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1.2.14

A poesia é uma arma carregada de futuro



Cuando ya nada se espera personalmente/ exaltante/, más se palpita y se sigue más acá de la consciencia,/ fieramente existiendo, ciegamente afirmando,/ como un pulso que golpea las tinieblas,/ que golpea las tinieblas.

Cuando se miran de frente / los vertiginosos ojos claros de la muerte,/se dicen las verdades;/las bárbaras, terribles, amorosas crueldades,/ amorosas crueldades.

Poesía para el pobre, poesía necesaria / como el pan de cada día,/ como el aire que exigimos trece veces por minuto/ para ser y tanto somos, dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan/ decir que somos quien somos,/ nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno, / Estamos tocando el fondo,/ estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo/ cultural para los neutrales / que lavándose las manos, se desentienden y evaden./ Maldigo la poesía de quien no toma partido,/ partido hasta mancharse.

Hago mías las faltas. Siento en mi a cuantos sufren/ y canto respirando./ Canto y canto y cantando más allá de mis penas/ de mis penas personales,/ me ensancho, me ensancho.

Quiero dar vos vida, provocar nuevos actos,/ y calculo por eso, con técnica que puedo./ Me siento un ingeniero del verso y un obrero/ que trabaja con otros a España, / a España a sus aceros.

No es una poesía gota a gota pensada,/ No es un bello producto. No es un fruto/ perfecto,/ es lo más necesario: lo que no tiene nombre. /Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.



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Discurso geracional



No Público de hoje, mais um importante texto de José Pacheco Pereira:

«A formação do actual discurso governamental sobre os “jovens” e os “velhos” vem de bastante atrás. Veio das “jotas” nos anos oitenta e noventa do século passado e chamava-se “discurso geracional”. Tratava-se de um discurso reivindicativo de mais lugares, mais funções, mais poderes, e funcionava como legitimação política para assegurar a autonomia das juventudes partidárias e dar-lhes um espírito de corpo. (...)

Foi esta a escola de Passos Coelho e Miguel Relvas, mas também de Seguro e de muita da sua equipa. Todos usaram, nas juventudes que dirigiam, esse discurso “geracional” como instrumento de reivindicação política e de ascensão pessoal e de grupo. (...)

Embora sejam hoje homens de meia-idade, já velhos para o mercado de trabalho se quisessem entrar nele, estes antigos “jotas” do “discurso geracional” que hoje estão no poder moldaram a política partidária nos últimos anos e são a encarnação viva de um dos grandes problemas da democracia portuguesa, a partidocracia. (...)

Não é por isso de estranhar que os actuais governantes não tenham nenhum problema em usar os discursos de divisão social, em que se especializaram quando do “discurso geracional”. A frase da moção de Passos Coelho sobre a “apropriação excessiva dos direitos das gerações futuras por parte das actuais gerações” é prenhe de significado político e ideológico, mas deve ser combatida sem transigências. É má no plano político e falsa no seu conteúdo. Quem define o que é “excessivo”? Como se pode arrogar de “defender” os “jovens” quem degrada as suas condições de vida actual, inclusive ao atirar os seus pais e avós para a pobreza, e quem empurrando-os para o desemprego, a emigração ou para a precariedade, lhes estraga o presente e o futuro? E que “futuro” vão ter, sendo menos qualificados e com salários mais baixos, “ajustados”? (...)

Este é o produto de gente mal formada, como se dizia antigamente. Linguagem do passado, bem sei, sem “reflexão prospectiva”
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Sem dúvida

31.1.14

Cristo vai descer à terra



Segundo os resultados de uma sondagem, hoje divulgados, Marcelo deve avançar nas presidenciais mesmo sem o apoio do PSD
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Sobre (des)união de esquerdas (2)



«A pluralidade da esquerda não é um defeito. A diversidade da esquerda é um bem. Ela exprime trajetórias, entendimentos do mundo, culturas políticas e propostas diferentes. (...)

O bulldozer da austeridade exige hoje esforços redobrados de convergência das esquerdas. E tragicamente o que está diante dos nossos olhos - na Alemanha, em França, na Grécia ou em Portugal - mostra que não se pode contar com os partidos da social-democracia para esse enfrentamento. Engana-se quem crê que uma pressão credível à esquerda faria infletir esses partidos, receosos da perda de eleitorado, para uma governação de combate contra as troikas e em defesa dos direitos e dos serviços públicos. Que não o tenham feito quando a relação de forças favorecia um tal compromisso diz tudo sobre o que podemos esperar.

É neste quadro que a luta contra a austeridade tanto ganhará força com uma convergência de proposta como a perderá com um equívoco. (...) Ora, equívoco seria organizar uma candidatura às europeias de que resultassem eleitos que depois se inseririam em famílias políticas diferentes com posições diferentes no essencial. Equívoco seria fingir unidade entre quem acha que este é o tempo de desobedecer a uma Europa que só serve para nos punir e quem acha que mais esvaziamento das autonomias dos Estados é a solução. Somar forças é imperativo diante do rolo compressor da austeridade sem fim. Mas iludir os eleitores sobre um programa, a pretexto de uma unidade aritmética que permita uma eleição associada a um inaceitável "e depois logo se vê", seria pior a emenda do que o soneto.» (Realces meus.)

José Manuel Pureza
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31 de Janeiro



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30.1.14

Nem mais


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Sobre (des)união de esquerdas



O texto mais claro que li até agora: Há mar e mar, por Fernando Rosas, no Público de hoje.

P.S – Como nunca se sabe, actualmente, se e quando funcionam links para o Público, fica o artigo na íntegra:

Praxes em todo o lado



Ricardo Araújo Pereira, sobre o inevitável tema: praxes.

«Quero poder ir a um talho e ouvir, da boca do talhante: "O sr. da senha 28 nunca cá veio, pois não? Então tire as calças porque vai simular que está a fazer amor com este lombo de vitela, enquanto o resto dos clientes o insultam".»

Na íntegra AQUI.
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Desobediência civil


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Sem GPS



«Um país sem estratégia é como alguém perdido no deserto ou no gelo sem bússola ou GPS. Portugal, nesse aspecto, é o exemplo perfeito do brilhante táctico que se esquece de definir qual o destino que deseja. (...) Sendo os portugueses sobreviventes encartados, julgam dispensável criar um modelo económico de Portugal. Seguem o vento ou os aromas da pimenta, o brilho do ouro ou o canto da sereia dos fundos da UE. (...)

País de navegantes, até gerir com inteligência uns estaleiros navais se torna uma tarefa ciclópica. Tudo porque dispensamos a estratégia, um plano geral, e nos contentamos com pequenas tácticas. Foi essa a razão porque pagámos uma fortuna pelo documento de Michael Porter e depois o encadernámos numa prateleira cheia de pó. (...)

Pensar cansa, julgam os nossos políticos, que só olham para as próximas eleições.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
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29.1.14

Francisco, «pope star»?



O Vaticano partilha graffitis no Twitter com o papa em versão Super Homem, a revista Rolling Stone põe Francisco na capa e comenta com o título de uma canção de Bob Dylan («The Times They Are A-Changin») e eu estou muito curiosa.

Estamos num mundo em que o vedetismo é quem mais ordena e o actual papa é um caso de sucesso indiscutível a nível mundial. Nada contra, antes pelo contrário, mas parece-me que há um enorme exagero em tudo isto, no qual o Vaticano está a embarcar e que pode não acabar bem: as expectativas tornaram-se tão altas que a queda pode ser muito grande. Os ídolos têm quase sempre pés de barro. (Alô, Obama?)
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O Tempo e o Modo



Nasceu há 51 anos, em 29 de Janeiro de 1963. Alguns (cada vez menos, infelizmente..) recordarão a importância que teve o lançamento desta revista como plataforma de diálogo possível, à esquerda, em tempos de censura, na sociedade portuguesa daquele início da década de 60.

António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira, todos católicos, concretizaram um projecto que, desde o seu início, foi aberto à colaboração de não crentes, o que hoje parece absolutamente trivial, mas que esteve longe de o ser e foi mesmo objecto de uma votação. Não resisto a resumir o que então se passou: antes de a dita votação se efectuar, foi rezada uma Avé-Maria para que o Espírito Santo iluminasse os presentes e a decisão, pela positiva, foi tomada por cinco votos a favor e dois contra, o que permitiu que tivessem sido colaboradores, desde o início, Mário Soares, Salgado Zenha, Jorge Sampaio e Sottomayor Cardia, entre outros. Este episódio, hoje dificilmente compreensível, revela bem o peso da mentalidade então vigente e a importância histórica dos que contra ela lutavam – «abertura» passou a ser um dos sinais de marca de O Tempo e o Modo.

Em 1964, por ocasião do primeiro aniversário da revista, António Alçada Baptista comentou, bem à sua maneira: «O Tempo e o Modo pretendeu ser essa mesa onde as pessoas se conheceram e à volta da qual alguns se quiseram sentar. Depois, e à mesma mesa sentados, acharam que era possível falar. Conversados, reconheceram que muitas preocupações lhes eram comuns e que, talvez, ao tentarem resolvê-las, o poderiam fazer em equipa.» (O Tempo e o Modo, nº 12, Janeiro de 1964, p. 1.)

Foi longa e atribulada a história da revista (publicada entre 1963 e 1977, em duas séries).
A ler: O Tempo e o Modo, 50 anos depois

(A totalidade do conteúdo da revista está disponível em dvd (dois exemplares, uma para cada série) e pode ser comprada na Fundação Mário Soares.)
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Cultura da Crise



«Só existe hoje uma crise na cultura (do cinema ao teatro, das artes plásticas à pesquisa de ponta) porque existe uma cultura da crise. (...)

Tal como no tempo da Inquisição, quando a nossa elite intelectual e comercial foi expulsa por um catolicismo fundamentalista, sem cuidar dos danos para os interesses do País e do império que tal hemorragia iria causar, temos hoje um Governo que saúda a emigração forçada de dezenas de milhares de jovens licenciados, sem avaliar o que significa regredir décadas na criação de uma massa crítica capaz de imaginar e construir novas saídas para a crise nacional. (...) Quarenta anos de democracia quase venceram esse estigma [do analfabetismo], o que não foi possível foi derrubar a iliteracia funcional de uma falsa elite, que dentro do Estado manda sem mérito para tal.»

Viriato Soromenho Marques

Não se pode referendar Hugo Soares?



Ainda estamos em Janeiro e já temos a frase do ano: «Todos os direitos das pessoas podem ser referendados», disse (e eu ouvi) Hugo Soares, em debate com Isabel Moreira, ontem na TVI24.

Este jovem de 30 anos, que ainda por cima é advogado (licenciado em Direito, portanto) diz uma barbaridade destas e não há um sobressalto generalizado, uma concentração na AR, um gigantesco buzinão, sei lá...? No pasa nada?

Será necessário lembrar que ele ocupa a presidência da JSD, trampolim mais do que certificado para chegar rapidamente a membro de um governo ou mesmo a primeiro-ministro?

Este país merece muitos castigos pela sua trágica vivência de resignação. Mas tudo tem limites!
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28.1.14

Para mais tarde recordar


Durante todo o dia, os murais do Facebook encheram-se de canções de Pete Seeger. Ficam aqui mais algumas, quase em jeito de arquivo.






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África deles – China e Japão



África é, neste momento, motivo de tensões, políticas e diplomáticas, entre o Japão e a China. A caminho de Davos, o primeiro-ministro japonês visitou a Etiópia, a Costa do Marfim e Moçambique e o ministro dos Negócios estrangeiros chinês passou também pela Etiópia, para além do Senegal, Gana e Djibouti.

O Japão acusa o seu eterno rival asiático de apenas querer explorar recursos naturais e de criar pouco emprego (sabe-se que muitas das grandes obras, em países africanos, são executadas por trabalhadores levados da China), o governo de Pequim recorda as atrocidades cometidas pelos nipónicos durante a Segunda Guerra Mundial e argumenta com números da atualidade: em 2012, o volume de comércio da China, em África, foi sete vezes superior ao do Japão.

Os africanos assistem e vão tirando partido destas novas formas de colonização, com outras etiquetas, de que não podem de modo algum prescindir.

(Fonte, entre outras)

Só para falar da Etiópia, longe parecem ir os tempos em que o Japão podia evocar as velhas relações entre os dois países, não só mas também por ambos terem saído vencedores contra investidas militares europeias (o primeiro na Batalha de Tsushima e o segundo na de Adwa) e assinarem por isso um Tratado de Amizade e Comércio, em 1930. E se é verdade que essas boas relações foram interrompidas porque o governo japonês não ajudou os etíopes na segunda guerra destes contra a Itália de Mussolini (1935-1938), acabaram por ser reatadas, a partir dos anos 50.

Hoje, falam muito mais alto os cifrões: África está a ficar chinesa. E, contra factos, há cada vez menos argumentos. 
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Nem dá para imaginar o que isto é



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Adeus, Pete



Saber que certas pessoas que atravessaram quase um século ainda estão vivas, algures por esse mundo, é uma capa protectora que nos mantém optimistas e nos ajuda a lutar para que esse mesmo mundo seja um dia muito melhor. Como elas acreditaram – e conseguiram. Pete Seeger era para mim uma delas, há muitos, muitos anos. Com 94 anos, foi-se embora ontem.

Sobre a vida de Pete, um texto: La vida en un puñado de versos.

E alguns vídeos, entre dezenas possíveis:








Aos 74:



Adeus, Pete:
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27.1.14

Mais vale um Bloco na mão



... do que muitos a esvoaçar. Parece que já pousaram
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Uma data, mil efemérides – escolho Mahalia Jackson



Há dias assim: percorro a lista dos acontecimentos associados a uma data e encontro muitos que me apeteceria realçar.

É o caso de hoje, 27 de Janeiro, dia em nasceram Mozart e Lewis Caroll e em que desapareceram Francis Drake, Verdi, Salinger, John Updike, Suharto e, last but not the least, pela negativa e no que nos diz respeito, Silva Pais, o último director da PIDE/DGS.

Mas morreu também, há 42 anos, a grande Mahalia Jackson, o que me dá um belo pretexto para voltar a ouvir uma das vozes mais extraordinárias do século XX e que associaremos também, para sempre, às lutas contra a segregação racial nos Estados Unidos.







 
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27 de Janeiro de 1945 – Nunca esquecer



Hoje é o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, data em que se celebra o 69º aniversário da chegada das tropas soviéticas a Auschwitz e da consequente libertação de cerca de 7.000 sobreviventes que ainda permaneciam no campo, criado em 1940 e onde foi exterminado mais de um milhão de pessoas.

*** A ler: Esther MuczniK, no Público de hoje – Auschwitz: lembrar para quê?
«Para quê lembrar tudo isto, para quê um Dia de Memória? Será que somos capazes de tirar algum ensinamento de tudo isto? Sinceramente, não sei. Mas sei que embora a memória seja falível, o conhecimento é indispensável. Não para termos “pena” das vítimas, mas para entendermos os sinais da tragédia nas nossas sociedades actuais.»

*** A percorrer: este excelente dossier – Viaje al Holocausto.





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O Herói, o Líder e o Deus



De Alexandre Kosolapov.
Moscovo, Galeria Guelman.

(Via Nuno Ramos de Almeida no Facebook)
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Ecoam trompetes, mas...



«As trompetes ecoaram para calar todas as dúvidas. Os dados sobre o défice público de 2013 foram apresentados como prova irrevogável de uma grande vitória política do Governo. É? É, para alguns. Para o ego do PSD e do PP. Para a troika e para os investidores internacionais. Para a imagem exterior de Portugal. Mas todas as vitórias correspondem a uma derrota. (...) A dos portugueses. Portugal, para que o Governo tivesse esta vitória política, ficou mais pobre. Económica, social, educacional, científica e culturalmente.

Entre a chacina causada pelos impostos e o convite à emigração, empobrecemos o núcleo criativo do país, limitámos o debate e a investigação. Tornámos Portugal uma democracia pindérica. A culpa deste Governo junta-se à de anteriores, incapazes de dotar Portugal de um modelo económico, social e cultural sustentável. Isso diz muito da incultura da nossa elite política. (...)

A "vitória política" do Governo é o resultado da desertificação do país. Ai dos derrotados por esta vitória.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
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26.1.14

Teorias da conspiração, precisam-se

Nem vale a pena discutir muito a questão

É já na 3ª feira


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Multimilionários



Clara Ferreira Alves, na Revista do Expresso, 25/1/2014

«É preciso um encontro de ricos para saber como vivem os pobres. A Oxfam apresentou um relatório sobre a distribui¬ção de recursos no mundo, de modo a ser lido e discutido durante o Fórum de Davos. O relatório conclui que as 85 pessoas mais ricas do mundo concen¬tram tantos recursos como a metade mais pobre da população mundial. (...) Em Portugal, o país mais desigual da Europa ociden¬tal, o peso dos rendimentos dos mais ricos no rendimento total do país mais do que duplicou desde 1980. (...)

No Estado democrático, a velha social-de¬mocracia ou a esquerda foram incapazes de pensar o mundo depois da revolução tecnológica, da globalização e da explosão de mão de obra barata nas economias e mercados emergentes, como antes ti¬nham sido incapazes de pensar o mundo depois da queda do Muro. Os anquilosados partidos socialistas, que tentaram adaptar-se aos tempos absorvendo as lições da expansão capitalista e financeira internacional, deixaram-se enredar num discurso que se limita a papaguear as vantagens e desvantagens da democracia igualitária, sem apresentar um único plano ou medida (como a uniformização fiscal europeia). (...)

Os funcionários políticos deixaram de ver o Estado como uma forma de poder e de enriquecimento próprio e passaram a usar o Estado como uma alavanca do poder das empresas e grupos com ambições sobre os recursos públicos. As privatizações, incluindo as privatizações de sectores estratégicos dos países, são o meio de enriquecimento ilícito de uma classe corrompida, como antes foram o poder local e a repartição de recursos e sinecuras.»
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