23.12.14

Arquitectos ou sonâmbulos?



De um interessante texto de Regina Salvador, no Público de hoje:

«O corrente ano que agora termina marcou o centenário do início da I Guerra Mundial e o bicentenário da realização do Congresso de Viena, dois acontecimentos que marcaram profundamente a história europeia. Enquanto em 1814, no final das guerras napoleónicas, as potências europeias foram arquitectas de um novo sistema internacional, os leaders de 1914 são descritos por Christopher Clark, num dos livros de referência deste ano (The Sleepwalkers, Ed. Harper Perennial), como “sonâmbulos”.

O Congresso de Viena estabeleceu um “equilíbrio de poder” entre as potências europeias que, com apenas algumas excepções, se manteria eficaz durante cerca de um século. Inspiraria mais tarde a criação da Liga das Nações (1919) e das Nações Unidas (1945). Este longo período de paz culminaria na Belle Époque, um período áureo para as artes, letras e ciências europeias.

A Primeira Guerra Mundial – que redundou em pavorosos banhos de sangue como em Somme, Verdun ou Gallipoli – resultou do choque de um conjunto de facções nacionalistas e étnicas europeias que, não querendo genuinamente a guerra, caminharam cegamente para ela. E, como é sabido, a Guerra de 1939-45 decorreu directamente dos problemas não resolvidos em 1914-18. (...)

Outro best-seller de 2014 – O Capital do Século XXI, de Thomas Piketty (já traduzido para português pela Bertrand) – demonstra, através de uma minuciosa análise estatística para a Europa e os Estados Unidos, que estaremos no início de um período longo, em que os rendimentos de capital sistematicamente irão ultrapassar as taxas de crescimento económico. Um mecanismo de desequilíbrios sociais crescentes estará assim posto em acção. É o renascimento do “capitalismo patrimonial” onde, segundo Paul Krugman, o nascimento se torna mais importante do que o esforço ou o talento. (...)

São necessárias novas propostas que consigam restaurar a normalidade e que criem instituições e mecanismos que se adaptem às necessidades do mundo de hoje.

Serão os actuais leaders mundiais arquitectos ou sonâmbulos?»
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