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20.12.14

Isto foi feito por hackers, certo?




Atacaram os sistemas informáticos do Palácio de Belém e gravaram isto com duas figuras roubadas num Museu de Cera. Não havia necessidade... 
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Bem me parecia que 20 de Dezembro me recordava algo



«Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco!» – dizia-se em Espanha, em 20 de Dezembro de 1973.

Mais tarde, em Setembro de 1975, quando se deu em Lisboa a ataque à Embaixada de Espanha, foi em português que a frase foi gritada.



Nuestros hermanos nunca brincaram em serviço.
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Entretanto, em Cuba


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Para onde foram os nossos anéis



“Vão-se os anéis, ficam os dedos.” Este provérbio é muitas vezes usado na defesa das privatizações de empresas públicas pelos sucessivos governos, desde que elas foram permitidas pela revisão constitucional de 1989 e se transformaram no expediente recorrente para equilibrar as contas do Estado, sempre sob a justificação ideológica de que a sua propriedade e gestão não competem aos Estado, mas aos privados. (...)

A questão que se coloca é a de saber qual o expediente que os governos vão encontrar para gerir as finanças do Estado quando se acabarem os “anéis” para vender – ou seja, quando o Estado não tiver mais empresas para serem privatizadas. O que vai então ser alienado para a esfera da gestão privada? Os serviços públicos do Estado social? As funções de soberania? As estruturas que asseguram a segurança interna? (...)

Quem olha para os “anéis” que os sucessivos governos portugueses têm vendido nos últimos 25 anos, e vê a quem eles pertencem hoje, verifica a forte presença de grupos empresariais com origem em países não democráticos. Uma presença cujo peso não se constata hoje apenas nas empresas privatizadas ou em sectores estratégicos, se bem que essa presença tenha crescido exponencialmente sob a gestão política do Governo de Pedro Passos Coelho. Assim vejamos. Os angolanos detêm participações no BPI, no BIC, no BCP, na Galp, na Soares da Costa, na Coba, na Viauto, na Nos, na Tobis e na Controlinveste. Os chineses possuem participações na EDP, na REN, no BESI, na Fidelidade e na Espírito Santo Saúde.

Há ainda uma outra perspectiva de reflexão sobre este tema que se prende com o facto de entre aqueles que adquirem firmas nas privatizações portuguesas haver um forte peso de grupos empresariais com origem em países que em outras épocas estiveram, em parte ou no seu todo, integrados no que foi o império colonial português – nomeadamente, Angola, que foi colónia portuguesa até 1975, e a China, onde os portugueses possuíram feitorias, tendo administrado Macau até 2000. Esta perspectiva foi mesmo abordada pelo jornal espanhol El Confidencial na peça “Portugal, la nueva colonia de Angola”.

É certo que esta situação se impõe pela livre concorrência mercantil que impera hoje no mundo dos negócios vivido à escala da globalização. Mas a sua constatação, que surge como uma ironia do destino, pode ser olhada, do ponto de vista simbólico, como uma metáfora do império às avessas.» (Os realces são meus.)

São José Almeida

19.12.14

O'Neill faria hoje 90 anos



Custa um pouco imaginar que Alexandre O'Neill podia fazer hoje 90 anos, porque a sua imagem parou para nós quando tinha pouco mais de 60. Mas é um facto.

Bem gostaria de o ouvir sobre os tempos que agora passam, de o ver olhar este país, de perceber se as três sílabas de Portugal ainda são de plástico ou se já foram recicladas. É verdade que ainda «há mar e mar, há ir e voltar» – e ar e ar, com ou sem voar. Em todo o caso, uma coisa é certa: o país continua engravatado todo o ano e a assoar-se à gravata por engano. 


O País Relativo

País por conhecer, por escrever, por ler...

País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
- Não, não é para mim este país!
Mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

Entrincheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

País do cibinho mastigado
devagarinho.

País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de alegria.

Moroso país da surda cólera,
do repente que se quer feliz.

Já sabemos, país, que és um homenzinho...

País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.

A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.

País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto de nuvens ideia!

Corre, boleada, pelo azul,
a frota de nuvens pelo país.

País desconfiado a reolhar por cima
dum ombro que, com razão, duvida.

Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania
sem perder tempo nem caligrafia.

Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!

A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.

Que Santa Suplicanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!

País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.

Da ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...

Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.

Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!

Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!

Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...

No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.

Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste pra mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!"

Alexandre O'Neill, Feira Cabisbaixa, 1965
 

Lido por aí (190)


@João Abel Manta

* ¿Llegó el día D? (Yoani Sánchez)

* Quantos pregos pregam os governantes no caixão da Europa? (Francisco Louçã)

* A greve que protege os emigrantes e o país (Mariana Mortágua)
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Quando Salazar perdeu a primeira fatia do império


@João Abel Manta

Foi na manhã de 17 de Dezembro de 1961 que tiveram início as operações militares que levaram à ocupação da cidade de Pangim, capital de Goa, na noite do dia seguinte. O «império português» levou então uma grande machadada com a anexação de parte do seu território pela União Indiana.

Tenho à minha frente o texto do célebre discurso que Salazar fez sobre o assunto na Assembleia Nacional, em 3 de Janeiro de 1962 (lido, relido e por mim sublinhado…) (*). É um longo elogio ao «pequeno país» que manteve o seu território «com sacrifícios ingentes», ignorados e combatidos por quase todos e, antes de mais, pela ONU, desde sempre objecto de um ódio muito especial do ditador. Ficam algumas passagens.

Desde logo, a primeira frase: «Não costumo escrever para a História e sinto ter de fazê-lo hoje, mas a Nação tem pleno direito de saber como e porque se encontra despojada do estado Português da Índia». (Escrever para a História…)

«Não sei se seremos o primeiro país a abandonar as Nações Unidas, mas estaremos certamente entre os primeiros. E entretanto recusar-lhes-emos a colaboração que não seja do nosso interesse directo.» Ainda sobre as Nações Unidas, dirá também que «na melhor das hipóteses se encontram antecipadas de séculos em relação ao espírito dos homens e das sociedades», e que há que perguntar se vamos no bom caminho «quando se confiam os destinos da comunidade internacional a maiorias que definem a política que os outros têm de pagar e de sofrer».

Mas a cereja em cima do bolo é mesmo a frase, trágica e heróica, com que o discurso acaba e que, essa sim, é amplamente conhecida: «Toda a Nação sente na sua carne e no seu espírito a tragédia que se tem vivido, e vivê-la no seu seio é ainda uma consolação, embora pequena, para quem desejara morrer com ela.»

Este ambiente tenebroso, em que o país viveu durante décadas, deixou marcas profundas. Ainda as sentimos.E de que maneira!

(*) Estava afónico «com as emoções das últimas semanas» e quem o leu, de facto, foi Mário de Figueiredo. 
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Procrastinar



«Olhando para trás, para o início de 2014, o que me apetece dizer é que este foi um ano perdido. O Governo deixou muito por fazer e, nos últimos meses, as indecisões, os atrasos e a falta de capacidade de concretização tornaram-se regra. É como se a ideologia reinante fosse a procrastinação – não faças hoje o que não te apetece que aconteça amanhã. (...)

Este é, sobretudo, o ano daquilo que não aconteceu – mesmo que alguns episódios laterais, como o caso da corrupção nos vistos gold, a queda do BES e de Ricardo Salgado e a detenção de José Sócrates possam parecer indícios de mudança. Lamento muito ter opinião contrária – tudo isto foram distracções, areia lançada para a ventoinha de forma a tornar a visão menos clara e fazer esquecer a falta de mudanças de fundo. Nada do que se passou faz mudar o regime, embora até possa ser justo que algumas coisas tenham acontecido. (...)

Este é o ano em que se completam quatro décadas sobre a mudança de regime, em 1974. Seria curioso estudar quanto dessas décadas foi tempo perdido, agora que temos quase tanto tempo de democracia como de ditadura. Hoje, finalmente, começamos a ter uma ideia de que, em termos de país, a nossa mudança foi fraca, pouco produtiva e que gerou muita corrupção e um sistema político-partidário mais do que suspeito. Não é um bom retrato de quem entra nos quarentas.»

Manuel Falcão
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18.12.14

Lido por aí (189)

Divagações natalícias



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«O anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: "Levanta-te e toma a criança e a sua mãe, e foge para o Egipto, e aí fica até que eu te fale e, entretanto, assiste à Música no Coração e ao Sozinho em Casa2, porque a casa que irás habitar está equipada com um pacote de TV com 150 canais, que também inclui internet e telefone e por apenas 49,99 euros por mês."»

Na íntegra AQUI.

TAP. E quanto a protestos?


O PS, como maior partido da oposição, já convocou alguma manifestação, para hoje ou amanhã, contra as recentes decisões do governo? E contactou os outros partidos e associações cívicas, bem como os cidadãos em geral, para o efeito? Um bom local de concentração seria a Fonte Luminosa. 
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O nosso Homer



«Num dos melhores episódios dos "Simpsons", Homer coloca um vídeo no Youtube em que desfaz as companhias aéreas pela forma como tratam os passageiros.

É um sucesso e ele vai fazer um programa de política na televisão por cabo. Símbolo dos americanos, Homer é rapidamente convidado pelo Partido Republicano para escolher o próximo candidato presidencial.

Homer escolhe Ted Nugent, um conhecido conservador e músico de rock. No fim, Homer acaba por reconhecer que tomou a decisão errada e muito do que disse no seu programa não tinha sentido nenhum. Homer e Passos Coelho têm em comum uma coisa: conhecem a arte da sobrevivência. Diferem porque Passos nunca reconhece que erra. (...)

Homer Simpson partiria para a luta e poria tudo em pratos limpos. Passos Coelho, nascido e exercitado no mundo da política partidária profissional, sabe que esperar compensa. E que centralizar as decisões, só escutando o selecto núcleo de intelectuais que inventaram este modelo para o "novo Portugal", é a sua forma de sobrevivência. Por isso, resguarda-se. Cria a sua fábrica de ilusões e impõe-nas ao partido. Sem discussão. Passos acha que é o PSD. E este, lamentavelmente, cala-se e aceita.»

Fernando Sobral

17.12.14

Dia histórico



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E por falar em submarinos


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Lido por aí (188)

O que nos aconteceu?



Há dois anos, o governo recuou na decisão de aumentar a TSU por imposição da rua, na maior manifestação desde 1974. 

Agora, não há nenhuma vaga de fundo, pequena ou grande, para que o mesmo governo recue na decisão de privatizar a TAP nos termos em que decidiu fazê-lo – tem campo livre, a rua é dele. O que nos aconteceu? (E quem diz TAP, diz outro tema qualquer.) 
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Problemas «deles»



«Há dias em que a coligação governamental parece ter vergonha de si própria. Olha-se ao espelho e não consegue ser como Dorian Gray: as rugas vêem-se à distância. Talvez por isso, entre a pressa de alguns e a prudência de outros, a coligação para as eleições de 2015 esteja à espera numa caixa de costura. (...)

O PP gere o tempo: cada dia a menos de coligação é menos um dia de compromisso. (...) Portas, que já engoliu muitos elefantes nesta coligação, sabe que os próximos meses vão ser tão estratégicos como saber mover pedras num tabuleiro de xadrez. Não se quer comprometer demasiado com jogadas que não possam ter alternativas. A começar pela elaboração de um programa rígido comum e terminando na escolha do perfil do candidato a PR (que será sempre "mais PSD").

Portas segue Bismarck, que acertadamente, dava lições políticas: "Um estadista não pode criar nada. Tem de esperar e ficar à escuta até ouvir os passos de Deus ecoando pelos acontecimentos, para depois, de um salto, se agarrar às Suas vestes". E esses passos ainda não se escutam.»

Fernando Sobral
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16.12.14

Pergunta subtil


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Mudança de paradigma



Expresso diário, 16/12/2014, excerto:

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Lido por aí (187)

Conferência sobre a Dívida Pública, hoje na AR



«O colóquio que hoje decorre na Assembleia da República sobre a reestruturação da dívida pareceria um Concílio que discutisse o purgatório, se sequer os participantes se entendessem sobre a existência do dito cujo. Se tal improvável consenso existisse, ainda assim uns achariam que expiar as longas culpas é o remédio que a nossa sociedade merece, ao passo que outros protestariam contra a prisão que tal purga representa. Ora, nem os ocasionais confrades estão de acordo sobre a importância do assunto, nem mesmo se acertam sobre a materialidade da questão, para não referir a sua espiritualidade, nem muito menos as condições lhes permitiriam pretender tomar decisões sobre este purgatório, ainda que porventura alcançassem um raro acordo para agir. Uma heterogenia, em suma.

Esforço discreto num parlamento dominado por partidos que preferem que não se fale no assunto, o colóquio é, ainda assim, uma homenagem do vício à virtude: se não se pode deixar de falar dela, pois então venham os especialistas e despache-se o incómodo, que está a chegar o Natal.»

Francisco Louçã

15.12.14

É o que está a acontecer


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O padre Felicidade já morreu há 16 anos




Com um dia de atraso, e retomando, em parte, um texto que em tempos publiquei, faço questão de recordar que José da Felicidade Alves morreu no dia 14 de Dezembro de 1998, com 73 anos. 

Com uma vida atribuladíssima, foi uma das figuras centrais da oposição dos católicos à ditadura, sobretudo a partir de meados da década de 60. Não se estranhe que continue a chamar-lhe «padre Felicidade»: faço-o unicamente porque foi como ele sempre desejou ser tratado – até ao fim. 

Prior da paróquia de Santa Maria de Belém, em Lisboa, desde 1956, foi sobretudo a partir de 1967 que as suas intervenções começaram a causar incómodo tanto ao poder político como ao eclesiástico (embora já em 1965 tivesse sido enviado por Cerejeira para Paris). 

No início de 68, ausentou­‑se de novo para aquela cidade (continuando, no entanto, como prior titular de Belém) para prosseguir estudos de Teologia Ecuménica. De visita a Lisboa por ocasião da Páscoa, resolveu fazer uma comunicação ao Conselho Paroquial, na presença de oitenta pessoas, comunicação essa que desencadeou um longo e atribulado processo que iria culminar no seu afastamento da paróquia, na suspensão das funções sacerdotais e, já em 1970, na excomunhão (ou seja exclusão da própria comunidade eclesial). A comunicação de 19 de Abril tinha duas partes: Perspectivas de transformação nas estruturas da Igreja e Sentido da responsabilidade pessoal na vida pública do meu país, sendo abordados, nesta última, problemas que iam da necessidade da abolição da censura, ao direito à informação e à discussão da guerra colonial. 

O cardeal Cerejeira avançou com uma tentativa de o retirar da paróquia logo em Maio, mas seguiu-se todo um processo, recheado de peripécias, que terminou com a referida suspensão das funções sacerdotais.

Houve então inúmeras reacções de paroquianos e de centenas de padres e de leigos. A páginas tantas, não me recordo exactamente quando, um grande grupo de pessoas, solidário com o padre Felicidade, dirigiu­‑se de Belém para o Patriarcado, onde se acantonou no átrio e numa pequena área do passeio, protegida por um gradeamento e por isso a salvo da intervenção policial. Foi pedida uma audiência a Cerejeira que não apareceu mas enviou um secretário para dispersar os presentes. Ficará na memória de todos «Esta casa é nossa!», um grito repetidamente lançado nessa tarde, no seu jeito bem peculiar, por Francisco de Sousa Tavares. O cardeal não nos recebeu, mas estava reunido, a essa mesma hora, com alguns paroquianos de Belém muito activos contra o padre Felicidade. Quando esta reunião terminou e os participantes desceram a escada do paço patriarcal, deu­­­‑se uma cena patética: uma dessas pessoas, salazarista ferrenho, viu no meio da multidão que se encontrava no átrio a mulher acompanhada pela filha. Ele gritou mandando­‑as para casa, elas choraram abraçadas, silenciosamente. Inesquecível. 

Uma das principais iniciativas do padre Felicidade depois do afastamento da paróquia de Belém, em Novembro de 1968, foi a publicação de onze números dos Cadernos GEDOC, em 1969 e 1970, dos quais foi o grande impulsionador (juntamente com Nuno Teotónio Pereira e Abílio Tavares Cardoso). Publicação que começou por ser legal, embora à revelia e prontamente condenada pelo cardeal Cerejeira, passou à clandestinidade quando os seus principais responsáveis, incluindo o padre Felicidade, foram presos pela PIDE.

Depois do 25 de Abril, Felicidade Alves aderiu ao PCP, onde se manteve até morrer, embora sem actividade de militância nos últimos anos. Até neste aspecto a sua vida foi atípica, já que foram poucos os chamados «católicos progressistas» que escolheram tal percurso.

Mas verdadeiramente decisiva foi a sua grande influência nos meios católicos, a frontalidade das atitudes e do discurso. Como muito bem definiu Abílio Tavares Cardoso, um dos seus principais compagons de route, os textos do padre Felicidade «não traduzem só um novo paradigma de estar e de lutar na Igreja, mas vão ficar na história como páginas antológicas para uma literatura de indignação».

 Tinha-se casado civilmente em 1970, mas só em 10 de Junho de 1998, seis meses antes de morrer, trinta anos após o início de um longo processo dramático com a Igreja e quando, finalmente, foram resolvidos os problemas a nível do Vaticano, é que o cardeal José Policarpo celebrou o seu casamento canónico – tal como o padre Felicidade sempre desejara. 


P.S. – Este texto resulta, em parte, de transcrição e adaptação de algumas páginas de um livro que publiquei em 2007: Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses contra a ditadura, Âmbar, 248 pág.
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Lido por aí (186)

Máquinas voadoras



«Leonardo da Vinci sonhou, um dia, criar uma máquina que permitisse aos homens voar como os pássaros. Na TAP parece existir a vontade de uma companhia aterrar para sempre.

Ícaro chegou à transportadora aérea nacional: o sonho da liberdade através da privatização está a fazer com que a cera das asas derreta. Porque todos querem voar junto do seu sol. E este é inclemente para quem desafia as leis da sensatez. Há anos que a privatização da TAP é uma obsessão. Agora também, a acreditar na semântica quadrada do ministro Pires de Lima, ela tem de se fazer "por convicção". Ou seja, a lenda cria o facto, a ficção cria a realidade. (...)

O Governo, "por convicção" esquece bondosamente, como aconteceu com o corte da ligação para a Guiné-Bissau, que pressionou politicamente para que a operação fosse retomada. Mostrando que ter uma voz na TAP faz parte do poder político e estratégico do país. Se deixar de o ter, tal como na PT, perderá mais um braço armado. E já não restam muitos. É aqui que a "convicção" e o interesse nacional divergem. E a questão nem sequer é ser a favor do estatismo ou da economia privada. É de sensatez.»  

Fernando Sobral

14.12.14

Ontem, em Nova Iorque



Marcha contra a violência racista da polícia.
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Afinal, isto não está tão diferente assim...



A pedido de várias famílias, mais uma Redacção da Guidinha, de Luís Sttau Monteiro.

A Graça vai ser um país de turismo

Isto cá na Graça vai de mal a pior por causa dos preços mas a gente esta semana teve uma ideia bestial e vai transformar tudo num país de turismo é o que eu digo a Graça vai concorrer com a Espanha com a França com Portugal e com a Itália para começar mandamos imprimir uns folhetos dizendo COME SPENS YOUR VACATIONS IN GRAÇA BECAUSE LE SOLEIL IS THERE com fotografias de mulheres de biquini de raparigas a beijocarem rapazes e de uns rapazes que não se sabe bem quem é que estão a beijocar nem interessa saber estes folhetos foram copiados dos da pirilândia (Algarve) que parece que trazem fregueses mas não ficámos aí estamos a modificar os nomes das lojas a mercearia A Pérola da Graça passa a chamar-se The Pearl of the Graça a tasca do senhor Pombo que se chama Pombo & Filhos Lda. passa a chamar-se Chez les Fils du Pigeon e a barbearia do senhor Jaime passa a chamar-se D. Juan Hair Stylist mas além disso estamos a fazer modificações na actividade comercial os letreiros das lojas por exemplo vão ser modificados onde o Cruz da taberna tem um letreiro que diz Hoje há passarinhos vamos pôr um letreiro iluminado a néon que diz Today are little birds aujourd'hui avons petites oiseaux onde a Dona Isaura escreveu Tenho fava rica vamos pôr I has rich bean e à porta do snack na lista dos comes e bebes onde está Cadelinhas ao natural e à Bulhão Pato vamos pôr Little bitches the Bulhão Duck way enfim progressos por todos os lados para se ver bem como o nosso espírito de iniciativa é bom basta dizer que vamos ter 2.7 piscinas sem gastarmos um tostão para isso vamos encher de água os buracos das ruas outra iniciativa é criarmos uma zona livre no jardim do largo em que ninguém paga impostos já lá pusemos um letreiro com a frase TAX FREE PUBLIC GARDEN FOR TOURIST e vamos ter uma free shop à saída da Graça do lado que dá para Almirante Reis nessa free shop os turistas podem comprar as nossas especialidades que já estão a ser inventadas por uma comissão eleita por uma outra comissão que por sua vez foi eleita por uma quarta comissão o projecto só ainda não começou porque um dos membros da segunda comissão tinha sido saneado por se ter descoberto que um terceiro primo dele era da União Nacional de Barrotes de Cima e vai o homem conseguiu provar que isso era mentira mas com tanto azar que a prova chegou quando as coisas tinham mudado e agora continua saneado por o tal primo não ter sido da União Nacional de Barrotes de Cima há pessoas com muito azar coitadas mas o que tem graça é que as pessoas que o sanearam da primeira vez são as mesmas que o sanearam da segunda se calhar é por essas e por outras iguais que a minha Pátria se chama Graça é que há quem ache graça a essas coisas enfim os nossos planos não ficam por aqui vamos ter um profissional de chapéu de palha na cabeça encostado à esquina da igreja vamos ter outro profissional a fumar droga à porta do restaurante e vamos pôr em cima das retretes em vez das letras wc que ninguém sabe o que querem dizer grandes cartazes com a palavra WELCOME em tinta fluorescente para não haver erros e para toda a gente fazer o que tem a fazer em lugares próprios porque disso que as pessoas fazem já nós temos a mais fora das retretes o que nos falta para isto tudo acabar em beleza é um fundo de turismo mas isto cá na Graça é como em Portugal os únicos fundos que estão à vista são os dos cofres o que é chato olá se é o que vale é que isso não nos assusta nem nos mete medo antes pelo contrário porque não havendo fundos não há quem os administre nem há economistas a viver à custa da gente e onde não há dessa gente não há decepções o meu Pai anda muito aflito porque chamaram um economista para o emprego dele que até agora não precisara de subsídios nem estava falido e ele diz que a partir de agora está tudo perdido porque a obrigação de qualquer economista que se preza é lixar tudo com os seus conhecimentos teóricos aprendidos na Rua do Quelhas e além disso diz o meu Pai que basta terem de pagar o ordenado ao tal economista para a empresa entrar em crise mas nestes períodos de crise não há outro remédio senão fazer a vontade a quem não sabe nada é por isso que os períodos são de crise enfim para a semana tenho grandes notícias para todos notícias que vão espantar muita gente olá se vão adeus adeus adeus.

O Jornal, 18 Maio 1979. 
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Algures, bem a Sul

Lido por aí (185)

Para memória passada


Bagão Félix, ontem:

«Em Março de 2010, no PEC 2 (2010–2013) o governo socialista de então estabeleceu o plano de privatização ou reprivatização de algumas empresas públicas, na sua página 15: “Privatizações nos sectores de energia (Galp Energia, EDP, REN, Hidroeléctrica Cahora Bassa), construção naval e defesa (Estaleiros Navais de Viana de Castelo, Edisoft, Eid, Empordef IT), transporte aéreo (ANA e TAP) e ferroviário (CP Carga e EMEF), financeiro (BPN e Caixa Seguros), comunicações (CTT), distribuição de papel (INAPA), mineiro (Sociedade Portuguesa de Empreendimentos) e concessão de exploração de linhas da CP”.

Quanto à TAP, ficou prevista a alienação de 100% do capital, conforme quadro da página 36.

O PS, então, achou bem. Não se ouviram sequer uns suaves reparos. O PS de agora acha mal. Está no seu direito, mas bom seria que esta alteração de posição fosse melhor explicada, sob pena de a vermos tão-só como a quase compulsiva obrigação de, na oposição, se dizer o oposto de quando se é governo e vice-versa.» 

P.S. – Correcção: no PEC 2, previa-se a privatização parcial, e não total, da TAP.
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