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8.2.14

Amparo Ochoa?



Amparo Ochoa não será um nome muito conhecido entre nós, mas foi uma grande representante mexicana no movimento «Nueva Canción» que, na década de 60, marcou a América Latina pelo seu forte compromisso social. E morreu exactamente há 20 anos, em 8 de Fevereiro de 1994 – muito nova, com apenas 47 anos.








Jugar a la Vida

(E obrigada à Diana Andringa que me fez descobrir Amparo Ochoa, não agora mas já há alguns anos, quando andávamos ambas por uma outra paragem.)
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Governos de unidade patriótica?



Abro o i online e leio que António Arnaut afirma: «O PS deve negociar com todas as forças políticas à sua direita e à sua esquerda. Eu preferia um governo de uma coligação ampla, que tivesse no seu seio elementos do PCP, do Bloco de Esquerda e eventualmente também do PSD».

Chego ao Público e encontro uma longo artigo de José Pacheco Pereira – «O confronto de (talvez?) 2015» – , no qual, depois de afirmar que vê «muito pouca utilidade nessa distinção [esquerda / direita] para analisar o que se passa nos dias de hoje, quer no mundo, quer em Portugal. E muito menos para agir.», o autor opta pelo binómio «a favor ou contra o governo»: «Um programa máximo de unidade contra o actual poder, só é eficaz se for combinado com um programa mínimo quanto aos problemas de soberania, pertença à Europa, euro, economia e contratos sociais garantidos, que reponham a esperança no presente.»

Se entendo a urgência de apear o actual governo o mais depressa possível, não me parece que estas louváveis aproximações sejam um instrumento útil para fazer sair o país do marasmo em que se encontra, nem sequer a curto prazo. E não estou com isto a defender utopias ideológicas e amanhãs que cantam (embora houvesse muito a dizer sobre o apagar de fronteiras entre esquerda e direita), mas apenas a chamar a atenção para o que me parece ser uma questão fulcral: Portugal não vai sair do imbróglio em que se meteu, e em que depois o atolaram, sem encarar a questão da dívida e da sua renegociação, com reestruturação, de um modo totalmente diferente daquele que os partidos do chamado «arco da governação – PSD, CDS e PS – têm adoptado até agora. E não creio que a troca de Passos Coelho por Rui Rio e / ou de Seguro por António Costa (opções claramente desejadas por JPP) viessem alterar significativamente este posicionamento. Estarei enganada? Não creio, infelizmente.

Um indispensável processo de renegociação da dívida pode nada resolver se for seguido o modelo da Grécia, mas uma coisa é certa: a dívida pública portuguesa não pode, nem deve, ser paga a todo o custo. Mais: não vai sê-lo.

Os «desejos» de Arnaut e Pacheco Pereira têm isto em conta? Não me parece. Defender plataformas governamentais salvíficas com pés de barro pode não significar mais do que empurrar o problema com a barriga para a frente, como está na moda dizer-se. E é bom não esquecer que o desespero nunca foi bom conselheiro na procura de soluções adequadas e eficazes.
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Em dois minutos




Gostava era de ver dois minutos com o que se vai seguir.
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Praxes, bolsas – Integração democrática


Texto de Sandra Monteiro em Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa) de Fevereiro de 2014:

A liberdade, a democracia e a igualdade são também uma prática. Quando se criam estruturas cujo funcionamento não foi sequer pensado como forma de atingir práticas livres, democráticas e igualitárias, no seu lugar não se instala um vazio. Surgem práticas de sentido contrário. Como não haveria de ser assim se, mesmo governando para o bem comum, não há memória de uma sociedade ter resolvido todos os problemas ligados à formação da escolha por sujeitos livres, ao equilíbrio entre horizontalidade e representação democrática, à eliminação das desigualdades geográficas, de classe ou de género?

O problema, hoje, com a neoliberalização acelerada pelas políticas de austeridade, é que a sociedade está a funcionar contra a democracia, a liberdade e a igualdade. Isso nota-se em tudo, do favorecimento do capital financeiro ao esmagamento das condições de vida de trabalhadores e pensionistas, da ocupação do público pelo mercado ao desprezo pela cultura. Como podíamos semear tanto vento, durante tanto tempo, sem colher agora tempestades?

Dois dos problemas que recentemente saltaram para o debate público, relacionados com as praxes universitárias e as bolsas de investigação científica, são, cada um a seu modo, sintomas de uma doença que se instalou nos estabelecimentos de ensino superior e na sociedade. A integração dos estudantes na vida académica e a dos investigadores no mundo do trabalho tem tido evoluções há muito preocupantes; estamos na fase aguda da doença. Há que identificar os seus sintomas, mas não é realista pensar que eles desaparecem sem olhar para as suas causas, multifactoriais e sistémicas.

Comecemos pela questão das bolsas de investigação científica, que retomamos nesta edição com o artigo de Ana Estevens e Sónia Pereira («“Salgam o chão e aguardam que nada floresça”: É este o futuro da investigação e da ciência em Portugal?»). Os resultados do mais recente programa de bolsas da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) privaram de financiamento mais de mil investigadores que dele dependiam para prosseguir trabalhos de reconhecida qualidade. Na origem destes cortes, para lá de processos menos rigorosos que urge averiguar, está um imenso desinvestimento público na investigação e na ciência em Portugal, com os poderes públicos a quererem investir apenas nos segmentos orientados para o mercado e as empresas privadas. Desta lógica privatística ficam de fora as áreas do conhecimento não vocacionadas, ou não exclusivamente vocacionadas, para prosperar na esfera puramente mercantil, essa utopia neoliberal.

Continuar a ler AQUI.
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7.2.14

Há 39 anos, um 7 de Fevereiro bem diferente



Portugal estava activíssimo no início de 1975. O desemprego aumentava, a discussão sobre a unicidade sindical tinha atravessado todo o mês de Janeiro, as forças de extrema-esquerda tinham já tido tempo para consolidarem as suas organizações e crescia a número de casas e de terras ocupadas. Cereja em cima do bolo, uma esquadra naval da NATO entrou no Tejo em 2 de Fevereiro, o que levou os delegados dos trabalhadores da Inter-Comissões de Empresas da Cintura Industrial de Lisboa a convocarem uma marcha de protesto para 7 de Fevereiro.

Apesar de proibida pelo Governo Provisório de PPD, PS e PCP e pelo Governo Civil, o apelo à manifestação, contra o desemprego e contra a presença da NATO, recebeu o apoio de inúmeras organizações partidárias e comissões de trabalhadores e a condenação do PCP, do PS e da Intersindical.

Mas realizou-se, partiu do Terreiro do Paço e, no Marquês de Pombal, foi travada por uma força de intervenção dos comandos, equipada com carros de combate e metralhadoras, para impedir que os manifestantes acedessem à Avenida do Duque de Loulé, onde então ficava a embaixada dos Estados Unidos. Quando se anunciava uma confrontação violenta, um major do COPCON mandou afastar os chaimites e abrir caminho.

Seguiu-se depois para o Ministério do Trabalho, na Praça de Londres, onde havia uma nova barragem de militares. Mas estes puseram as armas em posição de descanso e aderiram à manifestação de punho erguido enquanto gritavam: «Soldados e marinheiros também são explorados!» e «Viva a classe operária!». Teve então lugar um acalorado comício e passava da meia-noite quando tudo terminou, cinco horas depois de ter começado, naquilo que foi considerado «um poderoso grito de revolta contra o desemprego, o capitalismo e o imperialismo».

Fonte e mais detalhes.

Notícia aqui e aqui.
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Isto só visto, inventado ninguém acreditaria




Como alguém já sugeriu, só deviam sortear carros para quem tivesse dívidas ao fisco! Era fácil, era barato e dava ainda mais milhões!
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Revelações importantes


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Mudança de pele



«Las crisis del capitalismo son como el cambio de piel de una serpiente. Cuando el animal ha crecido, la vieja piel que estorba debe ser abandonada. En los ofidios, la capa córnea de la epidermis es abandonada como un manto viejo que conserva la forma de su último ocupante. Pero la operación es regulada por cambios hormonales endógenos. La vieja camisa queda atrás como vestigio de una etapa de crecimiento mientras, emerge un animal revestido de una nueva y más eficaz envoltura.

El capital tiene una gran capacidad de adaptación que le permite abandonar las obsoletas estructuras epidérmicas cuando ya no le son funcionales. (...)

La destrucción del estado de bienestar es la muda de piel que desemboca en el neoliberalismo. El proceso es complejo y ha sido distinto en cada país y ha estado marcado por las características de su historia. (...)

El cambio de piel le permite a la serpiente sobrevivir y crecer. Es igual con el capital. Pero ¿qué clase de criatura emerge de esta muda de piel? Por el momento parece ser que el capital financiero seguirá marcando el derrotero de la política económica. Sus prioridades han moldeado la respuesta a la crisis. Por un lado la austeridad y la consolidación fiscal profundizaron la recesión y el desempleo. Por el otro, la llamada flexibilidad monetaria sólo ha beneficiado a los bancos, al impedir que se desplome el sistema de pagos con dinero emitido por los bancos.»

Alejandro Nadal, ATTAC Espanha
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6.2.14

E para continuar...



... com Serge Reggiani e com Jacques Prévert.



Pater noster

Notre Père qui êtes aux cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terrre
Qui est quelquefois si jolie
Avec ses mystères de New York
Et puis ses mystères de Paris
Qui valent bien celui de la Trinité
Avec son petit canal de l'Ourcq
Sa grande muraille de Chine
Sa rivière de Morlaix
Ses bêtises de Cambrai
Avec son Océan Pacifique
Et ses deux bassins aux Tuilleries
Avec ses bons enfants et ses mauvais sujets
Avec toutes les merveilles du monde
Qui sont là
Simplement sur la terre
Offertes à tout le monde
Éparpillées
Émerveillées elles-même d'être de telles merveilles
Et qui n'osent se l'avouer
Comme une jolie fille nue qui n'ose se montrer
Avec les épouvantables malheurs du monde
Qui sont légion
Avec leurs légionnaires
Aves leur tortionnaires
Avec les maîtres de ce monde
Les maîtres avec leurs prêtres leurs traîtres et leurs reîtres
Avec les saisons
Avec les années
Avec les jolies filles et avec les vieux cons
Avec la paille de la misère pourrissant dans l'acier des canons.
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Ricardo Araújo Pereira e as esquerdas desunidas



Ricardo Araújo Pereira sobre a (des)união das esquerdas, mas hoje com uma ligeira crítica minha: RAP sublinha que o 1% que separa PCP e Bloco, nas posições tidas no Parlamento, parece valer mais do que os outros 99% – ele que foi um dos 65 promotores do Manifesto 3D que, à procura de «convergência» das esquerdas, por decisão própria, nem contactou o maior dos dois partidos referidos. Mas o texto da Visão é bom, como sempre.

«Temos de ser honestos e reconhecer que o único partido que tentou movimentar-se a sério para fazer cair o Governo foi o CDS.»

Na íntegra AQUI.
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Humor mais do que negro

Esta cagarra é esquisita



(Título roubado à Mariana Avelãs no Facebook)
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Revolução conservadora – o regresso



«Revogação do direito à interrupção voluntária da gravidez por livre decisão da mulher em Espanha. Novas manifestações em França contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. Legislação homofóbica na Rússia e na Hungria. Em Portugal, tentativa de levar a referendo o direito à coadoção por casais do mesmo sexo. Avanço das direitas religiosas nas Américas, apostadas em reverter legislação favorável ao direito de a mulher decidir sobre o seu corpo e a impedir quaisquer novas mudanças na conceção legal de família.

Que fantasma é este que percorre sociedades em que se vive um profundo mal-estar social, quer quando provocado pela desigual distribuição de nova riqueza, ou pelo agravamento brutal da miséria nas economias, como a nossa, sujeitas a formas renovadas de abuso e exploração? (...)

Identidade em vez de liberdade, invenção da tradição em vez de discussão racional dos problemas, moral em vez de política. No centenário da I Guerra Mundial e da inauguração da era do massacre, estamos a regressar à revolução conservadora que se começou a preparar nos anos que a precederam. Retoma-se o discurso rançoso de um sentido eterno da vida que se diz resultar da natureza, movido pela mesma rejeição do racionalismo que tomou conta dos antidemocratas de há cem anos. (...) Estes reacionários de todas as cores (...) são os mesmos que há cem anos se lançaram contra a emancipação dos judeus e das minorias religiosas e étnicas, abrindo caminho direto para o fascismo e a perseguição racista.»

Manuel Loff
(O link pode funcionar ou não.)
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Miró?


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5.2.14

Em tempo de chuva e nuvens negras




Yves Montand


Serge Reggiani


Ler Frères Jacques

Barbara

Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là
Et tu marchais souriante
Épanouie ravie ruisselante
Sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t'ai croisée rue de Siam
Tu souriais
Et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi
Rappelle-toi quand même ce jour-là
N'oublie pas
Un homme sous un porche s'abritait
Et il a crié ton nom
Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t'es jetée dans ses bras
Rappelle-toi cela Barbara
Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas Rappelle-toi Barbara
N'oublie pas
Cette pluie sage et heureuse
Sur ton visage heureux
Sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l'arsenal
Sur le bateau d'Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu'es-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer
De feu d'acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras
Amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Comme il pleuvait avant
Mais ce n'est plus pareil et tout est abimé
C'est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n'est même plus l'orage
De fer d'acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l'eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien.

Jacques Prévert 
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Imprevistos


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Mais Jotas



Maçons criam ordem para jovens.

Só cá faltavam estes!
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Fevereiro, antes de Abril



Crónica de Diana Andringa, na Antena 1, em 4/2/2014:

Há cinquenta e três anos, na madrugada do dia 4 de Fevereiro de 1961, munidos de pouco mais do que catanas, grupos de nacionalistas angolanos atacaram em Luanda a casa de reclusão militar, a cadeia civil do bairro de São Paulo, a cadeia da 7ª esquadra da companhia móvel da Polícia de Segurança Pública, a Emissora Oficial de Angola e o edifício dos CTT. A operação visava a libertação dos presos políticos, nomeadamente os do chamado Processo dos 50, e foi reivindicada pelos dirigentes do MPLA no exterior, mas ainda hoje subsistem discussões sobre qual a organização que a promoveu.

Eventualmente precipitada pelas notícias de que o paquete Santa Maria, tomado pelo Directório Ibérico de Libertação e rebaptizado de Santa Liberdade, poderia rumar a Angola, a acção decorria de um sentimento nacionalista que a independência do vizinho Congo belga e a repressão sobre os trabalhadores da Cotonang, no massacre da Baixa do Cassange, acicataram. A escolha da data como marco inicial da luta de libertação é ainda motivo de debate em Angola, mas bastará olhar para os jornais portugueses da época para ver a sua importância em termos do regime português.

No ano em que se comemoram o quadragésimo aniversário do 25 de Abril, com o seu D de descolonizar, lembro o 4 de Fevereiro como princípio do fim do regime de Salazar e Caetano. Com uma história muito pessoal: presa pela PIDE a 27 de Janeiro de 1970, tive, nesse 4 de Fevereiro – dia de aniversário da minha irmã – visita da família. Pedi que me trouxessem uma toalha de rosto vermelha. Suponho que nenhum familiar se interrogou sobre o porquê da insistência na cor. Quando, acabada a visita, de volta a Caxias, me entregaram os pertences, corri para a janela, hasteei, nas grades, a toalha vermelha e acreditei, apesar do isolamento, apesar do medo, que havíamos de vencer.

Percebam, portanto, que abra as comemorações do 25 de Abril com a memória do 4 de Fevereiro.


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4.2.14

Relvas ainda acaba por merecer equivalência a doutoramento

Há datas assim



Se todos os dias do ano estão associados a nascimentos de pessoas que, por diferentes razões, marcaram os nossos percursos, 4 de Fevereiro é um deles. Nesta data, vieram ao mundo Rosa Parks, Jacques Prévert, Fernand Léger e, dentro de muros, Almeida Garrett, Henrique Galvão e... Alberto João Jardim.

Escolho Rosa Parks. Nasceu em 4 de Fevereiro de 1913 e morreu em 2005. Ficará para sempre como um dos símbolos do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, juntamente com Martin Luther King, e ficou famosa por ter recusado ceder o seu lugar no autocarro a um branco, no dia 1 de Dezembro de 1955. Foi então presa mas, em poucos dias, os negros de Montgomery organizaram um boicote à discriminação nos autocarros, que durou um ano, e ganharam a batalha: até aí, eram obrigados a ocupar os lugares traseiros e a cedê-los aos brancos se o autocarro enchia.



Mas foram também muitos os acontecimentos que marcaram o rumo das nossas histórias e cito apenas três (de importância desigual, eu sei...): o início da Conferência de Ialta (1945), entre Roosevelt, Churchill e Estaline para ser decidido o fim da Segunda Guerra Mundial e a repartição das zonas de influência entre o Oeste e o Leste, o lançamento do Facebook, há 10 anos (Miguel Sousa Tavares que se cuide porque está a falhar muitos alvos ...), e, claro, acima de tudo, o início da Guerra Colonial.

Com o país ainda agitado pelo assalto ao Santa Maria, que só chegaria a Lisboa alguns dias depois, 4 de Fevereiro de 1961 marca o início da luta armada em Angola, concretizado numa revolta em Luanda, com ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da PSP e à Emissora Nacional.


Os acontecimentos precipitaram-se com graves ataques no Norte de Angola, na noite de 14 para 15 de Março, enquanto em Portugal se desenvolvia uma tentativa de Botelho Moniz para afastar Salazar. Mas Américo Tomás reitera a sua confiança no Presidente do Conselho e este anuncia uma remodelação ministerial que o fará assumir também a pasta da Defesa Nacional. É então, em 13 de Abril, que lança uma frase que ficará célebre: «Andar, rapidamente e em força!»



Depois... foi o que se sabe. Durante mais treze anos.
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Coisas verdadeiramente importantes



António Mariano explica como é que Um tsunami de solidariedade está a parar os portos da Europa
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Tenham fé que isto há-de ser pior




... quando esta parte da «geração mais bem preparada de sempre» chegar ao poder.
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Contos de fadas



«A política, às vezes, parece um conto de fadas. Frenéticos com a saída da troika e, sobretudo, com as eleições europeias, os dirigentes nacionais dividem-se entre ser a versão moderna da Gata Borralheira ou do Pequeno Polegar.

Esquecem que, com programa cautelar ou livres como passarinhos engaiolados, os portugueses têm uma dívida brutal para pagar, uma austeridade que marcará a sociedade durante muitos anos e demasiados técnicos estrangeiros a vigiar as nossas contas. Para sempre ficará o empobrecimento económico, social e cultural da nação. Entretidos com as eleições, todos garantem um futuro brilhante. (...)

Todos esquecem que esta crise dividiu Portugal entre dois mundos. Existem, cada vez mais, dois países: um que é viável e outro, colado a esse, que não o é. E este verá alguma recuperação mas não a sentirá. E será aí que se revoltará. (...)

Há algo que alguns esquecem. Quando se lê um conto de fadas, há um momento em que se tem de fechar o livro. E voltar à vida real.»

Fernando Sobral no Negócios de hoje.
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3.2.14

Homenagem



5 de Fevereiro, 4ªf, 18:30
Centro Nacional de Cultura

Intervenções de Guilherme d’Oliveira Martins, Duarte Ivo Cruz, Manuel Amado, Maria Andresen Sousa Tavares e Joana Lopes. 
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Manuel Serra morreu há quatro anos



Já com algum atraso, recordo que Manuel Serra morreu há quatro anos, em 31 de janeiro de 2010 – o tempo passa depressa. Porque nunca é demais recordar os grandes lutadores antifascistas, retomo, em parte, um texto que então escrevi.

Foi na Juventude Operária Católica que, aos 17 anos, Manuel Serra tomou consciência da pobreza, da repressão e das injustiças que o rodeavam.

Já como oficial da marinha marcante, integrou-se na corrente mais extremista da campanha de Humberto Delgado para a presidência da República, em 1958, onde defendeu o recurso à luta armada para o derrube do regime.

Na noite de 11 para 12 de Março de 1959, chefiou os civis no falhado Golpe da Sé, sendo detido e levado para o Aljube onde permaneceu seis meses, depois de cinco dias de tortura de sono. Numa primeira fuga espectacular, saiu pelo seu pé do Hospital Curry Cabral onde se encontrava internado: vestido de padre, seguiu directamente para a embaixada de Cuba em Lisboa e pediu asilo político. Apesar de vigiado em permanência por quatro agentes da PIDE, chefiados por Rosa Casaco, estudou um novo plano de fuga, mudou de visual muito rapidamente, cortando o cabelo e a barba, e aproveitou uma mudança de turno para sair em pleno dia para a embaixada do Brasil, já que o seu objectivo era precisamente juntar-se a Humberto Delgado naquele país.

Partiu em Janeiro de 1960 e foi no Brasil que começaram os preparativos para o que viria a culminar no Golpe de Beja, em 1 de Janeiro de 1962. Depois dos factos que são do conhecimento público, relacionados com o falhanço do golpe em questão, Manuel Serra tentou esconder-se no Sul do país, mas acabou por ser detido em Tavira. Seguiu-se um mês de grande violência, com tortura de sono e espancamentos, um julgamento com condenação a dez anos de prisão e longas estadias em Peniche e em Caxias. Liberto no início de 1972, foi ainda detido por um curto período em Novembro de 1973. Tudo somado, quase doze anos passados em prisões da PIDE.

A seguir ao 25 de Abril, foi um dos fundadores do MSP (Movimento Socialista Popular) que mais tarde se integrou no Partido Socialista como grupo autónomo, mas divergências internas e controvérsias atribuladas precipitam a saída, em Janeiro de 1975, para a criação da FSP (Frente Socialista Popular). No quadro deste pequeno partido, participou nas campanhas de Otelo Saraiva de Carvalho para a presidência da República e, em 1980, foi um dos fundadores da FUP (Força de Unidade Popular).

Ficou na história dos belos lutadores da resistência em Portugal, que aliaram a coragem à aventura e até ao prazer do risco, e dava jeito que ainda por cá andasse. Na memória dos que o conheceram pessoalmente – e eu conheci-o bem – restará um enorme sorriso e um coração do tamanho do mundo. Será sempre assim que o recordarei.

(Fotografia e fonte para a elaboração deste texto: Rui Daniel Galiza e João Pina, Por teu livre pensamento. Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, Assírio & Alvim) 
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Vai haver festa na aldeia



... ou seja na campanha para as europeias.

À espera dos candidatos dos partidos com assento parlamentar, e depois de Marinho Pinto dar um passo em frente, sabe-se agora que Nicolau Breyner vai dar voz a eurocépticos.

Se o assunto não fosse sério, até dava para nos divertirmos... Até dá para imaginar Nicolau Breyner e Marinho Pinto em nova versão da velha rábula.
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Louçã em entrevista



Francisco Louçã deu uma longa entrevista, publicada ontem no Diário de Notícias e da qual o jornal só disponibilizou, online, um vídeo e alguns excertos.



Mas disse muito mais e escolho dois excertos que considero importantes:

«O País tem tido momentos de resistência forte – setembro de 2012 e março de 2013 –, mas é verdade que no conjunto do confronto com as feras da troika Portugal enfraqueceu. Há uma sensação de desmoralização e de derrota que explica muitas das dificuldades, da perplexidade e da confusão instaladas na esquerda e na sociedade portuguesa. Há uma viragem à direita e uma grande morbidez até em sectores muito importantes da esquerda por causa dessa derrota. Esses grandes protestos não têm origem no PS ou no PCP... (...) É uma luta tradicional mas há outras extraordinárias, como a dos enfermeiros da Saúde 24, que é o retrato exato do País. Houve uma mobilização que criou uma enorme expectativa, que foi a preparação da travessia da ponte, mas traduziu-se num fiasco que tem um efeito pesado do ponto de vista político ao diminuir a capacidade do movimento sindical em responder pelo País quando era necessário. (...) Muitos sindicalistas perceberam que a expectativa de levantamento e resposta popular que tinha sido criada pela extraordinária iniciativa não devia ser diminuída e que a CGTP podia ter transformado a manifestação no encostar do Governo à parede. No entanto, o PCP não quis que assim acontecesse e fez mal.»

«É óbvio que para se ser alternativa em Portugal não se pode contar com o PS. Tem de se recompor o mapa político e encontrar todas as forças que em todos os partidos possam responder por uma política de desenvolvimento económico, de criação de emprego e de controlo público do sistema financeiro. Creio que isso exigiria uma tripla aliança entre o Bloco de Esquerda, o PCP e toda a gente do PS, que recusa a dívida. Se fosse possível constituir uma aliança destas, ela teria nas eleições legislativas 20% e em dois anos disputava os rumos do País. Há duas condições fundamentais para dar estes passos. Uma é a luta social e o envolvimento de milhares de pessoas. Outra é a vontade unitária de grande fôlego em vez de pequenas guerras de partidos.»
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2.2.14

Até tenho pena



... mas assino por baixo.

«O Papa não passa os limites da “doutrina social” da Igreja ou do Catecismo decretado por Ratzinger. O que ele trouxe de novo está mais no espectáculo do que na substância. (...)

Alguém se esqueceu de prevenir Francisco que a popularidade, como o populismo, não costumam durar. O repertório de um Papa é forçosamente curto e a incessante repetição de uma conversa petrificada por 2 000 anos de tradição acaba sempre por desinteressar os mais fiéis dos fiéis. Sobretudo se não assentar em acções pertinentes. Os primeiros franciscanos desistiram da pobreza de S. Francisco e não tardou que se tornassem uma ordem esplendorosa e riquíssima, que fazia inveja a toda a Cristandade. Não sei a que levará este novo estilo de Jorge Bergoglio. Mas sei que a extraordinária apoteose de 2013 não se repetirá. E suponho que o Papa dos “pobrezinhos” também sabe.»

Vasco Pulido Valente

Escolas alternativas do outro lado do mundo



Mandalay foi a última capital real da Birmânia, entre 1860 e 1885 e é a segunda maior cidade do país. Com um palácio lindíssimo, templos, estupas e pagodes, tem uma população etnicamente complexa (não só mas também devido ao elevado número de recentes imigrantes chineses) e que já atinge actualmente um milhão e meio de habitantes.

Todos os expedientes são bem vindos para ultrapassar problemas inevitáveis, numa grande cidade em que a grande maioria das pessoas é mesmo pobre, e esta escola improvisada perto da Estação Central de combóios cumpre o seu papel: professores voluntários ajudam crianças, algumas sem abrigo, a estudar e a aprender – quando não chove!...



Mas ultrapassarão esta fase. A Birmânia é um país extraordinário e este século é deles – dos asiáticos.
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Cuidados domésticos


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Heteros e homos



Clara Ferreira Alves, na «Revista» do Expresso de ontem:

«Deixa ver se percebo. Quando se trata da vida privada de um Presidente, sobretudo da vida privada que envolve actos sexuais, como por exemplo um adultério pequeno-burguês, ou um brutal adultério legitimado pelos olhos da comunidade, não podemos falar do assunto. Elegemos um senhor para se sentar, por exemplo, no trono do Eliseu e administrar os negócios da nação, e pagamos o seu séquito e os guarda-costas. Não queremos saber o uso. Se descobrimos que o dito guarda-costas tem por função oficial conduzir o Presidente numa motocicleta a um apartamento em cujo leito repousa a ilegítima ou, pormenor romântico, comprar croissants frescos na padaria quando desponta a madrugada e levá-los ao dito leito, também não podemos comentar o acto.
Nem regulá-lo. Nem condená-lo. Trata-se da vida privada e não podemos imiscuir-nos. Não devemos. (...)

Imagine-se que o dito François Hollande, serial killer de mulheres bonitas (pormenor fundamental para a absolvição geral), e as legítimas tinham filhos adoptados. Vários filhos adoptados. Adoptados da primeira mulher, da segunda, e, quiçá, de todas as que hão de vir. O consenso generalizado, sempre repugnando-se de se meter na vida privada ou meter-se na "vida das crianças", recusaria a conclusão de que Hollande é um mau pai ou um pai incompetente que sujeita os filhos a instabilidade e humilhação. O consenso generalizado lamentaria a sorte de tais filhos mas não retiraria a conclusão de que pais adúlteros não devem ter o direito a adoptar. Que diabo, nem mães. Estas coisas acontecem e são do domínio da "esfera privada". Tratando-se de homossexuais (nem precisam ser Presidentes), o caso muda de figura. O consenso generalizado detectaria mais um sinal da devassa e da deriva homossexual, veria no pormenor do croissant um nojo físico e proclamaria a incapacidade dos homossexuais para adoptarem e garantirem filhos sem trauma. Obviamente. Uns depravados. Porque, tratando-se de homossexuais, da sua saúde (caso da sida e das descriminações aberrantes) ou da sua família (caso do casamento e adopção), a sociedade bem-pensante quer, deve, tem a obrigação de imiscuir-se na vida privada, de a punir e vigiar como um crime.»
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