras mudaram e que a medalha de ouro não será atribuída ao wrestling, mas sim ao xadrez. Isso será enfurecedor e injusto. O problema é que ninguém faz isso deliberadamente; mudanças deste tipo são o resultado da evolução natural da tecnologia. A natureza é muitas vezes injusta. O ónus de corrigir a injustiça está do nosso lado.

Estes desenvolvimentos contribuíram para as crescentes disparidades ao nível da educação e das oportunidades. Há muito que um contexto de maior riqueza aumenta as oportunidades de uma pessoa receber uma educação superior e, assim, conseguir empregos com salários mais altos. À medida que o valor das habilidades mecânicas no mercado de trabalho diminui e a desigualdade de rendimentos aumenta, essa diferença deverá tornar-se cada vez mais pronunciada. A menos que transformemos os sistemas de educação para garantir um acesso mais equitativo à formação de qualidade, a desigualdade tornar-se-á cada vez mais enraizada.

O crescente sentimento de injustiça que acompanha estes desenvolvimentos penalizou a "legitimidade democrática", como Paulo Tucker discute no seu livro Unelected Power. Na nossa economia globalizada profundamente interconectada, as políticas de um país - como barreiras comerciais, taxas de juro ou expansão monetária - podem ter efeitos colaterais de longo alcance. Os mexicanos, por exemplo, não precisam de se preocupar apenas com quem elegem para presidente; também precisam de se preocupar com quem chega ao poder nos Estados Unidos - um resultado sobre o qual não têm voz. Neste sentido, a globalização leva naturalmente à erosão da democracia.



14.11.18

Estivadores: mais trabalho para mais pessoas




«O impasse entre os estivadores e as empresas não tem solução à vista. A Operestiva terá proposto contratar 30 estivadores do grupo de 90. Um terá assinado, mas a maioria recusa.

Jorge Brito é há sete anos estivador em Setúbal. Frequentemente, é recrutado duas vezes por dia, uma por cada turno de oito horas que faz no porto. É um dos trabalhadores eventuais a quem terá sido oferecido vínculo a prazo e explica que a oferta não responde às reivindicações. Os estivadores assumem que nem todos podem ser contratados, mas querem um contrato coletivo de trabalho que estipule também garantias para os que permanecerão precários. A exigência é que uma parte do grupo - mais dos que os 30 propostos - seja contratada, mas possa prescindir do direito de realizar turnos adicionais a favor dos eventuais que ficarem.

"Basicamente, o que queremos é prescindir do direito às horas extraordinárias em prol de mais trabalho para mais pessoas. E é isso que eles não querem - mesmo essas pessoas continuando trabalhadores precários. A única diferença é que ganhavam o direito a fazerem um turno antes de os efetivos fazerem um turno extraordinário", explica o estivador.»
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Tratado Orçamental?



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Fake news: sites portugueses com mais de dois milhões de seguidores



O Paulo Pena passou para o Diário de Notícias e já se dá por isso. Este é um texto de leitura obrigatória! E o «boneco» ajuda (falta na lista «Bombeiros 24»):

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A atrocidade, o mundo e Portugal



«Ainda estamos longe de um pedido de desculpas ao mais alto nível, que um dia acontecerá. Até lá, devemos perceber melhor o tráfico de escravos do Atlântico e como Portugal e os portugueses se envolveram. Um caminho que nos ajudará a melhor perceber o mundo global de hoje e reconhecer o quanto foi feito à custa da repressão dos mais fracos. Um passado que nos põe de sobreaviso sobre a necessidade de se resolverem problemas actuais, à escala global. O mundo pode e deve ser diferente.

Os dados são claros. Entre 1500 e 1875, foram embarcadas nas costas de África cerca de 12,5 milhões de pessoas escravizadas, tendo chegado ao seu destino, na sua esmagadora maioria às costas das Américas, cerca de 10,7 milhões. No mesmo período, foram embarcadas 5,5 milhões de escravos para o Brasil, onde chegaram 4,9 milhões. Na última década do século XVIII, o pico desse tráfico, foram traficadas cerca de 80 mil pessoas por ano, morrendo 8.500 na viagem. A participação de Portugal e do Brasil, enquanto colónia, nesta gigantesca operação tem de ser entendida.

A descoberta do Atlântico deu lugar a um império que pôs Portugal entre as nações mais abertas ao comércio transoceânico. Um bom indicador desse relevo é o valor do comércio por habitante. Desde 1600, Portugal encontrava-se à frente da Espanha, com ou sem o comércio de prata e ouro e, a partir de 1700, ombreava com a Inglaterra e a Holanda, só sendo significativamente ultrapassada por estas nações em finais do século XVIII.

O tráfico de escravos por navios portugueses de Portugal ou do Brasil era todavia proporcionalmente maior do que o comércio de ouro e de mercadorias. O que explica esse maior envolvimento de Portugal? O facto de ser o colonizador de uma parte significativa da costa ocidental de África e do Brasil é uma explicação necessária mas não suficiente, pois quem colonizava, como a história o demonstra, não estava escrito na pedra.

Para responder cabalmente àquela pergunta, é preciso compreender que o tráfico de escravos se inseria numa complexa rede de comércio que envolvia várias partes do mundo. Não se tratava simplesmente de navios que saiam de Lisboa, aportavam nas costas africanas, viajando depois para o Brasil carregados de escravos, para depois regressarem a Lisboa com açúcar ou ouro. Era mais do que isso e são várias as ideias sobre o assunto.

Uma delas [narrativas] , baseada na investigação sobre negócios efectuados, navios embarcados ou histórias concretas de negociantes, introduz um circuito mais complexo. Fala-nos de navios, saídos de Lisboa, carregados de panos vindos da Índia, usados para pagamento dos escravos na costa africana, depois traficados para o Brasil, onde os negociantes locais os pagavam com prata, adquirida a troco de ouro no Rio da Prata, na actual Argentina, prata essa que era depois remetida para Lisboa, usada para pagar os panos comprados na Índia e assim fechar o círculo. Os capitais deste comércio podiam ser portugueses, brasileiros, indianos, espanhóis, ingleses ou holandeses, seguindo os fluxos financeiros de então, cada vez mais globais. Deve aqui acrescentar-se, para melhor compreensão dessa rede, que a Índia tinha a prata como principal meio monetário.

Nesta história, entram os comerciantes e traficantes de Lisboa e do Brasil, os traficantes africanos, os colonos espanhóis do Rio da Prata, os comerciantes indianos, e os capitalistas de várias origens. Toda uma rede global em que os africanos escravizados se viram envolvidos, enquanto elo mais fraco. Esta visão alargada do tráfico de escravos mostra a complexidade da operação e a multiplicidade das responsabilidades. Mostra também que a globalização, deixada ao mercado livre, com responsabilidades mútuas e repartidas, sem peias, sem política, pode levar e levou a resultados assim. Essa é sem dúvida uma lição da História.

O tráfico de escravos terminou, em meados do século XIX, quando era ainda negócio rentável e por deliberada acção política, guiada pelo iluminismo e pela incipiente opinião pública de então.

Portugal, um dia que decida tomar a sua responsabilidade nesta história, estará em boas condições para recordar que a boa globalização é aquela que é bem supervisionada. E que, hoje como dantes, os dias são sempre de acção e não de contemplação.»

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13.11.18

Regresso


O Rio de Janeiro continua lindo, mas eu não estou lá, já pousei em Lisboa há umas horas.

Dei uma pequena volta por notícias de cá, não estranhei que um senhor de nome Bruno quase tudo domine e que as touradas continuem a gastar teclados. Só não percebo se o dossier Tancos está encerrado, pois já ninguém fala do tema, e parece-me que os afectos e as selfies de Marcelo já tiveram tempos mais espampanantes.

La nave va.
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12.11.18

Rio de Janeiro (2)



Há cidades lindíssimas por esse mundo fora. Com a beleza que a «implantação» do Rio de Janeiro tem, não conheço nenhuma e duvido mesmo que exista. Já tinha subido ao Corcovado e ao Pão de Açúcar, e recordava-me bem da maravilha que entra pelos olhos dentro, mas, ao regressar lá agora, volto a pensar que Deus é mesmo brasileiro e que renunciou ao descanso do sétimo dia para criar esta cidade.

Percorri também muitos bairros por onde nunca tinha passado, mundos variados com vivências e vitalidade próprias. Regresso amanhã à noite a Portugal com a certeza de que os Bolsonaros venceram uma batalha, talvez várias, mas que não ganharão uma guerra que destrua esta gente e este país. Há muita força por aqui e um povo que quer futuro.

11.11.18

Rio de Janeiro



Quando ontem cheguei ao Rio, fui logo almoçar uma bela feijoada no magnífico Café Colombo – uma espécie de Majestic do Porto ou Tortoni de Buenos Aires, em muitíssimo maior. Lindíssimo!

À saída, para ter mesmo consciência da cidade em que estava, assisti a um assalto de esticão. Em certas zonas da cidade, e também aqui em Copacabana, dizem-nos que andemos, se possível, sem nada nas mãos… Mas o ambiente é aparentemente calmíssimo, e festivo como sempre, sobretudo num Sábado sem chuva, que fez os cariocas respirarem de alívio e andarem pelas praias até às tantas da noite.

Vi ou revi uma série de bairros e monumentos, hoje irei a lugares «sagrados».



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9.11.18

Paraty: casas, cachoeiras e alambiques



Hoje foi dia para Paraty. Vai-se percorrendo as muitas e magníficas ruas do Centro Histórico, com as casas de tipo colonial muito bem preservadas, e recorda-se a história desta pequena cidade que já foi o mais importante porto exportador de ouro do Brasil, que viveu também do ferro e da cana-de-açúcar e que foi entreposto privilegiado de escravos, aqui concentrados e depois em parte distribuídos por outras regiões. Foram precisamente esses escravos, que exerciam as tarefas que os nativos recusavam, que permitiram um sucesso relativamente fácil até 1888 quando a escravatura foi abolida. A partir daí, seguiu-se um século XX difícil e relativamente estagnado.

Hoje Paraty vive quase só do turismo (embora não se vejam multidões neste momento…) e um pouco de agricultura. Rodeada por reservas ecológicas, é uma das regiões mais preservadas do Brasil.

E por falar disso, claro que não falhei uma ida às célebres cachoeiras, nem um almoço numa localidade de vegetação de cortar a respiração, como também a corta a ponte suspensa pela qual se acede ao restaurante…

Last but not the least, também fui a uma destilaria, explicaram-se tudo sobre alambiques e cachaças – e deram-mas a provar, obviamente.

Amanhã… o Rio espera-me. 




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De Minas Gerais a Paraty



Foi bem longo o dia de ontem para vir de Tiradentes a Paraty, com uma paragem em Petrópolis. Desta, há que salientar o belo Museu Imperial, onde estão expostos quadros, mobílias, jóias e outros artefactos de realezas que também foram nossas – Pedros, Joões, Carlota Joaquina e muitos mais. Tudo acompanhado de completíssimas árvores genealógicas e descrições, concisas mas claras, das vidas dos intervenientes. Dada a proibição de captar imagens no interior (como é normal), fica apenas a do edifício.

Hoje andarei por Paraty. Falhei descrições de alguns locais importantes de Minas Gerais, mas serão feitas nem que seja já em Lisboa.

Tudo óptimo excepto o clima, por vezes penso que estou na Bélgica e não no Brasil! Céu de chumbo, uns quinze minutos de Sol em quatro dias, chuviscos nos primeiros, chuva ininterrupta ontem. Hoje? Logo se verá… 
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7.11.18

Brasil, Brasil



Deixo para mais tarde descrições turísticas do dia de hoje, porque muitos me pedem impressões no campo político. Antes de mais, que fique claro que três dias em viagem de passeio não chegam para se ter qualquer opinião consolidada. Em todo o caso, aí vão umas pinceladas.

Ontem assisti, na TV, ao último minuto de uma declaração que Moro fez para justificar a aceitação do cargo de ministro da Justiça. Seguiram-se três comentadores, com ar sereno e formal, que resumiram o que Moro dissera, sem qualquer crítica ou distanciamento, frisando aliás que o facto de ele levar para o ministério várias pessoas dos tribunais constitui uma garantia de competência reforçada. Passou-se para a Economia e dois especialistas explicaram (também sem a menor reserva, didaticamente), o que Paulo Guedes vai fazer: usar o dinheiro das privatizações para diminuir a dívida («Não tenham medo, não vai haver nenhuma reestruturação») e reformar a segurança social. A mensagem do conjunto das intervenções era clara: estes dois ministros são a cara de um governo que vai ser competente.

Esta manhã, tomei o pequeno-almoço com duas brasileiras de 30 e tal ou 40 anos, desempoeiradas, funcionárias públicas. Nenhuma votou Bolsonaro «que é um doido», optaram pelo voto nulo. Teriam escolhido sem hesitação Lula, mas não Haddad. Não só porque foi um mau candidato, mas sobretudo pela vice, Manuela d’Ávila, «essa extremista louca». No meio disto tudo, em quem depositam grande esperança: no ministro da Economia. Quando lhe expus as minhas reservas, concordaram plenamente, até por saberem que, como funcionárias públicas, serão «vítimas». Mas se o homem endireitou a economia do Chile sem ser chileno, certamente que salvará a do seu país. Elas foram trabalhar e eu desejei-lhes felicidades…

Em suma: tenho a sensação (provisória…) de que, acabada a guerra da campanha eleitoral, esta gente agarra-se seja ao que for e que isso passa, principalmente, por acreditar na mensagem que está a ser subliminarmente transmitida: vem aí um bom governo, para muitos apesar de Bolsonaro – que, afinal, só teve 1/3 dos votos dos eleitores… 
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6.11.18

De Belo Horizonte a Ouro Preto



Belo Horizonte ficou para trás, com os seus três milhões de habitantes, um centro com edifícios de Nimeyer entre palácios clássicos, nada de muito extraordinário.

Seguiu-se uma longa estrada para Mariana, que passa perto de algumas das célebres minas de ferro e de ouro, tão bem exploradas pelos ingleses e que tão úteis lhes foram em tempos da revolução industrial. (Só se fala de minérios, fui ouvindo uma verdadeira lição sobre variedades e subtis diferenças…)

Mariana é uma verdadeira pérola! Deve o nome a D. Maria Ana, mulher de D. João V, foi a primeira capital de Minas Gerais em 1711, não tem hoje mais do que 60 mil habitantes e vive do turismo e de extracção de minerais. Se tem igrejas magníficas, com destaque para a de S. Francisco, construída entre 1762 e 1794, foram as casas e as pequenas ruas que me encantaram, não só pela indiscutível beleza, como por serem belas pegadas que por lá deixámos!

Imagens, incluindo a de topo:





Por fim, Ouro Preto, onde estou agora e ficarei esta noite. Um pouco maior do que Mariana e tudo em ladeiras com um empedrado diabólico e igrejas espalhadas por tudo quanto é sítio! Muito haveria que contar, mas há uma outra igreja de S. Francisco de Assis, que não pode ser omitida, obra-prima do estilo rococó, com obras do célebre Aleijadinho. E não resisto a contar uma história: num das imagens vêem-se quatro animais, obra do dito Aleijadinho. Encomendaram-lhe quatro estátuas de leões, mas ele não fazia a mínima ideia do que era um leão. Explicaram-lhe que era num bichon grande, forte, e feio. Saíram, de facto, quatro estátuas, mas com cara de macaco – o que de mais parecido Aleijadinho julgava conhecer…

Dele, Aleijadinho, continuarei a ouvir falar amanhã, noutras paragens.



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Belo Horizonte



Já aterrei há algum tempo, deu para ver alguma coisa e deixo aqui estes pelos painéis da igreja de S.Francisco. Projectada por Niemeyer, tem no interior azulejos e pinturas de Portinari e outras preciosidades, que não vi porque está tudo em manutenção. Amanhã há mais e o dia será longo.

E, sim, também já deu para ouvir que Bolsonaro reflectiu muito durante a convalescença da facada, que o discurso amaciou e que isto vai…
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4.11.18

Alô Brasil



Amanhã, quando o Sol nascer, estarei já no meu local de culto em Lisboa, que dá pelo nome de Aeroporto Humberto Delgado, rumo ao Brasil para uns dias de digressões várias, há muito programados. Há quem me diga que não é um bom momento para o fazer, mas penso o contrário: ir já, antes que se faça tarde…

Quando regressar, pode ser que entretanto alguém tenha acabado de escrever o guião da telenovela sobre Tancos. E quem sabe se ela nada tem a ver com unhas, touradas e outras questões transcendentes. Isto deve andar tudo ligado!
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As terríveis migrações na América Latina




Isto é absolutamente impressionante!

«La multitudinaria caravana de migrantes centroamericanos que empezó en Honduras ya atravesó tres fronteras. Solo le queda la estadounidense. Desde que un grupo de cientos de personas salió de la ciudad hondureña de San Pedro Sula el 12 de octubre, la masa humana no ha parado de engordar a medida que avanza. Ahora son miles —4000, dicen los más conservadores; 7000, dicen los menos—, y a plena luz del día atravesaron el estado de Chiapas, uno de los tramos de México más peligrosos para los indocumentados de Centroamérica en la última década. Ahora caminan por Oaxaca.
Entre analistas, académicos, periodistas y debates públicos han circulado ideas acerca de que este impulso de salir en avalancha no es espontáneo, de que se trata de centroamericanos pobres manipulados por intereses políticos ocultos. Algunos sostienen que el origen de la caravana es Donald Trump, para demostrar a México que tiene que aceptar el acuerdo de tercer país seguro, que consiste en que si un centroamericano cruza México sin pedir asilo ya no puede hacerlo en Estados Unidos. Otros dicen que esto salió del presidente nicaragüense, Daniel Ortega, y su necesidad de desviar la atención de la brutal represión en su país. Otros dicen que la oposición política del presidente hondureño, Juan Orlando Hernández, quiere desprestigiarlo. Son teorías sin pruebas. (…)

Los nadies de Centroamérica dejan al desnudo a sus países. Sin la ayuda de sus gobiernos, miles de centroamericanos decidieron buscar una mejor vida para ellos y los suyos o, en muchos de los casos, simplemente buscar vida.»
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Dica (825)




«If mind-stopping cliches of violence and corruption do not correspond with voting patterns or Bolsonaro’s governmental plan why did he win the election? It was not a free or fair process. (…)

International capital and the US government now have exactly what they want in Brazil. All natural resources will be opened to exploitation from foreign capital. The US military will be able to use the Alcantara rocket launching base as a take off point for forays into Venezuela. Brazil’s participation in the BRICS is dead in the water and US Petroleum companies will be swimming in Brazilian oil. Regardless of the level of participation by the US and its institutions, these events fit a pattern of US interventions in Latin America over the past 100 years. If we are truly interested in defeating fascism it is important to move beyond cliches and work to identify the real actors at play, so that their power can be countered. In order to do this, we have to move beyond the idea that Brazil operates in a geopolitical vacuum and that the return to neofascism, which was previously installed with ample US government support from 1964-1985, can be explained by oversimplified generalizations on public opinion.»
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Os liberais portugueses e Bolsonaro



«Por uma vez, estou de acordo com António Araújo: “Bolsonaro e Trump revelaram que há uma direita que, em parte se julgava liberal, mas que tem traços muito mais autoritários do que propriamente liberais” (PÚBLICO, 31.10.2018). Há quinze anos, Freitas do Amaral chegou à mesma conclusão. Não surpreende que Jaime Nogueira Pinto apoie Bolsonaro, ou que, entre este e o PT, Nobre Guedes opte pelo homem que acha que polícia que “matar dez, quinze ou vinte [bandidos], com dez ou trinta tiros cada um, ele tem que ser condecorado e não processado” (Bolsonaro, 28.8.2018). Ou até que Paulo Portas não tenha encontrado na “vida pública do capitão Bolsonaro nenhum indicador eticamente reprovável em termos pessoais” (TVI, 29.10.2018). Há muito que se percebeu bem que, quando a extrema-direita ganha escala e atrai uma parte tão significativa da direita clássica, esta não hesita em colar-se-lhe.

Aquilo, contudo, para que já não há paciência é para a tese de que quem “fabricou” Bolsonaro e é culpado do seu triunfo, é a esquerda! “Tantas vezes a esquerda gritou pelo fascismo, que o fascismo finalmente apareceu” (João Miguel Tavares, PÚBLICO, 25.10.2018). A tese, que explica História com fábulas, baseia-se na ideia de que “o obsessivo anúncio [da chegada do fascismo] ajudou, e muito, a que [a profecia] viesse a concretizar-se”. Claro que JMT sabe (deduz-se) que o fascismo chega com as crises. Para ele, contudo, o fascismo não vem pela mão daqueles que, criando e beneficiando com as elas, se reservam a carta do fascismo para atrair o descontentamento das classes médias e de uma parte das classes populares (no Brasil, a grande maioria destas virou-lhe as costas) e, simultaneamente, optar por uma transição autoritária para suprimir as formas mais perigosas de contestação social. Não: JMT acha que Bolsonaro é culpa de uma “esquerda que se tornou profundamente conservadora, recusando qualquer mudança no statu quo”, deixando aberto o “espaço revolucionário” (sic) para aqueles que “anunciam mudanças radicais e o combate aos interesses instalados”.

Estranho: esta mesma direita andou os anos da troika a queixar-se da resistência dos “profissionais dos serviços e empresas públicas [que] são hoje a aristocracia ofendida do regime democrático”, e que, “privilegiados a quem os regime deixou de satisfazer as expectativas”, “com os seus diplomas, contratos coletivos, ordens e sindicatos”, e que, “na sua compreensível irritação, podem ser tentados a deitar tudo abaixo” (Rui Ramos, Expresso, 14.7.2012) - isto é, fazerem revoluções, sinónimo, pelos vistos, de defesa de direitos e da dignidade social. Agora, queixa-se a mesma direita de que a esquerda que representa estes “contratos coletivos” e estes “sindicatos”, afinal, já não querem fazer revolução alguma e deixam a bandeira aos fascistas… Não se queixem, portanto, professores, operários, empregados, mulheres, indígenas, LGBTs, estudantes, que os fascistas venham atrás deles, que os intimidem no emprego, na rua, nas redes sociais, que os processem juízes tão independentes quanto Sérgio Moro - e que os espanquem e ameacem literalmente de morte.

Queixam-se estes liberais (assim se dizem eles) da “oligarquia” da esquerda e do que chamam (que lata!) uma “elite” de “escritores, comentadores, historiadores, músicos ou jornais a criar vídeos, e manifestos (…) e o diabo a quatro, onde do alto da sua imensa sabedoria tentam explicar ao povo brasileiro (…) em quem ele deve votar” (JMT, PÚBLICO, 29.10.2018). Quem usa esta retórica (que muito fascista, dos anos 30 ou de hoje, subscreveria) que denuncia o elitismo dos “intelectuais” relativamente ao “povo”, parece esquecer-se de quem desde há mais de trinta anos, desde os anos do cavaquismo, dispõe de quantas páginas e microfones quiser (os Barretos, as Mónicas, os Ramos, os Espadas, os Valentes, os Césares das Neves, os Nogueiras Pintos…, querem que prossiga?), pontificando nas universidades e nos media públicos e privados contra o 25 de Abril, o “totalitarismo” socialista, a descolonização, as políticas sociais, a educação pública, as ciências sociais, os portugueses que vivem à custa do Estado e não aprendem… Não lhes perguntem pelo passado deles mesmos, nem das suas relações com o Estado. O que lhes interessa agora é dizer que Bolsonaro está “muito em consonância com o povo e nada em consonância com os professores da Universidade de São Paulo ou com os letristas das maravilhosas canções brasileiras” (F. Bonifácio, PÚBLICO, 1.11.2018). Isso. Profes e músicos. Pelos vistos eram quem mandava no Brasil.»

Manuel Loff
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3.11.18

Maria Guinot, para além de Festivais da Canção



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José Cardoso Pires




Entre 8 de Novembro e 30 de Dezembro terá lugar uma longa série de actividades em honra de JCP. Certamente que serão largamente anunciadas, mas aqui fica um programa ontem recebido, com pedido de divulgação.

No dia 17 de Novembro, participarei em «Conversas, Testemunhos Vividos», a convite de uma das suas filhas.
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Em guarda, e guardem-se. A luta é longa



Alexandra Lucas Coelho
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Calem-se: o povo é quem mais ordena



«1. Há uma conspiração de extrema-direita a nível internacional, muitíssimo bem pensada, bem planeada e que vem sendo executada passo a passo. Steve Bannon, ex-guru de Trump e despedido por ser demasiado inteligente e incompreensível para aquela fraca cabeça ruiva da Sala Oval, é o rosto mais visível, mas não único. Vestem-se de jeans, recuperam as poses do Village dos anos setenta, argumentam com algoritmos, alimentam o seu tumor no território fértil das redes sociais e no fanatismo religioso das igrejas evangélicas (que, no seu íntimo, desprezam profundamente) e pastoreiam o seu rebanho no novo lumpen-proletariado que a globalização criou nas sociedades afluentes. O medo de um futuro onde as pensões deixaram de estar garantidas, onde o vizinho moreno passou a ser um potencial terrorista, em que qualquer emigrante será uma ameaça ao Estado social, onde a máquina vai substituir o operário e onde a ordem natural das coisas será para sempre subvertida é o seu território de caça. E porque tudo isto é demasiado confuso e demasiado aterrorizador para ser enfrentado, a legião massificada dos aterrorizados e confusos refugiou-se na zona de conforto de um Deus capturado por vendilhões e das redes sociais servidas à medida dos seus medos, das suas raivas, das suas frustrações e dos seu ódios irracionais. E à exacta medida dos planos dos ideólogos contra a liberdade e a democracia. Dos indisfarçáveis fascistas. Que já não precisam de militares, nem de golpes nem de noites de facas longas. O Facebook e o WhatsApp servem-lhes tudo de bandeja e levam-lhes as ovelhas às mesas de voto, como cordeirinhos dóceis ao matadouro.

A propósito disto, e de um texto de que adiante falarei, lembrei-me de um belíssimo e perturbante filme de James Ivory, de 1993, baseado no livro de Kazuo Ishiguro, Man Booker Prize, “The Remains of the Day” (“Os Despojos do Dia”, na tradução portuguesa”). No filme, Lord Darlington (interpretado por James Fox) é um aristocrata inglês que organiza, no seu mannor de Darlington Hall, um jantar para um dignitário nazi, em 1935. Darlington, que depois seria exposto como simpatizante nazi, estava sobretudo incomodado por ver que as duas maiores potências europeias estavam à beira de ser arrastadas para uma guerra entre elas, quando as ruling classes de ambas tinham interesses comuns, que estavam a ser dinamitados pela demagogia insuflada nas classes populares e que, de forma trágica, tinham levado ao poder na Alemanha um obscuro cabo chamado Adolf Hitler — um Bolsonaro com 80 anos de avanço. E, para melhor ilustrar o seu ponto de vista, a certa altura, Lord Darlington, à conversa com um amigo, chama o seu buttler (a figura central do filme, num magistral desempenho de Anthony Hopkins), e pergunta-lhe: “Tu sabes o que é a inflação?” E ele responde: “No, Sir”. E, fazendo um gesto, despedindo-o, Darlington comenta para o amigo: “Estás a ver? Este tipo, que não sabe o que é a inflação, tem direito a um voto, tal e qual como eu!”.

Poderíamos chamar a isto o fardo das elites perante a democracia: um homem, um voto. Um princípio essencial, aliás, à natureza da própria democracia. Noutro contexto, o do colonialismo, Kipling falou do “fardo do homem branco” — qual seria o de “civilizar” os povos colonizados. Pois, a história deu as voltas que deu, muitas erradas e trágicas, outras ocasionais e curiosas, e é certamente ocasional e curioso que, por exemplo, a maior democracia do mundo, hoje, seja a Índia — onde Kipling situou o fardo do homem branco. O que isto nos parece dizer é que mesmo quando erradas nos seus valores — que, para sermos justos, deveremos sempre julgar no seu contexto de então e nunca no seu contexto actual — as elites, bem ou mal, cumpriram e cumprem um papel na consciência colectiva dos povos. Sendo um privilégio por origem, devem ser um fardo e um dever por obrigação. Demitindo-se de intervir, por temor ou por desfastio, são um privilégio sem sentido e sem razão de ser. Todos os que tivemos a sorte de estudar, de ler, de aprender, de reflectir, de saber “qual a cor da liberdade”, como escreveu Jorge de Sena, somos tributários do Infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira. Morto pela cegueira da turba ignara, incendiada pela inveja dos medíocres, dos que alimentariam depois as fogueiras da Inquisição. Porque, meus caros amigos: quem queima livros não se liberta — suicida-se.

Bem, o dito texto é da autoria de João Miguel Tavares, o qual vai ficar felicíssimo por eu citar o seu nome, pois que vive à procura de quem lhe dê importância e relevância. Mas vale a pena ultrapassar isso porque esta citação o justifica: “Nós, as elites, não percebemos nada de nada... As elites artísticas, intelectuais, jornalísticas, têm de meter na cabeça de uma vez por todas que a sua influência sobre o povo, na hora do voto, é nula. Que os seus poderes de mediação e de persuasão, na era das redes, se evaporaram de vez”. Eu não sei o que mais me dá vontade de rir — ou de sorrir de tristeza. Se é ver alguém auto-arvorar-se em elite — uma daquelas coisas que, quando se é, não precisa de ser dita, e quando se diz, é porque não se é. Se é vê-lo pensar que descobriu a pólvora, com o triunfo da multidão das redes sociais sobre as “elites” — isto é, aqueles que leram, que não se contentam em ser informados pelas “verdades” das redes sociais, que reflectiram — coisa sobre a qual (agora, peço eu desculpa) venho escrevendo há anos, com a qual José Pacheco Pereira começou por ser grande entusiasta antes de arrepiar caminho, e de que José Manuel Fernandes, menos inteligente, ainda continua entusiasta, e que Umberto Eco arrasou há tempos num texto demolidor. Ou, enfim, por vê-lo ir a correr, de corda ao pescoço, juntar-se à multidão das redes sociais a tempo de apanhar o último vagão do comboio, proclamando, ofegante: “Eu estou convosco! Eu, membro da elite bem pensante, compreendo-vos. Compreendo o Bolsonaro, o Orbán, a Le Pen, o Salvini, o Trump, tudo, todos! Vocês são o povo e a função das elites é estar ao lado do povo”. É o pensamento profundo de Lord Darlington, drasticamente invertido por este nosso pensador profundo. Só falta querer retirar o direito de voto àqueles, como eu, que sabem o que é a inflação mas não frequentam redes sociais.

2. O juiz Sérgio Moro, o herói da Lava Jato, o Carlos Alexandre tropical, e que presumo que seja também um dos ídolos de referência de João Miguel Tavares, não resistiu ao convite de Bolsonaro para ser ministro da Justiça do seu governo. Com isso, não fez mais do que arrancar uma máscara colada com cuspo. Primeiro, mostrou que entre a magistratura e a política, a sua verdadeira ambição era a política e a primeira serviu-lhe de trampolim para a segunda. Depois, mostrou que não foi por acaso que, poucos dias antes do impeachment de Dilma, revelou uma escuta telefónica de uma conversa entre ela e Lula, sem qualquer relevância processual e em clara violação da lei, com o intuito claro de influenciar a votação do Congresso contra Dilma — assim como depois, a poucos dias da primeira volta das presidenciais, em nova e descarada violação do segredo de justiça, revelou parte da delação premiada do ex-ministro de Lula, Antonio Palocci, com efeito determinante na votação do candidato do PT. Que a sua mulher tenha vindo depois apelar abertamente ao voto em Bolsonaro, já pouco podia espantar: este é o juiz que, sem nenhuma prova directa e baseado apenas em delações premiadas (isto é, testemunhos comprados), sozinho, investigou, acusou, despachou para julgamento, julgou, condenou e meteu na prisão o homem a quem todas as sondagens davam larga vantagem para voltar a ser Presidente do Brasil. Até pode ser que Lula seja culpado de tudo o que o acusam, o que ainda está por demonstrar à luz das normas de um Estado de direito, tal como eu o entendo. Mas o mínimo que se exigia a Sérgio Moro é que tivesse alguma noção de decoro e contenção nas suas ambições.»

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2.11.18

Turismo, a quanto obrigas


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Caetano, ainda ele




«En tant que figure publique au Brésil, il est de mon devoir de clarifier les faits. Aujourd’hui, je suis un vieil homme, mais j’étais jeune dans les années 1960s et 1970s, et je me souviens. Donc je me dois d'en parler. A la fin des années 1960s, la dictature militaire du Brésil a arrêté et emprisonné de nombreux artistes et intellectuels pour leurs convictions politiques. J’étais l’un d’entre eux.»
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2 de Novembro no cinema: Visconti e Pasolini



Pouco provável, mas Luchino Visconti poderia fazer hoje 112 anos, mas, infelizmente, morreu antes de completar 70. Foi sempre um dos meus realizadores de eleição e seria grande a tentação de recordar aqui muitos dos seus filmes. Limito-me a três, mais do que trivialmente óbvios.

Rocco e os seus irmãos (1960):




O Leoprado (1963)




Morte em Veneza (1971):




E foi também num 2 de Novembro, de 1975, que morreu PasoliniPier Paolo Pasolini morreu em 2 de Novembro de 1975. Com uma vida atribulada e mais do que polémica, e uma morte trágica, deixou-nos alguns belíssimos filmes, entre os quais «O Evangelho segundo S. Mateus», de 1964, certamente aquele que mais me marcou e de que me recordo melhor.

A surpresa generalizada com que este foi recebido quando apareceu, de um Pasolini marxista, ateu e anticlerical (até condenado anteriormente por blasfémia), mereceu-lhe o seguinte comentário: «Se sabem que sou um descrente, conhecem-me melhor do que eu próprio. Posso ser um descrente, mas sou-o com a nostalgia de não ter uma crença». O filme foi «dedicado à querida, alegre e familiar memória do papa João XXIII», que morreu antes de poder vê-lo.

Um belo Cristo, mais revolucionário do que pastor, que provocou a ira de alguns críticos e o entusiasmo de muitos outros.


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2 de Novembro: hoje é que é o dia deles



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O canto do cisne de Merkel



«Há um Halloween diferente que percorre o mundo. Quem assusta os seres disfarçados com uma cabeça de abóbora na cabeça é a Internacional de extrema-direita, cuja banda sonora é executada por Steve Bannon e que tem seguidores militantes nas Américas e na Europa.

A queda da chanceler Angela Merkel, depois dos fracassos eleitorais na Baviera e no Hesse, é apenas mais uma peça do dominó construído nas últimas décadas que cai. A queda de Merkel é mais do que um soco no estômago da Europa altiva, construída com base num contrato social pós-guerra, e feito com base num modelo de alternância ou mesmo fusão da social-democracia com os democratas-cristãos. Até no norte da Europa cresce a onda neonazi. No grupo de Visogrado a tentação anti-UE é visível. O Brexit ou o governo italiano eram sintomas visíveis. Por isso bem pode Emmanuel Macron tentar ser o pólo de agregação da Europa sujeita a tantas pressões. Há um avanço crescente da extrema-direita em parte substancial da Europa, prometendo patriotas a sério e um amanhecer revigorante. O discurso está ganho: é o povo contra os "maus". E estes são os políticos, os globalistas, as minorias e os "outros". Átila e os Hunos estão já dentro das portas da Europa.

Nada de sério se discute. Deixou de haver debate político e as novas vozes "apolíticas" e "renovadoras", aproveitam o sentimento generalizado de que há uma "autoridade fraca" e uma austeridade inconcebível para impor discursos infantis e básicos. As redes sociais ajudam a este clima básico, onde frases de ódio abafam qualquer tentativa séria de discussão. O centro político desloca-se para a direita e o velho pêndulo da moderação (o bloco central favorecido pela classe média) dissolve-se. Porque a classe média na Europa foi massacrada pela austeridade cega e esta era o colchão da democracia. Sem classe média com aspirações sociais a democracia vai eclipsar-se, mesmo na Europa. Por isso o eleitor médio desloca-se para quem lhe dá conforto, a extrema-direita, com o seu discurso básico. Face a isso só surge, nas recentes eleições, uma alternativa curiosa: a dos partidos que se preocupam com as questões ambientais e com a qualidade de vida dos cidadãos. Uma nova polarização entrou em cena. Não deixa de ser sintomático que num mundo de tanta informação digital a que é fácil aceder, as luzes da cultura se comecem a apagar.

Não admira que se tenha assistido ao canto do cisne de Angela Merkel. O referente da Europa dos últimos anos vai sair de cena, numa era de polarização política extrema. Mas não só: o revés eleitoral no Hesse, onde está o coração financeiro da Europa continental, Frankfurt, é claro. O descontentamento é generalizado. Os desafios que se colocam à Europa unida precisam de novos líderes e de novas ideias. De outra forma o projecto falirá. As próximas eleições europeias, onde poderá haver um substancial reforço da extrema-direita, que ali estará para fazer naufragar a UE, trarão algumas respostas para tantas questões. Mas, está claro, mostrarão que os partidos tradicionais estão a perder apoios populares face a novas formas de entender e fazer política, que são mais nacionalistas e imprevisíveis. A confiança dos cidadãos nas democracias liberais já viveu melhores dias. Resta saber se a democracia tem forças suficientes para suster esta nova vaga inquietante.»

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1.11.18

Dica (824)




«“They always accuse others of being what they are themselves,” he said. “It’s these leftwing people, who always put themselves above the rest, who are fascists.” (…)

Bolsonaro, who has expressed admiration for dictators including Chile’s Augusto Pinochet, claimed many Brazilians now believed Brazil’s military regime “wasn’t a dictatorship as the left has always preached”.»
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Há 263 anos foi assim




Amanhã não sabemos.
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Salazar, esse «agarrado»…




Uma história extraordinária, boa para ser lida em dias de mortos e de bruxas.
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Quantas ditaduras há no mundo?



«"Se olharmos para o mundo, o número de democracias vai diminuindo e o número de ditaduras vai aumentando. Isso não é uma boa notícia.” A frase, dita pelo Presidente da República na terça-feira, na Alfândega do Porto, onde abriu o Congresso da União Internacional de Advogados, suscitou-me curiosidade. Aliás, mais do que curiosidade, suscitou-me interesse, levou-me à procura de dados sobre o assunto e a encontrar números que vale a pena partilhar.

No seu relatório mais recente, publicado este ano, a Organização Não Governamental americana Freedom House faz um resumo das principais conclusões relativas ao estado da democracia em 2017. Há infrmações arrepiantes e outras menos surpreendentes. Setenta e um países sofreram degradação dos direitos políticos e liberdades civis e apenas 35 registaram ganhos. Os Estados Unidos recuaram no seu papel tradicional de defensor e exemplo de democracia e aceleraram no declínio dos direitos políticos e das liberdades civis. A liberdade global desceu pelo 12.º ano consecutivo e, ao longo desse período, 113 países de todas as regiões do mundo perderam liberdade e apenas 62 ganharam. [Em 12 anos: 2206-2017]

“A democracia enfrentou, em 2017, a sua mais séria crise das últimas décadas, quando os seus princípios básicos – incluindo a garantia de eleições livres e justas, os direitos das minorias, a liberdade de imprensa e o Estado de direito – foram atacados em todo o mundo”, conclui a Freedom House. Entre os países considerados “não livres” pela ONG estão a Síria, a Eritreia, o Ruanda, o Congo e o Gabão, mas também a Rússia, a Venezuela, a República Centro-Africana e até a Turquia e todos estão na lista das nações que regrediram, em termos de liberdade.

E Portugal? Portugal está na lista de países considerados livres com um valor agregado de 97 em 100 (estando o 100 mais próximo da liberdade e o zero mais longe). A ONG descreve o país como “uma democracia parlamentar estável, com um sistema político multipartidário e transferências regulares de poder entre os dois maiores partidos”. Diz que “tanto os eleitores como os políticos estão livres da interferência indevida de forças fora do sistema político (dominação dos militares, poderes estrangeiros, hierarquias religiosas, oligarquias económicas ou qualquer outro grupo poderoso que não seja democraticamente responsável)” e acrescenta que “as liberdades civis são geralmente protegidas”.

Mas também põe o dedo na ferida. “As preocupações em curso incluem corrupção, certas restrições legais ao jornalismo e condições precárias ou abusivas para os presos.” A este propósito é citado José Sócrates, “o ex-primeiro-ministro” que “foi formalmente indiciado por corrupção”. O caso, recorda o relatório, “coincidiu com o de Ricardo Salgado, ex-presidente do extinto Banco Espírito Santo, acusado de subornar Sócrates através de intermediários para garantir decisões favoráveis e benefícios comerciais”.

Outros relatórios e outros estudos, como o projecto Variedades da Democracia (V-Dem), que o PÚBLICO noticiou em Setembro, falam sobre o facto de a democracia estar a perder terreno. “Está a encolher o espaço democrático nos principais países do lado do espectro democracia-autocracia. Uma parcela muito maior da população mundial está hoje a experimentar a autocratização”, alertavam os investigadores do V-Dem, calculando que o declínio da democracia afectará já 2,5 mil milhões de pessoas.

Marcelo Rebelo de Sousa escolheu chamar a atenção para o assunto dois dias depois das eleições no Brasil, país onde tem familiares muito próximos, e de Angela Merkel ter dito que deixará a liderança da CDU em Dezembro. Coincidência?»

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Santana Lopes in the sky with…



Diz que o Aliança pode ter mais de 10% nas legislativas: «para cima, para cima». Vai trabalhar para ter uns 30 deputados. Mas não, não está à espera de ter uma maioria absoluta.
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31.10.18

Há mais vida para além dos Bolsonaros



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A dança das carreiras




Mas será que ninguém percebe que todas estas jogatanas e bailaricos de políticos, «abanqueirados», comentadores e outros que tais vão acabar mal? Não para eles, obviamente.
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Foi assim


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A morte da democracia pela vontade da maioria



«A democracia é o único regime político conhecido que merece o nosso respeito porque é o único que nos respeita. A explicação é quase desnecessária, mas justifica-se nestes estranhos tempos que vivemos.

O princípio fundamental da democracia, que supera o importante princípio da vontade da maioria, consiste na consideração assumida de que todas as pessoas são livres e iguais, titulares de direitos que não podem ser violados.

É verdade que em nenhuma democracia este princípio é plenamente cumprido, havendo falhas, muitas vezes graves, mas é o princípio orientador fundamental, o seu norte.

Por isso, a democracia morre sempre que alguém que toma conta do poder, mesmo por vontade da maioria, defende princípios contrários à liberdade e igualdade, ou seja, princípios contrários ao respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos.

É nesta medida que a vontade da maioria – já o dizia, no século XIX, Benjamim Constant – tem limites e quando a maioria escolhe um não democrata para governar ou escolhe um parlamento que despreza os direitos fundamentais dos cidadãos constantes de catálogos de direitos como os da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de que celebramos este ano os 70 anos, a maioria mata a democracia.

Situações destas podem suceder e sucedem à nossa volta em várias partes do mundo. Tenhamos consciência bem clara de que a escolha de um regime não democrático, por vontade da maioria, não é um exercício de democracia, é a violação dela. Quando tal acontecer, a minoria só tem um caminho: lutar contra ele.

E por que escolhe, por vezes, a maioria de um povo um regime que não mais se importa com o respeito pelos direitos humanos, nem com a vontade da maioria em futuras eleições, se as houver? As razões são muitas e complexas, mas frequentemente tal sucede porque em certos momentos históricos a razão não impera e porque os regimes democráticos existentes se afastam muitas vezes do seu norte, debilitando-se.

A democracia afirma-se pelo exemplo dado pelos governantes. Ao contrário do que frequentemente se afirma, a corrupção não faz parte da democracia, sendo antes uma patologia do exercício do poder que deve ser firmemente combatida em todos os domínios onde se manifeste.

A solução para estas situações de implantação de um regime não democrático não pode ser a sua aceitação, mas a luta renovada contra ele. A luta por um regime que respeite os direitos fundamentais de todas e cada uma das pessoas que é tão difícil, morosa e que tantos sacrifícios implica.»

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