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13.7.13

Há 55 anos, a carta de um bispo



Cerca de um mês depois das eleições presidenciais de 1958, às quais Humberto Delgado tinha concorrido, mais precisamente no dia 13 de Julho, António Ferreira Gomes, bispo do Porto, escreveu uma longa e corajosa carta a Salazar, que lhe valeu dez anos de exílio em Espanha, França e Alemanha, entre 1959 e 1969.

Para muitos, sobretudo católicos, a conjugação destes dois acontecimentos – eleições com Delgado e carta do bispo do Porto – foi o verdadeiro pontapé de saída para a resistência e luta contra a ditadura, durante as décadas que se seguiram.

Vale a pena ler ou reler o texto para se perceber a importância que teve na época.

Aproveito o pretexto para recordar este poema de Sophia de Mello Breyner:

D. António Ferreira Gomes

Na cidade do Porto há muito granito
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida – mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões
Assim quando eu entrava no Paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os limites de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem – o Bispo –
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância.

P.S. - Leitura aconselhada: Obviamente... – texto da intervenção de José Manuel Pureza, na sessão comemorativa do 50º aniversário da carta, que teve lugar em Coimbra, em 13 de Julho de 2008. 
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Para um Governo de Salvação Nacional



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Em verdade vos digo



Vai ser mais fácil resolver o problema de Snowden do que o de Cavaco Silva. 
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Loucura, carrascos, galinha sem cabeça...



Pedro Santos Guerreiro publicou ontem, no Negócios, uma texto delirante – ou que espelha bem os delírios dos últimos dias (*).

Quer perceber o que se está a passar na política portuguesa? Ora, é fácil. É uma gaiola das malucas onde dois bêbados se encostam para não cair depois de andarem de mota no poço da morte.

Era dar-lhes um valente par de estalos. Enfim, um trambolho, é o que isto é. Uma coisa grotescómica. Palavra de jornalistas, políticos, comentadores, analistas e de uma série de personalidades com mais ou menos prestígio que vão escrevendo sobre a crise política que começou no dia 1 de Julho, com a demissão de Vítor Gaspar. Já bem depois da cena do palhaço. Quem diria? Pelos vistos, todos!

"Era uma metáfora!" Assunção Esteves bem tentava explicar-se ontem à noite, depois de ter feito uma citação, contra os manifestantes expulsos do Parlamento, de uma frase originalmente dita contra o regime nazi. "Não podemos deixar, como dizia a Simone de Beauvoir, que os nossos carrascos nos criem maus costumes". Uma metáfora. Uma metáfora? Mais uma plantada no jardim das figuras de estilo, que ganhou muitas flores desde que a crise política eclodiu. De "galinhas sem cabeça" a "bêbedos agarrados um contra o outro", diz-se e escreve-se de tudo. É a linguagem nesta crise. Ou é a linguagem desta crise. Lembra-se do palhaço? Não é preciso ir tão longe. A última semana e meia basta para estofar almofadas, umas fofas outras duras, de metáforas, imagens, metonímias, alegorias, perífrases e outras figuras de grande estilo.

"É como se dois suicidas se apaixonassem a meio da queda e acabassem por cair numa pilha de colchões", escreveu João Miguel Tavares, um dos cronistas que mais se esforçou na caracterização da crise política, "uma coisa tipo poço da morte, com os irmãos Pedro & Paulo em equilibrismos alucinados em cima de uma mota em alta velocidade". A imagem sugere alto risco. Mas também espectáculo e jogo, que habitam muitas figuras de estilo usadas por estes dias. Casino, poker, xadrez, roleta (e até roleta russa) são imagens repetidas para expressar o ambiente de negociação, de imprevisibilidade, de sorte e azar. Falando em motas: um partido numa coligação "não pode ser uma espécie de 'sidecar' sem travões nem guiador nem embraiagem", lembra Bagão Félix. Aceleremos.

Da condução, ou falta dela, escreveu ainda Fernanda Câncio, ao referir-se a um primeiro-ministro "decidido a, mesmo abandonado e traído pelo seu sagrado Gaspar, amarrar-se sozinho ao leme do barco para o levar". "Naufrágio" encontra-se aqui e ali, falando-se amiúde de "tempestade perfeita" (Manuela Ferreira Leite), imagem usada também por Pacheco Pereira: "Apesar de o Navio ser Fantasma, há uma regra básica que se aplica: os mortos não ressuscitam." Quem falou em mortos? Toda a gente. Num "ambiente digno de um funeral" (João Marcelino), "Cavaco passou a este Governo uma certidão de óbito" (Marina Costa Lobo) e agora "o Governo morreu" (Leonel Moura). Mas "o falecido Governo em funções só será enterrado em Junho de 2014. Entretanto fica insepulto a encher o país de moscas" (Sérgio Sousa Pinto). Pacheco Pereira parece concordar: "Podem vaguear pelas sombras do mundo, podem procurar um porto inexistente, podem assombrar os vivos. Mas o Governo está morto, mesmo que não esteja enterrado. Podem colocá-lo de pé com um andaime nas costas, injectá-lo com formol, pintá-lo com cera, empalhá-lo, mas morto está e vai continuar a estar."

12.7.13

Neruda, Pablo



Pablo Neruda nasceu em 12 de Julho de 1904, em Parral, no Chile, e morreu em Santiago, em Setembro de 1973, poucos dias depois do golpe que vitimou Salvador Allende. Não se tinha candidatado às eleições presidenciais de 1970 por ter considerado que Allende tinha mais possibilidade de as vencer, como veio a verificar-se.

Recordemo-lo um pouco, com a sua voz inconfundível, e com um poema relacionado com Portugal.






Poema de Neruda, de 1953, dedicado a Álvaro Cunhal, então a cumprir uma longa pena de prisão:

La lámpara marina

Na TAP, há 40 anos



«Foi em 12 de Julho de 1973: a polícia de choque entrou nas oficinas da TAP para dissolver uma concentração de 5.000 operários. Abriu fogo, fez vários feridos e esteve na iminência de invadir também um dos hangares. Mas acabou por ter de retirar. A greve manteve-se por mais uma semana e terminou com uma meia vitória dos trabalhadores. Nove meses depois, era o 25 de Abril.»

Texto na íntegra aqui.
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De uma época que foi



Baptista Bastos, hoje, no Negócios (*): 

«A minha geração raramente traiu o testamento. "Entre os portugueses / traidores houve às vezes", falou Camões. Mas a generalidade (tomando as generalizações com todas as precauções devidas) manteve-se-lhe leal. Digo "leal" e não "fiel" porque fidelidade é coisa de cão, e lealdade tem a ver com carácter. A fidelidade pode conduzir ao apoio das maiores perversões e das mais torpes ignomínias. A lealdade, pelo contrário, tem a ver com convicções de natureza ética, e não pactua com a infâmia ou se torna conivente com a perfídia. (...)

Reconheço que os nossos impulsos ideológicos e intelectuais conduziram, acaso, a injustiças e a arrogâncias tão desnecessárias quanto cruéis. Mas a grandeza do que íamos aprendendo talvez explicasse o propósito. E este consistia no seguinte: amigo não trai amigo; não se denuncia nunca; a amizade é um posto.

Estes padrões de comportamento podem, nos sombrios tempos de agora, suscitar algum desdém e zombaria, mas eram exigências da razão antifascista. E o antifascismo, não esqueçamos e não admitamos que o deformem, foi uma admirável frente moral, que congregou comunistas e socialistas, monárquicos e católicos, democratas e simples cidadãos, movidos pelo singelo desejo de ser livres e felizes. (...)

Alguma coisa se perdeu, nesta caminhada desventurada para o pior dos abismos: o que resta do que fomos. E que resta é tão escassa e selectiva como a memória delida de uma antiga juventude.»

(*) O link pode só funcionar mais tarde.
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11.7.13

Assunção Esteves – leituras a mais, juízo a menos



Sobre o tema da tarde – Assunção Esteves e os seus dislates, hoje, na Assembleia da República, quando umas dezenas de cidadãos se manifestaram nas galerias – muito já foi escrito. Leia-se, por exemplo, o que o Ivo Rafael Silva resumiu no 5 Dias, quanto à citação (com reincidência...) que a segunda figura do Estado fez de Simone de Beauvoir: «Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes». Expressão que, como é sabido, a escritora francesa usou referindo-se à opressão nazi durante a II Guerra Mundial.



Interpelada mais tarde pelos jornalistas, justificou-se dizendo «que se tratou apenas de uma "metáfora" para os "elementos de perturbação"». Mais: «Carrasco significa qualquer elemento de perturbação. Sem querer ofender nada nem ninguém. Significa que quando as pessoas nos perturbam, não devemos dar atenção». Metáfora? Carrasco significa elemento de perturbação? Em que planeta? Uma realidade foi óbvia e eu ouvi-a em directo: em bom português, Assunção Esteves perdeu as estribeiras e mais valia que o reconhecesse e, no mínimo, tivesse pedido desculpa.

Há determinados limites que não podem mesmo ser ultrapassados. Nunca.
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«Irrevoguemos»



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje. Não escreveu a tempo de falar do discurso de Cavaco, mas é excelente sobre Portas.

«Os capitães de Abril livraram-nos do fascismo político. Portas livrou-nos do fascismo semântico. (...) Finalmente chegou o dia inicial, inteiro e limpo, da omnissemia.(...)
Que tudo isto seja uma lição para nós portugueses – e parece-me fundamental reter esta ideia – quando um irrevogável é irrevogável, não há irrevogáveis que o revoguem.»

Na íntegra AQUI.
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Cavaco prefere sopas nacionais



Gaspacho em vez de Vichyssoise – mas ambas se servem frias.

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Nem governo, nem maioria, só um presidente

Passos Coelho é primeiro-ministro, Portas mantém-se nos Negócios Estrangeiro e Álvaro Santos Pereira continua certamente e vender natas. Mas eu gostava de ser mosca para ver as caras exibidas, neste preciso momento, na reunião habitual do Conselho de Ministros (haverá briefing no fim?). Aqueles seres já não conseguirão governar coisíssima nenhuma, depois de Cavaco lhes ter passado ontem um atestado de total incompetência e lhes ter dado o estatuto de contratados a prazo.

Quanto à maioria, onde é que ela já vai! Estou certa de que uma das primeiras iniciativas dos dirigentes do CDS terá sido amordaçarem Paulo Portas e manterem-no encarcerado, sabe-se lá onde, para evitar que se «redemita» de tudo e mais alguma coisa. Em estado letárgico, a dita maioria está agora à espera de ser reconstituída – ou não – por Seguro and friends.

Resta o presidente que, acossado por anos e milhares de acusações por inacção, veio finalmente dizer «L'état c'est moi». Porque foi isso que aconteceu. Do modo mais canhestro que imaginar se possa, Cavaco Silva centrou em si todos os poderes de decidir pelos partidos da coligação, pelo outro que assinou o Memorando, pelos que não quiseram fazê-lo e, sobretudo, pelos portugueses. Agravou uma crise política que já era maior que a superfície de Portugal, numa perigosa jogada de roleta russa. Os próximos dias revelarão se alguém sairá ileso.

Já agora: haverá, amanhã, debate sobre o Estado da Nação? Se sim, fica uma sugestão: que seja aberta a sessão, que todos, governo incluído, cantem a Grândola e que Assunção Esteves mande evacuar a sala. Depois, podem tentar bloquear um acesso à ponte 25 de Abril, porque a jurisprudência ditará que verão um eventual processo devidamente arquivado.

Resta-nos o humor, mesmo que com alguns esgares, não? 
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Cucurucu, Cavaco


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10.7.13

E quanto a Cavaco


... conseguiu o impensável: surpreender, entalando tudo e todos, governo incluído. Que, na melhor das hipóteses, fica a prazo de um ano. 
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E quanto à dívida que nos afunda...



Por iniciativa do Bloco de Esquerda, teve hoje lugar na Assembleia da República a discussão do seguinte Projecto de Resolução, apresentado por aquele partido: PELA RENEGOCIAÇÃO URGENTE DA DÍVIDA PÚBLICA E A DENÚNCIA DO MEMORANDO DE ENTENDIMENTO.

Só assisti a uma parte do debate e à votação da seguinte proposta que tinha como objectivo que a Assembleia da República recomendasse ao governo que:

1. Denuncie o memorando da Troika e as políticas de austeridade.

2. Proceda a uma renegociação urgente da dívida pública, nos seus prazos, montantes e taxas de juros, reduzindo o peso do exercício da dívida para permitir a canalização de recursos para investimento produtivo e para a criação de emprego.

3. Realize a renegociação da dívida pública valorizando as seguintes condições:
a) Negociação com os credores privados e oficiais para a redução do stock da dívida, tendo em vista o corte em 50% da dívida pública de médio e longo prazo, substituindo-o por novas Obrigações do Tesouro:
b) As novas Obrigações do Tesouro resultantes deste processo de negociação devem ter um prazo de pagamento a trinta anos, com um período de carência de juros até 2020;
c) O corte na totalidade do pagamento dos juros do empréstimo internacional, considerando que os principais financiadores obtêm capital a 0% de juro;
d) Proteção dos pequenos aforradores, nomeadamente dos detentores de certificados de aforro e certificados do tesouro, que representam 5,5% do montante total da dívida, negociando o pagamento do valor nominal dos seus títulos, com uma taxa de juro indexada ao crescimento do PIB, mais um prémio para promover a poupança e o financiamento da dívida;
e) Indexação do pagamento dos juros da dívida de Bilhetes e Obrigações do Tesouro à evolução das exportações de bens e serviços.

Como seria de esperar, os três pontos, que foram votados separadamente, receberam os votos a favor do próprio BE, PCP e Verdes e os votos contra dos outros três partidos, com algumas (muito poucas) abstenções e um ou outro voto a favor de deputados do PS (se / quando estiverem publicados os nomes destes, actualizarei este post).

Registe-se para memória futura: o arco da governação, com os três assinantes do Memorando, continua globalmente coeso no que mais importa. O resto é pouco mais que chiliques e cosméticas político-partidárias, em busca de poderes e de glórias várias.
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A esperança é a última a morrer

Brinquedos em parque de diversões



«Em finais dos anos 60, a turma do Carrossel Mágico fazia a delícia das crianças. Franjinhas, o Saltitão, Ambrósio, o Hortelão e a Anita eram heróis simples e ternurentos. Hoje, para os mais velhos, há uma nova versão do Carrossel Mágico, interpretada por Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas.

Como convidada especial surge Maria Luís Albuquerque. O argumento é de Merkel e a realização de Schäuble. É isso que permite que enquanto Cavaco, com pausa refrescante para o fim-de-semana, ouve todas as associações sobre se o Governo pode ou não ser remodelado assim, a Europa já aprovou o desenlace. (...)

É assim que as instituições vão criando bolor. O que custa é a irrelevância desta encenação. O Governo está desenhado e já foi sufragado pelos burocratas de Bruxelas e Berlim antes dos portugueses terem a noção do que pode mudar. O Carrossel Mágico português roda à volta do eixo vertical de Bruxelas que tudo hegemoniza. Só os políticos portugueses, ufanos do seu poder, ainda não descobriram que são apenas um brinquedo de um parque de diversões maior. Onde não têm peso nem voz. E onde apenas fazem figura de animadores de um país tutelado.»

Fernando Sobral
O link pode só funcionar mais tarde.
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Não será bem assim mas quase



E Paulo Portas figura duas vezes para o que der e vier.

(Via João Soares)
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9.7.13

Passos ou a síndrome de Estocolmo



«Mas se o manobrismo político, em estado lúdico e puro, explica Portas, só a psicologia das profundezas explica Passos. Vê-lo no sábado, articulando o conteúdo do "sólido" acordo alcançado entre os dois partidos da coligação, tendo a seu lado um Portas vigilantemente silencioso, evoca, com fulminante certeza, aquilo que o psicólogo e criminologista Nils Bejerot designou como "a síndrome de Estocolmo".»

Viriato Soromenho Marques

Mercedes, la Negra Sosa



Mercedes Sosa faria hoje 78 anos se não tivesse morrido há quase quatro anos. Nasceu no noroeste dessa extraordinária terra que é a Argentina, em San Miguel de Tucumán, cidade onde também num 9 de Julho foi declarada a independência do país (em 1816).

Quando a Junta Militar de Jorge Videla subiu ao poder e se foi tornando cada vez mais agressiva, Mercedes, considerada peronista de esquerda , foi detida durante um concerto em La Plata, em 1979, refugiou-se depois em Paris e em Madrid e só regressou a Buenos Aires, e ao magnífico Teatro Colón, em 1982.






E, inevitavelmente, mais estas duas:





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Tudo diferente, tudo amargamente parecido

Pode, tudo pode



«Na política portuguesa, nunca se diga "não pode". Pode, tudo pode. Em Portugal, Cavaco pode ser Presidente, Passos pode ser primeiro-ministro e Seguro pode ser chefe da oposição. Se isso pode, como não aceitar as mais loucas bizarrias? Até digo mais, essa tempestade perfeita - Cavaco, Presidente, Passos, primeiro-ministro e Seguro, chefe da oposição - não só permite como torna desejável que os políticos portugueses se contradigam e façam o irrevogável vogar para o ponto de partida. Há nisso esbracejar, grito sôfrego, vontade de fugir do marasmo. Tudo melhor do que a angústia de termos Cavaco, Presidente, Passos, primeiro-ministro e Seguro, chefe da oposição.»

Ferreira Fernandes

Cada vez mais actual



João Abel Manta, evidentemente.
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8.7.13

Os Jerónimos do padre Felicidade



As imagens da missa de Manuel Clemente nos Jerónimos, toda a panóplia que a envolveu e o posicionamento político (sim, político) que o novo cardeal tem vindo a fazer questão de revelar, neste momento tão complexo da vida do país, fizeram soar campainhas em muitos que «reviram» exactamente no mesmo palco – os Jerónimos – uma outra posição radicalmente diferente da Igreja, quando os tempos eram bem difíceis, a ditadura pura e dura imperava e o prior da paróquia, o padre José da Felicidade Alves, usava o púlpito, enquanto Cerejeira não lho tirou, para denunciar injustiças e falta de liberdade.

Lá esteve entre 1956 e 1968, mas foi sobretudo a partir de 1967 que as suas intervenções começaram a causar incómodo tanto ao poder político como ao eclesiástico. No início de 68, foi obrigado a ausentar-se para Paris (continuando, no entanto, como prior titular de Belém) para prosseguir estudos de Teologia Ecuménica. De visita a Lisboa por ocasião da Páscoa, resolveu fazer uma comunicação ao Conselho Paroquial , na presença de oitenta pessoas, comunicação essa que desencadeou um longo e atribulado processo que iria culminar no seu afastamento da paróquia, na suspensão das funções sacerdotais e, já em 1970, na excomunhão (ou seja exclusão da própria comunidade eclesial). Nessa comunicação de 19 de Abril, eram abordados problemas que iam da necessidade da abolição da censura, ao direito à informação e à discussão da guerra colonial.

Houve inúmeras reacções à sua remoção da paróquia, de paroquianos, de 121 padres de Lisboa, de 680 leigos. A páginas tantas, um grande grupo de pessoas solidárias com o padre Felicidade dirigiu-se de Belém para o Patriarcado, onde se acantonou no átrio e numa pequena área do passeio, protegida por um gradeamento e por isso a salvo da intervenção da força policial (já bem posicionada nas imediações). Foi pedida uma audiência a Cerejeira que não apareceu mas enviou um secretário para dispersar os presentes. Ficará na memória de todos «Esta casa é nossa!», um grito repetidamente lançado nessa tarde, no seu jeito bem peculiar, por Francisco de Sousa Tavares. O cardeal não nos recebeu, mas estava reunido, a essa mesma hora, com alguns paroquianos de Belém, muito activos contra o padre Felicidade. Naturalmente...

A sua acção não parou, no quadro dos chamados católicos progressistas. Depois do 25 de Abril aderiu ao PCP, onde se manteve até morrer. Tinha-se casado civilmente em 1970, mas só em 10 de Junho de 1998, seis meses antes de morrer, trinta anos após o início de um longo processo dramático com a Igreja e quando, finalmente, foram resolvidos os problemas a nível do Vaticano, é que o cardeal José Policarpo celebrou o seu casamento canónico – tal como o padre Felicidade sempre desejara.

Ontem, «revi-o» no púlpito dos Jerónimos – jovem e corajoso. Um exemplo enorme para nós que também éramos jovens e queríamos ser corajosos.



Francisco Fanhais cantou esta canção, especialmente apreciada pelo padre Felicidade, numa sessão de homenagem, que teve lugar por ocasião do 10º aniversário da sua morte. 
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Rebobinemos então até 8 de Julho de 1975



Se este Verão está a ser quentíssimo, o de 1975 não o foi menos. Já nem me lembro se em termos climatéricos foi semelhante ao actual, em termos políticos foi totalmente diferente mas, garantidamente, não menos tórrido, como até os mais novos ou menos informados saberão.

Precisamente em 8 de Julho de 1975, foi aprovado pelos 240 membros da Assembleia do Movimento das Forças Armadas, reunida durante 18 horas, o «Documento-Guia da Aliança Povo/MFA». Foi longo o enredo das peripécias que precederam a sua existência e a sua aprovação, como fortes foram as reacções negativas imediatas que provocou, nomeadamente de PS, PSD e CDS.

Utópico e irrealizável com tudo o que hoje sabemos? Talvez. Mas não mais utópico e irrealizável do que a maldita «aliança» em que agora estamos metidos, esse Memorando em que ninguém acredita, nem os que o assinaram e continuam a venerá-lo, nem mesmo os que o impõem. Com uma enorme diferença: ao contrário do que acontecia há 38 anos, hoje, é muito mais difícil mantermos a tal esperança que comanda a vida.

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O texto pode ser lido na íntegra, mas não resisto a transcrever a Introdução – que talvez surpreenda uns tantos.

«A aliança Povo-MFA tem sido uma realidade constante do processo revolucionário até ao momento presente. A acção libertadora do 25 de Abril, continuada por todo um conjunto de atitudes do MFA e dos partidos políticos progressistas e pelas medidas de carácter político e económico postas em prática, tem permitido manter um nível suficiente de coesão Povo-MFA. No entanto, a manutenção e consolidação da aliança Povo-MFA passa, numa primeira análise, pela satisfação das aspirações mais profundas das classes exploradas. Neste aspecto, urge prosseguir a obra iniciada em 25 de Abril de 1974. É dentro do âmbito de uma revolução cultural, pela aplicação das potencialidades militares e civis, nos campos técnico, humano e material que se mobilizará decisivamente o Povo para a Revolução. A prática começa a demonstrar este raciocínio, aliás óbvio. Essa premissa «sine qua non» de consolidação da aliança está em desenvolvimento e criará as condições para que o binómio motor do processo revolucionário português se mantenha e consolide.

Por outro lado, e ainda numa intenção de mobilizar o Povo para a Revolução, é necessário que às massas trabalhadoras sejam asseguradas condições de participação activa, o que passa por formas de organização popular, numa prática democrática, independente e unitária. Torna-se necessário aproveitar, concretamente, esta realidade fundamental, aliança Povo-MFA, estimulando-a e apoiando-a para a defesa e dinamização da Revolução em curso. A defesa e dinamização da Revolução, na sua actual fase, passam pela realização das seguintes tarefas:

a) Fomentar a participação revolucionária das massas, no sentido de criarem e desenvolverem agrupamentos unitários, numa perspectiva de implantação de verdadeiros órgãos de poder popular;

b) Defender a Revolução dos ataques das forças reaccionárias, através de uma consciencialização profunda das exigências do processo e da criação de organismos de defesa;

c) Vencer a batalha da economia.
Enquanto a produção não for suficiente para as necessidades globais do País, será necessário um grande esforço das massas trabalhadoras. É fundamental, portanto, vencer-se a batalha da economia superando o fraco desenvolvimento das forças produtivas, ampliando e desenvolvendo o controlo operário alargando-se o campo do sector estatal e procurando-se a acumulação necessária à nossa independência económica.» 
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Também há palmas nos enterros



Na missa que ontem teve lugar nos Jerónimos, não foi só o novo cardeal de Lisboa a ser recebido com palmas: também Cavaco Silva e Passos Coelho o foram, e terão sentido uma benção vinda dos céus ou, quem sabe, uma intervenção da Senhora de Fátima embora o calendário não assinalasse o dia 13.

Os fidelíssimos assistentes (e não, não foi só uma meia dúzia de gatos pingados) também podem ter aplaudido por ninguém ter distribuído pagelas com a letra do Grândola ou por estarem habituados a aplaudir em funerais.

Mas o mais provável, o mais verossímil, o quase garantido é que se tenham sentido identificados com o seu novo pastor que, na véspera, afirmou que «rejeita eleições antecipadas e defende soluções a partir do Parlamento» (Agência Ecclesia dixit). Não é isso, precisamente, o que Cavaco, Passos, e também os seus diversos acólitos presentes, desejam e vão decidir?

Já agora: alguém pediu a Manuel Clemente a opinião sobre o tema? Que tem ele a ver com isso? Mas no fundo, talvez seja bom que se tenha percebido ao que vem, desde o primeiro dia.
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O mais importante: a carta de Vítor Gaspar



Os desvarios dos últimos dias fizeram passar para segundo plano o mais importante de tudo o que foi dito ou escrito: o conteúdo da carta, objectivamente assassina e suicida, de Vítor Gaspar. Leonel Moura explicita-o bem, em texto publicado no Negócios de hoje (*):

«O governo morreu. Toda a gente o entendeu menos os defuntos. Os três defuntos, entenda-se, PSD, CDS e Presidente da República. O deplorável episódio não assinala contudo só o fim de um governo. Assistimos, na TV, ao declínio do regime que começou no 25 de Abril, contra, recorde-se, o apodrecimento do fascismo. Ao fim de quatro décadas esse regime libertador já está também ele em franco apodrecimento. Trata-se de um fracasso grave. Um fracasso da democracia. Imperdoável sob todos os aspetos. (...)

A irrelevância do Presidente da República também não deve espantar ninguém. É assim mesmo. Belém é uma casa de férias. Um retiro da reforma. Onde se quer sossego e sopas. Cavaco nunca fará nada de significativo por si mesmo. Só empurrado. E com muita força.

Sobra a carta de Vítor Gaspar. A única coisa realmente grave revelada nestes últimos dias. Dois anos após ter desbaratado milhares de vidas, reduzido o país à miséria e estagnado a economia, o autor da operação vem dizer que se enganou. Reconhecendo que a sua política estava a dar resultados opostos ao esperado. Ou seja, confessa que os portugueses foram cobaias de uma experiência que correu mal. Este ex-ministro devia ser julgado. (...)

Definitivamente, os portugueses não têm sorte. Mas também, verdade seja dita, a responsabilidade é dos próprios. Más escolhas eleitorais, baixo nível dos que seguem uma carreira política, facilitismo, pouco sentido da responsabilidade, incultura geral. A má sorte é outro nome para o atraso.» (O realce é meu.)

(*) O link pode só funcionar mais tarde.
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7.7.13

A Wikipedia não perde tempo

Definida a nova função de Passos Coelho




Resposta a uma pergunta óbvia desde ontem:

O cargo de vice-primeiro-ministro esvazia o de ministro adjunto do primeiro-ministro? 
Mesmo que Paulo Portas não assuma a coordenação política do Governo, hoje da responsabilidade de Miguel Poiares Maduro, o facto de passar a existir um outro coordenador para as matérias económicas vai exigir, pelo menos, que todos se dêem muito bem. Além disso, o Governo tem ainda outro ministro encarregue de coordenar o Conselho de Ministros - o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares. Passos terá de assumir a coordenação dos coordenadores. 
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República de avós

Cavaco – o senhor que se segue



Quando ainda estamos todos sob o efeito da imagem e do conteúdo da inacreditável comunicação que os nossos dois governantes mais encartados fizeram ontem, viremos de novo as atenções para Cavaco Silva, já que, a partir de amanhã, será ele a principal personagem dos próximos episódios da telenovela. 

«Se Miguel Sousa Tavares arriscou ser julgado por ter chamado palhaço a Cavaco Silva, por maioria de razão o Presidente devia ter também denunciado Passos Coelho e Portas ao Ministério Público. Deixar Cavaco falar sobre a solidez do Governo lançando até um desafio aos partidos da oposição para actuarem na Assembleia da República e fazê-lo passar pela cena circense de dar posse a uma ministra quando o Governo já estava em pleno colapso foi um insulto bem maior.

Digamos que o Presidente se pôs a jeito. A derrota colossal da sua estratégia e a humilhação pública a que foi sujeito são da sua inteira responsabilidade. Claro que Passos não se iria maçar a explicar-lhe o que quer que fosse. Claro que Portas nem pensou em avisar Cavaco de que se ia embora. Não aguentou Cavaco todos os disparates da governação? Não se tornou o maior aliado do Governo, prescindindo do seu papel de árbitro do sistema? Não era claro para todos que podia Cristo descer à Terra que Cavaco não destituiria o Governo? Quem não se dá ao respeito acaba sempre por ser desrespeitado. (...)

Mas será que Cavaco está tão cego ou tão aterrado que ainda vai acreditar em quem o traiu de forma tão evidente? Será que não sabe que este Governo não passa dum cadáver e nada nem ninguém o pode ressuscitar? (...) Será que pensa que o povo aceitará que gente que leva a palco este patético espectáculo pode cortar 4700 milhões de euros ou fazer uma reforma de Estado? (...)

Ou então estamos definitivamente sem Presidente da República e Cavaco é apenas um ministro sem pasta.»

Pedro Marques Lopes