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31.12.14

Aos que passarem por aqui



Entrem em 2015 com o pé esquerdo, a pés juntos, ou mesmo de gatas. Com o pé direito, já sabemos que não dá. 
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Lido por aí (198)

Passos Coelho versus Anthímio



«Diz o líder do PSD, com o casaco de PM, que este será o primeiro Natal desde há muitos anos em que os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte. Passos recorre à metáfora do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica e, obviamente, vamos aproveitar porque é terreno fértil para isso e dá menos trabalho.

Passos quer ser o Anthímio de Azedo, mas esquece-se que a relação dos portugueses com o falecido baseava-se na confiança. O Anthímio acertava algumas vezes. As previsões do PM estão sempre fora de prazo. Mesmo que não houvesse nuvens negras, o que vemos é um acentuado arrefecimento nas prestações sociais, com aparecimento de fome na faixa costeira ocidental, e o vento vai continuar a soprar fraco a sul de Berlim. (...)

Para terminar, e não deixar dúvidas que já estamos em plena campanha, na passada terça-feira, num almoço em Cascais, Passos Coelho, com a justificação que as campanhas se ganham cá dentro, pediu aos colegas do governo para viajarem menos. Ele lá sabe, mas logo, agora, que os aviões desaparecem, acho péssima ideia não deixar a malta do governo ir viajar. Mas percebo a ideia do Passos: podia parecer que estão a fugir (para um sítio com nuvens ainda menos negras).

Bom ano, mesmo.»

João Quadros

30.12.14

Sem nuvens negras e com confiança



Ricardo Araújo Pereira, na Visão com data de 1/1/2015:

«Se o leitor gosta de confiança, vai ter um grande 2015. Sobretudo, se aprecia especialmente aquele tipo de confiança que medra quando não há nuvens negras. Foi o que António Costa e Passos Coelho prometeram aos portugueses para o ano que agora começa: confiança e céu limpo. (...)

O primeiro-ministro promete um ano sem nuvens negras. Oferece a inexistência dessa nebulosidade. O que é fascinante é que essa inexistência não existe, isto é as nuvens negras não se dissiparam. (...)

Já António Costa, ao prometer confiança, consegue resguardar-se de eventuais acusações de incumprimento. (...) Prometer confiança é equivalente àquilo que dizemos para consolar o familiar de um defunto. "Muita força", recomendamos nós. Se a pessoa não tem força, a culpa não é nossa. Prometer um ano sem nuvens negras é dizer ao mesmo familiar , no mesmo velório: "Melhores dias virão". A diferença é que, neste velório, nós somos o familiar e, parece-me, o defunto.»

Na íntegra AQUI.
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Grécia e as ameaças de ostracismo



«Estava escrito nas estrelas e anunciado pelos oráculos de Delfos: o equilíbrio instável grego, entre uma austeridade medonha e um poder político de cristal, estava prestes a fragmentar-se.

As eleições vêm aí, entre as ameaças de ostracismo decretadas pela União Europeia e a vontade própria dos gregos. Na antiga Grécia uma "ostrakon" era um pedaço de cerâmica onde os cidadãos de Atenas escreviam o nome que queriam ver removido da política e desejavam que fosse enviado para o exílio durante 10 anos. O propósito do "ostracismo" era ser uma espécie de limpeza administrativa de uma democracia.

Nestes tempos da União Europeia onde a democracia foi substituída pela austeridade tutelada por Bruxelas, e onde o poder democrático dos cidadãos está refém da chantagem orçamental e dos empréstimos externos, o braço-de-ferro entre a Grécia e a UE, especialmente se as eleições parlamentares não "correrem bem", vai determinar também parte do futuro de Portugal. O delicado equilíbrio reinante na União Europeia e na Zona Euro vai ser posto à prova durante 2015 em sucessivas eleições. No meio de um ambiente propício ao radicalismo político. A crise grega é apenas o aperitivo para o que poderá acontecer em França, Grã-Bretanha, Espanha, Portugal ou Dinamarca.

Entre o poder dos mercados, o valor do voto dos cidadãos e a política cega da União Europeia se verá se a Europa não irá ser uma pavorosa Medusa, onde cada um dos seus cabelos não se transforma numa cobra cuspideira onde todos passarão a atacar todos. E onde o pior que poderá acontecer será Bruxelas tentar ostracizar os cidadãos de cada país humilhado e farto de falsas esperanças e de austeridade sem fim. 2015 arrisca-se a ser o ano de todas as decisões para esta Europa que criou um mercado único, mas não criou um sistema democrático europeu. Afinal a crise agora não é apenas financeira. Nunca foi. É política. Como, desde o início, sempre foi.»

Fernando Sobral

29.12.14

Natal atrasado



Nochebuena

Fernando Silva dirige el hospital de niños en Managua.

En vísperas de Navidad, se quedó trabajando hasta muy tarde. Ya estaban sonando los cohetes, y empezaban los fuegos artificiales a iluminar el cielo, cuando Fernando decidió marcharse. En su casa lo esperaban para festejar.

Hizo una última recorrida por las salas, viendo si todo queda en orden, y en eso estaba cuando sintió que unos pasos lo seguían. Unos pasos de algodón; se volvió y descubrió que uno de los enfermitos le andaba atrás. En la penumbra lo reconoció. Era un niño que estaba solo. Fernando reconoció su cara ya marcada por la muerte y esos ojos que pedían disculpas o quizá pedían permiso.

Fernando se acercó y el niño lo rozó con la mano:

– Decile a... – susurró el niño – Decile a alguien, que yo estoy aquí.

Eduardo Galeano, El libro de los abrazos

O Natal de António Costa



Com autorização expressa do autor, tio de António Costa e meu amigo de longa data, divulgo esta magnífica carta, dirigida ao jornal «i» e que recebi há pouco por mail:

Senhor Director,

Relativamente ao título de 1ª página do jornal “I” de hoje (29.12.2014), segundo o qual “António Costa passou o Natal a 30 km de Évora mas não foi ver Sócrates”, acentuando-se no subtítulo que “o certo é que, apesar de ter passado a consoada em Montemor-o-Novo, no Alentejo, nem por isso visitou o ex-primeiro ministro”, permita-me V. Exª o seguinte desabafo:

Como é costume desde que me conheço, passei a última consoada com a minha família mais próxima, do lado paterno.

Dessa família faz parte um sobrinho, filho da minha irmã, chamado António Costa, que é Secretário-Geral do PS.

Por mera coincidência, a dita consoada foi passada em casa dele.

Não duvidei, nem por um momento, que o dono da casa fosse o meu referido sobrinho: desde a aparência física, ao tom de voz, passando pelo óbvio conhecimento das pequenas histórias familiares que sempre se relembram nestas ocasiões, tudo indicava tratar-se dele.

Daí a angústia que de mim se apossou ao saber hoje, pelo distinto jornal que V. Exª dirige, que afinal o meu sobrinho tinha passado a consoada a 30 km de Évora e que, ainda por cima ,nem sequer se tinha dignado ir visitar o seu amigo Sócrates.

Compreenderá V. Exª a razão desta angústia: quem era, então, o embusteiro que se fez passar pelo meu sobrinho, enganando-me não só a mim como à mulher, aos filhos, à mãe, ao padrasto, ao irmão, à madrasta, à tia e aos primos do verdadeiro António Costa? E que, ainda por cima, foi obsequiado com presentes de Natal como se à família pertencesse?

Ele sempre há cada uma!

Não fosse haver jornais como o “I” e imagine-se só como a opinião pública andaria enganada…

Bem haja, pois, V. Exª e o seu jornal pelos altos serviços prestados à verdade e à honradez informativa.

Creia-me, com a consideração devida,
Jorge Santos
Advogado 
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Lido por aí (197)

Grécia: já está! Respect



A terceira tentativa de eleger Stavros Dimas, que terminou há pouco, falhou: só obteve 168 votos, nem mais um do que na ronda anterior. O Parlamento será dissolvido, haverá eleições legislativas já marcadas para 25 de Janeiro, e o Syriza é dado como favorito nas sondagens (em duas, publicadas no Sábado, leva vantagem de 3,3% e de 2,5% sobre a Nova Democracia.)

De nada valeram ameaças e inacreditáveis pressões de responsáveis europeus, mesmo ao mais alto nível, bem se apregoou que estas podem ser as eleições mais importantes, e mais perigosas, desde o início da crise da Zona Euro.

Os gregos são bravos. Respect. E uma ponta de inveja, também. 
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27.12.14

Lido por aí (195)

Joan Manuel Serrat, sempre polémico



Há muitos, muitos anos que Joan Manuel Serrat não sai do meu baú de cantores de eleição. E se há um ano foi objecto de especiais homenagens por ter chegado aos 70, acaba agora de ser referido, com estrondo, pela polémica que provocou ao cantar em catalão, na TVE, no último Natal, poucos minutos depois do discurso do rei.

Antiquíssima guerrilha, esta da língua em que actua: em 1968, quando começou a cantar em castelhano, foi a Catalunha que o considerou traidor... Mas, nesse ano, seleccionado para representar a Espanha no Festival Eurovisão da Canção, disse que só o faria se cantasse em catalão, proposta que não foi aceite e que esteve na origem da proibição, pelo governo, que actuasse na televisão e que as suas canções fossem transmitidas na rádio.

Pretexto para recordar algumas das suas belas canções:





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Por supuesto


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Precipício ou areias movediças?



Mais um importante texto de José Pacheco Pereira, no Público de hoje: Prefere cair por um precipício ou afundar-se em areias movediças? É longo, ficam aqui alguns excertos:

«A bancarrota de Sócrates, que existiu mesmo, with a little help from my friend Passos Coelho, foi o equivalente a deitar Portugal por uma ravina abaixo, o “ajustamento” de Passos é o equivalente a atirar Portugal para um pântano de areias movediças. Os dois são momentos complementares da mesma crise social, cultural, económica e política que assola o país desde 2008, e que é, em parte, um reflexo de uma crise europeia mais vasta. Em parte, mas não só.

Há componentes nacionais que nos caíram em má sorte, e que têm a ver com uma conjugação muito especial de incompetência, ideias erradas, superstições e dolo. No dia em que se fizer uma verdadeira história destes últimos seis anos, só colocar o que cada um dos protagonistas pensava, disse ou fez numa sequência cronológica correcta mostrará como se foram destruindo todas as oportunidades, afunilando o caminho e tentando secar com zelo todas as alternativas. O problema é que essa tarefa de criar o deserto à volta teve eficácia, porque a política da terra queimada tem efeitos destrutivos e diminui de facto as opções dos que a ela sobrevivem. (...)

Alguém pensa que este modelo atamancado em 2011-2, assente acima de tudo no “gigantesco aumento de impostos”, pode subsistir sem esses impostos? A herança de Sócrates foi um Tesouro vazio que dava para três meses, a herança de Passos Coelho é um “ajustamento” que só tem efeitos porque depende de um enorme assalto fiscal. Não existe “ajustamento” à Passos Coelho sem impostos elevadíssimos, centrados no trabalho e no consumo. Sem esses impostos tudo vem abaixo como um castelo de cartas, porque nenhuma transformação estrutural foi feita nem na economia portuguesa, nem no Estado. E as que foram feitas na sociedade, principalmente o empobrecimento selectivo da classe média, são todas inibitórias de qualquer genuíno crescimento.

O país foi gerido como o jogo de SimCity – primeiro gastou-se de mais, depois empobreceu-se de mais. Primeiro, o mayor virtual encheu a cidade de quartéis de bombeiros e esquadras da polícia, parques e circos ambulantes, com os índices de popularidade a aumentar. Depois veio a bancarrota e o novo mayor inverteu a receita, desatou a aumentar os impostos, cortou os serviços públicos. A cidade do SimCity começou a cair aos bocados, os incêndios a aumentarem, o crime alastrando, as pessoas a emigrarem. Não são duas políticas distintas, são duas faces da mesma política, uma o espelho da outra, ambas com efeitos perversos desastrosos para o país.

Pensam que houve muito mais sofisticação do que a que é preciso para “jogar” SimCity? Não, foi mesmo assim, com ideias simplistas e erradas, e toneladas de pseudo-ideologia no lugar da ignorância. Vamos pagar muito caro, estamos a pagar muito caro. Querem morrer rapidamente ou ficar muito feridos, caindo por uma ribanceira ou enterrando-se num pantanal?»
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26.12.14

Lido por aí (194)

Grécia: e se o Syriza for governo?



Entrevista a Euclid Tsakalotos, conselheiro económico do Syriza, por Jorge Nascimento Rodrigues:



(Expresso diário, 26/12/2014)
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Roménia, há 1/4 de século



No dia 26 de Dezembro de 1989, as televisões mostraram ao mundo o julgamento de Nicolae Ceauşescu e da mulher, fuzilados na véspera, depois de um tribunal militar os ter acusado de uma série de crimes, incluindo o genocídio de mais de 60 mil cidadãos.

Nunca cheguei a perceber se a RTP mostrou aos portugueses o filme do processo logo no dia 26, em directo a partir da Roménia, mas eu vivia então na Bélgica e fiquei colada ao ecrã que me trouxe a transmissão feita pela televisão Antenne 2 francesa. Há 25 anos, estava-se muito longe do hábito de assistir a este tipo de acontecimentos televisivos, que constituiu um verdadeiro choque, sem grandes possibilidades de recuo crítico imediato. Aqui está ele:



Mas as polémicas e as dúvidas sobre todo o desenrolar dos acontecimentos, e, sobretudo, sobre os métodos utilizados nos mesmos, depressa surgiram e mantêm-se até hoje. Vale a pena ouvir isto:


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Comissão Europeia «desiludida» com o governo?



«A Comissão Europeia (com o FMI e o Governo) instalou a era do vazio e do cansaço em Portugal. E agora está espantada com os resultados desastrosos. Três anos depois a CE está desiludida com a "capacidade reformista" do Governo.

Mas a sua miopia é evidente: as "reformas estruturais" assentam sempre no mesmo ponto: as reduções salariais no Estado. Depois dispara sobre o aumento residual do salário mínimo, como se isso pudesse ser o factor que não faz descer o elevado desemprego. Critica a falta de reformas na educação e na justiça. E fala, como sempre, das rendas da energia. Três anos depois a CE diz o mesmo de sempre. Como se não tivesse estado aqui e não o continue a fazer como representante dos credores. (...)

O que a CE patrocinou foi a criação de um vazio social, de uma era sem presente nem futuro. Onde só resta aos portugueses ou trabalhar barato (a "desvalorização interna") ou emigrar. E depois fala-se do envelhecimento da população, do nacionalismo radical emergente, e do desemprego que não mexe. Como política europeia estamos conversados. A CE não tem autoridade moral para criticar os dislates do Governo. Patrocinou-os, defendeu-os e continua a considerar que é desta força que a Europa poderá voltar a ser um bloco importante em termos mundiais. A sua desilusão parece lágrimas de crocodilo. O resultado da sua acção é evidente: dissolveu uma sociedade e ajudou a criar uma ainda mais fechada, com menos possibilidades de mobilidade social, mais pobre (em termos económicos, culturais e morais) e instável. Ou seja: acertou no que restava dos pilares da democracia. E depois ainda está "desiludida" com o Governo...»

Fernando Sobral

25.12.14

Dia de era bom




Dia de Natal


Hoje é o dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.


É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua
miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.


De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus
nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso
antimagnético.)


Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.


Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de
cerâmica.


Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.


A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra- louvado seja o Senhor!- o que nunca tinha pensado
comprado.


Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.


Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.


Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.


Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.


Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.


Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.


Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.



António Gedeão
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Sempre



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24.12.14

Póstumos Natais



Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in «Cancioneiro de Natal»
 

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Faz-se o que se pode


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O Natal dos Cavacos



«Chega o Natal e, com ele, chegam algumas das pragas anuais. Todos os anos, por esta altura, Cavaco vem, com cara de Páscoa, desejar um feliz Natal aos portugueses.

Desta vez, Aníbal Cavaco apelou aos portugueses para que "tenham confiança no país". Ui! Foi assim com o BES e depois foi o que se viu. Portanto, é um: fujam para as montanhas. O que nos vale é que só falta uma mensagem de Natal de Cavaco, na pior das hipóteses.

Diz o PR: "desejamos a todos os Portugueses um Feliz Natal e um Ano de 2015 com saúde e mais prosperidade", - só mais um bocadinho, sem exageros, que não queremos que o mexilhão estranhe. Cavaco quer só mais um bocadinho de prosperidade, porque ele já está bem. "Queremos que a paz esteja com os homens não só agora. Queremos que o esforço de concórdia entre os Povos seja permanente. Queremos que a solidariedade e a partilha sejam mais fortes nesta época do ano, mas que permaneçam activas ao longo do tempo." São desejos de Miss na boca do marido de Maria Cavaco. Não faz sentido.

Este ano, Maria Cavaco Silva juntou-se ao PR no discurso, o que me faz comichão porque eu nunca votei Dona Maria. Mas também nunca votei Aníbal, por isso coço-me a dobrar.

A outra praga que, felizmente, este ano não apareceu com a habitual pujança é a colecção de presépios de Maria Cavaco Silva. (...)

Havia tanta coisa mais gira e útil para coleccionar. A Imelda Marcos tinha três mil pares de sapatos, era um exagero, mas ao menos tinham utilidade. A Maria tem para cima de mil e quinhentos pastores em cerâmica, barro e azulejo, que não dão para calçar. Há mais pastores nos presépios da Maria que na Península Ibérica. E a trabalheira que deve dar quando o Aníbal quer ir brincar com as vacas? Tem que espalhar aquilo tudo pelos jardins de Belém: parece a Suíça vista de cima.»
(Realces meus)  

João Quadros

23.12.14

Em busca de um sonho




Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Hoje são emprestadas as palavras desta crónica.

O pé tocou por fim na beira do molhe, e um bafo de lume veio-lhe dele, subiu-lhe os membros, reanimou-o como um calor de ressurreição. Nesse instante sentiu que alguma coisa de duro, mão ou tenaz, o agarrava com violência pelos rins.O que quer que fosse puxou por ele com força, quase o ergueu do chão e fê-lo dar uma reviravolta. Viu diante de si um grande vulto negro, um capote de oleado reluzente de chuva, uma farda com botões de metal e uma chapa cor de prata. O agente da polícia inclinou para ele o rosto vermelho e robusto: – Stowaway, eh? – e sacudiu-o com energia, como se o quisesse despertar do torpor. – Passageiro clandestino? – repetiu, e riu-se. – You speak English? Com aquela mão brutal não se brincava, e ele respondeu: – Eu não espique inglish, eu não espique! O agente largou uma risada de gozo e tornou a sacudi-lo:– No eespeek! No eespeek! e apertou-lhe os ombros com mais força, a tactear-lhe os ossos, talvez a ensaiar esmagar-lhos pelo simples prazer de exercer forças naquela fragilidade. Depois, de repente, obrigou-o a dar meia volta, de cara à terra, apoiou-lhe a mão enorme e espalmada nas costas, e empurrou-o: – Now run! Não precisou de entender, e correu: correu sem saber aonde ia, nem se o guarda lhe ia dar um tiro pelas costas, como a um ladrão das docas que desobedece à ordem de Alto!, ou se realmente o mandava embora, livre, sem o prender nem o forçar a regressar a bordo. Foi quando a voz do polícia lhe atirou à distância, pela rectaguarda:– Hey! Merry Christmas!...O clandestino estacou, compreendendo vagamente, e só nesse instante se lembrou que era Noite de Natal. Então com a garganta apertada, a rir e a chorar, transpôs umas calhas ferroviárias, pulou uma vedação de rede de arame, e deitou a correr em campo aberto, nas trevas.

São excertos de um conto de José Rodrigues Miguéis, inspirado na saga dos emigrantes clandestinos portugueses que buscavam o sonho norte-americano. Hoje, outros clandestinos buscam o sonho europeu e morrem na travessia do mar que nos une e nos separa. Segundo a ONU, mais de três mil e quatrocentos morreram este ano. Recordo-os aqui, em vésperas de Natal, porque cada um deles podia ser um de nós – e a sua morte nos devia ser insuportável.


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Nem os astrólogos acertam



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«Há apenas um grupo de pessoas que pode aconselhar o povo português e ajudá-lo a compreender o modo como o seu comportamento vai condicionar o futuro. Essas pessoas são, evidentemente, os astrólogos. (...)

Esses profissionais prestaram um serviço terrível ao país. (...) Nenhum astrólogo acrescentou: "Ah, é verdade, e um ex-primeiro-ministro vai passar o Natal na cadeia. E Saturno está aqui a dizer-me que o maior banco privado português vai à falência.". (...) Mais um ano destes e deixo de acreditar no que Vénus diz.»

Na íntegra AQUI.

Lido por aí (193)


@João Abel Manta

* A famosa protuberância na estátua do nosso ídolo (Francisco Louçã)

* O Natal dispensável (I) (António Bagão Félix)

* A requisição civil (Luís Menezes Leitão)
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Arquitectos ou sonâmbulos?



De um interessante texto de Regina Salvador, no Público de hoje:

«O corrente ano que agora termina marcou o centenário do início da I Guerra Mundial e o bicentenário da realização do Congresso de Viena, dois acontecimentos que marcaram profundamente a história europeia. Enquanto em 1814, no final das guerras napoleónicas, as potências europeias foram arquitectas de um novo sistema internacional, os leaders de 1914 são descritos por Christopher Clark, num dos livros de referência deste ano (The Sleepwalkers, Ed. Harper Perennial), como “sonâmbulos”.

O Congresso de Viena estabeleceu um “equilíbrio de poder” entre as potências europeias que, com apenas algumas excepções, se manteria eficaz durante cerca de um século. Inspiraria mais tarde a criação da Liga das Nações (1919) e das Nações Unidas (1945). Este longo período de paz culminaria na Belle Époque, um período áureo para as artes, letras e ciências europeias.

A Primeira Guerra Mundial – que redundou em pavorosos banhos de sangue como em Somme, Verdun ou Gallipoli – resultou do choque de um conjunto de facções nacionalistas e étnicas europeias que, não querendo genuinamente a guerra, caminharam cegamente para ela. E, como é sabido, a Guerra de 1939-45 decorreu directamente dos problemas não resolvidos em 1914-18. (...)

Outro best-seller de 2014 – O Capital do Século XXI, de Thomas Piketty (já traduzido para português pela Bertrand) – demonstra, através de uma minuciosa análise estatística para a Europa e os Estados Unidos, que estaremos no início de um período longo, em que os rendimentos de capital sistematicamente irão ultrapassar as taxas de crescimento económico. Um mecanismo de desequilíbrios sociais crescentes estará assim posto em acção. É o renascimento do “capitalismo patrimonial” onde, segundo Paul Krugman, o nascimento se torna mais importante do que o esforço ou o talento. (...)

São necessárias novas propostas que consigam restaurar a normalidade e que criem instituições e mecanismos que se adaptem às necessidades do mundo de hoje.

Serão os actuais leaders mundiais arquitectos ou sonâmbulos?»
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22.12.14

Natal segundo Banksy



«O artista britânico Banksy dá o seu toque à data religiosa, lembrando que Cristo não poderia ter nascido no estábulo na cidade palestina nos dias atuais. José e Maria, assim como milhares de palestinos residentes de Nazaré (nome actual de Galileia), não poderiam sair de sua cidade e caminhar até Belém, na Cisjordânia, que está, totalmente, cercada pelo muro construído por Israel.»

(Daqui.)

Velhos tempos



O Natal do Sinaleiro...
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Lido por aí (192)

Estamos melhor?



«Quando se candidatou, em 1980, a presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan começou por perguntar aos americanos se eles estavam piores do que em 1976.

Os eleitores não hesitaram, depois de porem as mãos nos bolsos. Os amendoins saborosos prometidos por Jimmy Carter tinham minguado e, por isso, votaram em Reagan. No próximo ano será essa a questão fulcral que deverá decidir as eleições.

Sentem-se os portugueses melhores ou piores desde a chegada da troika, da política de austeridade, dos impostos frenéticos e da destruição do contrato social que garantia alguma segurança na sociedade? Cada um terá a sua resposta. (...)

A chamada "desvalorização interna" não se ficou pelos custos do trabalho. Transformou a sociedade num pântano com menos oportunidades, mais pobre, com menos mobilidade social. Nenhum Pai Natal nem nenhum mágico consegue modificar este sentimento de que Portugal regrediu para um mundo que julgávamos perdido, entre as décadas de 1950 e 1960, antes da democratização do ensino, da saúde, da cultura. Onde só o nome contava. Onde só os conhecimentos pessoais importam. Onde a fronteira do dinheiro é uma nova cortina de ferro. O país mudou? Claramente. Mas está mais pobre. E sobretudo mais frustrado, mais intransigente, mais mesquinho. Ronald Reagan tinha razão. Temos de perguntar: estamos melhor ou pior do que em 2011?»

Fernando Sobral

21.12.14

Googolplex




(Via Pacheco Pereira, no «Ponto Contraponto» de hoje, na SIC N – sem dúvida, um dos melhores programas que por aí andam e que nunca perco.) 
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Uma data para festejar Carlos do Carmo



...não por ter ganho este ano um Grammy, mas porque faz hoje 75 anos.

Duas clássicas:






E esta (terrível!) maravilha:


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Lido por aí (191)

Tea party em S. Bento



«Finalmente, Passos desatou a língua e começou a proclamar, sem eufemismos, o seu programa. Não aquele programa social-democrata escrutinado nas eleições, mas sim o programa fundado nas suas crenças pessoais, jamais escrutinado pelo seu próprio partido e muito menos pelo povo português. Fá-lo com uma euforia inaudita, qual cabo de guerra já derrotado e acossado no seu Bunker que, de súbito, lesse nos astros um sinal da divina Providência. Cercado dos escombros e ruínas da “destruição criativa”, partilha agora connosco, diariamente, em voz alta, o sonho duma radiosa vitória final: a promessa duma revolução milenar, que trará a redenção a Portugal, à Europa e a toda a humanidade. (...)

Com a privatização integral das funções do Estado, o governo, o parlamento e os demais órgãos de soberania tornar-se-ão supérfluos. Serão substituídos por uma ou mais empresas de multisserviços, que desempenharão eficientemente as tarefas requeridas, pagas caso a caso pelos indivíduos que delas careçam. Cada um por si. Nunca mais haverá “todos a pagar para o benefício de alguns...” (...)

Uma tal cruzada surpreende pela sua retórica extremista, pois rompe necessariamente com ambas as bandeiras da sua família política – não só a “social”, mas também a “democrata”. Não esqueçamos a matriz fascista do primeiro “laboratório” do neoliberalismo (o Chile de Pinochet), onde o Estado instaurou uma ditadura terrorista para impor a privatização integral da economia.

Tão levianamente radical como o discurso de Passos, nos dias de hoje, só mesmo o do tea party nos EUA. Este ainda não chegou à Casa Branca, mas já se instalou em S. Bento.»

Mário Vieira de Carvalho
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20.12.14

Isto foi feito por hackers, certo?




Atacaram os sistemas informáticos do Palácio de Belém e gravaram isto com duas figuras roubadas num Museu de Cera. Não havia necessidade... 
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Bem me parecia que 20 de Dezembro me recordava algo



«Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco!» – dizia-se em Espanha, em 20 de Dezembro de 1973.

Mais tarde, em Setembro de 1975, quando se deu em Lisboa a ataque à Embaixada de Espanha, foi em português que a frase foi gritada.



Nuestros hermanos nunca brincaram em serviço.
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Entretanto, em Cuba


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Para onde foram os nossos anéis



“Vão-se os anéis, ficam os dedos.” Este provérbio é muitas vezes usado na defesa das privatizações de empresas públicas pelos sucessivos governos, desde que elas foram permitidas pela revisão constitucional de 1989 e se transformaram no expediente recorrente para equilibrar as contas do Estado, sempre sob a justificação ideológica de que a sua propriedade e gestão não competem aos Estado, mas aos privados. (...)

A questão que se coloca é a de saber qual o expediente que os governos vão encontrar para gerir as finanças do Estado quando se acabarem os “anéis” para vender – ou seja, quando o Estado não tiver mais empresas para serem privatizadas. O que vai então ser alienado para a esfera da gestão privada? Os serviços públicos do Estado social? As funções de soberania? As estruturas que asseguram a segurança interna? (...)

Quem olha para os “anéis” que os sucessivos governos portugueses têm vendido nos últimos 25 anos, e vê a quem eles pertencem hoje, verifica a forte presença de grupos empresariais com origem em países não democráticos. Uma presença cujo peso não se constata hoje apenas nas empresas privatizadas ou em sectores estratégicos, se bem que essa presença tenha crescido exponencialmente sob a gestão política do Governo de Pedro Passos Coelho. Assim vejamos. Os angolanos detêm participações no BPI, no BIC, no BCP, na Galp, na Soares da Costa, na Coba, na Viauto, na Nos, na Tobis e na Controlinveste. Os chineses possuem participações na EDP, na REN, no BESI, na Fidelidade e na Espírito Santo Saúde.

Há ainda uma outra perspectiva de reflexão sobre este tema que se prende com o facto de entre aqueles que adquirem firmas nas privatizações portuguesas haver um forte peso de grupos empresariais com origem em países que em outras épocas estiveram, em parte ou no seu todo, integrados no que foi o império colonial português – nomeadamente, Angola, que foi colónia portuguesa até 1975, e a China, onde os portugueses possuíram feitorias, tendo administrado Macau até 2000. Esta perspectiva foi mesmo abordada pelo jornal espanhol El Confidencial na peça “Portugal, la nueva colonia de Angola”.

É certo que esta situação se impõe pela livre concorrência mercantil que impera hoje no mundo dos negócios vivido à escala da globalização. Mas a sua constatação, que surge como uma ironia do destino, pode ser olhada, do ponto de vista simbólico, como uma metáfora do império às avessas.» (Os realces são meus.)

São José Almeida

19.12.14

O'Neill faria hoje 90 anos



Custa um pouco imaginar que Alexandre O'Neill podia fazer hoje 90 anos, porque a sua imagem parou para nós quando tinha pouco mais de 60. Mas é um facto.

Bem gostaria de o ouvir sobre os tempos que agora passam, de o ver olhar este país, de perceber se as três sílabas de Portugal ainda são de plástico ou se já foram recicladas. É verdade que ainda «há mar e mar, há ir e voltar» – e ar e ar, com ou sem voar. Em todo o caso, uma coisa é certa: o país continua engravatado todo o ano e a assoar-se à gravata por engano. 


O País Relativo

País por conhecer, por escrever, por ler...

País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
- Não, não é para mim este país!
Mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

Entrincheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

País do cibinho mastigado
devagarinho.

País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de alegria.

Moroso país da surda cólera,
do repente que se quer feliz.

Já sabemos, país, que és um homenzinho...

País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.

A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.

País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto de nuvens ideia!

Corre, boleada, pelo azul,
a frota de nuvens pelo país.

País desconfiado a reolhar por cima
dum ombro que, com razão, duvida.

Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania
sem perder tempo nem caligrafia.

Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!

A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.

Que Santa Suplicanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!

País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.

Da ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...

Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.

Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!

Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!

Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...

No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.

Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste pra mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!"

Alexandre O'Neill, Feira Cabisbaixa, 1965