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6.6.09

Neste pedacinho do céu…













Uma volta lenta pelos blogues levou-me a um post da MC, pelo qual fiquei a saber que acaba de ser lançada em Lisboa, em pleno Chiado, uma piedosa e transcendente campanha. Objectivo: pôr os portugueses a rezar «Um Milhão de Terços Diários por Portugal».

E isto apesar de vivermos num quase perfeito paraíso: «Aqui o sol é mais luminoso e o céu mais azul e, à noite, tem também mais estrelas! As flores são mais belas e os frutos têm outro sabor. Sim, as mesmas flores e os mesmos frutos que crescem e são colhidos em muitos outros países, mas que em Portugal têm cores mais bonitas e sabores mais intensos! Ah, e o mar! O nosso mar sem fim! A hospitalidade do povo, a riqueza das tradições, a verdade das devoções… a nossa língua: O bem-haja, as saudades, o Deus lhe pague… (…) Neste pedacinho do Céu, Deus parece ter a Sua mão sobre as nossas cabeças e Nossa Senhora anda connosco ao colo…».

É, de facto, «um pedacinho do Céu», mas os proponentes coram de vergonha por muitas razões, por exemplo «perante as estatísticas dos abortos praticados, ou (…) com a eutanásia ou quaisquer outras faltas de respeito pelo carácter inviolável da vida humana». E por isso o tal projecto «nasceu da gratidão para com Deus, da devoção a Maria Santíssima, do amor a Portugal, do orgulho por São Nuno – e também da consciência de que o inimigo não dorme!»

Não entro nos detalhes das regras do «concurso», mas sublinho que, quem participar, «na formulação da intenção pode apenas dizer: “pelas intenções de Nossa Senhora”. E Ela se encarregará de levar a Deus as nossa intenções particulares». Garantidamente.

Parece a brincar? Mas não é: o tal país real passa também por aqui, por muito que isso nos custe! Com o aval da Conferência Episcopal, evidentemente.

Um milhão de terços por dia é muito! Por isso, nesta tarde de (profunda) reflexão, dou por mim a desejar que muita desta gente responda ao apelo e passe já o dia de amanhã a cumprir a promessa (ou lá o que isto é) e se esqueça mesmo de ir votar. Se o santo Nuno puder ajudar…

P.S. - Perguntam-me se isto é um «apelo» à abstenção. De todo! Mas como não é difícil adivinhar o sentido de voto destas pessoas, preferia realmente que ficassem em casa...

Contra a abstenção?

Mas será que estes vídeos convencem alguém a não ficar em casa?




Transpiram tristeza estes europeus…




Apesar de tudo, prefiro este...

4.6.09

Complicado, dr. Cavaco...




















O Pedro Vieira desenha, o João Pinto e Castro explica e pergunta e eu tento perceber - mas não é nada fácil e tudo parece cada vez menos linear...

Os silêncios do PC


Dois acontecimentos marcaram as notícias dos últimos dias sobre os países ainda «comunistas»: a designação do sucessor do grande líder na Coreia do Norte e a passagem do 20º aniversário dos acontecimentos na Praça Tiananmen.

Se o primeiro seria apenas ridículo se não fosse grave, o segundo atinge-nos ainda com a brutalidade de um dos espectáculos mais bárbaros das últimas décadas. Não é portanto de estranhar que os meios de comunicação de (quase) todo o mundo nos tragam vídeos, imagens, cronologias, notícias sobre novas proibições e velhas repressões que Pequim tem vindo a exercer.

O Avante! de hoje, 4 de Junho, não falta à chamada, nem em relação à Coreia, nem quanto a 1989 na China. À sua maneira, evidentemente – por omissão total, sem uma simples foto, um parágrafo, uma nota em pé de página. Num silêncio absolutamente sepulcral, assustador, como se o mundo fosse pouco mais do que um mar de bandeiras da CDU.

3.6.09

Não foram só maravilhas...


Como é do conhecimento geral, serão escolhidas no próximo dia 10 As Sete maravilhas de origem portuguesa» no mundo. Um numeroso grupo de historiadores, de várias nacionalidades, contestou a omissão de qualquer referência ao tráfico de escravos na informação associada aos monumentos, quando, nalguns casos, ela seria absolutamente relevante e obrigatória « para ser fiel à história e moralmente responsável».
Nesse sentido, lançaram uma Petição agora aberta ao público e que pode ser assinada aqui.

Texto da petição em português:

O concurso «As 7 maravilhas portuguesas no mundo» ignora a história da escravidão e do tráfico atlântico

Há mais ou menos vinte anos, vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o patrimônio que lhe é associado. Essa valorização se traduziu não somente na publicação de um grande número de obras historiográficas, mas também se expressou na realização de projetos como A Rota do Escravo iniciado pela UNESCO em 1994.

Apesar das dificuldades e das lutas políticas que envolveram a emergência da memória do passado escravista das nações europeias, americanas e africanas, de dez anos para cá a memória e a história do comércio atlântico passaram a fazer parte da memória pública de muitos países nos três continentes circundando o Atlântico. Em 2001, através da Lei Taubira, a França foi o primeiro país a reconhecer a escravidão e o tráfico atlântico como crimes contra a humanidade. Também na França, o 10 de Maio é doravante “dia nacional de comemoração das memórias do tráfico negreiro, da escravatura e das suas abolições”. Em 2001, em Durban na África do Sul, a Terceira Conferência da ONU contra o racismo inscreveu em suas declarações finais a escravidão como “crime contra a humanidade”. Em 1992, na Casa dos Escravos na Ilha de Gorée no Senegal, o Papa João Paulo II expressou suas desculpas pelo papel desempenhado pela Igreja Católica durante o tráfico atlântico. Bill Clinton, George W. Bush, e o próprio Presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, condenaram publicamente a participação passada de seus países no comércio atlântico de africanos escravizados. Em 2006, Michaelle Jean, governadora geral do Canadá, escolheu o Castelo de Elmina em Gana para denunciar passado escravista. Em 2007, durante as comemorações do aniversário de duzentos anos da abolição do tráfico de escravos pela Inglaterra, foi a vez do ministro Tony Blair expressar publicamente seu profundo pesar pelo papel da Grã-Bretanha no comércio de africanos escravizados.

Em pleno ano de 2009, o governo de Portugal e instituições portuguesas como a Universidade de Coimbra, escolheram um caminho oposto ao descrito acima. No primeiro semestre desse ano essas instituições apoiaram a realização de um concurso para escolher as Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo. Na lista das Sete Maravilhas a serem votadas pelo público na internet (http://www.7maravilhas.sapo.pt), constam não somente o Castelo São Jorge da Mina (Elmina), entreposto comercial fundado pelos portugueses em 1482, mas também a Cidade Velha (Ribeira Grande) na Ilha de Santiago em Cabo Verde, além de Luanda e da Ilha de Moçambique. Ao descrever esses sítios, a organização do concurso optou por omitir o uso desses lugares para o comércio de escravos. No texto descrevendo o Castelo São Jorge da Mina ou Elmina chegou-se ao cúmulo de afirmar que aquele local foi entreposto de escravos somente a partir da ocupação holandesa em 1637.

Para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses “monumentos” no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso atual. O Castelo de São Jorge da Mina ou Elmina, por exemplo, é hoje um museu que tenta retratar a história do tráfico. Trata-se de um lugar visitado por milhares de turistas de todo o mundo, entre os quais muitos representantes da diáspora africana que buscam ali prestar homenagem a seus ancestrais. O governo português, as instituições que apóiam o concurso e sua organização ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos. Seria possível desvincular a arquitetura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm no presente enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colônias européias ? Segundo as estimativas mais recentes (www.slavevoyages.org), Portugal e posteriormente sua ex-colônia, o Brasil, foram juntos responsáveis por quase a metade dos 12 milhões de cativos transportados através do Atlântico.

Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados. Convidamos todos aqueles que têm um compromisso com a pesquisa do tráfico atlântico de escravos e da escravidão a repudiar que essa história seja banalizada e apagada em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta "beleza" arquitetural de tais sítios de morte e tragédia.

Mal vai a democracia





















Ver um Provedor de Justiça cansadíssimo, se não doente, no pré-anúncio do abandono do exercício do cargo, foi triste e terrivelmente desconfortável. Aprecie-se ou não a função e quem a desempenhou, constatar que trinta e cinco anos de democracia não foram suficientes para que os deputados chegassem a um acordo que, à partida, não pareceria transcendentalmente difícil, causa perplexidade e mal-estar.

Há no entanto um possível benefício colateral desta história – a evidência do erro que é manter estas decisões nos bastidores do PS e do PSD que exibiram, uma vez mais e com uma limpidez cristalina, um nível de intransigência que os revela incapazes de qualquer hipótese de colaboração a nível de governação. A prepotência que ambos mostraram também não abona, de todo, em favor de quem governa sozinho ou de quem pretende vir a fazê-lo. Curiosamente, não vi nenhum louvor, por parte dos comentadores de serviço bem comportados, em relação à posição do Bloco que tentou contribuir para que o impasse fosse ultrapassado, na última votação da AR. Terão provavelmente identificado no acto alguma estranhíssima manobra que não fui capaz de descortinar…

Minudências a não desprezar neste período de pré-reflexão, não apenas de um, mas de três actos eleitorais.

Falências - American way



Sobre a falência da General Motors
(Via «i»)

2.6.09

Nem Twitter, nem Flickr, nem Hotmail

















A quarenta e oito horas do 20º aniversário de Tiananmen, a China bloqueou o acesso a estas três plataformas da internet.
Há algumas semanas, estiveram também inacessíveis Youtube, Blogger e Wordpress.


Noticiamos estes atentados aos mais elementares direitos à liberdade de expressão e de informação, já nem nos admiramos e pouco reagimos. Mas quando é o próprio governo chinês a estimar que há 298 milhões de chineses que recorrem actualmente à internet, talvez valha a pena sublinhar que foi hoje atingida uma população mais ou menos equivalente à soma dos habitantes dos países europeus assinalados no mapa.

Tiananmen, 1989 (1)


Na semana em que se comemora o 20º aniversário dos acontecimentos na Praça Tiananmen, um importante conjunto de informação no Nouvel Observateur.
(Para aceder aos diferentes textos e vídeos, clicar sobre os respectivos títulos ou fotografias.)



«Nestes dias que precedem o 20º aniversário da praça Tiananmen, muitos dissidentes ou foram afastados de Pequim ou estão sob estreita vigilância.»

Crise Académica 1969


No 40º aniversário do início da célebre greve aos exames, um notável conjunto de fotografias nos Caminhos da Memória.

1.6.09

As fantasmas do Avô Cantigas

Porque hoje é Dia da Criança, o Rádio Clube entrevistou há pouco o Avô Cantigas, o propriamente dito. Impossível não voltar a pensar no seu clone que vai continuar a entrar-nos pela casa dentro nos próximos dias (já poucos, muito poucos…).

Se já assinei por baixo o que Pedro Marques Lopes escreveu - «o prof. Vital Moreira fez mais pelo PSD em duas semanas que a direcção dos social-democratas num ano» -, vi ontem a cereja em cima do bolo quando ele apareceu, no Porto, acompanhado por Elisa Ferreira e Ana Gomes. Não pelo facto em si, que é conhecido, mas porque aquele trio exibe os erros de casting que o senhor engenheiro cometeu na escolha de candidatos às europeias. «São duas candidatas fantasmas de carne e osso que existem», gracejou Vital Moreira.

Mas o que é que muitos eleitores do PS, que dão importância aos nomes das pessoas (porque os há), pensarão sabendo que ambas esperam legitimamente ganhar as autárquicas e, portanto, não ficar no Parlamento Europeu? E elas? Não sentirão qualquer espécie de desconforto? Ninguém me convence que não houve uma certa leviandade nisto tudo - uma lista preparada à pressa, entre três recusas e quatro incompatibilidades.

P.S. – Vi agora que o Pedro Vieira também se lembrou do fantasminha do Avô Cantigas…

Novos pobres

«Este ano fui um pouco mais generoso na contribuição para o Banco Alimentar Contra a Fome porque me lembrei do pobre dr. Vítor Constâncio e demais administradores do Banco de Portugal, que se queixam de que já não são aumentados desde 2005. Tão precária deve ser a situação de todos eles que os seus salários (ao contrário do que sucede, por exemplo, na Reserva Federal americana) nem são tornados públicos para lhes evitar a vergonha. (...)

Por isso, mais louvável ainda é o desprendimento e apego à causa pública com que o dr. Vítor Constâncio e seus pares dolorosamente aceitaram prescindir este ano do aumento de 5% (mais 14 mil euros anuais) que chegou a ser anunciado. Deus lhes pague.»

Manuel António Pina

31.5.09

Não havia necessidade

Depois de Susan Boyle, fala-se agora do sucesso de uma chinesa de 79 anos, Wu Baiwei, numa competição denominada «Super Girl» (!!!...). Vive em Xian (nisso tem sorte...) e apareceu pela primeira vez na passada 2ª feira. Parece que canta uma canção patriótica dos anos 30, escrita depois da invasão do Norte da China pelo Japão.

Será talvez excelente para o ego de intérpretes e de muitos espectadores, mas acho um tanto deprimentes estes espectáculos de descoberta de talentos musicais mais ou menos serôdios. Mas como Wu Baiwei já está no Youtube, aqui fica - com tantos milhões de fãs, pode ser que venha a ficar célebre...



P.S. - Bem me parecia que nada disto era salutar.

MPI - Adesões

O texto fundador do «MOVIMENTO PELA IGUALDADE no acesso ao casamento civil» que hoje foi lançado em Lisboa, bem como todos os nomes da respectiva Comissão Promotora, podem ser lidos aqui.

Está já disponível a Petição Online para recolha de assinaturas adicionais.

Mostrar a verdade?


Mais uma investida antitabágica da OMS e também da Confederação portuguesa que se ocupa do assunto. O que se pretende? Imagens chocantes nos maços de tabaco para «mostrar a verdade». Será que alguém se impressiona ainda com as terríveis frases que foram colocadas há algum tempo? Alguém as lê? O mesmo se passaria certamente com as tais «imagens chocantes».

Por outro lado, até quando este dirigismo à outrance que trata no mesmo plano adultos, crianças e mentecaptos? Informar é uma coisa, tentar exercer violência para influenciar à força é uma outra bem diferente. E, para além de tudo o resto, há que contar com o efeito boomerang.
Não se importam de nos deixar viver a crise com uns cigarritos fumados em paz à porta dos restaurantes?

(Fonte)