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20.10.16

O Kung Fu dos juros



«Antigamente os actores de filmes de Kung Fu tinham de saber artes marciais. Hoje, para desespero dos velhos mestres de Hong Kong, existem tantos truques durante as filmagens que até quem nunca treinou Kung Fu parece Bruce Lee. A realidade foi substituída pela ilusão.

Portugal não tem, na política, mestres do Kung Fu. Tem aprendizes, como tem sido visível nesta louca correria de declarações sobre o OE. É notório que os golpes de Kung Fu do PSD sobre o crescimento económico acertam nos próprios actores. É difícil entender como quem fez da consolidação orçamental a fé que lutava contra todos os infiéis agora clama contra ela em nome do crescimento económico. Resta ao PSD falar das pensões mínimas, um calcanhar de Aquiles político do Governo, que não tem uma resposta muito consistente para as críticas. Mas isso é pouco: esperava-se que, passado um ano a gritar no meio do escuro que foi espoliado da governação, o PSD fosse mais do que um bamboleante Panda Kung Fu. Seria algo que animaria as hostes da oposição e faria com que os portugueses percebessem que há um discurso alternativo credível. Só que Pedro Passos Coelho continua a ser um Karate Kid menor. Quando fala não convence, quando poderia convencer não fala.

É neste opaco universo da oposição que o Governo pode ir executando o difícil exercício de sobreviver às negociações eternas com Bruxelas e com o BE (porque, nisso, o PCP é mais discreto). António Costa sabe que não tem hipóteses de aplicar uma política dura de Kung Fu verdadeiro. Tem de esperar os movimentos dos adversários e utilizar a força destes para vencer. Tem, claro, duas tempestades constantes sobre a cabeça: as agências de "rating" e o peso descomunal do serviço da dívida. Em 2017, 4,3% do PIB será para pagar juros de empréstimos. É um círculo vicioso sem fim. Enquanto estiver preso com esta grilheta do serviço da dívida, qualquer governo português estará refém do que não controla.»

Fernando Sobral