4.2.12

Blogosfera para além de Pacheco Pereira


Na sua crónica semanal no Público (sem link, mas transcrita na íntegra no fim deste post), José Pacheco Pereira (JPP) disserta hoje sobre o estado actual da blogosfera portuguesa e reflecte a posição que tem sobre a mesma desde a escolha do próprio título: «Por que razão os blogues têm cada vez menos importância?».

O texto é longo, tem partes com que concordo, mas peca, na minha opinião, por generalizações fáceis e apressadas – como acontece quase sempre que se generaliza apressadamente…

Refiro-me ao que é dito sobre os chamados «blogues políticos», os quais, para JPP, estão «em profunda crise, (…) perderam independência, autonomia e transparência» e «são por isso menos interessantes, menos importantes e têm menos leitores».

Porquê? Em resumo porque «a agenda dos blogues tornou-se a agenda comunicacional; os blogues tornaram-se espelhos miméticos dos partidos e fracções políticas, e os blogues são hoje uma “área de negócio”».

Há milhares de blogues predominantemente políticos activos em Portugal e, como simples mortal que é, JPP só deve conhecer uma zona relativamente limitada dos mesmos. E eu concluo que devo andar, pelo menos parcialmente, por outras diferentes.

Se é certo que a blogosfera evoluiu (estranho seria se tal não tivesse acontecido…), dizer, por exemplo, que estes blogues se tornaram «meros acrescentos dos partidos políticos e das suas facções» e que «parecem-se cada vez mais com secções das “jotas” partidárias» é algo em que nem me revejo de todo como blogger, nem consigo identificar, por exemplo, na lista de mais de vinte blogues que mantenho como «permanentes» na barra lateral e que, de certo modo, «recomendo» – nem nos grandes, nem nos pequenos, nem nos de esquerda, de centro ou de direita. Mais: como uma ou outra excepção, nem os colectivos são monopartidários quanto à sua composição, nem algum dos individuais pode ser considerado correia de transmissão do que quer que seja e, na sua esmagadora maioria e tanto quanto sei, são de bloggers sem partido.

Quanto à convicção de que os blogues políticos têm cada vez menos leitores, não sei de que está a falar JPP. Não ando a estudar audiências, mas hoje fui percorrer o Blogómetro e não me parece que, de um modo geral, o número de visitas tenha tendência para diminuir – muito pelo contrário e tanto no que se refere aos «turbo» blogues como aos outros. No que diz respeito a esta casa, em comparação com semanas e meses equivalentes dos dois anos passados, a média diária de visitas mais do que triplicou.

Muito mais haveria a dizer, mas ficam apenas duas observações:

- JPP omite a influência das redes sociais na blogosfera, que é muito significativa. Não só por serem fontes de acesso para muitos leitores, mas também e sobretudo porque alimentam os blogues com um certo tipo de informação que, ao contrário do que JPP afirma («a relação de “novidade” vem dos jornais para os blogues e não o contrário»), a comunicação social não veicula de todo ou fá-lo tardiamente. E há muitos leitores de blogues que, pura e simplesmente, recusam aderir ao Twitter ou ao Facebook e continuam fiéis à blogosfera.

- Por outro lado, parece-me que JPP confunde, ou mistura, partidarismo com «militância». Talvez pelas características da época que atravessamos, julgo que há cada vez mais bloggers, nada dependentes partidariamente, que utilizam o seu espaço na defesa de «causas», iniciativas e projectos, nacionais e não só, e na difusão de informação sobre os mesmos. São talvez os mais procurados, da direita à esquerda (são esses que eu mais procuro…) e parece-me normal que assim seja.

Resumindo e concluindo: a idade da inocência da blogosfera terminou certamente, ela está mais «dura», certamente menos elitista, mas nem por isso com menos importância. Mas é óbvio que cada um a vê através do seu prisma de cristal…

Ainda sobre feriados


Um país que, de uma só penada, deixa de comemorar a sua independência e o sistema político por que se rege, que passa a ignorar que uma senhora foi levada para os céus em corpo e alma, que anula uma outra festividade religiosa assinalada desde o tempo de D. Afonso III e que, para cúmulo, é impedido de se mascarar na terça-feira de Carnaval para esquecer as desgraças anteriores, acabará, na melhor das hipóteses, no divã de um psicanalista alemão.
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Nas palhinhas, deitadinho

#Occupy CCB (2)

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«Francisco José Viegas teve conhecimento da decisão do presidente do CCB. Casa da Música e Fundação Serralves também não aplicam acordo ortográfico.»

Mas alguém pensava que isto ia acabar de outra maneira?

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3.2.12

Parque do céu?


Ficou pronto há uns meses e dizem que é uma nova uma «maravilha do mundo». Mas ver para crer, como S. Tomé, e é o que farei daqui a duas semanas, mais dia, menos dia.

Será por lá que começarei (mais) uma viagem pelo Sudeste asiático. Não revelo, para já, muitos detalhes: com o subsídio de férias do Banco de Portugal no bolso, o casal Cavaco era bem capaz de querer alinhar…

Last but not the least, adeus Inverno: a temperatura prevista é… 31ºC!
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Plenário de Desempregados


Mais informações aqui.
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Contra a impunidade


(Contributo de Jorge Pires da Conceição.)

Espanha: Cantores, escritores, actores, poetas e membros de associações de preservação da memória num concerto de apoio às vítimas do franquismo.

«En los últimos días han arrancado numerosas iniciativas en solidaridad con el juez Baltasar Garzón, que está siendo juzgado por haber tratado de investigar los crímenes franquistas, y en apoyo a las miles de víctimas que buscaron ayuda en el magistrado de la Audiencia Nacional, suspendido temporalmente en funciones. Varias manifestaciones y concentraciones ante el Tribunal Supremo, así como multitudinarios actos con abogados, juristas, políticos, y miembros de las asociaciones de memoria y del mundo de la cultura han mostrado su disconformidad con el proceso que está siguiendo el Alto Tribunal contra Garzón.»

Notícia completa aqui.




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#Occupy CCB


Graça Moura dá ordem aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico.

Desobediência civil? Um «Indignado» em potência.

P.S. 1 – Como seria de esperar, amigos para siempre: «A posição da SEC deverá ser a de que o CCB, sendo uma fundação pública de direito privado, não estará obrigado a adoptar o acordo antes da data prevista para a sua aplicação generalizada, em 2014» (parte da mesma notícia do Público, mas que não está online).

P.S. 2 – Quem não anda pelo Facebook talvez não imagine a «guerra» que por lá vai, por exemlo nos comentários a este meu post. Tornei-o «público», mas, mesmo assim, não sei se quem não tem conta aberta pode aceder ao mesmo.
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2.2.12

Na Nau Catrineta


Quando soube que ontem, em Londres, Vítor Gaspar evocou a era dos descobrimentos para afirmar que «temos tradição de bons marinheiros e de nos prepararmos para as tempestades», lembrei-me imediatamente de José Sócrates que, em Dezembro de 2008, falava da necessidade de dobrarmos o Cabo das Tormentas que seria 2009 – «o momento mais difícil». O então primeiro-ministro disse que era preciso agir com rapidez, porque ninguém estaria interessado em saber o que aconteceria daí a dois anos. Para nosso bem, felizmente que não soubemos o que viria a acontecer-nos e 2009 nem foi o momento mais difícil, nem dobrámos qualquer espécie de cabo – ficámos só com as tormentas.

Este voluntarismo peregrino que pretende fazer-nos acreditar que a salvação virá do sangue de Vasco da Gama & Friends, que ainda nos correria nas veias, não nos leva nem a Gibraltar e talvez fosse melhor aceitarmos que estamos na Nau Catrineta e agirmos em conformidade.
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Flying books

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Inspired, in equal measures, by Hurricane Katrina, Buster Keaton, The Wizard of Oz, and a love for books, “Morris Lessmore” is a story of people who devote their lives to books and books who return the favor. Morris Lessmore is a poignant, humorous allegory about the curative powers of story. Using a variety of techniques (miniatures, computer animation, 2D animation) award winning author/ illustrator William Joyce and Co-director Brandon Oldenburg present a new narrative experience that harkens back to silent films and M-G-M Technicolor musicals. “Morris Lessmore” is old fashioned and cutting edge at the same time.

“The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” is one of five animated short films that will be considered for outstanding film achievements of 2011 in the 84th Academy Awards ®.

Film Awards Won by “The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore”
To date, “The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” film has drummed up fans all over the world taking home the following awards:
• Cinequest Film Fest: Best Animated Short
• Palm Springs International ShortFest: Audience Favorite Award
• SIGGRAPH: Best in Show


(Via Jorge Pires da Conceição)
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Frio? Nem por isso


Há 58 anos nevou em Lisboa (2/2/1954). E como ainda não se sabia que os feriados são coisa ruim, muitas escolas pararam as aulas para as crianças poderem brincar.


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Isto vai acabar mal!

As limitações da democracia representativa


Um grande texto de J. M. Correia Pinto, para ler e reflectir:

Excertos:

«Com o tempo a democracia representativa, nomeadamente a que resulta da eleição em listas partidárias fechadas, acabou consagrando o mandato incondicionado como princípio incontestável, deixando de haver durante a sua vigência qualquer possibilidade de controlo dos eleitos, salvo o que resulta da pressão da opinião pública, cada vez mais ferreamente condicionada e manipulada pelo poder, do establishment, que tudo faz para que a opinião pública tenda a coincidir com a opinião publicada, sendo esta altamente limitada e controlada pelos detentores dos órgãos de informação. (…)

Contrariamente ao que por vezes se ouve dizer, isto não significa que antes da consolidação da democracia representativa como forma de governo não tivesse havido outras tentativas, algumas relativamente bem conseguidas, de controlo do poder, nomeadamente por via dos chamados corpos intermédios, que na prática funcionavam como uma verdadeira divisão (horizontal) do poder, com a vantagem, relativamente à actual divisão (vertical) do poder, de esse poder moderador ser exercido por entidades pertencentes a diversos estratos sociais enquanto a actual separação de poderes não impede que todos os poderes estejam dominados ou hegemonizados pela mesma classe ou pelos mesmos interesses.

E é essa a razão pela qual os maiores obstáculos ao poder hegemónico continuarem a ser, ainda hoje, os tais corpos intermédios. Daí a luta feroz que o capitalismo trava actualmente tanto no plano político como no ideológico para desagregar essas forças de resistência que, apesar de bastantes debilitadas, continuam a ser as únicas que levantam dificuldades à sua insaciável voracidade. (…)

A igualdade como princípio, isto é, como ponto de partida e objectivo de chegada, é indissociável do conceito de democracia. À medida que o princípio da igualdade foi sendo postergado e até tido, como é hoje o caso, por inimigo da democracia por, segundo o argumento mais corrente, causar graves danos à liberdade individual e à capacidade individual de “empreendedorismo” e à medida que foram sendo implementadas políticas que davam expressão prática àquelas ideias, a democracia foi perdendo terreno, a ponto de hoje se ter tornado, nomeadamente no Ocidente, numa caricatura assente numa encenação ritual na qual o povo participa como figurante, mas de cuja participação não tira quaisquer vantagens. (…)
Uma coisa certa: se a democracia só puder sobreviver como representativa, então ela vai ter que ser substituída por outra forma de governo que assegure uma real proximidade entre os governantes e os reais interesses da maioria esmagadora dos governados…

Não adianta argumentar com a ideia de que pior do que a democracia representativa é a tendência hoje corrente de governantes de outro país ou de forças fácticas poderosas imporem aos governantes eleitos as medidas da governação. Apesar gravidade das situações que se conhecem de que é exemplo mais elucidativo a recente tentativa de Berlim impor um gauleiter a Atenas, tudo isso faz parte da mesma questão. Autonomizar esta parte do problema só serve para assegurar uma sobrevida à democracia representativa tal como existe.»
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As 20 mais belas livrarias



Entre elas, a Ler Devagar, em Lisboa, e a Lello, no Porto. Mas vale a pena ver todas.
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1.2.12

«Este é o tempo» por Ricardo Alexandre e Pedro Rosa Mendes no Parlamento Europeu


Ricardo Alexandre, director-adjunto da Antena 1, responsável pelo programa «Este Tempo», onde deixaram de colaborar Pedro Rosa Mendes, Raquel Freire e outros:

«Este é o tempo da amizade cimentada pelo mesmo chão pisado onde caíam bombas vindas de aviões que não se viam...
Este não é o tempo de assobiar para o lado à espera que do céu caia sobre nós o manto da vergonha...
Este é o tempo de persistir na integridade como património insubstituível para quem tem o privilégio de contar ao mundo as vidas do mundo...
Este não é o tempo de ceder ao que é passageiro e efémero, por mais poderoso que possa ser à passagem...
Este é o tempo de defender aquilo em que acreditamos...
Este não é o tempo da acomodação ou resignação perante a violação daquilo que consideramos elementar e fundamental...
Este é um tempo ao qual assistimos com medo...
Mas não é tempo para que o medo nos assista...
Este tempo é e será o tempo do Pedro e da Raquel, da Rita e do António, do Gonçalo e do Ricardo, da Alice e do José, da Carla e do Alexandre, da Alexandra e do Fausto, do Nuno e do David, do Daniel e da Rosa, da Sofia e da Ana, da Helena e do Carlos, da Marta e da Sandra, do Frederico do Patrício, da Patrícia e do Jorge e de todos aqueles para quem a Rádio e o jornalismo ainda são coisas de mulheres e homens dignos de o serem...
Este é ainda o tempo em que dizemos:
- Obrigado Capitão Salgueiro Maia.»

(Ontem no Facebook)

P.S. - Hoje, Após caso de Angola, Ricardo Alexandre deixa manhãs da Antena 1

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Entretanto, por iniciativa de Rui Tavares, Pedro Rosa Mendes esteve hoje no Parlamento Europeu.
Introdução por Rui Tavares, minutos 7:50 – 20:43.
Pedro Rosa Mendes, 20:43 – 38:42
Debate com intervenção de Ana Gomes, a partir do minuto 48:19.


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Para quê uma réplica?

Deu a louca na Farinha Amparo


Que o mundo da Justiça é absolutamente desgraçado, e não parece ter emenda, já todos o sabíamos e confirmámos ontem, uma vez mais, com o desfile de discursos na abertura do Ano Judicial.


Mesmo que muitos fiquem abaixo disso, há que ter um pouco de tento na língua, num país com 13,6% de desempregados. Ou estaremos todos, em breve, a dar razão aos lamentos de Cavaco Silva sobre as suas reformas.
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31.1.12

Vindos dos antípodas


Fui buscar alguns elementos do texto que escrevi ontem, a propósito dos 90 anos de Nuno Teotónio Pereira, a um post que publiquei em 2008, em resultado de uma longa conversa que tive com ele e com Edmundo Pedro e da qual guardo mais de duas horas de gravação.

O eco que o post de ontem teve em vários sites, blogues e Facebook leva-me a «repescar» uma parte da dita conversa, pelo eventual interesse em recordar, ou dar a conhecer, alguns etapas das juventudes tão extraordinariamente diferentes destas duas pessoas – que hoje são amigas e muito se respeitam mutuamente.

Nuno Teotónio Pereira (NTP) nasceu no ano em que Mussolini organizou a célebre marcha sobre Roma, que o conduziria à chefia do governo italiano (1922), Edmundo Pedro (EP) três dias antes do fim da I Guerra Mundial (1918). Embora tenham hoje posições muito semelhantes sobre o mundo e sobre a vida, chegaram a este mundo em contextos que dificilmente podiam ter sido mais distintos.

EP veio do meio operário, tinha seis anos quando o pai foi deportado para a Guiné por actividades subversivas e aderiu muito cedo ao Partido Comunista. NTP nasceu numa família burguesa, conservadora, monárquica e católica.

Curiosamente, a vida viria a «reuni-los», durante a adolescência, num mesmo quarteirão de Lisboa – facto que só descobriram na conversa que tiveram comigo. Com efeito, EP frequentou a escola industrial Machado de Castro, nas traseiras do liceu Pedro Nunes, onde NTP fez todo o secundário. Pelas minhas contas, terão coabitado assim, sem o saberem, paredes-meias mas de costas bem voltadas, durante dois ou três anos. «Via os vossos desafios de futebol, era o campo que separava as nossas escolas», lembra EP. «Havia uma diferença de classes bem visível», comenta NTP: «o meu liceu dava para uma bela e larga avenida, a tua escola para uma rua estreita e feia».

Li-lhes excertos de textos que escreveram sobre o que foi, para cada um, o ano de 1936.

Em Fevereiro, EP, então com dezassete anos, foi preso pela terceira vez. Passou algum tempo numa esquadra em Benfica, foi transferido depois para o Aljube e mais tarde para Peniche. NTP continuava no Liceu Pedro Nunes e, em Maio desse mesmo ano, viveu intensamente a criação da Mocidade Portuguesa:

«Com alguns colegas do liceu, logo corremos a uma loja da Rua das Portas de S. Antão para comprarmos as fardas. (…) A partir dai, fiz uma carreira fulgurante na Mocidade, envergando orgulhosamente o uniforme com a camisa verde e o S de Salazar na fivela do cinto, e participando nas marchas pela Avenida da Liberdade abaixo fazendo a saudação fascista (…) Salazar era criticado por nunca ter vestido uma farda e só timidamente fazer uma ou outra vez a saudação fascista».

Muito mais curioso é perceber como ambos viveram, em posições absolutamente antagónicas, o grande acontecimento desse ano de 1936: o início, em Julho, da Guerra Civil de Espanha.

Escreve NTP: «Apaixonei-me, acompanhando meu Pai, pela causa nacionalista. Ouvíamos sofregamente todas as noites o noticiário do Rádio Clube Português, dirigido pelo major Botelho Moniz (…). Amante da geografia, arranjei rapidamente um mapa da Península, onde ia registando os avanços das colunas franquistas em direcção a Madrid».

Escreve EP, então preso em Peniche: «Vivemos o primeiro mês da guerra civil sob uma enorme tensão. (…) Acabámos por dispor de um rádio rudimentar que nós próprios construímos (…) que nos permitia, com alguma dificuldade, ouvir as emissões do Rádio Clube Português. (…) Arranjámos rapidamente um mapa onde assinalávamos as posições dos dois lados. (…) Saltava à vista que a área controlada pelas forças da República era muito maior do que aquelas que os fascistas detinham».

Riem-se ambos quando lhes leio estes textos. Quase nem querem acreditar e repetem, várias vezes: «É curioso, muito curioso!»

EP faz notar que teria certamente combatido em Espanha se não tivesse sido preso pouco antes da data em que deveria partir para a União Soviética, para uma estadia planeada pelo PCP. Como tantos outros, teria vindo combater ao lado dos republicanos, «onde se julgava estar a decidir-se o percurso e o destino da revolução mundial».

Em Lisboa, NTP envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as tropas franquistas.

Estranhos paralelismos, revisitados tantas décadas mais tarde. De duas pessoas que, desde ontem, estão ambas na casa dos 90.

(A partir daqui. Continuação da conversa aqui e aqui.)
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Política na parede


O Pedro Correia diz-me que anda por Lisboa à procura de Política na parede e eu apresso-me a oferecer-lhe esta «peça» antes que ele a descubra.

P.S. – A foto foi tirada por Jorge Pires da Conceição e o muro ainda existe (julgo que perto da Estrada da Luz, em Lisboa).
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Se isto pudesse acontecer!...

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30.1.12

A política morreu porquê?


No passado dia 29/12/2011, Ricardo Araújo Pereira fez parte do terceiro painel do ciclo «Desconferências», subordinado ao tema «O Fim da Crise», no Teatro S. Luiz, em Lisboa. Texto da sua intervenção (ou parte dele), recebido por mail:

A política morreu porquê?

Várias hipóteses:

1. A primeira é a de que morreu porque deixou de ser necessária. O sonho dos nossos antepassados cumpriu-se. Os portugueses vivem hoje num país nórdico: pagamos impostos como no Norte da Europa e temos a qualidade de vida do Norte de África.

Somos um País onde nem Américo Amorim se acha rico. E porquê? Porque somos dez milhões de milionários. Temos a vida que os milionários têm. Cada um de nós tem um banco e uma ilha, é certo que é o mesmo banco e a mesma ilha, que é o BPN e a Madeira, mas todos os contribuintes são proprietários de um bocadinho.

2. A outra hipótese é: não há política porque só há economia. E enfim, a teoria medieval concebia apenas duas formas de governo: na primeira, o fluxo do poder era ascendente. O poder emanava do povo e o povo delegava nos seus representantes. Na outra forma de governo, o poder fazia o percurso inverso: emanava do príncipe e o príncipe delegava nas outras figuras do Estado. O nosso modelo é um híbrido, no sentido em que do povo emana o poder para eleger os representantes na figura de pessoas como Miguel Relvas e o seu vice-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. E há depois o príncipe, que é a troika, do qual também emana poder. E a troika delegou o poder nas mesmas pessoas. Portanto, há um engarrafamento de poder nesta gente e, como é evidente, o poder que vem de cima é mais forte do que aquele que nós mandámos para lá e é isso. O poder deles tem mais força. E o nosso... voltou para trás.

Há problemas no facto de a política ter morrido:

1. O primeiro é: a política percebe-se. Já a economia é muito mais difícil de compreender. Eles simplificam, isso é verdade. Por exemplo, primeiro os mercados começaram a dizer que nós éramos PIGS: Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha. PIGS, porcos! Depois disseram: Portugal é lixo. É uma metáfora muito repetitiva, mas é clara. Facilita a compreensão. Reparem, eu não sei ao certo o que é o "subprime", nem o que são "hedge funds", mas quando uma pessoa me diz: "tu és lixo", eu percebo do que está a falar. Eu sei exactamente. Claro que é triste esta liberdade vocabular não ser permitida a quem está em baixo: a gente vê uma manchete a dizer: "mercados consideram que Portugal é lixo", mas é impensável, na página seguinte, ter: "Portugal vai tentar renegociar a dívida com os chulos". Isso não nos é permitido. Eles têm o capital financeiro e o capital semântico, tudo o que é capital, açambarcam, isto torna a vida difícil.


E ela comprou uma Burberry falsa…



Agora, contam os tostões…
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Desbragada humilhação


Qualquer que venha a ser o resultado da proposta da transformação da Grécia em protectorado, feita (obviamente…) pela Alemanha, toda a indignação possível nunca é demasiada, nem sequer suficiente. Chegou-se, como muitos já escreveram, ao «fim da linha». E onde está «Grécia», leia-se amanhã «Portugal».

Um dia, talvez a Europa acorde gerida por um funcionário de um outro continente. Se não estivéssemos a falar de coisas muito sérias e desgraçadas, apetecia dizer: «Bem feito!».

A reter, dois textos de hoje:

«A história da decadência da União Europeia entrou num novo estádio e a mais desbragada humilhação está em curso. (…)
A soberania já tinha sido hipotecada a troco do empréstimo externo. Agora a Alemanha espera que lhe seja oferecida de boa-vontade – como se houvesse uma espécie de quinta coluna em todos os países europeus prontos a facilitar a ocupação alemã sem resistência. (…)
O que é espantoso é a naturalidade com que a Alemanha – a quem a Europa perdoou a dívida da Segunda Guerra – acorda agora todos os monstros possíveis sem tremer. (…)
A degenerescência europeia atingiu o seu ponto de não retorno.»

Manuel António Pina, Passa para cá a soberania
«Os olhos cobiçosos da sra. Merkel não são substancialmente distintos, senão nos processos, dos que uma outra Alemanha deitou há décadas à soberania dos países vizinhos, Grécia incluída. Taxas de juro usurárias e batalhões de burocratas com "certos poderes de decisão" que reforcem "o controlo dos programas e das medidas 'in loco'" são coisa mais discreta mas não menos arrasadora do que "panzers" e exércitos de ocupação. O seu efeito prático é, porém, o mesmo: a sujeição de um país e de um povo.»
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Nos 90 anos de Nuno Teotónio Pereira


Nasceu em 30 de Janeiro de 1922, numa família burguesa, monárquica, católica e afecta ao salazarismo, facto que viria a marcá-lo profundamente na primeira parte da vida.

Arquitecto de mérito reconhecidíssimo, mestre de gerações que com ele colaboraram num quase mítico atelier de Lisboa, publicamente louvado e premiado em sessenta anos de actividade profissional dedicada à «arquitectura e cidadania»; a partir do fim dos anos 50, também militante incansável na oposição à ditadura, preso mais do que uma vez pela PIDE, torturado e libertado de Caxias no dia seguinte à revolução de Abril – é esta a pessoa de Nuno Teotónio Pereira, que importa hoje referir, embora muito resumidamente, sobretudo para os mais novos e para os que não se cruzaram com ele na sua longa vida.

O seu percurso foi muito especial e pouco comum. Com 14 anos, viveu entusiasticamente a criação da Mocidade Portuguesa, nela fez uma carreira fulgurante, envergou orgulhosamente a farda em desfiles na Avenida da Liberdade e não evitou a saudação fascista – faz questão de não o esconder. Nesse mesmo ano de 1936, seguiu apaixonadamente o avanço das tropas franquistas no início da Guerra Civil de Espanha e  envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as mesmas.

A grande viragem sem retorno começou durante a II Guerra Mundial, por influência do pai, profundamente anglófilo, mas viria a concretizar-se, decisivamente, durante a campanha de Humberto Delgado, em 1958. Não só por todo o ambiente criado em torno desta, mas também por uma grande influência de sua mulher Natália e de Francisco Lino Neto, a quem Nuno Teotónio Pereira afirma ter ficado a dever a sua «conversão». E é já com entusiasmo que segue a vitória de Fidel de Castro, em Cuba, em 1959…

A partir de então, e até ao fim da ditadura, foram anos de uma militância intensíssima, sobretudo nos diversos campos de actividade dos que vieram a ser designados como «católicos progressistas». Desde os primeiros anos da década de 60 e até ao 25 de Abril, a oposição dos católicos ao regime político e à guerra colonial, e a revolta crescente que manifestaram em relação às posições oficiais da Igreja portuguesa, deram origem a plataformas de luta que adoptaram estruturas diversas, mais ou menos maleáveis conforme os casos, mas que envolveram, directa ou indirectamente, milhares de pessoas. Nessa teia de iniciativas e instituições, houve quem tivesse um papel especial na dinamização e agilização de contactos e na concretização de acções conjuntas. Vários nomes podiam ser citados, mas, se fosse necessário escolher apenas um, seria sem dúvida o de Nuno Teotónio Pereira. Com a sua simplicidade desconcertante, tenacidade férrea e pragmatismo à prova de fogo, deitava as sementes, estabelecia todas as pontes possíveis e acompanhava detalhadamente as realizações.

Qualquer lista de iniciativas peca por (grande) defeito, mas citem-se, a título de meros exemplos, a criação do primeiro jornal clandestino que difundiu notícias sobre a guerra colonial (Direito à Informação, 1963), a fundação da cooperativa Pragma (1964), o papel preponderante nas vigílias pela paz (igreja de S. Domingos, 1969, e capela do Rato, 1972), os cadernos GEDOC (1969), a participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (1970), o Boletim Anti-Colonial (1972). E muitas, muitas outras realizações que, sem ele, nunca teriam existido ou ficariam aquém da amplitude que tiveram.

Em finais de 1973, foi preso pela última vez, durissimamente torturado pela PIDE e só o 25 de Abril o restituiu à liberdade. Foi depois um dos fundadores do MES, nele se manteve até à sua extinção e nunca deixou de ter, desde então, uma participação cívica muito activa, nomeadamente a nível da cidade de Lisboa.

Há pouco menos de três anos, a vida deu-lhe um golpe cruel: cegou, mais ou menos repentinamente. Mas continuou preocupado com tudo e com todos.

Há cerca de um ano, a pretexto do lançamento de um livro sobre uma cooperativa lançada no Porto nos anos 60 (a Confronto), um grupo de amigos decidiu prestar-lhe uma espécie de homenagem e foi sem surpresa que viram encher-se um auditório com várias centenas de pessoas. Para todas elas, o Nuno foi – e é – uma referência, um marco de vida e objecto de uma enorme gratidão.

A encerrar a referida sessão afirmou: «Estou velho, estou a chegar aos 90 anos. Há órgãos que me estão a falhar. Um deles é a memória, que se está a desfazer como pó, o que me causa um certo sofrimento. (…) Além da perda da visão. Estou emocionado, mas estou muito contente, porque esta sessão, tendo sido anunciada como de homenagem à minha pessoa e não deixando de o ser, fez também justiça a todos aqueles que eu conheci na luta contra a ditadura, naqueles anos difíceis. (…) Os dias de hoje, e porventura os de amanhã, vão exigir acções múltiplas, fortes, convictas. e por vezes decisivas, para que o mundo seja melhor para todos. (…) Muito obrigado.»

Neste vídeo, a sua intervenção na íntegra:


P.S. - Post republicado por:
* Centro Nacional de Cultura
* Forum Abel Varzim
* Esquerda.net

* Não Apaguem a Memória!
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29.1.12

Aventuras dos jovens deuses


Los señores del Reino del Miedo
no producían maíz, ni chocolate, ni mantas.
Ellos sólo producían miedo.
Y con miedo pagaban a los hombres y a las mujeres
que cultivaban la tierra
y tejían el algodón.
Quien protestaba, moría;
y también la duda estaba condenada.

Eduardo Galeano
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Entretanto em Davos


Um «resumo» entre outros possíveis:

«Lamentamos sinceramente decirles que han vivido por encima de sus posibilidades y van a pasar años de penalidades. Lamentamos sinceramente reconocer que la banca es una de las grandes culpables de esta crisis, pero es intocable porque sin ella todo esto se viene abajo. Lamentamos sinceramente comunicarles que todos los problemas globales se resumen en uno, Europa, y que como las leyes de la economía son despiadadas Europa lo va a pagar caro. La edición de 2012 del Foro Económico Mundial se cierra hoy en Davos con esos tres lamentos a modo de resumen. La Gran Recesión se encamina hacia su quinto año y lo más probable es que ese no sea más que el ecuador de esta amarga travesía, especialmente en el viejo continente: el hombre de Davos, sea lo que sea el hombre de Davos, ve tres riesgos por delante. La santísima trinidad: Europa, el euro y la UE.»

Continuar a ler.
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Nada exagerados


… nuestros hermanos:

Confesso que apenas sigo de muito longe esta tragédia madrilena, mas ver comparar Mourinho a Franco como objecto de amor e de ódios, e ouvir falar de «mourinhismo» e «antimourinhismo», diverte-me profundamente!...
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O país em saldos


O Público de hoje edita um vasto dossier subordinado ao tema «De corte em corte, à procura da competitividade, mas em risco de cair numa espiral», tema que também é abordado no Editorial (sem link) . Alguns excertos deste último:

«Se o túnel europeu é longo e sinuoso, o túnel português está às escuras. O optimismo do primeiro-ministro, que esta semana insistiu não precisar “nem de mais tempo nem de mais dinheiro” para tirar o país da crise, esbarra diariamente na realidade.

Do Nobel da Paz Muhammad Yunus em Davos, Mario Monti em Itália, Barack Obama nos EUA ou o círculo de proeminentes cavaquistas em Portugal, aumenta a passos rápidos o clube dos que defendem que a austeridade, sozinha, não é a solução para a crise; que o mundo não pode continuar obcecado com o défice, a cortar e a aplicar severos programas de austeridade; que este caminho vai levar a uma desestruturação da economia e a uma espiral económica negativa de efeitos imprevisíveis; que temos que começar a pensar a sério no crescimento, no investimento e na criação de emprego. Finalmente, este é o tema da próxima cimeira europeia, amanhã em Bruxelas.

Mas de Melgaço a Silves, o túnel está escuro. (…) Portugal está a poupar para ficar mais pobre. (…) Mais do que a desvalorização real do país, o que angustia são os sinais de que o túnel, em vez de ter no fim uma luz, ainda que ténue, tem um muro. (…)

Estamos num ciclo vicioso. O país está em saldos e a época da nova colecção foi adiada. Não sabemos por quantos anos.»
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