1.6.20

O racismo (não) é intolerável!



«Imagine-se por uns minutos o momento inaugural de genuína perplexidade de uma criança ao descobrir que algo de tão fútil como a cor da sua pele constitui um problema na sociedade onde vive. Que a cor da sua pele faz dela um alvo privilegiado de chacota, de insulto e de violência, não só por parte de outras crianças, mas também de adultos, não só no seu bairro, na sua cidade ou no seu país, mas em várias partes do mundo, não só na época em que vive, mas que é uma realidade que se perpetua há séculos. A incompreensão inicial transforma-se num ápice em profunda angústia. O racismo é um traumatismo.

A influência nefasta da carência afetiva precoce está, hoje, bem documentada. Em meados do século passado já René Spitz e Harry Harlow haviam demonstrado a importância da atenção, do carinho e do amor no desenvolvimento normal de uma criança e as repercussões na sua vida de adulto. Essa relação de reconhecimento e cuidado por parte do Outro é essencial e chega a condicionar a própria sobrevivência da criança. No entanto, as nossas relações afetivas não se limitam às figuras maternas ou paternas, estendem-se também a esta espécie de família alargada a que chamamos de sociedade. O racismo é uma das expressões mais cruéis e perversas dessa relação afetiva deteriorada. Para além da evidente rutura do contrato social, alicerçado sobre o valor da Igualdade, que constitui o racismo, para além desta rutura política abstrata, existe uma rutura mais íntima, mais profunda, mais encarnada. Afinal não somos uma família.

Esta primeira rejeição é arrasadora, desconstrói uma personalidade em desenvolvimento. A criança vai desde logo recorrer a estratégias para voltar a sentir a confiança inicial, para voltar a fazer parte da família. Convence-se de que, de facto, o problema é ela. O processo de racismo interiorizado está em curso. Mas aos poucos a criança, o jovem, o adulto entende que afinal pouco importam as estratégias, pouco importam os esforços, o problema continua visível, o seu corpo negro incomoda.

Ao longo dos séculos esse corpo (indissociável da mente) foi subjugado, martirizado, assassinado, invisibilizado, enviado para campos de trabalho, para as periferias, para as cozinhas, para as prisões, para as sepulturas. Como o corpo de George Floyd, torturado e assassinado por um polícia branco de Minneapolis em 2020, na autoproclamada “maior democracia do mundo”. O racismo é violência.

Derek Chauvin outorgou-se o direito de matar George Floyd em frente das câmaras porque tinha a possibilidade física e social de o fazer. A sociedade onde vive não considera que o racismo seja intolerável. A História e a justiça do seu país, as convicções racistas e supremacistas de uma parte importante dos americanos, inclusive do seu próprio Presidente, confortam-no na sua ação. É a mesma sociedade que permite em Nova Iorque que Amy Cooper ameace e proceda a uma falsa denúncia contra um homem negro à polícia. Esta mulher racista sabe em que sociedade vive.

Em Portugal, o polícia que brutalizou Cláudia Simões também sabe em que sociedade vive, tem consciência, por exemplo, que na última década nenhum polícia foi condenado por racismo. O deputado André Ventura conhece a sociedade em que vive, conhece o valor das vidas de ciganos e negros em Portugal. Sente-se confortável para exprimir, há anos, toda a sua ciganofobia, porque não somente não foi alvo de qualquer sanção à altura dos seus atos como ainda pôde entrar sorridente pela porta principal da Casa da Democracia. Ventura conhece a sociedade que lhe permite sugerir o regresso de uma deputada portuguesa negra para a sua terra, sem qualquer perda pessoal e política. Pelo contrário, sobe nas intenções de voto. Se o racismo fosse intolerável o deputado racista já teria sido expulso do Parlamento (aliás nunca lá teria entrado) e estaria no banco dos réus por incitação ao ódio racial, da qual a proposta de um plano de confinamento para a população cigana é mais um insuportável exemplo.

Mas o racismo é tolerável dentro do Parlamento, é tolerável na sociedade portuguesa, na americana, na francesa, no nosso mundo. E tolerar o racismo é ser racista. É admitir a existência de cidadãos de segunda, que a justiça não seja igual para todas e todos. É aceitar que não façam parte da família. É permitir que a criança negra ao ser testemunha dos últimos instantes de respiração de Floyd seja também ela transportada para aquele chão e sufoque e chore sabendo que este não é nem o princípio nem o fim do pesadelo. O racismo é terrorismo.»

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31.5.20

Covid-19 e os vários episódios de uma telenovela à portuguesa



Andaram meses a falar dos velhos, a acusarem-nos de se juntarem em pequenos grupos, de se sentarem nos bancos dos jardins e, horror dos horrores, de tentarem jogar às cartas. 

Descobriram que, agora, os maus da fita são os jovens. Vai ser mais difícil confiná-los, até porque eles não ouvem as homilias diárias da ministra e da DGS.
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Justiça para George Floyd


O mínimo que podemos fazer é assinar ESTA PETIÇÃO.
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No saguão do teletrabalho



«Está em curso uma discussão sobre o teletrabalho muito suportada por opiniões superficiais, sem reflexão acerca do contexto económico, social e político em que vamos viver, sem suporte em estudo científico e empírico indispensáveis.

São, em grande medida, pronunciamentos embalados pelo fascínio da tecnologia e algumas tentativas de credibilizar objetivos particulares de curto prazo. O assunto é sério, tem de ser estudado, nas suas vantagens e inconvenientes, tomando a experiência forçada de muitos milhares de trabalhadores, mas muito para além do observável nessa experimentação.

Em pouco tempo emergiram vantagens e inconvenientes. Questões muito delicadas ao nível do uso do tempo, um dos bens fundamentais sobre o qual não podemos perder o controlo. Há que distinguir, e criar barreiras, entre tempo de trabalho e tempo pessoal para a vida plena em todas as suas dimensões. Concomitantemente, tornaram-se evidentes as dificuldades de gestão do espaço doméstico e a tendência para sacrificar condições de vida de elementos da família em favor da prestação de trabalho de outrem.

Num tempo em que tanto se fala da necessidade de trabalho em equipa, se constata a necessidade de maior socialização, em que é preciso reforçar o coletivo contra o individualismo exacerbado e, quando é imberbe a regulação e regulamentação do teletrabalho, há muito a estudar para que o seu incremento não venha a ser mais prisão, amputação das liberdades e fragilização da democracia. E como estruturar bem a gestão de equipas à distância? E quais os impactos na distribuição territorial dos/as trabalhadores/as e suas implicações?

Vamos viver (já estamos) um tempo em que imensas pessoas têm menores rendimentos e o elevado desemprego coloca os trabalhadores numa situação de fragilidade: os desempregados forçados a aceitarem trabalho sem poderem proteger-se minimamente; e quase todos os outros mais expostos a chantagens, porque há um exército de mão de obra disponível. Por outro lado, como se vai confirmando a cada dia que passa, o choque da pandemia só foi simétrico no susto inicial: as desigualdades e as vulnerabilidades estão a agravar-se e os poderes a desequilibrarem-se em desfavor dos trabalhadores.

A utilização do teletrabalho vai ser influenciada até pela geopolítica, num quadro de incremento da automação, debaixo de falsos determinismos tecnológicos, e com as plataformas digitais e outras a tentarem camuflar dependências hierárquicas e funcionais, gerando a ilusão de estarmos perante uma proliferação de "atividades" ocasionais substitutivas do emprego.

E como vai ser feita a desincrustação da crise nos planos sociopolítico e institucional? O Estado e as instituições vão sair com mais força? As instituições de intermediação e regulação imprescindíveis em democracia, como os sindicatos, vão ser defendidas e reforçadas nas suas missões ou desvalorizadas?

É preciso fazer-se a caraterização funcional das diversas profissões, analisar mudanças para a organização do trabalho na perspetiva patronal mas, de igual modo, do ponto de vista do trabalhador. Este estudo não pode substituir aquele que identifique as exigências e limites no espaço privado. O perigo de se desvalorizar o teletrabalho é real. E ele não pode tornar-se trampolim de transferência de responsabilidades.»

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Diário do Desconfinamento



O cão é o único que ainda não está em teletrabalho ou telescola.
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30.5.20

É mais ou menos isto


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DGS: Informação precisa-se



Oiça-se, AQUI, Constantino Sakellarides que diz o que é evidente: a população tem de ter dados rigorosos, para poder tomar decisões em relação ao desconfinamento, é fundamental que a Direção-Geral da Saúde partilhe toda a informação de forma exacta e precisa.

«Devo ir ao restaurante da minha vizinhança ou não?» «Nós podemos obedecer cegamente durante dois meses, mas não podemos fazê-lo durante dois anos.»
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CDS


Este rapaz vai mesmo continuar a ser presidente do partido, ou fica por lá até a pandemia abrandar para entreter algum pessoal? Alguém o leva a sério?

Para podermos respirar



«”Não consigo respirar”. O grito, como é sabido, não é de nenhuma vítima da Covid-19, mas sim de George Floyd, o cidadão negro, afro-americano, de 46 anos, que foi executado barbaramente por um polícia em Minneapolis. A frase foi repetida dezenas de vezes, em estado de aflição, enquanto o polícia continuava a esmagar com o joelho imperturbável a garganta de Floyd. Ao contrário do que escreveu alguma imprensa, o polícia não se “ajoelhou no seu pescoço”. Asfixiou-o deliberadamente. Floyd não morreu por isso em nenhum “incidente”. Perante os apelos dos transeuntes para que o deixassem respirar e a passividade criminosa dos restantes agentes policiais, que recusaram prestar qualquer assistência a uma pessoa que estava a ser assassinada, George foi linchado por quem tem, supostamente, a missão de proteger os cidadãos.

“Não consigo respirar”. Foi também este o grito, repetido desesperadamente mais de uma dezena de vezes, por Eric Garner, cidadão negro que tinha 43 anos quando foi estrangulado ate à morte, durante mais de 15 segundos, em julho de 2014, por um agente da polícia de Nova Iorque, também ele um homem branco. O caso, seis anos antes numa outra cidade, e que terminou sem qualquer condenação do homicida, tem todas as afinidades possíveis com o de Minneapolis. E mostra como nada parece ter mudado para todos aqueles que não podem sentir-se seguros se a polícia estiver por perto.

Enquanto tantos se mobilizam, um pouco por todo o mundo, para combater um vírus que nos impede de respirar, para que haja ventiladores capazes de salvar vidas, há outras vidas e outros corpos que são tratados como se não tivessem direito a viver. Como se o poder pudesse dispor deles e eliminá-los.

A asfixia dos negros não vem, como se sabe, de agora. Estes episódios estão longe de ser acontecimentos isolados. Muito menos são tristes coincidências. São, de facto, a expressão da política do racismo estrutural, que é brutal nos Estados Unidos, mas não só. Estas histórias, que nos revoltam por dentro, existem porque foram conhecidas, porque alguém filmou e nós as testemunhámos. Imaginem agora quando não há ninguém a registar o que acontece, quando é no silêncio e na impunidade absoluta que estes assassinatos acontecem. Quantos não existem, todos os dias? Quanta violência racista é perpetrada sem que nunca ninguém seja condenado por isso? Sabemos bem, em Portugal também. É preciso lembrar Alfragide, por exemplo?

É por isso que me declaro solidário com quem manifesta a sua indignação e a sua repulsa, que são também minhas, contra esse racismo larvar que atira migrantes e negros e pobres para as periferias das cidades e dos empregos mal pagos, para as vias desvalorizadas do ensino e para os transportes cheios e expostos à doença, para as prisões e para os bairros com poucas condições. Para a violência estrutural às mãos das instituições.

Em Minneapolis, esta revolta é já um potente grito coletivo e multirracial que ocupou as ruas, com gente de várias comunidades e pertenças, com igrejas solidárias a abrirem as suas portas para abrigar os manifestantes durante os ataques de gás lacrimogênio da polícia, com comerciantes a anunciar o seu repúdio pelo que aconteceu, com gestos importantes como o de Joan Gabriel, presidente da Universidade de Minnesota, que anunciou, numa carta pública, o corte de todos os contratos com o Departamento de Polícia de Minneapolis e o cancelamento de qualquer pareceria para a segurança de concertos, palestras ou outros eventos daquela instituição.

Está visto, é certo, que vai ser preciso muito mais luta para que as coisas mudem. Hoje mesmo, Omar Jimenez, um repórter negro da CNN que tem coberto as manifestações naquela cidade, foi detido pela polícia em pleno direto televisivo. As imagens deixam qualquer um perplexo – a mim, pelo menos, deixaram-me boquiaberto. Depois de tudo o que se tem passado, Jimenez é levado pela polícia sem que se perceba porquê: “Por que estou preso?”, pergunta em direto. A polícia divulgou mais tarde a sua explicação: o repórter e a equipa haviam sido detidos por não se terem afastados quando receberam essa ordem. A câmara televisiva, caída no chão, continuou a transmitir as imagens em direto.

Os olhos do mundo estão em Minneapolis, porque Minneapolis é em muitos lugares do mundo. George Floyd é hoje o símbolo das vítimas deste vírus insuportável que torna as nossas sociedades irrespiráveis. O racismo mata, de muitas maneiras. E será só pela nossa luta sem tréguas e sem hesitações que poderá ser erradicado.»

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29.5.20

Marcelo: segue-se estadia num Hostel?



Populismo e/ou em plena campanha para as presidenciais – tanto faz. Mas que cansaço!...
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George Floyd


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Jamaica, Azambuja, Banco Alimentar: os pobres da covid-19 e a nossa hipocrisia



«Um dos meus livros de economia preferidos chama-se “The Economics of Poverty” e foi escrito por Martin Ravallion, um estudioso da pobreza e antigo diretor do departamento de investigação do Banco Mundial. Ravallion começa logo nas primeiras páginas com a pergunta “Porque existe pobreza?” e explica que existe uma longa tradição intelectual de culpar as mulheres e homens pobres pela sua condição, atribuindo-lhes estereótipos como o de serem preguiçosos, irracionais, incapazes de gerir a sua vida. Esta velha tradição intelectual de separar o mundo entre “nós” e “eles” reflete-se na organização da sociedade e da economia e, infelizmente, uma parte destes estereótipos sobreviveram até ao dia de hoje no nosso subconsciente coletivo. Vem isto a propósito da crise causada pela pandemia. Raramente na história recente a separação entre os privilegiados e os destituídos foi tão crua.

Comecemos pelo confinamento que, quando nasce, não é para todos. O surto nas plataformas logísticas da Azambuja ou a fábrica de conservas em Peniche, que enviou esta semana 200 funcionários para casa devido a um caso positivo, mostram que nem toda a gente pode proteger-se do risco de contágio. Desconhecemos que medidas de segurança foram implementadas nestas fábricas e armazéns. Não sabemos quantas pessoas esconderam sintomas por medo de perder uma parte do pouco rendimento que têm. Mas sabemos que não conseguimos coletivamente proteger estes trabalhadores mal pagos e com poucos direitos laborais, que carregam nos ombros o que de mais essencial flui na economia, como a comida para os supermercados.

Como uma desigualdade nunca vem só, a do rendimento mistura-se nesta história com a étnica e de país de origem. Segundo os jornais, muitas pessoas que trabalham nas empresas afetadas na Azambuja são imigrantes jovens, que se deslocam para o trabalho de comboio, a partir de bairros periféricos da Área Metropolitana de Lisboa. Os hostels de Lisboa também concentravam imigrantes, provavelmente com trabalhos precários e mal pagos, a viver em espaços sobrelotados no limite da indignidade. Agora temos um surto no Bairro da Jamaica, onde as autoridades se preparam para encerrar os cafés para evitar que o contágio se generalize. Aparentemente, uma festa no início de maio estará na origem dos contágios. É que isto de aguentar o confinamento depende muito da qualidade do sofá, da velocidade da internet e da variedade do que há no frigorífico. Para os jovens do Bairro da Jamaica e do vizinho Santa Marta é menos suportável do que para a burguesia do teletrabalho onde me incluo.

Serão estes exemplos fruto do acaso? Em Portugal não temos como quantificar estes fenómenos, mas no Reino Unido e Estados Unidos, onde há informação étnica e disponibilidade de dados, há vários estudos que mostram como as minorias étnicas são mais afetadas pela covid-19. No dia 8 de maio, o The Lancet publicou o artigo “Evidence mounts on the disproportionate effect of covid-19 on ethnic minorities”. O título é sugestivo, os números também. No Reino Unido, a taxa de letalidade entre as pessoas de ascendência africana é 3,5 vezes maior do que a dos brancos britânicos. Já os caribenhos e paquistaneses morrem 1,7 e 2,7 vezes mais do que os brancos. Em Nova Iorque, um estudo mostra que as mortes entre os negros são de 92,3 por 100 mil habitantes e entre hispânicos e latinos de 74,3, o que contrasta com menos de 50 por 100 mil para brancos e asiáticos.

O The Lancet afirma que a diferença na prevalência de doenças crónicas entre estas comunidades e os brancos não é suficientemente elevada para explicar por si só as discrepâncias na mortalidade, e explica que estas pessoas “trabalham muitas vezes em empregos que os colocam em risco, como de atendimento ao público e transporte de mercadorias ou entregas, e é menos provável que tenham empregos que lhes permitam fazer teletrabalho”. Qualquer semelhança com os trabalhadores da Azambuja e de Peniche ou os residentes dos hostels não é mera coincidência.

Lembrei-me ontem de Martin Ravallion a propósito do esquema de apoio de emergência aos artistas da Câmara de Lisboa, que exigia em troca até 30 horas de trabalho. A capa do livro de Ravallion é uma fotografia de uma “workhouse” para pobres da Inglaterra vitoriana, uma estrutura de acolhimento e trabalho típica das políticas de combate à pobreza daquele período. Como nos explica Ravallion, encontramos nos dias de hoje heranças deste passado negro nos apoios ao rendimento com componentes “workfare”, que é como quem diz: obrigação de trabalho em troca de transferências. Ao ator e produtor Filipe Crawford, por exemplo, foi-lhe exigida tal contrapartida em troca de 154,69 euros de apoio mensal. A vereadora da cultura da CML, Catarina Vaz Pinto, comunicou que a câmara decidiu revogar esta norma, mas aproveitou para insistir que isto não configura uma “prestação de serviços” mas antes uma “contrapartida do apoio concedido”. Descubra as diferenças.

A ideia de que os pobres são “diferentes” reconfortou as elites ao longo da história na sua inação para erradicar a pobreza. As “workhouses” da Inglaterra vitoriana eram instituições assistencialistas e moralizadoras, que alimentavam – mal e pouco – as pessoas pobres e procuravam corrigir os seus supostos maus hábitos. Durante o fim de semana, Marcelo Rebelo de Sousa visitou a sede do Banco Alimentar contra a Fome e apelou aos donativos de comida, alegando que há 400 mil pessoas com fome, mais cerca de 20 mil do que as habituais 380 mil servidas habitualmente pelas instituições de solidariedade apoiadas pelo Banco Alimentar. Segundo o Presidente, “não é preciso gostar do Banco Alimentar, da líder ou dos voluntários. É preciso pensar nos que estão mal e que vão estar assim mais um mês, dois, três, mais um ano, o tempo que durar a crise”.

A mim, parece-me que é preciso pensar que espécie de sociedade é esta que perante pessoas que podem ficar com fome durante mais de um ano se contenta com oferecer uns pacotes de arroz para as campanhas do Banco Alimentar. Este cheirinho feudal dá-me náuseas.»

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28.5.20

28 de Maio de 1926 – Nunca esquecer



Ler e ver AQUI um post de 2019.
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Covid-19 e a pobreza das crianças




Mais 15% de crianças na pobreza em comparação com o ano passado.
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Requiem pela democracia



«Mais uma vez, depois de tantas, as elites brasileiras preferiram correr o risco de cair na ditadura (quando não a desejaram desde o início) sempre que as classes populares manifestaram a sua aspiração a ser incluídas na nação, a nação que as elites sempre conceberam como sua propriedade privada. A leitura do transcrito da reunião do conselho de ministros do Brasil no dia 22 de Abril é uma experiência dolorosa, assustadora e revoltante.



O ter sido dado conhecimento público desse vídeo e transcrito é um sinal eloquente de que a democracia ainda sobrevive. Ocorreu no seguimento da denúncia do ex-ministro Sérgio Moro de que o Presidente tentara interferir com as investigações em curso na Polícia Federal do Rio de Janeiro contra um dos seus filhos por suspeita de graves condutas criminosas. Ao ordenar a divulgação do vídeo, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, inscreveu o seu nome no livro de ouro da breve e tormentosa história da democracia brasileira. Esperemos que o sinal de esperança que ele nos deu seja potenciador do despertar das forças democráticas de esquerda e de direita, o despertar de um sono profundo e inquietante, feito de ignorância histórica e de vaidade míope, um sono que lhes permite sonhar com cálculos eleitorais sem se dar conta da frivolidade de tais intentos quando a própria democracia está por um fio.

Os fascistas nem sequer escondem os seus intentos. O Presidente faz um apelo directo e inequívoco à luta armada. Mais do que um apelo, informa que está disposto a dirigir o armamento de civis à margem das forças armadas. E faz isso ladeado por generais! Está a confessar um crime de responsabilidade e um crime contra a segurança nacional. E nada a acontece. Ao lado do vice-presidente, está sentado impávida e parvamente o então ministro da Justiça Sérgio Moro, o grande responsável pela destruição da institucionalidade democrática, para o que sempre contou com a cumplicidade das elites e dos seus media. O anúncio do Presidente não só é recebido com sorrisos complacentes de quem o ouve, como vários ministros se esmeram em soltar por conta própria as cloacas do ódio e do preconceito. Para além de outras aleivosias avulsas.

O que se lê é de tal modo torpe que é melhor ler para crer:

Presidente: “É putaria o tempo todo para me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa, oficialmente, e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda de sacanagem, ou amigos meus, porque não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha — que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final… Eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura! Facílimo! Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. E se eu fosse ditador, né? Eu queria desarmar a população, como todos fizeram no passado quando queriam, antes de impor a sua respectiva ditadura. Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não dá pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais.”

Ministro da Educação (extrema-direita): “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF. E é isso que me choca… A gente tá conversando com quem a gente tinha que lutar. A gente não tá sendo duro o bastante contra os privilégios, com o tamanho do Estado e é o... eu realmente tô aqui aberto, como cês sabem disso, levo tiro... odeia... odeio o prutido (sic) comunista. Ele tá querendo transformar a gente numa colônia. Esse país não é... odeio o termo ‘povos indígenas’, odeio esse termo. Odeio. O ‘povo cigano’. Só tem um povo nesse país. Quer, quer. Não quer, sai de ré. É povo brasileiro, só tem um povo.”

Ministro do Meio Ambiente (momento maquiavélico): “Porque tudo que agente faz é pau no judiciário, no dia seguinte. Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspeto de cobertura de imprensa, porque só fala de covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas… Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação.”

Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (evangelismo reacionário): “Neste momento de pandemia a gente tá vendo aí a palhaçada do STF trazer o aborto de novo para a pauta, e lá tava a questão de... as mulheres que são vítima do zika vírus vão abortar, e agora vem do coronavírus? Será que vão querer liberar que todos que tiveram coronavírus poderão abortar no Brasil? Vão liberar geral? [dirigindo-se ao ministro da Saúde] O seu ministério, ministro, tá lotado de feminista que tem uma pauta única que é a liberação de aborto… Porque nós recebemos a notícia que haveria contaminação criminosa em Roraima e Amazônia, de propósito, em índios, pra dizimar aldeias e povos inteiro pra colocar nas costas do Presidente.”

Ministro da Economia (feira de vaidades): “Eu conheço profundamente, no detalhe, não é de ouvir falar. É de ler oito livros sobre cada reconstrução dessa (Alemanha, Chile). Então, eu li Keynes, é... três vezes no original antes de eu chegar a Chicago. Então pra mim não tem música, não tem dogma, não tem blá-blá-blá.”

Nada disto é novo. Sobre o que disse o Presidente, basta referir que, depois das eleições de 1932, foi assim que se expressou Hitler, invocando a necessidade da ditadura para se defender da ditadura… da democracia. A reunião teve lugar no dia em que o Brasil se aproximava de 3000 mortos pelo coronavírus. Este, no entanto, foi um tema ausente. Ou, ainda mais perversamente, pretendeu-se usar a preocupação mediática com a pandemia para fazer avançar a perda de direitos, os casinos, a privatização, o desmatamento da Amazónia e a eliminação das restrições ambientais. O sistema democrático brasileiro está em tamanho desequilíbrio que vive um momento de bifurcação: uma qualquer acção ou omissão política tanto o pode resgatar como afundar de vez.»

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27.5.20

Colômbia? Nem sei o que dizer…




«"A ABC põe a sua criatividade ao serviço da saúde com o desenvolvimento de uma cama de cartão 100% ecológica. Contribuindo para a necessidade de aumentar a capacidade hospitalar do país e com uma cama que é 100% reciclável, biodegradável, a menos de metade [do preço] de uma cama convencional. Esta cama conta com um segundo propósito, vendo a situação que se apresentou noutros países, que esperemos não se chegue a dar uso no nosso país", escreveram no Facebook, em finais de abril. O segundo propósito é transformar-se num caixão.»
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O estranho caso de um texto da Presidência


«Festivais e espetáculos de natureza análoga» ou como tudo se transformou numa questão de semântica, nesta prosa mal amanhada.

Presidente da República promulgou diploma da Assembleia da República

O presente diploma, na versão final aprovada pela Assembleia da República, só proíbe, até trinta de setembro, o que os promotores qualificam como festivais e espetáculos de natureza análoga.

Quer isto dizer que, se uma entidade promotora definir como iniciativa política, religiosa, social o que poderia, de outra perspetiva, ser encarado como festival ou espetáculo de natureza análoga, deixa de se aplicar a proibição específica prevista no presente diploma. Por outro lado, mesmo os assim qualificados festivais e espetáculos de natureza análoga podem realizar-se desde que haja lugares marcados e a lotação e o distanciamento físico sejam respeitados.

Atendendo a este quadro legal, ganham especial importância a garantia do princípio da igualdade entre cidadãos, a transparência das qualificações, sua aplicação e fiscalização e a clareza e o conhecimento atempado das regras sanitárias aplicáveis nos casos concretos.

Nestes exatos termos, o Presidente da República promulgou o diploma da Assembleia da República que estabelece medidas excecionais e temporárias de resposta à pandemia da doença Covid-19 no âmbito cultural e artístico, procedendo à segunda alteração ao Decreto-lei n.º 10-I/2020, de 26 de março.

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Querem mesmo um ensino sem aulas presenciais?



«Confesso que fiquei surpreendido quando ouvi um dirigente sindical criticar a abertura das aulas para o 11º e 12º anos. O que começou por dizer pareceu-me convincente: é preciso garantir a segurança de alunos, professores e funcionários. Mas depois acrescentou, se bem registei, que preferia que se mantivessem as aulas à distância. Eu não prefiro. Por isso é que gostaria de ter ouvido algo mais, que temos que nos mexer para ter as condições para voltar à vida das escolas. O mais depressa possível. Sem aulas presenciais não há ensino.

É provável que sem aulas presenciais também deixe de haver professores. De facto, manda a prudência que se tenha em conta que, se o sistema de ensino for só uma telescola, alguém um dia imaginará que basta um vídeo das aulas de cada cadeira e que se pode repeti-lo ad infinitum. Umas dezenas de figurantes contratados para apresentarem um texto e um powerpoint e está dado o curso. Ponham-lhe o bastão na mão e já verão como é o vilão, saltar da telescola para a youtubescola será um ápice. Este risco profissional pode ser grave, mas ainda assim não é a única ameaça. Até sugiro aos leitores, sentindo o ceticismo de alguns que leram as últimas linhas, que esqueçam por completo esta questão. O que não se pode ignorar, em contrapartida, é que o encanto das novas tecnologias não substitui a relação entre os docentes e os alunos, a atenção ao detalhe, a aprendizagem viva, a insistência e a resposta imediata, as dúvidas durante e no fim da aula, a conversa nos intervalos, as atividades extracurriculares, a forma como os estudantes se envolvem com a escola.

Se quem estuda não reconhecer a escola como o seu lugar de aprendizagem e de socialização e ficar reduzido a aulas por ecrã no canto da sua casa, o percurso da maior parte dos alunos será um desastre. Por exemplo, o ministério da educação de França calcula que, durante os dois meses de confinamento, já 5 a 8% dos alunos “descolaram”, mas o facto é que nesse país chega a 40% a percentagem dos que não entregam regularmente os trabalhos. O sistema educativo não resiste ao artificialismo da distância e pode até acentuar alguns dos seus principais defeitos, dado que a tendência vai ser multiplicar o tpc, inundar os alunos de obrigações, exigir aos pais que vigiem, tutelem e complementem a educação, ocupando obsessivamente o tempo como se isso impedisse as distrações.

Vai ser um ensino-lantejoula, uma coisa assim tipo EdTech, dizem-nos, as aulas vão passar a ser videojogos, uma maravilha, assim a modos que um Fortnite levezinho, vão multiplicar-se as aplicações e os sistemas de motivação, até de vigilância (algumas universidades discutem se podem obrigar os alunos a fazer exame com as câmaras dos computadores ligadas), criando uma feira popular de conteúdos clicáveis. Acabou a hierarquia e a autoridade, a educação passou a ser horizontalizada, dizem e repetem, e eu desconfio. Sem aulas presenciais não há ensino, insisto.

Sem escola física, que aproxima as crianças e os jovens, cada um fica fechado no lugar de onde vem e sobra a desigualdade. Sem universidades e politécnicos não há nem ensino de excelência nem investigação. Sem comunidade escolar não há obrigações nem para os professores nem para os estudantes, nem para as suas famílias.

Por isso, ao ouvir o ministro elogiar o B-learning, um estranho e mal definido cocktail de aulas virtuais e algum atendimento individual, fico ainda mais preocupado. E se, em vez de perdermos tempo com fantasias, pensássemos em soluções mais interessantes? E se fossemos pelo caminho de turmas menores, equipas de professores nos primeiros anos, horários mais curtos e mais desencontrados no secundário? Se começasse a produção de conteúdos de apoio pedagógico pelo ministério da educação, para tornar as aulas mais interessantes? Tudo menos o facilitismo deslumbrado com um mundo virtual em que há entretenimento, mas não há certamente uma educação completa. Se não queremos desistir dos estudantes, devolvamos-lhes a escola, o mais depressa que for possível.

NB- É público e notório, mas registo a declaração de interesses: sou professor e, portanto, profissionalmente envolvido na escolha sobre o tipo de ensino que vamos ter.»

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26.5.20

Eu quero falar com o meu pai



«Nos piores momentos, o meu pai, de 89 anos, ficava tão confuso que achava que estava no forte de Peniche. Eu tentava explicar-lhe que não estava preso, mas era em vão. Ele temia que quando as visitas terminassem houvesse outro interrogatório. Quando as funcionárias do lar passavam, suspeitava que a PIDE-DGS nos estivesse a escutar e eu, a chorar, garantia-lhe que não, papá, que já estás livre, porra, que fizeste o 25 de Abril.»

Leitura absolutamente obrigatória AQUI.
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Senegal e Covid-19




Graffitis para sensibilizar a população e agradecer aos cuidadores.
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Se vai à praia…



É assim, já a partir de hoje. Pode ler um resumo AQUI ou o Decreto-Lei n.º 24/2020 AQUI.
(E não se esqueça de comprar uma fita métrica!...)
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Por direitos sem intermitência na cultura



«A partir de 1 de junho será possível apanhar um avião cheio e andar num metro a dois terços da sua capacidade. Mas a cadeira que tiver reservado num teatro fará parte de um restrito número de lugares disponíveis, correspondentes a menos de um terço do total.

As regras de lotação das salas de espetáculo são apenas um dos problemas que o setor da cultura enfrenta num futuro próximo.

Em causa não está a necessidade de proteção no desconfinamento. O que se exige é, por um lado, sensatez e equilíbrio no que é pedido a estruturas de pequena dimensão e, por outro, os apoios necessários para suportar um setor tão afetado pela pandemia.

Sabemos bem o que está por debaixo das enormes dificuldades agora sentidas: para a maioria das 130 mil pessoas que trabalham na cultura, são décadas de precariedade e subfinanciamento. O Estado conta com elas para continuarem a fornecer um serviço público essencial e ninguém imagina o que seria não ter produção artística em contínuo. Mas, apesar de serem profissionais, estas pessoas raramente tiveram um contrato de trabalho, fosse de curto ou de longo prazo. O amanhã é quase sempre uma incógnita, mas a crise tornou esse amanhã demasiado prolongado para quem tem contas para pagar, casa, filhos.

É verdade que o Estado manteve o pagamento dos espetáculos que de si dependiam diretamente, mas isso não basta quando as bilheteiras estão fechadas, os concertos foram suspensos e a produção audiovisual está quase parada. No meio da pandemia, a única linha de emergência lançada, num valor de 1 milhão e 700 mil euros, foi um novo concurso, que avaliou novos projetos, e que deixou de fora milhares de pessoas. E nem às instituições que têm apoio público, como Serralves ou a Casa da Música, foi exigido que mantivessem os seus trabalhadores que, por sinal, eram falsos recibos verdes. O mesmo se passa com muitas autarquias e teatros municipais, como o Rivoli, onde assistentes de sala e técnicos de som ficaram sem salário.

Sim, sabemos que é um setor complexo, pela sua heterogeneidade, mas também pelos vícios que o subfinanciamento criou. Mas a desculpa não pode servir para sempre, e não justifica o orçamento público diminuto (em que mais de metade vem de receitas próprias), nem a precariedade que deixa milhares de pessoas fora da proteção de segurança social.

No imediato é preciso apoios para evitar que tanta gente caia na pobreza. Qualquer história de fome em Portugal deve ser motivo de vergonha, e o setor das artes já acumula bastantes. No curto prazo, está na hora de pagar uma velha dívida de respeito: dar contratos e direitos laborais a estas pessoas.»

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25.5.20

Se hoje é o Dia de África…



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Ouvido na esplanada



- Por este andar, ainda vamos ter muitos ventiladores à venda no OLX.
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José Mário Branco – Seriam 78



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Saiam da bolha



«Há cerca de dois meses o país tinha acabado de entrar em confinamento e todos nos lembramos de ouvir discursos a romantizar a pandemia e as possibilidades de aprendizagem que ela nos traria.

Era o tempo em família, a redução da nossa gigantesca pegada ambiental, o travão num modelo económico assente em consumo e lucro imediato, o nascimento de iniciativas de solidariedade capazes de vencer a solidão.

À distância, percebemos que as afirmações de que nada seria como dantes terão sido manifestamente exageradas e é bastante provável que, à semelhança do que nos mostrou a história em crises anteriores, nos esqueçamos rapidamente das lições que era suposto o universo revelar-nos em forma de minúsculo vírus. Só mesmo alguém com a gigantesca fé do Papa Francisco acreditará que este declarado "ano especial" sirva para refletir sobre sustentabilidade e meio ambiente, numa louvável iniciativa que coloca a Igreja no meio do Mundo e dos seus mais pobres.

Quase um mês depois de se iniciar o desconfinamento, no geral há dois extremos comportamentais - simplificando, claro, porque a realidade nunca se descreve em meia dúzia de palavras. Há quem continue sem contactos sociais, evitando a todo o custo lojas, praias e parques. E quem se exponha a transportes públicos, às ruas, a locais de trabalho cheios de gente.

Os indicadores já recolhidos em sucessivos estudos mostram que o isolamento é um privilégio não acessível a todos, que aumenta à medida que sobe a escolaridade e o rendimento. A pandemia acentuou desigualdades e os níveis de desemprego e pobreza vão continuar a aumentar quando se clarificar a situação de empresas hoje em lay-off que poderão a médio prazo não ser viáveis.

E quando começarem a apertar os compromissos adiados com moratórias em créditos e outros benefícios a prazo. O isolamento é uma opção legítima, mas não pode ser sinónimo de alheamento. A nova normalidade não é só a ausência de beijos e abraços. A nova normalidade é um país com mais gente desprotegida e a passar dificuldades. E esta é uma lição à qual ninguém pode fechar os olhos.»

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24.5.20

Porque os mortos têm nomes



Capa do NYT de hoje.
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Maria Velho da Costa



Foi ontem, quase ao fim do serão, que caiu a notícia que não queria ouvir. Conheci-a como Fátima Bívar bem antes de tudo o que veio a celebrizá-la, andámos por aí na noite de Lisboa, em grupos improváveis que já se foram esvaziando pelas leis da vida – e do fim da mesma. A dela acabou agora. 

Se foi sobretudo a sua colaboração nas célebres Novas Cartas Portuguesas, que escreveu a seis mãos com Isabel Barreno e Teresa Horta e que a trouxeram, com estrondo, para a ribalta da perseguição da PIDE e dos tribunais, ela é para mim, antes de mais e acima de tudo, a grande autora de Maina Mendes que li de um trago e reli nem sei quantas vezes. E tudo o que seguiu daquela que sempre foi a «minha» maior escritora portuguesa.
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Uma espiral de silêncio



«É comum dizer-se que os economistas apenas estudam Economia e nada sabem de História, Antropologia, etc. Ainda assim, têm opiniões convictas sobre tudo. Desde alterações climáticas a modelos epidemiológicos. Como economista, encarno esses defeitos. Há uma vantagem: somos frequentemente convidados para tratar de assuntos que não são da nossa área e, à custa disso, aprendemos coisas. Talvez por isso, fui há uns anos convidado para arguir uma tese de doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior.

O autor, José Carlos Alexandre, do Instituto Politécnico da Guarda, escreveu sobre a teoria da espiral de silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann, uma cientista política alemã. A tese central é simples: quem se sente em minoria tem tendência a manter-se em silêncio, deixando o espaço público entregue à opinião maioritária (reforçando a ideia de que se está mesmo em minoria, o que alimenta o silêncio, etc.). Que circunstâncias proporcionam essa espiral? Para Noelle-Neumann, o medo do isolamento é a força que a põe em marcha. O medo do isolamento é maior do que o de estar errado e é alimentado pela forma como a sociedade trata os que desafiam o consenso. Conjugado com a ameaça do isolamento e a perceção de que se está em minoria, o medo do isolamento leva ao silêncio.

Com a covid-19, criaram-se as condições para uma espiral de silêncio. Não só o assunto tem uma forte carga moral, o que leva a que, em vez de se discutir o que está certo ou errado, se discuta o bem e o mal, como a comunicação social se mostrou mais empenhada em dar conselhos do que notícias. Quantas vezes nos explicaram que éramos agentes de saúde pública e que tínhamos de proteger os outros, em especial os velhinhos? Que dizer das homilias de Rodrigo Guedes de Carvalho nos telejornais da SIC ou das “reportagens” sobre a Suécia que tantas vezes nos informaram de (inexistentes) volte-faces?

Quando Jorge Torgal, especialista em saúde pública, defendeu que as escolas permanecessem abertas e comparou a covid a uma gripe mais violenta, foi linchado no altar das redes sociais e da opinião publicada. Uma das premissas de Noelle-Neumann, a ameaça do isolamento, funcionou em pleno.

Jorge Torgal terá sido o primeiro, mas não foi o único. Fosse nas redes sociais, fosse nos jornais ou televisões, quem emitisse uma opinião ligeiramente ao lado era imediatamente vilipendiado; quem apontasse para a Suécia era imediatamente colado a Bolsonaro; quem lembrasse a destruição da economia era acusado de ser materialista e não querer saber das pessoas e das mortes. Havia quem fosse para a rua tirar fotografias às pessoas que estavam na rua para as denunciar nas redes sociais.

Eu, que, com a exceção de manter as escolas fechadas até setembro, concordei com as principais opções do Governo, senti falta das minorias. Ainda por cima, a teoria dominante estava cheia de pontas soltas. Como é que em abril ainda se falava num pico para maio quando todos os dados indicavam que o mesmo já tinha ocorrido na última semana de março? A ausência de opiniões minoritárias empobrece-nos. Sem ser desafiada, não há nenhuma garantia de que a opinião dominante seja a que tem melhores argumentos. Passa a ser uma mera materialização da tirania da maioria de Tocqueville.

Essa diversidade existe em economia. É fácil encontrar nas colunas de opinião economistas keynesianos, marxistas ou hayekianos. Entre os economistas, a diversidade é tanta que é fácil encontrar alguns que nada sabem de economia. No entanto, num assunto tão novo e sobre o qual se sabe tão pouco como a covid, era raro haver opiniões dissonantes. No mundo dos opinion makers regulares, a principal exceção terá sido José Miguel Júdice, que, obviamente, não tem nenhuma espécie de autoridade académica para opinar sobre o vírus. Já o credenciado Pedro Simas, em diversas entrevistas foi-nos suavemente sugerindo que o confinamento geral talvez não fosse a melhor forma de combater o vírus.

Na minha bolha das redes sociais, as principais vozes dissonantes foram as de Henrique Pereira dos Santos (arquiteto paisagista), Paulo Fernandes (especialista em fogos florestais), André Azevedo Alves (cientista político), Rodrigo Adão Fonseca (especialista em ciber-risco), Pedro Santa Clara (economista) e André Dias. Este tem credenciais académicas na área e, talvez por isso, foi quase acusado de ser um psicopata. Foi desafiado a escrever nos jornais e, compreensivelmente, recusou, explicando que não estava para ser linchado. O meu artigo no Expresso online de 6 de abril era uma contestação às teorias de André Dias. Não o nomeei, porque ele evitava a exposição nos jornais. Entretanto já escreveu um artigo no jornal online “ECO”.

A todas as vozes dissonantes, quer as que referi quer outras, tiro o meu chapéu. Graças a elas, a espiral de silêncio que nos envolveu não foi ainda maior.»

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23.5.20

Se a fotografia de Marcelo no supermercado correu mundo…



… esta, tirada hoje, vai chegar a Marte.
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Sete anos sem Georges Moustaki



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Se andar de avião…




… olhe sempre em frente. Brincadeiras à parte, depois da ordem da CE para que os aviões possam preencher todos os lugares a partir de Junho, foi retirada aos países a autoridade moral para decretarem medidas sensatas de distanciamento.

A DGS deu uma reposta de política e não de autoridade técnica e prestou-se ao ridículo.
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Globalização infetada



«A globalização neoliberal, tal como a conhecemos, determina que as relações sociais são definidas pelo mercado, mas não de qualquer forma. Não basta simplesmente integrar as regras do comércio, importa eliminar todos os obstáculos à livre competição de interesses no mercado. Para se sobreviver neste mundo globalizado, é preciso ser-se mais competitivo do que o vizinho, quer se trate de uma pessoa, de uma empresa ou de um país. A solidariedade social deixa de ser a norma e, se cada pessoa é vista como um "recurso", os cidadãos passam a ser consumidores ou clientes.

Raras são as vezes que vimos a globalização ser analisada a partir da perspetiva dos mais pobres ou dos mais desfavorecidos. Com efeito, a globalização globalizou as desigualdades e as regras passaram a ser definidas pelas multinacionais. O comércio quis-se cada vez mais intensificado e a circulação dos capitais mais fluida. Quantas vezes assistimos ao filme de vidas deixadas para trás pela deslocalização da produção? Quantas economias locais foram destruídas? Quantos trabalhadores foram explorados? Quantas pessoas foram abandonadas à pobreza?

Sabemos bem que a globalização não traz só problemas, mas é inevitável perceber como o desenvolvimento das sociedades a seguir à II Guerra Mundial se fez de modo que as relações económicas e sociais de matriz capitalista determinassem todas as outras relações económicas e sociais. A tese que vigorava há menos de meio ano era a de que esse caminho teria de continuar a aprofundar-se.

Os tempos mudaram radicalmente. Creio que, hoje, a maioria das pessoas já percebeu como um problema global pôs em causa os pilares do modelo de globalização que tem dominado as nossas sociedades. É certo que a denúncia dos problemas associados à globalização neoliberal não apareceram hoje. Aprendemos muito com os êxitos e com os fracassos de movimentos do passado. De Seattle 1999 aos Fóruns Sociais Mundiais, passando pelos movimentos ambientalistas, há muito que se ouve vozes por um outro mundo possível. Continuamos a percebê-lo nos movimentos de precários, nas lutas contra a uberização das sociedades ou nas fridays for future. Mas com a crise atual sentimos ainda mais na pele os limites e as exclusões da globalização capitalista. São as desigualdades e a pobreza a reforçarem-se a cada dia que passa. É o recurso aos serviços públicos e o regresso da centralidade dos Estados na resposta que vão ajudando a reduzir impactos ainda mais trágicos da pandemia.

A covid-19 infetou a globalização que já dava muitos sinais de doença. Os desafios são mais do que muitos, desde a retoma do multilateralismo ao reforço das solidariedades e da democracia, à desmercantilização das relações sociais. Sabemos bem da capacidade regeneradora do capitalismo, mas também sabemos que as pessoas só se mobilizam verdadeiramente quando são afetadas. Veremos com o tempo se, paradoxalmente, do distanciamento físico poderá nascer uma maior proximidade social.»

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22.5.20

Cantigas do Desconfinamento (10)



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Envelheceram mas é o que temos


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Charles Aznavour – seriam 96



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Guerra civil no areal



«De cada vez que o Governo apresenta aos portugueses as regras de segurança para o admirável mundo novo que aí vem, a minha vontade é a de ficar em casa para sempre. Bem vistas as coisas, talvez seja esse o objetivo das autoridades. Expelir uma tal quantidade de regras e conselhos, limitações e normas, proibições e avisos que o cidadão comum, sempre pouco dado à leitura das letras miudinhas dos contratos, avente tudo ao ar, se resigne ao take away, à Netflix e ao passeio higiénico na varanda, qual canário confinado à gaiola.

Também pode acontecer que o cidadão refratário se canse dos tratos de polé, do bom e velho paternalismo travestido de “pela-sua-saúde”, e desate a infringir todas as regras que lhe apareçam pela frente e mais algumas de que os burocratas e engenheiros da saudinha ainda não se lembraram, com projeção e pulverização de gotículas contestatárias para cima de todos aqueles, polícias ou aspirantes à função, que se interponham entre si e o gozo de um belo dia de praia sem fita métrica na alcofa, sem divisórias de acrílico e com vista desimpedida para os monumentos da toalha ao lado. Como diz o nosso primeiro-ministro, vamláver. Que ponham os espectadores de teatro a dois, três ou vinte metros de cada um é coisa que não comove o português médio que, das artes cénicas e tudo o que se passa nesses meandros, tem uma vaguíssima ideia, não sei quê do Gil Vicente e, já viu qualquer coisa na televisão, gente em pelota e a dizer palavrões. Música clássica costumava ouvir nos anúncios, Old Spice e Javisol, e Deus o livre de algum dia assistir a danças modernas, óperas ou atuações de orquestras sem adufes e cavaquinhos.

Já as restrições aos restaurantes são coisa que o desgosta porque nem só de pão vive o homem e embora se vá ao restaurante encher a barriguinha, o corrupio de empregados em equilibrismos de bandeja, o alegre cafarnaum de todos ao molho e fé em Deus, o “dê-me licencinha” e o “esta cadeira está ocupada?”, são parte inalienável do património imaterial de ir comer fora. Mas, pronto, nada que uma chispalhada bem apuradinha não resolva. Agora, o que lixa o português – e que me lixa a mim, que nestas coisas não sou nem mais nem menos português do que qualquer outro – é quando lhe começam a mexer na rica praia e ameaçam tornar a inigualável experiência de deslocar um pelotão familiar para a Fonte da Telha ao domingo de manhã num processo de controlo de fazer inveja às alfândegas chinesas.

O português conhece-se mal e parcamente, mas aos outros portugueses conhece-os de ginjeira e sabe que poucas coisas lhes dão mais prazer do que arruinar o prazer alheio. Se alguém se lembra de senhas, não há de faltar quem lhe acrescente bandeirinhas. Se as bandeirinhas não chegarem, de uma mente brilhante há de brotar a ideia dos torniquetes e dos semáforos e dos polícias e dos fuzileiros e das lanchas e das fragatas e um dia estendemos a toalha no areal de Carcavelos e damos por nós no meio do desembarque na Normandia.

Com as autoridades o português ainda sabe lidar. São séculos de amaciamento verbal, “é só desta vez, “ai não sabia”, “ainda no outro dia vim cá e não pediram nada disso”, “mas tem mesmo de ser”, de súplicas oculares enquanto se aponta para a infelicidade dos miúdos enfiados no monovolume, de cerviz dobrada que tem mais de manha do que de servilismo, e tudo se resolve com o proverbial jeitinho. Pior vai ser lidar com os compatriotas que, munidos de smartphones e do espírito de revisores da Carris, estarão atentos à mínima infração balnear: “olha aquele a menos de dois metros e meio da toalha do outro”, “olha aquela a desrespeitar a distância de segurança dentro de água”, “olha o gordo a comer uma sandes a pingar de polinsaturados”.

Os doutores estão preocupados com uma segunda vaga da Covid-19, mas tirem aos portugueses a praia que eles conhecem e pela qual anseiam, encham o areal de polícias e as arribas de delatores, e teremos uma guerra civil.»

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21.5.20

Cantigas do Desconfinamento (9)



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Como comungar? Isto não se inventa



Nenhum detalhe esquecido e reparem bem na segunda figura: máscara baixada para o queixo – tudo o que é dito que não deve ser feito, assinado pela DGS!
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Para memória passada e futura



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O que está a falhar no combate ao coronavírus? A falta da empatia popularizada



«No dia 2 de Março, que marcou o começo do surto do covid-19 em Portugal, eu, como estudante chinesa de mobilidade, estava em Lisboa e decidi ficar no país para acabar a mobilidade que duraria até ao fim de Julho. Na altura, os episódios de discriminação contra chineses registados em Portugal ainda eram raros, enquanto já estavam a aparecer atitudes preconceituosas e hostilidade contra nós noutros países. Sentia sorte por estar aqui, segura das discriminações. Mas com o tema do coronavírus a ser tudo na vida, as coisas mudaram em Portugal. Comecei a saber de mais casos de discriminação que aconteceram a amigos chineses, a ver cada vez mais comentários discriminatórios a aparecerem em sites portugueses.

Depois de ter sido chamada coronavírus numa rua em Toledo porque estava de máscara quando esta se demonizou pela maioria dos europeus e de ter sido encarada com olhar ofensivo numa rua em Lisboa por ter tossido duas vezes ao sentir comichão na garganta — episódios que não passavam de reacções ignorantes, mas aceitáveis, face ao medo pelo vírus —, há uns dias fiquei chocada ao ver o Jornal da Tarde, na RTP: numa entrevista, um menino cantou “Ai a minha vida... este coronavírus veio para Portugal, foi jogado pelos chineses. Eu mando pô-lo fora!” No fim da entrevista, a jornalista perguntou quem inventou a letra e o menino respondeu: “Nós, os ciganitos.”

A entrevista realizou-se no contexto de um projecto que procura esclarecer a situação do vírus em bairros mais pobres de Algarve. No entanto, a minha preocupação é outra: é essencial a democratização do conhecimento científico sobre o vírus, mas a campanha contra a discriminação não se deve ignorar, visto que a doença pode desaparecer, enquanto o preconceito, já enraizado, nunca se elimina facilmente.

Todas as experiências de discriminação — desde as minhas às de outros chineses que já presenciei — deixaram-me chocada pelo facto de a ideia de a China ser culpada por este vírus já ter uma divulgação tão alargada e estar tão arreigada na cabeça de meninos que talvez ainda nem saibam ler. Sinto-me feliz por aquele menino de olhar inocente se manter, sob o apoio social, a salvo do vírus. Mas triste porque foi “contagiado” sem consciência por um preconceito espalhado entre a comunidade. O menino pode não estar a perceber a conotação hostil da letra contra uma raça, mas infelizmente ninguém o corrigiu. Estou com receio que, vivendo num ambiente assim, com preconceitos como “o outro é inimigo” e com toda a gente de braços cruzados, apareçam cada vez mais pessoas com atitudes ainda mais tendenciosas e agressivas para com uma comunidade e um país.

Quando o novo coronavírus se divulga, o vírus mental representa um risco de contágio mais forte. Quando cada vez mais pessoas consideram a China culpada, há risco de se justificarem acções como o ataque de fezes contra dois alunos chineses, recentemente registado na zona de Picoas, em Lisboa, a atitude indiferente da polícia ao caso, a canção inapropriada divulgada, etc. Num mundo de incompreensões e discriminações, somos cúmplices. Neste mundo, uma propaganda enganadora, uma expressão preconceituosa, um olhar discriminatório podem ser uma bomba-relógio.

Estamos a falhar na descontaminação contra discriminações: falhou a família na educação da igualdade, falhou a RTP em transmitir ideias inapropriadas ao público e em mostrar a falta de empatia pelos chineses, falhou toda a sociedade ao não mostrar uma atitude dura na defesa de um grupo vítima de discriminação. Estamos a falhar na empatia.

Quando começou a circulação da teoria de que a China era responsável por tudo e das críticas irresponsáveis contra os chineses, estas foram rapidamente aceites por muitas pessoas, sem perceberem o que se esconde atrás da propaganda, sem duvidar da autenticidade das notícias. Ninguém culpava um país pelos vírus do HIV, da gripe H1N1 ou do MERS-Cov, que causaram à humanidade danos incompensáveis. Ninguém tentou perceber que o vírus é politizado e utilizado como ferramenta de propaganda para atacar um país, uma etnia e cultura. Ninguém quis admitir que foram os profissionais de saúde chineses, os cidadãos chineses e o Governo a, perante uma nova doença e incertezas, tacteando nas trevas, lutar na linha da frente contra o vírus.

Quando as publicidades dizem “Somos folhas da mesma árvore”, “Ficamos ligados” e “Por si e por todos”, sinto-me isolada: parece que eu, o meu país e o meu povo somos excluídos da empatia e união mundial, que os nossos esforços no combate ao vírus não merecem a atenção e defesa contra os sentimentos xenófobos.

Nós, chineses, sentimos a indignação com as críticas infundadas, discriminações e desprezo por aquilo que o Governo e o povo fizeram. Sentimos a urgência da empatia pelo facto de sermos, como qualquer um que sofre com a pandemia, vítimas. Queremos que todo o mundo saiba que os chineses estão a sofrer incompreensões e discriminações, que os tratamentos injustos para connosco devem ser levados a sério.

Somos diferentes, mas partilhamos a mesma afectividade na luta contra o coronavírus. Ter feições chinesas, falar o idioma chinês e ser chinês nunca podem ser a razão para o ataque racista. Nenhuma doença precisa de um bode expiatório. Nenhuma acção tendenciosa se escusa. Perante as doenças, somos todos vítimas. Perante as discriminações, devemos ser missionários da empatia, verdade e imparcialidade.

Dias melhores estão a avizinhar-se? Para os grupos de risco da covid-19, sim. Mas para os grupos de risco no que diz respeito à discriminação e à xenofobia, esses dias ainda estão longe. Ficamos à espera da empatia popularizada.»

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Memórias do passado pré-Covid19


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20.5.20

Cantigas do Desconfinamento (8)



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Brasil - a tragédia aumenta



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Efeitos colaterais do vírus



Não me parece nada que o vírus se desloque em linha recta. Mas lá que atinge certos neurónios, disso não duvido…
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Desconfinar o juízo à direita



«Os leitores mais jovens do PÚBLICO podem não acreditar, e de facto, olhando para 2020, ninguém diria, mas houve tempos em que a direita se esforçava por ser vista como não poeirenta. Quando cheguei aos blogues, as pessoas de direita tinham a azougada ambição de mostrar ao mundo que havia uma direita cosmopolita, que lia, viajava, escrevia, ia ao teatro e cinema, fugia a sete pés do salazarismo – juro!

A direita – entenda-se para estas linhas a parte mais à direita do PSD e tudo o resto até ao Chega –, por estes dias em que PS e Centeno lhe roubaram o único valor que permanecia (défice orçamental controlado), já não é a favor de nada. Só é contra. Furiosamente contra. Tudo o que tenha um leve aroma de posterior a 1959 é encarado com histeria e corridas para pôr os comprimidos da tensão arterial debaixo da língua.

A direita é contra as realidades perigosas que incomodam a vida à gente de manhã presa no trânsito ou nos transportes públicos, e que atrasam consultas no SNS: o marxismo cultural, o politicamente correto e a ideologia de género. São, como se sabe, as grandes causas da baixa produtividade nacional e dos baixos salários. Atormentam diariamente a vida das populações. Por isso a direita escolheu-os para as suas grandes causas. Fez muito bem. Temos de ver que são realidades abrangentes. Propor qualquer política que contrarie desigualdades e injustiças é politicamente correto. Promover a participação política de grupos tradicionalmente excluídos é politicamente correto. Já a ideologia de género, como se sabe, pretende transformar qualquer criança em gay e/ou transexual.

Falei no trânsito? A direita é contra o consenso científico das alterações climáticas. E contra facilitar a vida às populações e a mobilidade sustentável. Uma das medidas mais populares do Governo anterior – o embaratecimento dos passes sociais – desagradou à direita. (A Câmara de Cascais, do PSD, tem transportes intra concelhios gratuitos desde o início do ano. Grandes marxistas culturais.) O corajoso apoio de Assunção Cristas à primeira greve climática em frente à Assembleia da República (fotografou-se com o filho) foi vista como uma deriva esquerdista e prova (juntamente com a defesa das quotas) da desadequação para líder de direita.

A direita é contra o PREC. Já terminou há mais de quarenta anos, nem existe “geringonça”, mas os lados direitos imaginam-se resistindo de armas na mão a uma invasão comunista inexistente. Se à esquerda houve quem sempre fizesse render o peixe do Estado Novo, agora a direita que se preza não fica mais de uma semana sem referir o perigo do PREC. De resto, a direita vive em permanente estado de calamidade: é que estamos todos prestes, a minutos, de sermos engolidos pelo socialismo. No momento em que o debate internacional (presente até nos certamente marxistas The Economist ou Financial Times) anda à roda do capitalismo demasiado desregulado, gerando excessivas desigualdades, sobrepondo-se aos direitos humanos – há almas que vêem perigos no socialismo engavetado.

A minha preferida: a direita é contra o feminismo, invenção diabólica. Oh, o esforço que opinadores da direita fazem para mostrar o feminismo como o maior mal do mundo e promover o papel tradicional da mulher. Ensaios, crónicas, linhas compulsivas já foram escritas pelos ideólogos e opinadores à direita propondo dar cabo das perspetivas profissionais das mulheres para as obrigar a ir para casa produzir filhos (não, não foi Margaret Atwood em The Handmaid’s Tale), da liberdade ameaçada de uma mulher poder escolher ficar em casa tomando conta dos filhos (todos os dias existem manifestações pelas ruas contra essas escolhas – nas cabeças delirantes), de, claro, feminismo como expoente de marxismo cultural. Não são maluquinhos das redes sociais, são políticos e pessoas com acesso à comunicação social. De resto, temos três partidos claramente hostis a políticas que aumentem a representação feminina nos lugares de poder e decisão e a qualquer narrativa feminista: CDS, IL e Chega.

A direita é contra o ensino de História. Não só o episódio de Rui Tavares sobre a Exposição do Mundo Português no #EstudoEmCasa, mas também a nova disciplina de História, Culturas e Democracias para o 12.º ano. Li que era ideologia, lavagem cerebral e antipatriótica. Apesar de a disciplina conter no programa o PREC (esse mesmo), a Revolução Cultural Chinesa e os anos de Pol Pot como momentos traumáticos, ensinar História é definitivamente marxismo cultural.

Mas sou injusta. Há realidades de que a direita gosta. Gosta de negar que a extrema direita é extrema direita. O Vox (que tem elementos que protestaram pelas sentenças aos violadores do grupo La Manada vendo-as como torpedo à heterossexualidade e diktat das feministas) não é de extrema direita – asseverou Nuno Melo enquanto candidato ao Parlamento Europeu. Também há quem lave com detergente potente a imagem de André Ventura. Um candidato do PSD, cheio de vontade de perder votos, nas últimas primárias do partido admitia coligar-se com o dito. Nem refiro, por economia, a vergonha alheia que me toma quando vejo defesas, umas explícitas outras implícitas, de Trump e Bolsonaro.

Poderia continuar horas. A direita não adota estas guerras culturais sem objetivo. Está convencida de que por aqui vêm votos. Enquanto isso, a população, apesar de se entreter nas redes sociais a despejar ódio na tribo oposta, ocupa-se sobretudo com os ordenados ao fim do mês, o acesso à saúde e à educação, a mobilidade e os transportes, que planeta deixamos para os filhos, e gosta de concertos, festivais e até de teatro. Não quer que as filhas tenham as mesmas escassas oportunidades que as avós em 1950. Os mais novos têm como valores quase sagrados a preservação ambiental e questões de inclusão. As empresas desejam uma procura interna forte e estabilidade. Diria eu que os votos vão para quem dê soluções aos problemas em vez de se ocupar com diletantismos.

A estratégia de radicalizar a direita é tão bem-sucedida que anda, toda junta, por 35% das intenções de voto nas sondagens. A única pesquisa recente onde intenções de voto lhe deram mais, na globalidade, foi pelo crescimento no PSD – e Rui Rio sai destes esquemas todos. Donde, verifica-se, é uma estratégia ganhadora. A minha aposta é que a direita vá insistir nela.»

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19.5.20

Cantigas do Desconfinamento (7)



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O Ocidente face ao Coronavírus 2: arrogância e decadência


Este texto de Cristina Semblano é importante. Destaco isto, mas vale a pena lê-lo na íntegra.

«Resta saber se a estratégia do medo (…) resultará. Mas o que se sabe, para já, é que milhões de pessoas, anestesiadas, se barricaram, sem revolta aparente, oferecendo ao espectro dos poderes políticos uma experiência em tamanho natural da predisposição à submissão voluntária. Ao romper as cadeias da causalidade, e reduzidos à vida nua (Agamben) num cenário em que o medo do vírus parece ter mutado em vírus do medo, os livres cidadãos das nossas democracias liberais parecem mais predispostos do que nunca a aceitar a perpetuação dos estados de emergência e o confisco duradouro da Vida.

É que, como no-lo lembra Agamben, o que é preocupante não é tanto, ou, sobretudo, o presente, é o que virá a seguir. “Tal como as guerras que deixaram em herança à paz uma série de tecnologias nefastas, do arame farpado às centrais nucleares, também é provável que, após a urgência sanitária, os governos sejam tentados a levar a cabo experiências que ainda não tinham conseguido concretizar antes: fechar universidades e escolas, dispensar aulas através de plataformas, pôr um termo definitivo aos encontros e às discussões políticas ou culturais, limitar os intercâmbios a mensagens electrónicas e, sempre que puderem, substituírem por máquinas o contacto – o contágio – entre os seres humanos.” Será necessário acrescentar: e proceder ao seu rastreio digital, que a Europa e os Estados Unidos estão a organizar, à imagem da autoritária China?»
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