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26.1.16

Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa fascinante conversa (2)



Como tinha anunciado, retomo o relato de uma conversa que tive, em 27 de Maio de 2008, com Edmundo Pedro (EP) e com Nuno Teotónio Pereira (NTP) e que já foi objecto de um primeiro texto publicado neste blogue, por ocasião da morte de NTP. Falaram então sobretudo do início da guerra Civil de Espanha, em Julho de 1936.

No dia 18 de Outubro desse mesmo ano, EP partiu para o Tarrafal, onde ficou até Agosto de 1945. Foi de lá que acompanhou a Segunda Guerra Mundial.
Em Lisboa, NTP começou uma longa evolução pessoal: ao lado do pai, profundamente anglófilo, tomou sempre partido pelos Aliados. «Quando a guerra acabou, era já um democrata», comenta. Para tal mudança terá contribuído, também, a influência da doutrina social da Igreja. Mas quer deixar bem claro que repudiava todas as formas de totalitarismo, «tudo o que fosse fascismo ou que "cheirasse" a comunismo» - em nome das suas convicções religiosas e, também, porque lia os relatos dos crimes do estalinismo. «Em que nós não acreditávamos», comenta EP que era então militante do PCP.

Fala-se depois da campanha de Humberto Delgado, em 1958
Esse ano foi decisivo para uma viragem definitiva na vida e nas convicções de NTP. Por causa da campanha presidencial, certamente, mas muito mais pela influência directa de Francisco Lino Neto. Um documento que este escreveu, em Junho de 1958, foi importantíssimo para NTP e foi um marco incontornável na história da oposição dos católicos (1). Recorde-se que a célebre carta do bispo do Porto a Salazar, datada de 13 de Julho de 1958, é erradamente considerada como o primeiro passo da referida oposição, quando, de facto, foi já uma consequência da iniciativa de Lino Neto. A um outro nível, a vida de NTP foi também fortemente influenciada por Natália, sua mulher: com formação e antecedentes políticos radicalmente diferentes, a presença de Natália - que nem sequer era católica - viria a ser decisiva.
Entretanto, EP, juntamente com Piteira Santos, Varela Gomes e outros, tentou preparar uma insurreição armada que tirasse partido das condições excepcionais criadas pela campanha de Delgado. Mas falharam todas as hipóteses para conjugar esforços e reunir um mínimo de condições indispensáveis.

Volta-se um pouco atrás, a 1956 e à importância da invasão da Hungria pelas tropas soviéticas, especialmente traumatizante para EP:
«Foi o ano das minhas primeiras dúvidas. Um choque brutal, demolidor. Mas a crença no projecto soviético era tão firme que não abanava à primeira. Comecei no entanto a reflectir, sobretudo pelo facto de os operários das fábricas dos arredores de Budapeste resistirem contra o que era suposto ser o seu próprio governo!»

Dá-se depois um salto: doze anos mais tarde, 1968 e a invasão da Checoslováquia. Aqui, vou deixá-los falar, transcrevendo quase ipsis verbis o que disseram.
NTP - «Então e em relação à Primavera de Praga?»
EP - «Isso aí foi quando percebi tudo, claramente. E rompi completamente [com o PCP].»
NTP - «O que se passou com a Primavera de Praga foi terrível. Se tivesse conseguido vencer, tinha provocado grandes transformações no mundo. Tinha-se propagado a outros países e tinha inaugurado uma época fantástica. Assim, o capitalismo fortaleceu-se e o socialismo afundou-se.»
EP - «Tenho muitas dúvidas, porque a União Soviética estava no auge da sua força, tão grande que era capaz de abalar tudo. E aquela intervenção era indispensável para a consolidação do império soviético.»
E, em jeito de conclusão:
«Acompanhei aquilo tudo com uma paixão enorme, com uma grande ilusão. Uma revolução democrática com rosto humano, como a que, uns anos antes, tinha sido anunciada por Fidel de Castro em Cuba.»

De Cuba, da década de 60 em geral e de tudo o que se seguiu, falarei - falarão eles - dentro de alguns dias. Porque a conversa foi longa e ainda faltam umas tantas histórias.

(1) «Considerações dum católico sobre o período eleitoral», Junho de 1958. Documento publicado em José da Felicidade Alves (edição e coordenação), Católicos e Política. De Humberto Delgado a Marcelo Caetano, (s.d.), 288 p., pp. 17-30. 
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